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O
que tem a ver a cidade concebida por Lars von Trier em
“Dogville”, como forma de criticar o modelo de
sociedade made in USA, com a cidade real que se impõe em
filmes como “Amarelo Manga”, com seus tipos cotidianos
tão grotescos, por exemplo, ou com a sede de
enriquecimento ilícito de exatamente todos os
protagonistas de “O homem que copiava”, ou com o
deslumbramento de um bairro inteiro por um criminoso
emergente, o mote de “O homem do ano”?! Bem simples, e
lamentável: a descrença no caráter humano posto em
sociedade. Como se estivéssemos face a um reconhecimento
explícito de que a teoria do bom selvagem se houve
vitoriosa. O homem é bom, até se ver disputando um lugar
no meio social, na rinha por espaços públicos de poder e
influência. Aí, em civilização, o homem começa a
jogar, a criar e a atuar em conflitos e se torna mau,
frio, vil, mesquinho ou débil. E pode se tornar cruel, se
a situação não permitir outra saída – como num
destinamento trágico.
Neste
raciocínio, o meio vence ou vende o homem, ainda mais se
este homem encontra-se diante de uma sociedade de mercado,
a forma de organização social mais competitiva e, por
conseguinte, mais exigente quanto à ação e à
capacidade empreendedora e produtiva do indivíduo. A
sociedade ou prende ou perde o homem, quando não o
apreende para os exercícios exaustivos e permanentes de
manutenção de sua ordem e de sua dinâmica. Em geral,
para exercer de fato uma cidadania e se fazer pertencer
legitimamente a esta sociedade de mercado, há o indivíduo
que se anular, enfraquecer, abdicar ao menos em parte de
seus valores e projetos pessoais e, de preferência, não
pensar tanto, o que implicaria questionamentos – ontológicos!
– sobre o próprio caráter do modelo social.
Entretanto, há outros caminhos, atalhos para a inclusão
social, cujo trajeto é feito de desvios morais de conduta
que a ética do capital trata logo de assimilar. Por que,
então, percorrer a maior distância? Na ânsia de inserção,
portanto, facilmente o cordeiro vira lobo; nem tão fácil,
no entanto, o lobo se converterá em cordeiro. Na operação
desta máquina produtiva mas predatória, a sensação que
fica é a de que existem mais lobos que cordeiros, e a
sujeição destes só estimula aqueles.
“Dogville”
é uma parábola triste, estruturada numa arquitetura
narrativa ímpar e aparentemente reducionista, visto que
se assume – mas somente no final da estória, quando a
história desemboca na tela com os retratos e tipos da miséria
causada pela Depressão de 29 nos EUA, e que poderiam ser
registros da pobreza cotidiana em qualquer país periférico
do desigual sistema capitalista – como um recorte político
de um comportamento social competitivo e violento que se
alastrou mundo afora via american way of life. Com
“Dogville”, o diretor Lars von Trier pretende iniciar
uma trilogia – depois, ainda virão “Mandalay”, que
só tem pronto o roteiro, e “Wasington” (sic) – para
falar mal de uma certa América, apesar de garantir que
tal história poderia se passar em qualquer cidadezinha do
interior de qualquer país, o que não deixa de ser
verdade. Porque Dogville, a cidade, é um protótipo.
Inicialmente, tudo está conformado, definido, funciona. A
ordem se perturba com a chegada de um corpo estranho àquele
ambiente: uma menina gentil, solícita, “inocente”,
que precisa muito do abrigo e da proteção da comunidade
na qual doravante se instalará. Seu nome: Grace (vale
reparar a ironia que cada nome insinua), vivida pela esplêndida
Nicole Kidman. Vinda de fora, com a vida e a liberdade
ameaçadas, a personagem encontra-se socialmente
fragilizada, numa situação de favor que precisa ser bem
recompensada, com trabalho e subserviência, o que lhe
exige uma postura de aceitação total de todas as condições
que lhe vão sendo impostas, e que implica posteriormente
uma completa anulação de sua individualidade. A princípio,
a comunidade recebe Grace com indiferença e, generosa,
rejeita um “pagamento” pela acolhida; aos poucos,
constrangida, absorve essa mão-de-obra voluntária e bem
disposta em sua rotina; com o tempo, torna-a indispensável,
criando, de modo incessante, novas necessidades para
assimilar a sua “empregabilidade”, sua força de
trabalho. A personagem, enfim, está integrada. Sua permanência,
porém, ainda custa gratidão, pelo perigo que sua simples
presença representa para a comunidade. Assim sendo,
inferiorizada em sua condição social, à personagem
explorada resta ainda uma dívida perpétua de ser um
iminente transtorno à ordem pré-estabelecida no lugar.
