|
Ebenezer Scrooge
era um velho financista avarento e azedo, no "Conto
de Natal", de Charles Dickens, que havia abandonado
família, amor, caridade, humildade, solidariedade, enfim,
qualquer escrúpulo ou vestígio de humanidade em nome do
dinheiro. Seu único amigo era Jacob Marley, que comungava
amplamente com seus "ideais" financeiros, mas no
início da estória já havia desencarnado. Se o apego
desmesurado ao dinheiro fosse característica de uma raça
natural de um planeta, ambos seriam "ferengi",
que para quem conhece a série "Star Trek - Deep
Space Nine", é a raça do comerciante Quark. Essa
civilização tem como mandamento principal: fazer bons
negócios; sendo um pecado imperdoável e sinônimo de
fraqueza e incompetência não fazê-los.
São personagens fictícios de fábulas
moralizantes? Infelizmente, não! São personagens de
nosso cotidiano, às vezes mais patéticos, grotescos e
insensíveis do que a fértil imaginação de qualquer
escritor vitoriano. Suas atitudes perante a vida e os
semelhantes são como as de vampiros: quando a luz do dia
ameaça mostrar-lhes o resultado do que fazem, se fecham
no esquife da alienação; e quando passam diante do
espelho da consciência, nada refletem.
Não são ingleses, "ferengi"
ou romenos. Uma vez "mordidos" assumem a
nacionalidade universal, das mais antigas do planeta, dos
mortos vivos do capital sem pátria, vivendo resolutamente
para servir seu "mestre": o dinheiro, e cumprir
seu único mandamento: o lucro. Em suas artérias e veias
corre o fluxo de caixa; seus olhos só vêem o lucro; só
têm faro para negócios; são hipocondríacos e
paranóicos sociais, constantemente preocupados com as
aparências perante seus iguais; esmeram-se em multiplicar
e somar às últimas potências e conseqüências, não
importando o quanto e de quem tenham que subtrair e
dividir para atingir seus objetivos; não têm amigos, só
interesses; não têm amores, só casos; a única
brincadeira que conhecem é a ciranda financeira,
sobretudo quando quem "entra dentro dessa roda",
dança; competem, não para atingir objetivos, mas para
não ficarem para trás; não têm sonhos, só
expectativas de mercado; e só respeitam, ou melhor,
invejam quem tem mais dinheiro e poder do que eles.
Sorriem? Sim, mas notem: normalmente é
um sorriso irônico e agressivo, quando sincero;
iluminado, quando vislumbra uma oportunidade; mas
sardônico, quase que acionado por botão, quando não há
interesses envolvidos. Fala rápido, firme e lacônico
quando está "operando", e sussurrado e
infantilmente, quando está relaxado. Só conhece um
caminho para o sucesso: reto; e não importa se tiver que
passar por cima de alguém.
Seriam espécimes curiosos, se o que
fazem não afetasse tanto a vida de pessoas que não fazem
parte de seu círculo vicioso, de seu jogo ou de seu foco.
Afinal, se não estão no seu nível, não valem à pena!
Relacionamentos afetivos? Não! Eles
são péssimos para os negócios e podem dar despesa nos
divórcios. Às vezes podem selecionar alguns currículos,
para avaliação; às vezes podem encontrar alguém
"a sua altura", para então descobrir o quão
baixa ela é; às vezes a intimidade pode trazer a
frustração da segunda opinião. Na dúvida, preferem
continuar pagando por companhia e sexo de "alto
nível" e bons serviçais.
Filhos? Talvez, mas até a clonagem e
os "chips" de comportamento serem confiáveis,
ainda são investimentos de alto risco. E está cada vez
mais difícil encontrar babás confiáveis...
Solidariedade e caridade? Bom, depende
dos incentivos fiscais. Afinal, nada é de graça!
Fé? Em si próprios, é claro! Mas
não está dispensada a freqüência farisaica aos templos
da moda, onde riqueza é símbolo de graça divina; e isto
é bom para a imagem!
Para eles, países são "commodities" - só
lembram da pátria, eventualmente, em ocasiões festivas e
eventos esportivos -, e pessoas são como peças de um
jogo; a paz pode ser ruim para os negócios; o controle
compulsório de natalidade, uma boa receita; um boato
fabricado, uma grande cartada; e a guerra, uma excelente
oportunidade de liquidez e realização de lucros. Talvez
por isso adorem "administrar conflitos".
Não importa a poluição mundial, o
risco de reedição de ditadores fascistas carismáticos
em novas "Alemanhas" falidas; as convulsões
sociais, o aquecimento gradativo do planeta - muitas vezes
provocados por seus investimentos -, desde que isso não
afete o turismo de negócios; a programação da Broadway;
os cafés de Paris; a neve das estações de esqui; a
safra de champanhe; o envelhecimento do uísque; a
importação de caviar e charutos; a produção das grifes
sofisticadas, de roupas, jóias e canetas; ou, o mais
importante, não provoque o fechamento das bolsas de
valores ou bloqueie suas contas bancárias.
Que bela ação nominal de vida!
Mas Ebenezer Scrooge - visitado pelos
fantasmas do Passado, Presente e Futuro - teve mais sorte
que seu sócio Marley, pois lhe foi dada a chance de
refletir sobre seus atos e reformular seus valores; e não
precisou perder sua riqueza para voltar a pertencer à
espécie humana.
Enquanto há vida, há esperança,
mesmo para um morto-vivo!
|