ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.39 novembro de 2003

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Ensinando a ser gente : o desafio de ser professor
por Sandra Kezen
 

Mudam os tempos, mudam as idéias, mudam as práticas educativas, enfim, tudo muda.

O que não muda é a necessidade de uma boa educação. Não me refiro apenas à educação formal e acadêmica, aquela que recebemos na escola. Refiro-me àquela educação que está nos exemplos, nas palavras, nas atitudes. O que está nos livros, qualquer bom explicador sabe passar. O que não está nos livros, isto sim, é preciso saber passar : é preciso saber passar valores, atitudes, exemplos. Nós, professores, somos modelos para nossos alunos. Além de não darmos exemplos negativos, temos que nos preocupar em criar modelos positivos de comportamento.  Temos que fazer um esforço contínuo para não repassarmos o que aprendemos de maneira automática, ou para não repetirmos coisas já cristalizadas em nosso subconsciente, mas trazer à consciência o que é realmente relevante. Preste atenção ao seu comportamento de todo dia. Seus alunos percebem como você lida com seus sentimentos e expressa-os. Observam como você administra seus relacionamentos. Crianças são muito sensíveis : elas saberão se suas palavras e linguagem corporal transmitem mensagens de conflito. Se acentuarmos as nossas melhores habilidades e atitudes, estaremos fazendo um bem para nossas próprias vidas e oferecendo uma lição valiosa a nossos alunos. Acredito que o controle direto do comportamento (disciplina/punição) ensina a uma criança como manipular as ações dos outros. Não importa a(s) técnica(s) que usemos : elas nos imitarão sempre. Pensemos em duas meninas brincando com suas bonecas em casa : uma diz « Boa menina » enquanto sorri, e a outra grita « Burra » enquanto bate na boneca. Estarão criando ou repetindo tais comportamentos ? Portanto, pense em comportamentos dos quais você se orgulhará ao ver florescer em seus alunos, características como consideração, compreensão e comunicação aberta.

Uma das mensagens mais fortes que transmitimos às crianças é a nossa visão básica da vida.  Que tipo de pessoas somos nós ? Procuramos tirar o melhor de cada dia ou vivemos lamentando o que a vida ou alguém nos fez ? Antes de criticar seus alunos, olhe para você mesma(o) : quem sabe eles estão se espelhando em você?

Há um poema de Dorothy Nolte que demonstra os aspectos fundamentais do exemplos :

Se as crianças convivem com a censura, aprendem a censurar.

Se as crianças convivem com a hostilidade, aprendem a brigar.

Se as crianças convivem com a tolerância, aprendem a ser pacientes.

Se as crianças convivem com o estímulo, aprendem a ter confiança.

Se as crianças convivem com o elogio, aprendem a admirar.

Se as crianças convivem com a integridade, aprendem a justiça.

Se as crianças convivem com a segurança, aprendem a confiar.

Se as crianças convivem com a aprovação, aprendem a gostar de si mesmas.

Se as crianças convivem com a aceitação e a amizade, aprendem a encontrar amor no mundo.

 

 

O exercício diário do magistério

 

Ser professor é um desafio diário. Nos dias atuais, em que pais e mães trabalham fora, muitas vezes o tempo todo e mal vêem suas crianças, o professor faz o papel de pai/mãe, conselheiro/a, psicólogo/a, amigo/a, etc. Mas estará preparado para isto ? Não seria esta uma tarefa sobrehumana ? Onde obter treinamento para desempenhar tal tarefa a contento ? Os cursos de graduação treinam profissionais do ensino em suas diversas áreas do conhecimento, mas na prática, o trabalho do professor vai além do que ele foi treinado para ser ou fazer. Daí a necessidade de gostar da profissão, de total dedicação e do entendimento e conscientização de seu papel. Às muitas dificuldades que enfrentamos, une-se a confusão, já que as opiniões sobre disciplina variam muito, além, é claro, da opinião de cada um. A disciplina começa como atenção. Temos que entender seu objetivo. As palavras « disciplina » e « castigo » são freqüentemente trocadas uma pela outra, mas elas não são palavras sinônimas. Disciplinar é ensinar. Curiosamente, tem como base semântica a palavra « discípulo », alguém que gosta e respeita tanto o outro que modela a si mesmo como essa pessoa. Portanto, temos que assumir responsabilidade por nossos discípulos : para eles, somos o modelo.  Nosso comportamento regular de todo dia, que molda o sistema de valores de nossos filhos, aplica-se também a nossos alunos, de quem esperamos um comportamento socialmente aceitável.

 

 

O investimento emocional na educação

 

Os pais educam e punem para o bem da criança, mas também para satisfazer muitas de suas necessidades. Temos fortes sentimentos sobre como « educar » bem nossos filhos e sobre que « tipo » de pais seremos, mas, na prática, repetimos muitos dos modelos que ficaram em nosso subconsciente. Na verdade, como pais, podemos nos « reeducar » da maneira que gostaríamos de ter sido educados. O mesmo se dá com os professores. Podemos querer firmemente ser diferentes daquele modelo tradicional de professor ao qual tecemos críticas, porém, no exercício do dia-a-dia do magistério, muitas vezes nos acomodamos e esquecemos nossos propósitos iniciais. É aqui que se instala o perigo : a necessidade mórbida de exibir poder, humilhar, mostrar quem está no comando é uma das posturas mais comuns aos professores tradicionais. Acostumados a não serem questionados, eles só querem se fazer obedecer, a qualquer custo. Cabe agora uma reflexão : por que essa necessidade de provar seu poder sobre os alunos é tão grande ?

