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Um
importante livro lançado no ano passado não recebeu ainda a devida atenção. Resultado
de uma tese de mestrado da autora argentina Paula Sibilia, defendida na UFF, "O homem
pós-orgânico - corpo, subjetividade e tecnologias digitais" é uma bem escrita e
fundamentada denúncia, sem
exageros acadêmicos ou afetações desnecessárias e descartáveis, da criação
discursiva e sustentação ideológica de um novo modelo de poder, calcado no
desenvolvimento pleno e ilimitado da tecnociência e no desejo amargo de um ser humano que
quer evitar a morte a qualquer custo e em todas as suas acepções. Descrente
espiritualmente de sua condição e desiludido com as opções de fé religiosa num mundo
cada vez mais multifacetado, portanto complexo e caótico, resta ao homem atual a busca da
virtualidade como forma de permanência. O corpo se torna um obstáculo obsoleto a este
homem em tempo real e total. Se, como Nietzsche diz, o homem criou Deus, agora parece ter
chegado a hora de um acerto de contas, pois sua criatura não "funciona" mais,
não atende às demandas de mercado de seu cliente, o homem. Faz-se inevitável a
criação de um novo deus, este com inicial minúscula, desespiritualizado, para programar
cada homem, cada qual tornando-se seu próprio demiurgo, o deus-em-si, de e para si, um
deus que conserte os "defeitos" e conserve o produto do anterior. O Deus que o
homem criara e continua criando - para explicar a Mãe Natureza perde o encanto na
medida em que os "mistérios" desta podem ser dissecados e, melhor, determinados
pelo homem-deus programador e digitalizado (ou em vias de uma digitalização).
O homem deseja superar a organicidade que o prende a um modelo de corpo
arcaico, suporte frágil de sua configuração genética. Eis o homem
"pós-orgânico", na falta de um termo melhor. Confuso? Não tanto se pensarmos
no nosso dia-a-dia. O homem de hoje não vive sem uma prótese, sem ferramentas de
otimização de suas capacidades e atenuação de suas
limitações físicas. Telefones celulares, computadores portáteis, internet e diversos
outros aparelhos desvinculam o homem de sua localização
espaço-temporal e virtualizam sua existência. Trata-se de um homem em rede, conectado,
plugado no fio-terra de uma máquina-mundo que lhe exige
desempenho e funcionalidade sempre. A medicina trata de alongar essas
potencialidades: a expectativa de vida não cessa de crescer. Morrer, logo, pode se tornar
uma mera opção.
A autora lista e analisa os dois mitos fundadores da tecnociência
contemporânea: os mitos de Prometeu, o ladrão do fogo que municia
tecnologicamente o homem, que entretanto é castigado com severidade pelos
deuses, por ter quebrado uma lei; e de Fausto, o amigo do Diabo, a quem nada é
impossível conquistar, ambicioso, arrojado, dedicado a uma superação constante de
limites, ser desprendido de amarras quaisquer - protótipo do homem contemporâneo?
Sibilia afirma a decadência de uma tradição prometéica na tecnociência
contemporânea, em prol da irrupção de uma nova tradição, de vocação fáustica. Se a
primeira reconhecia seus limites, a segunda os desconhece. A questão de ordem é saber se
uma substitui de fato a outra ou se ambas convivem harmonicamente. Prometeu incita a Era
da Máquina que implica, segundo os termos do filósofo Michel Foucault, uma sociedade
disciplinar, de corpos dóceis e úteis, trabalhando em confinamento e de modo
cronometrado e repetitivo para a produção de bens de consumo.
Já Fausto incita a Era da
Informação, que implica uma sociedade informada, de corpos carentes de uma
atualização, de um upgrade constante para o atendimento de suas novas necessidades,
trabalhando, construindo e consumindo novas identidades em tempo contínuo e independente
de seu espaço e tempo. Quanto à subjetividade, pois, passa-se de um sujeito adestrado,
"produtor disciplinado", confinado em instituições de rígida vigilância e
hierarquia fechada (na lógica do "cada macaco no seu galho") e batendo cartão
de ponto, para um sujeito acessível, "consumidor controlado", endividado e por
isso mesmo disposto a cumprir metas, trabalhar em equipe, gerenciando um serviço e por
vezes sendo até o operário de si mesmo. Trocam-se os muros das fábricas pelas
"coleiras eletrônicas" (termo cunhado pelo filósofo Gilles Deleuze) das
empresas, onde todos são passíveis de um rastreamento em tempo contínuo.
Feito este resumo muito geral do livro, cabe agora problematizar a questão.
