ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.37 setembro de 2003

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::Reflexão::
O mau investidor
por Adilson Luiz Gonçalves
 

Ebenezer Scrooge era um velho financista avarento e azedo, no "Conto de Natal", de Charles Dickens, que havia abandonado família, amor, caridade, humildade, solidariedade, enfim, qualquer escrúpulo ou vestígio de humanidade em nome do dinheiro. Seu único amigo era Jacob Marley, que comungava amplamente com seus "ideais" financeiros, mas no início da estória já havia desencarnado. Se o apego desmesurado ao dinheiro fosse característica de uma raça natural de um planeta, ambos seriam "ferengi", que para quem conhece a série "Star Trek - Deep Space Nine", é a raça do comerciante Quark. Essa civilização tem como mandamento principal: fazer bons negócios; sendo um pecado imperdoável e sinônimo de fraqueza e incompetência não fazê-los.

São personagens fictícios de fábulas moralizantes? Infelizmente, não! São personagens de nosso cotidiano, às vezes mais patéticos, grotescos e insensíveis do que a fértil imaginação de qualquer escritor vitoriano. Suas atitudes perante a vida e os semelhantes são como as de vampiros: quando a luz do dia ameaça mostrar-lhes o resultado do que fazem, se fecham no esquife da alienação; e quando passam diante do espelho da consciência, nada refletem.

Não são ingleses, "ferengi" ou romenos. Uma vez "mordidos" assumem a nacionalidade universal, das mais antigas do planeta, dos mortos vivos do capital sem pátria, vivendo resolutamente para servir seu "mestre": o dinheiro, e cumprir seu único mandamento: o lucro. Em suas artérias e veias corre o fluxo de caixa; seus olhos só vêem o lucro; só têm faro para negócios; são hipocondríacos e paranóicos sociais, constantemente preocupados com as aparências perante seus iguais; esmeram-se em multiplicar e somar às últimas potências e conseqüências, não importando o quanto e de quem tenham que subtrair e dividir para atingir seus objetivos; não têm amigos, só interesses; não têm amores, só casos; a única brincadeira que conhecem é a ciranda financeira, sobretudo quando quem "entra dentro dessa roda", dança; competem, não para atingir objetivos, mas para não ficarem para trás; não têm sonhos, só expectativas de mercado; e só respeitam, ou melhor, invejam quem tem mais dinheiro e poder do que eles.

Sorriem? Sim, mas notem: normalmente é um sorriso irônico e agressivo, quando sincero; iluminado, quando vislumbra uma oportunidade; mas sardônico, quase que acionado por botão, quando não há interesses envolvidos. Fala rápido, firme e lacônico quando está "operando", e sussurrado e infantilmente, quando está relaxado. Só conhece um caminho para o sucesso: reto; e não importa se tiver que passar por cima de alguém.

Seriam espécimes curiosos, se o que fazem não afetasse tanto a vida de pessoas que não fazem parte de seu círculo vicioso, de seu jogo ou de seu foco. Afinal, se não estão no seu nível, não valem à pena!

Relacionamentos afetivos? Não! Eles são péssimos para os negócios e podem dar despesa nos divórcios. Às vezes podem selecionar alguns currículos, para avaliação; às vezes podem encontrar alguém "a sua altura", para então descobrir o quão baixa ela é; às vezes a intimidade pode trazer a frustração da segunda opinião. Na dúvida, preferem continuar pagando por companhia e sexo de "alto nível" e bons serviçais.

Filhos? Talvez, mas até a clonagem e os "chips" de comportamento serem confiáveis, ainda são investimentos de alto risco. E está cada vez mais difícil encontrar babás confiáveis...

Solidariedade e caridade? Bom, depende dos incentivos fiscais. Afinal, nada é de graça!

Fé? Em si próprios, é claro! Mas não está dispensada a freqüência farisaica aos templos da moda, onde riqueza é símbolo de graça divina; e isto é bom para a imagem!

Para eles, países são "commodities" - só lembram da pátria, eventualmente, em ocasiões festivas e eventos esportivos -, e pessoas são como peças de um jogo; a paz pode ser ruim para os negócios; o controle compulsório de natalidade, uma boa receita; um boato fabricado, uma grande cartada; e a guerra, uma excelente oportunidade de liquidez e realização de lucros. Talvez por isso adorem "administrar conflitos".

Não importa a poluição mundial, o risco de reedição de ditadores fascistas carismáticos em novas "Alemanhas" falidas; as convulsões sociais, o aquecimento gradativo do planeta - muitas vezes provocados por seus investimentos -, desde que isso não afete o turismo de negócios; a programação da Broadway; os cafés de Paris; a neve das estações de esqui; a safra de champanhe; o envelhecimento do uísque; a importação de caviar e charutos; a produção das grifes sofisticadas, de roupas, jóias e canetas; ou, o mais importante, não provoque o fechamento das bolsas de valores ou bloqueie suas contas bancárias.

Que bela ação nominal de vida!

Mas Ebenezer Scrooge - visitado pelos fantasmas do Passado, Presente e Futuro - teve mais sorte que seu sócio Marley, pois lhe foi dada a chance de refletir sobre seus atos e reformular seus valores; e não precisou perder sua riqueza para voltar a pertencer à espécie humana.

Enquanto há vida, há esperança, mesmo para um morto-vivo!

::educação::
Por um ensino não-discriminatório
por Sandra Kezen
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Adilson Luiz Gonçalves
Engenheiro e Professor Universitário
Santos - SP
algbr@ig.com.br

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