 

Auto-estima

 

Crianças bem ajustadas possuem uma consciência saudável de auto-estima. Estas crianças se sentem satisfeitas com o que são. Foram muito amadas, então se sentem dignas de amor. Elas gostam de si mesmas e lhes parece natural que outras pessoas gostem delas. Podemos dizer às crianças o quanto as amamos, mas elas também chegam às suas conclusões sobre nosso amor baseadas em nossas palavras, atitudes, linguagem corporal e estilo.

Uma das maneiras mais eficientes de demonstrar a importância que uma outra pessoa tem para você é dar-lhe atenção. Ela é uma força poderosa no estabelecimento da auto-estima e é um instrumento valioso em todas as relações pessoais.

Outra habilidade poderosa que você pode desenvolver é a capacidade de separar seus sentimentos sobre a criança de seus sentimentos em relação ao comportamento dela e transmiti-los claramente. Os professores devem reagir ao mau comportamento sem rotular, julgar ou se referir ao caráter doa alunos. Uma abordagem preferível seria :

 

1.   Descrever o comportamento específico inaceitável.

2.   Dizer à criança como isso faz com que você se sinta (e por que faz com que se sinta dessa forma).

3.   Fornecer uma descrição do comportamento apropriado e substituto que você espera _ em outras palavras, o limite.

 

 

 Empregando-se a fórmula acima obteremos melhores resultados : a auto-estima das crianças não é danificada porque não há nenhuma referência a seu caráter, e elas não têm razão para se sentirem ressentidas.

O valor deste tipo de comportamento é que as crianças acabam compreendendo a mensagem de que seu amor por elas é uma entidade separada dos seus sentimentos em relação à maneira como se comportam. O valor pessoal delas não está em julgamento e isso aumenta sua autoconfiança.

 

 

Técnicas de modificação de comportamento

 

Existem três fatores básicos que modificam o comportamento : reforço positivo, reforço negatico e adaptação. São normas que estão sempre acontecendo, mas podemos escolher como usá-las em nosso proveito ou de nossos alunos.

 

Reforço Positivo (usado para estimular um comportamento desejado) : o reforço positivo aumenta a possibilidade de um comportamento ser repetido, porque proporciona algo desejado em resposta a um determinado comportamento de alguém. Reforços sociais são sorrisos, elogios, abraços, etc. Reforços não-sociais ou materiais são bom-bons, brinquedos, etc. Reforços mistos combinam os sociais com os materiais. Qualquer reforço positivo deve apresentar duas qualificações : deve ser algo que a pessoa quer e gosta, e deve parecer ligado ao comportamento especial.

 

Reforço Negativo (usado para desestimular um comportamento indesejável) : este não está ligado a surras ou gritos. Um reforço negativo precisa estar relacionado àquilo que se quer evitar e acabar logo que a açãoa aindesejada termine.

 

Adaptação (usada para gerar um novo comportamento) : a adaptação é uma espécie de reforço positivo do tipo um passo de cada vez, na qual você reforça até mesmo as menores tentativas na direção de um comportamento que quer desenvolver. Você continua a reforçar cada sucesso parcial até que a criança tenha apresentado o comportamento por inteiro.

Ironicamente, o elemento mais crucial nos três processos é a escolha do momento exato. O reforço positivo é o instrumento mais eficiente para modificar um comportamento, contudo, se você o realizar cedo demais, pode parecer que você está querendo « comprar » um bom comportamento. Um reforço atrasado confundirá a criança, que pode não se lembrar por qual comportamento está sendo recompensada e imaginar sua última ação, por exemplo, que pode ter sido algo não desejado.

A escolha do momento certo é também essencial no uso do reforço negativo, caso contrário ele parecerá pura punição.

Um outro erro é comentar sobre a mudança de comportamento antes ou depois que ele acontece. A informação antecipada transforma o reforço positivo num suborno (« Se vocês se comportarem, não passo dever de casa ».) e o reforço negativo em ameaça (« Quem não se comportar ficará depois da aula »). E após um comportamento já estar aprendido, não há mais necessidade de reforço.

Professores eficientes se esforçam para encaixar reforços positivos nas suas interações diárias com seus alunos. Eles acham que isso reforça a autoconfiança e promove bons sentimentos. E além disso, isso também substitui a punição como método de controle e é uma forma de não incitar o ressentimento.

É muito difícil implantar qualquer tipo de mudança de comportamento em nós mesmos, portanto, também não é tarefa fácil para realizarmos com nossos alunos. Não importa o quanto pareça simples : os métodos antigos estão tão enraizados em nosso subconsciente que é preciso um esforço muito específico e consciente para mudar. Se você realmente desejar, a mudança será gradativa, mas pode acontecer. Dê-se um tempo para mudar, para aprender como fazer a mudança à sua maneira. Certamente você atingirá seus objetivos.

 

Comentários para a autora : sandrakezen@fdc.br

 

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Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@hotmail.com 
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