Para Sibilia, Fausto supera Prometeu. Fenece o homem-máquina e triunfa o
homem-informação. O ser humano estaria próximo de conhecer o código da vida, a
programação de suas informações genéticas. O segredo da vida seria um número, um
dado, uma combinação matemática. O modo de funcionamento deste homem... Peralá: modo
de funcionamento?! Este não seria o homem da informação, do conhecimento, da
virtualidade? Pois é: este mesmo homem em vias de digitalizar e assim
"arquivar" e "salvar" (imortalizar) suas "informações"
(vida), está mais operacional e utilitarista do que nunca, mais mecânico que antes. O
emblema continua sendo o relógio: "(...) ele continua liderando o cenário, sem
dúvida, embora também tenha sofrido o upgrade de praxe ao passar das leis mecânicas e
analógicas para as informáticas e digitais. A função do relógio foi completamente
internalizada, com uma proliferação de modelos nos lares do mundo inteiro, nos prédios
e nas ruas das cidades, e inclusive embutidos nos pulsos das pessoas e nos artefatos de
uso cotidiano." (Pp. 29-30.) Cabe ressalvar, porém, que a lógica da informática,
embora sugira fluidez e flexibilidade, também é uma lógica mecânica, binária,
simplista e limitada na origem, que tem no relógio seu sustentáculo. Promoteu, pois, é
pai e amigo de Fausto, e, na ficção real da aventura pós-orgânica do homem
contemporâneo, é quem vai sustentar o filho transgressor em suas conquistas. Prometeu é
a chama que acende o sonho de Fausto, o herói programador de um novo mapa genético e
(por que não?!) cultural da espécie humana. O único ente obsoleto nessa
linda história (ou pós-história?) de conquistas fica mesmo sendo Darwin, com sua
crença risível de que a natureza evolui por uma seleção natural das espécies. Darwin
não poderia imaginar que a seleção seria "artificial", planejada pelo homem.
Por que e como a orientação prometéica e a fáustica conseguem conviver é o segredo
sutil do novo modelo de poder emergente. Remete a um trecho inicial de outro livro
igualmente importante: "A Sociedade do Espetáculo", do francês Guy Debord, de
1968.
"Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de
produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era
vivido diretamente tornou-se uma representação."
Consideremos, apenas, por correção, que também não há, nunca houve nada que fosse
vivido diretamente. Todo vivido transita pela linguagem. A diferença agora é a
especialização dessa linguagem, potencialmente mais eficaz, tornando mais indireto ou
menos direto o contato, a relação humana. O próprio Debord confirma isso: "A
especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual
o mentiroso mentiu para si mesmo." A diferença reside num deslocamento de
referências: hoje é a linguagem que transita pelo vivido. O fato é a linguagem, a
imagem resultante de uma experiência vivida e midiatizada. A estética, portanto, e, mais
que ela, a cosmética, o perfume, o entorno, a produção ou, em suma, o espetáculo
proporcionado é o que define os fenômenos e os seres. E o espetáculo é a forma de
manifestação, o vínculo sutil entre os homens da Era da Máquina e os homens da Era da
Informação. O espetáculo é a linguagem, a fôrma que permite a simbiose
homem-máquina-informação, que vai resultar num modelo de homem obcecado por
aperfeiçoamento técnico-operacional e pela acumulação de informações, um homem
depositário de um manancial de conhecimentos de que a sociedade do espetáculo vai dispor
conforme lhe for conveniente e oportuno. A subjetividade molda-se assim às demandas de
mercado, tornando-se descartável e em upgrade constante. Muda a equação da existência:
do "penso; logo, existo" de Descartes para o "estou atualizado; logo,
funciono" da era das máquinas inteligentes e dos homens que se limitam a operá-las
ou programá-las. O homem-máquina trabalhando nas diversas
máquinas-homens, acumulando e disseminando informações.
A sociedade do espetáculo também preconiza, segundo Debord, o fim da
história e da cultura, ou ao menos sua negação insistente. Em sua
pós-história, portanto, o homem estaria condenado a ser um número: número
(variável, dado, informação) de um programa; e número (atração) do
espetáculo que programa o dia-a-dia de cada um.
Há, além e por conta disso, todo um ideal de assepsia e beleza. A assepsia e o
embelezamento permitem disfarçar a precariedade física do homem. A aparência passa a
dizer o que se quer, e o que se é. A imagem vale mais que o fato. Afinal é a imagem o
que vai ser vendido, e não o fato em si, tampouco o ser. No jogo erótico, o corpo da
mulher é a máquina perfeita que vai gerar a cobiça do homem, como um carro muito
possante que se deve trabalhar para juntar dinheiro e conquistar (comprar). Para domar
esta Mulher-Maravilha, só mesmo um Super-Homem. E haja academia, bombas energéticas,
complexos vitamínicos, silicone, lipoaspirações e outros "melhoramentos" para
configurar o corpo e prepará-lo para investir no mercado de homens e mulheres
disponíveis para uma conexão. No livro de Paula Sibilia, a conectividade é mostrada
como a nova medida de presença/existência, a fornecer um novo sentido do "eu".
Seria este novo sentido o sentido da anulação do "eu"?!
Juntando Foucault, Debord e Deleuze num mesmo saco, podemos formular, pois, que os corpos
continuam dóceis ao trabalho, obedientes ao espetáculo e úteis ao mercado. No fim,
nossos atores sexuais vão ser os peitinhos de silicone, a bundinha genérica, a vagina
transgênica e a pica de plástico, órgãos com vida própria e loucos por uma conexão,
um funcionamento, carentes de uma utilidade. E nós seremos os robôs de nós mesmos,
frígidos, impessoais, mas felizes. Teremos atingido nossos objetivos, batido nossas metas
de vida.
Embora programados para a eternidade, poderemos morrer, sim, não de infarto ou câncer,
mas de pânico, tédio ou vazio existencial, sem heroísmo algum, em meio ao espetáculo
cotidiano.
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