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O estoque de
sangue estava baixíssimo. A campanha pelo rádio e tevê, naquela friorenta e úmida
sexta-feira de final de agosto de 2003, cobrando doares de todos os tipos de sangue, não
funcionara como previram, e como os atendera em outras vezes na mesma situação de
carência. Os voluntários não vinham. O desânimo era geral. Da UTI vinham os recados
via-rádio de que muitos pacientes até mesmo em Coma estavam em situação de risco por
causa daquela carência vital. Enfermeiros tristes suspiravam nos postos de coleta vazios.
Até mesmo, informavam, o impressionante menino superdotado de nome Rafael Orlando, que
tivera um acidente com skate numa pista pública de Itararé, cidade do interior, estava
entre a vida e a morte, poderia morrer em pouco tempo.
Os enfermeiros do Hospital das Clínicas começaram a escolher, entre ele, sem os riscos
naturais c calculados, quem poderia doar sangue com segurança. Mobilização geral. Quem
estava em época de doação, quem não tinha bebido no dia, quem não tomara remédios
principalmente aspirina, quem tinha peso, idade e situação de doar sem riscos. Rafael, o
menino internado e que sofrera delicadas operações de micro-cirurgias no cérebro era
uma promessa de vir a ser um cientista político (era seu sonho, dizia sempre) e talvez,
mais pra frente, depois de um operário presidente consertando o básico das peças
públicas em reforma, poderia sim, um dia sonhar em ser aproveitado como político, para
como eventual Presidente da República tornar o país uma potência sem riscos graves de
convulsões por causa do país com seus históricos contrastes sociais, lucros impunes,
riquezas injustas.
Alguma coisa tinha de ser feita. Não havia tempo a perder. Até que aparecesse alguns
doares raros e ocasionais, remendando o problema grave, o estoque fosse parcialmente
provido, as vidas fossem salvas. Em horas de espera solene e muitas preces pra dentro,
lamentavelmente não pintou nenhum só doador, nem pra remédio ou que realizasse a
salvação circunstancial das vítimas em potencial, dos pacientes em caso terminais, e
tantas vidas preciosas seriam perdidas pela falta de sangue de transfusão. Rafael talvez
fosse o primeiro a morrer quando chagasse tudo ao fim.
Enfermeiros e médicos doaram o que puderam, uns e outros foram providos, mas mesmo entre
os funcionários do Hospital das Clínicas já não havia mais candidato aproveitável e
nem como tirar sangue de gente da casa mesmo, a prover o baixo estoque do banco de sangue.
A chefe do Setor de Enfermagem, Dona Doca, o Dr.. Anselmo Justo e mesmo a Ouvidora-Chefe
do setor, além do Diretor-Presidente da Fundação Pró-Sangue, Dr. Dalton Chamone, todos
em lágrimas e desesperados, incontinente acionavam emissoras de tevê e imploravam
sensibilização geral no ar, na mídia, havia médico caçando eventuais doares nas ruas
concorridas de gente correndo feito baratas tontas, enfermeiros interpelavam passantes
pedestres nos concorridos pontos de ônibus, mas parece que ninguém podia, o mundo
parecia ter parado num vão de insensibilidade generalizada pela bruteza da cidade grande
em carestia, uns faziam alegações bobas, outras davam desculpas brabas, outros mentiam
situações, uns eram doentes, outros pacientes em trânsito, outros empanturrados de
química de todos os tipos e resultantes, viciados, covardes, insensíveis, medrosos, a
situação era realmente grave. O céu por testemunha.
O Faxineiro Januário, que já tinha doado duas vezes em três dias, sem informar ninguém
e sem poder de forma lega (usou outro nome), só querendo ajudar mesmo não podendo e
fazendo mais do que devia, comentou então que, só mesmo um milagre poderia alvar aquele
banco de sangue de maior volume de toda a América do Sul numa área com inchamento
populacional de quase vinte milhões de habitantes. A palavra era aquela. Milagre. A
esperança também.
Alguns funcionários rezavam. Cheios de sonhos. Deus era maior. Guardas do setor de
segurança já doavam mesmo sem poderem, tal a precisão, mas, enquanto uns poucos e raros
doavam, os estoques básicos iam baixando e os parentes dos pacientes se alvoroçavam,
amigos de vítimas se escolhiam apontando eventuais alvos, todos se mobilizavam mas
faltavam um doador de sangue O + que era o sangue de Rafael, o menino de olhos cor de jade
e cabelos de trigo, adorado por todos pelo potencial de cultura, talento e vivacidade.
