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Todos
estamos sujeitos a desilusões e insucessos, mas existem
pessoas que transformam, consciente ou inconscientemente,
suas experiências infelizes, sobretudo as emotivas, num
fardo insuportável para os filhos, com seqüelas por toda a
vida.
Embora
não admitam, sob o pretexto de os protegerem de situações
análogas, criam um mundo paralelo, baseado em seus medos e
frustrações, e os condenam a andar na contramão da vida,
como herdeiros e guardiões de sua “doutrina” híbrida.
Seu
egoísmo quer transformar exceção em regra, não por
acreditarem no acerto de suas decisões e opções pessoais,
mas para tentarem se convencer, e ao mundo, de que estão
certos. Como não conseguem convencer o mundo, só lhes
resta “educar” seus filhos dentro dos limites pequenos e
estanques de suas famílias, se é que a relação doentia que
os une pode ser chamada assim. Também não conseguem punir
o mundo por suas frustrações; assim, punem os filhos,
tolhendo-lhes a autonomia, pois temem que seus “valores”
sejam questionados pela comparação e percam seu único
respaldo e alternativa à solidão. Daí, o amor espontâneo
cede lugar à devoção fanática, mantida pela chantagem
psicológica e financeira, que beira, perigosamente, os
limites da idolatria incestuosa.
Em
muitos aspectos, não são diferentes dos que, por
ignorância ou má-fé, geram e criam filhos para o
auto-sustento, condenando-os a viverem com as mãos
estendidas nas ruas da vida.
Esses
pais querem sustento, sim, mas não do dinheiro de esmolas;
querem filhos-escravos, pois, para proveito próprio, lhes
negam o direito às escolhas pessoais e ao risco do erro e
do acerto, que é inerente ao ser humano. Patrulham os
filhos, não para cuidá-los, mas para evitar a perda de
controle sobre eles.
Sua
cegueira seletiva só enxerga os raros exemplos que os
justificam, construindo uma vida solitária, cheia de
barreiras e imposições, mas esbanjando altivez arrogante.
Seu
“fundamentalismo” não concebe esperança de superação e
felicidade dos filhos fora de seus “dogmas”. No limite,
chegam a torcer e articular pelo fracasso de suas
experiências independentes, apenas para provarem que estão
“certos”.
Será
que não compreendem que em vez de livrar os filhos dos
males que os afligiram – talvez por seus próprios erros de
julgamento - os estão condenando, duplamente e sem
clemência, à perpetuação de seus efeitos? Ignoram que sua
principal herança - satisfeitos seus caprichos - talvez
seja o comprometimento definitivo das chances de
felicidade de seus descendentes, pela perda do referencial
imposto, pelas barreiras psicológicas intransponíveis,
pela incapacidade de se relacionarem fora de seu
“universo”, e pela impossibilidade de converter os falsos
brilhantes de seus “valores” no câmbio da vida?
A
relação de pais e filhos tem que ser de amor e respeito
mútuos; e a família deve ser um porto seguro e não um
cemitério de navios!
Por quê
insistir em manter o “cordão umbilical”?
Se “são
demais os perigos dessa vida” isso não implica em
render-se à paranóia! Os riscos têm que ser enfrentados e
superados com a esperança de transformação, pois viver é
um processo de evolução brilhante e não uma repetição
opaca e monótona, tolhida por medos e preconceitos
alheios.
A
construção da felicidade é uma tarefa pessoal e
intransferível, pois não há um ser humano igual ao outro,
como não há uma vida igual à outra!
Uma
existência híbrida, plantada no solo estéril da
superproteção ou do autoritarismo, e tolhida como um
“bonsai” pode, até, gerar um ser aparentemente vistoso,
mas ele permanecerá pequeno e dificilmente gerará nova
semente.
A vida
tem que ser semente pura, que germina, cresce, livre e
forte, em busca do Sol, e gera nova - e sempre melhor -
semente.
Esse é
o grande mistério e fascínio da vida!
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