ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.38 outubro de 2003

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::Cotidiano::
"Que pagá” quanto? 
por Adilson Luiz Gonçalves
 
(Nada a ver com a publicidade, tudo a ver com o Brasil!)  

 

O ano que vem tem eleições municipais. Você quer um cargo eletivo?  
"Qué pagá” quanto?

Tem partido de aluguel, diretório regional à venda, candidatos "escada", cabos eleitorais e "marqueteiros" oferecendo serviços.

Se você quiser se eleger vai ter que gastar, e quanto mais gastar mais chance terá de ganhar.

O quê? A remuneração que você vai receber, por quatro anos de mandato, será muito inferior ao que você vai gastar? Não se preocupe! Você já viu algum político reclamar? E lembre-se: você está se candidatando pelo bem do povo e não por vantagens pessoais! Agora, se você tiver “fé” pode, apesar disso, prosperar no exercício de suas funções públicas. Lembre do que disse aquele "nobre" deputado protagonista do episódio dos "Anões do Orçamento": "Deus me ajudou!".

Vai encarar? E aí? "Qué pagá” quanto?

Não tem dinheiro para a campanha? Não tem problema! Existe um monte de financiadores dispostos a bancar sua campanha sem absolutamente nenhum interesse posterior. Eles só querem o bem do povo e consideram você, e mais uma meia dúzia, as pessoas mais “capacitadas” para tanto!

Tudo bem que, embora o que vai elegê-lo sejam os votos dos eleitores, os financiadores vão cobrar alguma coisa em algum momento; mas não vai ser você que vai pagar, na maioria das vezes é o erário, ou seja, quem o elegeu.

Tem gente para comprar, gente para se vender e o povo sendo “vendido”!

Seu tipo de dívida pode ser outro...

Dívida? "Qué pagá” quando?

A única conta que você vai ter que pagar é moral e ética, talvez por toda a vida; mas não se preocupe, pois quem quer “levar vantagem” perde rapidamente qualquer vestígio das duas, embora não consiga falar de si próprio sem exaltar esses "traços marcantes e indissociáveis" de sua atuação política e caráter. Aliás, não dizem que figuras públicas não se pertencem?

Juros? Pode jurar o que quiser, pois o Código de Defesa do Consumidor não vale para promessa de político.

Fidelidade partidária? Fique tranqüilo! Você não precisa ser fiel a nada! Pode mudar de partido, ideologia, religião, opção sexual, cidade, de conta bancária (no exterior, de preferência), enfim, pode ser uma "metamorfose ambulante", pois o que vale é se eleger! Mas fique atento às oportunidades informais e prazos legais.

Ah! É bom ser fiel a sua família e quem lhe apóia e financia. Você pode ter que arrumar vantagens públicas para todos e deixá-los bem felizes. A história de alguns políticos mostra que quem falhou nisso teve problemas com a imprensa. Mas isso tende a deixar de ser importante, pois a maioria das concessões de mídia está indo para as mãos de políticos; além disso, um sempre tem um "dossiê" sobre o outro, que ameaça mostrar, quando acossado, mas nunca mostra. O povo dificilmente fica sabendo o que era, nenhuma instituição manda investigar, e o que era uma ameaça bombástica vira uma tênue bruma no "milagre democrático" da transformação dos inimigos de ontem nos aliados de amanhã. O telhado pode ser de vidro, mas como é o padrão de construção desse “condomínio fechado” ninguém se arrisca a atirar a primeira pedra.

Garantia?

Bom, caso você não se eleja ou reeleja, se souber "costurar" relações e alianças políticas, daquelas que se puxar a linha rasga o pano, sempre haverá um cargo público esperando por você, entre uma eleição e outra. Dá até para fazer disso uma carreira com múltiplas especializações, viagens, cursos, etc. Quem conhece não quer largar!

Os benefícios indiretos, votados pelos próprios políticos, com o "aval" dos votos que receberam, também são ótimos! Dependendo do nível e do lugar podem ser: vários cargos de assessores e estatais para nomear, aposentadoria precoce, "auxílio paletó"; "jetons", etc; mesmo para quem não for reeleito ou já estiver afastado há anos, aposentado ou não.

Ah! Se um eleitor lhe pedir garantias, você pode responder: "La garantia soy jo!".

Só evite perguntar-lhe, após o término de seu mandato: "Foi bom pra você?". Tripudiar não vale!

É bom lembrar que a Reforma Política vai ser a última a ser votada, e o povo ainda não se sabe o preço, o prazo e nem se tem garantia do resultado. Só se sabe que serão os próprios políticos que a elaborarão e votarão, em nome dos votos que receberam desse mesmo povo. Para a maioria deles, o eleitor é encarado como um ente abstrato e distante, que vive "deitado em berço esplêndido", mesmo que seja de chão batido; mas eles esquecem que, vez por outra, a indignação e a revolta fazem o povo se rebelar, como nos episódios: "Diretas já!" e "Impeachment", para citar exemplos nacionais, recentes e civilizados. Ainda assim, o "espírito de porco", perdão, "de corpo" de grande parcela dos políticos é hábil na condução dessa "Nau Catarineta", que caracteriza a falta de classe política brasileira, pois sempre há alguém disposto ao sacrifício - temporário e compensador - pelo "bem" do todo,

Mas se você ainda acha que é um bom negócio ser esse tipo de político, então? "Qué pagá” quanto?

Infelizmente para o eleitor e felizmente para você, o Brasil ainda é um país onde, para pessoas de má índole: o que você “qué”, aqui você, ainda, pode!

::educação::
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Adilson Luiz Gonçalves  é engenheiro e Professor Universitário Santos - SP algbr@ig.com.br

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