Era um dia frio, o tempo estava amuado, fim de tarde ruim, todos emocionados, uns e outro
se sondando, a dona da cantina se oferecendo pela segunda vez em quinze dias, quando
finalmente apareceu um doador não conhecido por ali, como se surgisse do nada.
Fez o teste de anemia tranqüilo e sereno, e o sangue jorrou forte no vidrinho que cortou
o grande dedo indicador. Parecia mesmo costumeiro doador universal em potencial. Tomara
fosse.
Pesado na balança ali posta para isso - alegou como desculpa sem pé nem cabeça que não
sabia seu peso nessa dimensão - deu exatos noventa quilos, um metro e oitenta de altura.
Tomaram a pressão e era baixa mas o tipo moreno, olhos castanhos incisivos, brilhantes
cabelos crespos grandes, gestos largos, andava como um manequim em passarela o tempo todo,
como se pisasse estrelas. O mais belo sorriso do mundo, foi para a sala de testes, com as
perguntas pré-programadas.
Não se recusara a responder nenhuma questão, sempre solícito, natural, verdadeiro,
honrado por estar ali em situação emergencial, não era doador de riscos, não estivera
em nenhuma área perigosa, não estivera preso e nem tivera amantes ou amigos presos,
sequer tatuagens. A Enfermeira Esther contente e emocionada só estranhou quando perguntou
se ele doara já alguma vez, se já tivera experiência nesse fito de exercício de
cidadania com ética-plural-comunitária - e ela confessou isso muito depois - que meio
que entendeu surpresa que ele doara sangue sim, mais muitos séculos atrás.
Não acreditou e não teve coragem-impulso para questionar aquilo de inusitado.
Pediu que ele se apressasse pois o tempo urgia, ele parecia que, ao andar, irradiava
espaços pertinentes, tudo se movia abrindo luz ao derredor dele, como se abrisse caminhos
no oxigênio, no ar, vigiado por luzes terreais e provido por asas além da imaginação
abrindo portas e testemunhos presenciais de luzes.
Foi assinar a lista obrigatória, quando teria que fazer a opção para afirmar em Sim ou
Não se era doador de risco. E foi ali que estranharam ainda mais, como se um sinal,
quando a máquina começou a repentinamente a dizer a frase codificada pelo computador
para responder automaticamente sempre que alguém votava.
-Obrigado por sua doação. Você pode estar salvando uma vida.
O programa da máquina disse isso e parece que pifou tudo, ou travou o mecanismo de
infovias, talvez tivesse alguma radiação inexplicável esgotado o programa. E a máquina
sob paredes de privacidades passou a repetir a mesma informação.
-Obrigado, você pode estar salvando uma vida. Você pode estar salvando uma vida...você
pode estar salvando uma vida. Você pode...
Enquanto a máquina repetia o mote - o que surpreendia a todos pois nunca falhara - aquele
enorme ser simpático e cativante sentava cândido e oferecia o quadrado sorriso largo, os
olhos brilhantes, o enorme corpo sarado, o braço largo da pele rósea com a enfermeira
Vívian quase chorando de emoção, tocada de alguma forma, nervosamente mas tentando se
controlar passando o algodão com álcool e também sentindo que as veias do doador como
se se ofereciam para salvar o dia, salvar as vidas, salvar a situação, salvar o setor.
Colocou a agulha com delicadeza, perguntou se estava tudo bem, e, parece que mal-e-mal
passou o átimo de um milésimo de segundo e o sangue farto e quase azul de tão denso,
jorrou meio que iluminado de encher o invólucro que parece que inchou.
Estranharam aquela doação rápida, quase um recorde. Vidas tinham que ser salvas.
Parecia que anjos aplaudiam de altos céus inimagináveis. Correram levar o sangue pro
andar emergencial que dava pra UTI daquele departamento.
Lá de cima um médico do laboratório confirmou que o sangue era Ó Positivo (em código
Ó Mais) e todos sorriram, alguns bateram palmas, outros se abraçaram, muitos agradeceram
a Deus, pois o jovem Rafael com nome de anjo estava salvo. Foi quando a teimosa e curiosa
enfermeira Esther entregou o crachá para que o doador especial ali fosse tomar seu suco
de caju, comer seu lanche de frios para recuperar energia. Mal ele virou a sala e ganhou o
corredor da Cantina do Setor de Doação de Sangue do Hospital das Clínicas, foi como se
se abrissem todas as portas do céu. Era um milagre e tanto. Como se o mundo inteiro
desembarcasse estações orbitais e nuvens-naus ali no setor de recolhe e coletas da
Fundação Pró-Sangue.
