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O
ano que vem tem eleições municipais.
Você
quer um cargo eletivo?
"Qué
pagá” quanto?
Tem
partido de aluguel, diretório regional à venda,
candidatos "escada", cabos eleitorais e
"marqueteiros" oferecendo serviços.
Se
você quiser se eleger vai ter que gastar, e quanto mais
gastar mais chance terá de ganhar.
O
quê? A remuneração que você vai receber, por quatro
anos de mandato, será muito inferior ao que você vai
gastar? Não se preocupe! Você já viu algum político
reclamar? E lembre-se: você está se candidatando pelo
bem do povo e não por vantagens pessoais! Agora, se você
tiver “fé” pode, apesar disso, prosperar no exercício
de suas funções públicas. Lembre do que disse aquele
"nobre" deputado protagonista do episódio dos
"Anões do Orçamento": "Deus me
ajudou!".
Vai
encarar? E aí? "Qué pagá” quanto?
Não
tem dinheiro para a campanha? Não tem problema! Existe um
monte de financiadores dispostos a bancar sua campanha sem
absolutamente nenhum interesse posterior. Eles só querem
o bem do povo e consideram você, e mais uma meia dúzia,
as pessoas mais “capacitadas” para tanto!
Tudo
bem que, embora o que vai elegê-lo sejam os votos dos
eleitores, os financiadores vão cobrar alguma coisa em
algum momento; mas não vai ser você que vai pagar, na
maioria das vezes é o erário, ou seja, quem o elegeu.
Tem
gente para comprar, gente para se vender e o povo sendo
“vendido”!
Seu
tipo de dívida pode ser outro...
Dívida?
"Qué pagá” quando?
A
única conta que você vai ter que pagar é moral e ética,
talvez por toda a vida; mas não se preocupe, pois quem
quer “levar vantagem” perde rapidamente qualquer vestígio
das duas, embora não consiga falar de si próprio sem
exaltar esses "traços marcantes e indissociáveis"
de sua atuação política e caráter. Aliás, não dizem
que figuras públicas não se pertencem?
Juros?
Pode jurar o que quiser, pois o Código de Defesa do
Consumidor não vale para promessa de político.
Fidelidade
partidária? Fique tranqüilo! Você não precisa ser fiel
a nada! Pode mudar de partido, ideologia, religião, opção
sexual, cidade, de conta bancária (no exterior, de preferência),
enfim, pode ser uma "metamorfose ambulante",
pois o que vale é se eleger! Mas fique atento às
oportunidades informais e prazos legais.
Ah!
É bom ser fiel a sua família e quem lhe apóia e
financia. Você pode ter que arrumar vantagens públicas
para todos e deixá-los bem felizes. A história de alguns
políticos mostra que quem falhou nisso teve problemas com
a imprensa. Mas isso tende a deixar de ser importante,
pois a maioria das concessões de mídia está indo para
as mãos de políticos; além disso, um sempre tem um
"dossiê" sobre o outro, que ameaça mostrar,
quando acossado, mas nunca mostra. O povo dificilmente
fica sabendo o que era, nenhuma instituição manda
investigar, e o que era uma ameaça bombástica vira uma tênue
bruma no "milagre democrático" da transformação
dos inimigos de ontem nos aliados de amanhã. O telhado
pode ser de vidro, mas como é o padrão de construção
desse “condomínio fechado” ninguém se arrisca a
atirar a primeira pedra.
Garantia?
Bom,
caso você não se eleja ou reeleja, se souber
"costurar" relações e alianças políticas,
daquelas que se puxar a linha rasga o pano, sempre haverá
um cargo público esperando por você, entre uma eleição
e outra. Dá até para fazer disso uma carreira com múltiplas
especializações, viagens, cursos, etc. Quem conhece não
quer largar!
Os
benefícios indiretos, votados pelos próprios políticos,
com o "aval" dos votos que receberam, também são
ótimos! Dependendo do nível e do lugar podem ser: vários
cargos de assessores e estatais para nomear, aposentadoria
precoce, "auxílio paletó"; "jetons",
etc; mesmo para quem não for reeleito ou já estiver
afastado há anos, aposentado ou não.
Ah!
Se um eleitor lhe pedir garantias, você pode responder:
"La garantia soy jo!".
Só
evite perguntar-lhe, após o término de seu mandato:
"Foi bom pra você?". Tripudiar não vale!
É
bom lembrar que a Reforma Política vai ser a última a
ser votada, e o povo ainda não se sabe o preço, o prazo
e nem se tem garantia do resultado. Só se sabe que serão
os próprios políticos que a elaborarão e votarão, em
nome dos votos que receberam desse mesmo povo. Para a
maioria deles, o eleitor é encarado como um ente abstrato
e distante, que vive "deitado em berço esplêndido",
mesmo que seja de chão batido; mas eles esquecem que, vez
por outra, a indignação e a revolta fazem o povo se
rebelar, como nos episódios: "Diretas já!" e
"Impeachment", para citar exemplos nacionais,
recentes e civilizados. Ainda assim, o "espírito de
porco", perdão, "de corpo" de grande
parcela dos políticos é hábil na condução dessa
"Nau Catarineta", que caracteriza a falta de
classe política brasileira, pois sempre há alguém
disposto ao sacrifício - temporário e compensador - pelo
"bem" do todo,
Mas
se você ainda acha que é um bom negócio ser esse tipo
de político, então? "Qué pagá” quanto?
Infelizmente
para o eleitor e felizmente para você, o Brasil ainda é
um país onde, para pessoas de má índole: o que você
“qué”, aqui você, ainda, pode!
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