|
Muitos professores acreditam que nosso sistema
educacional é inadequado. Esse descontentamento geral não deve ser ignorado, ao
contrário, deveria sensibilizar-nos para os problemas com os quais nós nos confrontamos
em nossas tentativas de nos tornarmos cidadãos educados. Mas o que significa tornarmo-nos
cidadãos ? Significa lutarmos por uma educação holística, humanística, livre de
preconceitos impostos a nós muitas vezes pela própria escola e seus representantes, os
professores. Significa que nós, professores, deveríamos individualizar nossas
abordagens e métodos, considerando as necessidades específicas de nossos alunos e
ajustar nossos comportamentos e objetivos de acordo com elas. Significa muitas coisas,
contudo a mais importante é desenvolver de uma maneira não-fragmentada todos os
aspectos da personalidade humana _ cognitivos ou intelectuais, emotivos ou afetivos.
Ao invés de negarmos a relação existente entre afeto e intelecto, devemos tirar
proveito dela. A escola não deve ser meramente encarada como a instituição que
transforma o indivíduo deseducado em educado. A educação deve ser considerada uma
decantação do pensamento humano, algo que passa pela cognição, pela experiência e
pela emoção. A educação é um conjunto de idéias e teorias que têm preocupado
filósofos, cientistas, lingüistas, professores, e, como tal, tem sido influenciada pela
visão de mundo predominante em cada lugar. Por exemplo, os sistemas educacionais da
Europa e das Américas são profundamente diferentes dos da Ásia e Índia, principalmente
devido aos conceitos religiosos que permeiam cada uma dessas civilizações. À luz dessas
diferenças, costumeiramente referimo-nos à cultura ocidental como racional e absoluta,
dando grande importância à razão e ao intelecto; e à oriental como intuitiva e
mística, enfatizando a harmonia espiritual para desenvolver uma personalidade sadia.
Indubitavelmente
o pensamento ocidental, com sua ênfase na razão e na cognição, conseguiu exacerbar
problemas como a opressão e a miséria. Ainda que este pensamento nos tenha ajudado a
melhorar nossa qualidade de vida, converteu-nos numa massa extremamente competitiva, o que
leva à auto-destruição. Por outro lado, o pensamento oriental, apesar de sua ênfase na
harmonia interior que pode levar a uma elevação espiritual, não conseguiu solucionar muitos problemas dos
ocidentais. Este mesmo pensamento tem
recebido críticas ferrenhas do ocidente a propósito da incapacidade do ser humano de
viver de acordo com seus princípios. Entretanto, é grande o número de ocidentais
profundamente impressionados com o modo de vida oriental. Nem todas as pessoas conseguem
raspar a cabeça e só comer arroz e verduras por meses e anos, vivendo em lugares ermos e
isolados e rezando para deuses que eles nem conhecem bem. Contudo, é exatamente nessas
pequenas coisas que se situa a diferença ente ocidente e oriente. Os ocidentais não dão
mais o devido valor a tudo o que têm porque têm tudo. Eles têm sonhos e aspirações
sempre relacionados ao status social, ao sucesso individual e ao dinheiro em suas contas
bancárias. Eles estão sempre preocupados com sua aparência e com o que os outros vão
pensar, estão sempre divididos entre o amor e o ódio, o desejo e o dever. Por isso não
podem renunciar ao luxo e à segurança. Eles se engajam numa luta tão feroz pela
sobrevivência que acabam assemelhando-se a animais sob o fino verniz da civilização.
Somente à beira da destruição completa pensam em procurar um novo e diferente caminho
que os leve ao conhecimento interior.
É contra esta
história de corrupção que o sistema educacional pode mostrar seu valor.
Neste sentido, ele parece funcionar eficientemente, produzindo pessoas altamente
motivadas, determinadas a vencerem em seu campo de atuação. Esta educação
ocidental tem produzido indivíduos que alegam trabalhar em direção a seus objetivos e
para o bem da sociedade. Entretanto, o passado nos revela histórias de guerras e
destruição. O foco da educação ocidental tem sido no conhecimento e na aprendizagem,
sem ensinar aos alunos como podem aprender a aprender. O objetivo é ensinar de
maneira mecânica e igual a todos os alunos, sem a devida atenção aos sentimentos, à
essência de cada um. A educação ocidental moderna é direcionada para as
necessidades atuais, em termos de avanços científicos e tecnológicos, sem olhar a
alma humana para descobrir seus recursos e
preparar o indivíduo não só para hoje, mas para o que possa vir a ocorrer amanhã
ou depois. Em contrapartida, a educação oriental não parece suprir os alunos com a(s)
competência(s) necessária(s) para enfrentarem os desafios do mundo moderno.
No entanto,
apesar das diferenças, estas duas civilizações com características tão
distintas foram destinadas a se tornarem uma força única, com riquezas e
conhecimentos inimagináveis. Cognição e afeto devem ser forças complementares,
não opostas. Os alunos deveriam ser encorajados a apreenderem o conhecimento à sua
própria maneira. Devemos motivá-los a ler, escrever e ouvir assim como a tocar, sentir e
cheirar. As mais modernas teorias educacionais mencionam o importante papel do lúdico
na aquisição do conhecimento. O cérebro humano é um dos mistérios ainda
por revelar. Tanto as capacidades do lado direito como as do lado esquerdo devem ser
igualmente desenvolvidas. O campo da cognição e do conhecimento, o lado esquerdo, tem
sido demasiadamente explorado pelos ocidentais em detrimento do lado direito, o da
emoção e do sentimento, que tem uma grande contribuição a fazer. É nessa mediação,
neste meio-termo entre os dois lados que penso estar o segredo de uma educação
verdadeiramente holística, que possa elevar o espírito humano, na qual o
afeto e o intelecto se unam para formar a base de um novo conhecimento. O homem
é uma entidade composta de três lados : o corpo, a mente e a alma
ou espírito. Não percamos de vista esta unidade.
Comentários
para a autora : sandrakezen@hotmail.com
|