Dezenas de doadores foram chegando, um atrás do outro, todos bem parecidos de fortes e
puros, como se fossem todos de uma mesma família, talvez não desse mundo, talvez uma
família cósmica...talvez de todas as dimensões espaciais, de todas as dobras do espaço
sideral, que para ali chamadas por uma ordem imperial acorrendo foram acudir um chamado
espiritual de quem em nome do amor abrira todas as portas dos tempos, todas as portas dos
afetos, das solidariedades, das serventias, das doações nobres e sagradas.
Esther não agüentou. Sentira algo no ar. Era meio sensitiva mesmo, se sublimando no
entanto na lida árdua ali em Sampa desvairada de muito ouro e pouco pão.
De alguma forma tinha sido tocada em sua sensibilidade sempre afinada com o verbo servir e
o verbo Sentir.
Largou a dúzia de enfermeiros serviçais daquela leva de plantão, e pela porta da frente
correu cercar na saída o doador que salvara Rafael, pois lá de cima do setor viera a
informação de que o sangue era ótimo até demais, pois Rafael até voltara a si depois
de um Coma de dias, como se tivesse usado um sangue fora de série, como se realmente um
milagre se consumasse mesmo numa doação fora de série.
Esther atropelou a fila de entrevistados, desviou-se da fila dos que mediam pressão,
driblou serelepe a fila dos que tiravam sangue pra ver se estavam com anemia, pulou a fila
dos que pegavam senha, virou à esquerda antes da enorme fila dos que se candidatavam
frente a ala da informática central.
Saiu pela porta da frente minutos depois que o doador belo e forte saíra no sentido da
cantina em corredor paralelo, e então entrou lados da cantina toda lépida. Mas não viu
ninguém. Não havia nada. O que teria acontecido? Cadê o doador?
Estaria no banheiro? Será o impossível? Onde já se viu aquilo? Tem cabimento? Cismou. A
alma recebeu um jorro da paz infinital. O peito disparou um bólido.
Perguntou pra Dulcinéia da cantina. Ela não vira ninguém. Perguntou pra faxineira
daquela área se vira alguém sair vestindo uma blusa salmão, informou do crachá para o
doador pegar lanche de costume mas a moça humilde disse estar ali havia cerca de meia
hora e não passara ninguém. O que estava havendo?
Como podia ser isso?
Enquanto os milhares de doadores corriam acudir finalmente os pedidos e se revezavam com
orgulho a doar sangue, a curiosa Esther sentou-se num banco do madeira que havia defronte
à cantina e começou a chorar emocionada, suspirando, tocada. Que experiência era
aquela. O que teria ocorrido? Quem teria sido aquele doador universal em tão importante
momento crucial do Setor de Doação do Hemocentro do Hospital das Clínicas de São
Paulo.
Não compreendia o inexplicável. Lembrou-se então que a enfermeira que pegara a bolsa de
sangue para legar pro andar de cima, dissera que ela estava quente. Radiação?
Estava sem resposta.
Então viu o cartão que entregara ao homem que dizia se chamar José Carlos. Correu pegar
o impresso que deveria estar com dados do doador, largado ali ao lado da garrafa térmica
de café com leite e de chocolate quente, como se ali um fantasma tivesse bebido chocolate
sem ninguém perceber.
Foi quando compreendeu tudo.
No cartão os dados básicos e obrigatórios do doador estranhamente tinham sumido,
inclusive os dados sobre futuras avaliações de exames sorológicos, como se o pequeno
cartão nunca tivesse sido preenchido pelos atendentes formais do setor informatizado do
cadastro central e protocolo, como se fosse alma de outro mundo se mostrando doador
universal, mais de dois mil anos de ter dado seu precioso sangue para salvar o mundo.
No lugar em que deveria estar obrigatoriamente o adesivo com o código de barras mais o
nome da pessoa impresso pelo computador e o número-identificação de praxe, lá estava
um informação que antes não havia. Era um sinal que durou alguns segundos apenas, e só
Esther teve a sua resposta única, quase que um oferenda de luz. A história virou lenda
para sempre ali no Hospital das Clínicas. Contam isso até hoje.
Sim, alumbrada Esther finalmente compreendeu tudo, iluminada e em pranto de emoção sem
igual.
Num espaço diminuto do cartão de doação estava escrito Jesus Cristo.
Fazia sentido.
Realmente Ele tinha sido crucificado, doado seu sagrado sangue na cruz há mais de dois
mil anos atrás, tinha ressuscitado e voltado à casa do Pai-Criador depois de resgatar os
pecados do mundo, portanto, tinha sido mesmo e para sempre o maior Doador Universal da
história da humanidade.
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