ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.38 outubro de 2003

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RAZÃO OU EMOÇÃO ?
Uma reflexão sobre os sistemas educacionais ocidental e oriental

 
por Sandra Kezen

Muitos professores acreditam que nosso sistema educacional é inadequado. Esse descontentamento geral não deve ser ignorado, ao contrário, deveria sensibilizar-nos para os problemas com os quais nós nos confrontamos em nossas tentativas de nos tornarmos cidadãos educados. Mas o que significa tornarmo-nos cidadãos ? Significa lutarmos por uma educação holística, humanística, livre de preconceitos impostos a nós muitas vezes pela própria escola e seus representantes, os professores. Significa que nós, professores, deveríamos individualizar nossas abordagens e métodos, considerando as necessidades específicas de nossos alunos e ajustar nossos comportamentos e objetivos de acordo com elas. Significa muitas coisas, contudo a mais importante é desenvolver de uma maneira não-fragmentada todos os aspectos da personalidade humana _ cognitivos ou intelectuais, emotivos ou afetivos. Ao invés de negarmos a relação existente entre afeto e intelecto, devemos tirar proveito dela. A escola não deve ser meramente encarada como a instituição que transforma o indivíduo deseducado em educado. A educação deve ser considerada uma decantação do pensamento humano, algo que passa pela cognição, pela experiência e pela emoção. A educação é um conjunto de idéias e teorias que têm preocupado filósofos, cientistas, lingüistas, professores, e, como tal, tem sido influenciada pela visão de mundo predominante em cada lugar.  Por exemplo, os sistemas educacionais da Europa e das Américas são profundamente diferentes dos da Ásia e Índia, principalmente devido aos conceitos religiosos que permeiam cada uma dessas civilizações. À luz dessas diferenças, costumeiramente referimo-nos à cultura ocidental como racional e absoluta, dando grande importância à razão e ao intelecto; e à oriental como intuitiva e mística, enfatizando a harmonia espiritual para desenvolver uma personalidade sadia.

Indubitavelmente o pensamento ocidental, com sua ênfase na razão e na cognição, conseguiu exacerbar problemas como a opressão e a miséria. Ainda que este pensamento nos tenha ajudado a melhorar nossa qualidade de vida, converteu-nos numa massa extremamente competitiva, o que leva à auto-destruição. Por outro lado, o pensamento oriental, apesar de sua ênfase na harmonia interior que pode levar a uma elevação espiritual,  não conseguiu solucionar muitos problemas dos ocidentais.  Este mesmo pensamento tem recebido críticas ferrenhas do ocidente a propósito da incapacidade do ser humano de viver de acordo com seus princípios. Entretanto, é grande o número de ocidentais profundamente impressionados com o modo de vida oriental. Nem todas as pessoas conseguem raspar a cabeça e só comer arroz e verduras por meses e anos, vivendo em lugares ermos e isolados e rezando para deuses que eles nem conhecem bem. Contudo, é exatamente nessas pequenas coisas que se situa a diferença ente ocidente e oriente. Os ocidentais não dão mais o devido valor a tudo o que têm porque têm tudo. Eles têm sonhos e aspirações sempre relacionados ao status social, ao sucesso individual e ao dinheiro em suas contas bancárias. Eles estão sempre preocupados com sua aparência e com o que os outros vão pensar, estão sempre divididos entre o amor e o ódio, o desejo e o dever. Por isso não podem renunciar ao luxo e à segurança. Eles se engajam numa luta tão feroz pela sobrevivência que acabam assemelhando-se a animais sob o fino verniz da civilização. Somente à beira da destruição completa pensam em procurar um novo e diferente caminho que os leve ao conhecimento interior.

É contra esta história de corrupção que o sistema educacional pode mostrar seu valor. Neste sentido, ele parece funcionar eficientemente, produzindo pessoas altamente motivadas, determinadas a vencerem em seu campo de atuação. Esta educação ocidental tem produzido indivíduos que alegam trabalhar em direção a seus objetivos e para o bem da sociedade. Entretanto, o passado nos revela histórias de guerras e destruição. O foco da educação ocidental tem sido no conhecimento e na aprendizagem, sem ensinar aos alunos como podem aprender a aprender. O objetivo é ensinar de maneira mecânica e igual a todos os alunos, sem a devida atenção aos sentimentos, à essência de cada um. A educação ocidental moderna é direcionada para as necessidades atuais, em termos de avanços científicos e tecnológicos, sem olhar a alma humana para descobrir seus recursos  e preparar o indivíduo não só para hoje, mas para o que possa vir a ocorrer amanhã ou depois. Em contrapartida, a educação oriental não parece suprir os alunos com a(s) competência(s) necessária(s) para enfrentarem os desafios do mundo moderno.

No entanto, apesar das diferenças, estas duas civilizações com características tão distintas foram destinadas a se tornarem uma força única, com riquezas e conhecimentos inimagináveis. Cognição e afeto devem ser forças complementares, não opostas. Os alunos deveriam ser encorajados a apreenderem o conhecimento à sua própria maneira. Devemos motivá-los a ler, escrever e ouvir assim como a tocar, sentir e cheirar. As mais modernas teorias educacionais mencionam o importante papel do lúdico na aquisição do conhecimento. O cérebro humano é um dos mistérios ainda por revelar. Tanto as capacidades do lado direito como as do lado esquerdo devem ser igualmente desenvolvidas. O campo da cognição e do conhecimento, o lado esquerdo, tem sido demasiadamente explorado pelos ocidentais em detrimento do lado direito, o da emoção e do sentimento, que tem uma grande contribuição a fazer. É nessa mediação, neste meio-termo entre os dois lados que penso estar o segredo de uma educação verdadeiramente holística, que possa elevar o espírito humano, na qual o afeto e o intelecto se unam para formar a base de um novo conhecimento. O homem é uma entidade composta de três lados : o corpo, a mente e a alma ou espírito. Não percamos de vista esta unidade.

Comentários para a autora : sandrakezen@hotmail.com

 

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Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na Cerimônia de lançamento do Programa Brasil Alfabetizado
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Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@hotmail.com

"Comecei minha carreira como professora em colégios particulares, depois ingressei na rede pública. Fiz concurso para Língua Inglesa, mas como era grande a carência de professores de português, era sempre chamada para assumir esta disciplina, e trabalhei com Língua Portuguesa em todas as séries do Segundo Segmento do Ensino Fundamental assim como com Literatura Brasileira em todas as séries do Ensino Médio. 

A sala de aula é meu habitat, e a partir do momento que retornei aos estudos (estou atualmente cursando Mestrado em Cognição e Linguagem como aluna ouvinte na UENF- Universidade Estadual do Norte Fluminense), decidi escrever sobre minha visão do ensino, fazendo sugestões e propondo novos rumos."

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