Resta à sua alma a resignação; ao seu corpo, o
dedicar-se sem preguiça ou cansaço ao trabalho diário,
o seu único modo de inclusão.
A
sociedade sabe tripudiar sobre a vulnerabilidade de Grace:
toma posse de seu tempo, de suas forças, de seu sexo, de
sua psique. Explorar sua capacidade produtiva e dispor
sobre seus direitos humanos tornam-se logo uma forma de
demonstração de poder e influência dentro da
coletividade. Politicamente, identifica-se ainda a figura
de um líder estabelecido e pouco contestado, tamanha a inércia
e o equilíbrio inicial de forças. Este líder, Tom (Paul
Bettany), é forjado, um blefe, um faz-nada que se define
profissionalmente como escritor sem nunca ter escrito nada
de relevante, uma instalação, enfim, sem utilidade até
o aparecimento do corpo estranho chamado Grace, e da série
de tensões que seu estabelecimento ali não tarda em
provocar. Neste momento, o líder Tom aparece, com suas
“virtudes”: discurso ético e moralista; sensos de
negociação, articulação e conciliação de interesses
e conflitos; opinião cambiante, mascarada de plataforma
democrática; exercício contínuo, em tempo integral, de
poder e influência; aptidão para a promoção pessoal e
para a garantia de manutenção, a qualquer custo, de seu
próprio prestígio e do status quo vigorante. Tom se
aproxima de Grace, e no início sua atração, sua vontade
de protegê-la e suas declarações constantes de amor
parecem sinceras. Tom, aliás, mereceria uma análise à
parte. O que interessa aqui, entretanto, é o jogo duplo
que comanda com Grace: trata-se do único habitante da
cidade que não chega a se servir sexualmente da
forasteira; porém, é quem a entrega a seus supostos
algozes. E é quem tapa os olhos para as crueldades
aplicadas a Grace, para ficar de bem com todos. Não tem
iniciativa para mudar nem sua vida medíocre, tampouco a
condição de submissão e opressão a que vê entregue,
em dado momento sem nem mais opor resistência, sua
“noiva” – Tom assim a considera, apesar de jamais
assumir publicamente o relacionamento. Isso só pode ser
alguma deficiência mental, uma espécie de cegueira, de
“tapação” que certos modos de convivência podem
imprimir no comportamento individual.
E
eis o rascunho, com vastos ingredientes, de um complexo
processo de dominação e construção de hegemonia. Eis
Dogville. (Eis a “América”???) O mais forte pisa no
mais fraco para se manter e se fortalecer. Do ponto de
vista do indivíduo, o comportamento padrão da personagem
Grace é de cordeiro, e depois sabemos que esta teria sido
uma opção pessoal, revogada após o resultado de sua
experiência em Dogville. Grace aceita tudo, é aviltada
constantemente, e com sua abnegação e “pureza”
(leia-se acreditar no ser humano) se enfraquece cada vez
mais. Quando toma ciência de sua condição, não há
mais como reverter o processo nem remover concessões. Ela
está escravizada. A exploração chegou ao seu limite. O
que lhe restava fazer, se a sociedade não faz autocríticas
e detém o biopoder, dispondo como quiser de sua vida, senão
esperar, agarrando-se à única ilusão (Tom) de melhoria
de suas condições sociais?
Na Recife de “Amarelo
Manga”, o quadro é tão ou ainda mais desalentador. Há
todo o movimento incessante da grande cidade. Há o caldo
importante da precariedade material e da pobreza cultural.
Há barulho e violência, não mais só aquela, digamos,
psicológica de Dogville: trata-se de uma violência de
cor forte, ritmo acelerado; é rotina, banalidade, com
doses constantes de perversidade. A violência tem sangue.
No todo dos personagens e suas relações, não há quase
nenhuma expectativa, que não a da sobrevivência. Não
tem espaço a ilusão. A realidade pesa o tempo todo,
ocupa cada cena, cada ato tem que ter um objetivo. Sobram
desencanto e sordidez. Em determinado momento, um dos
personagens do filme, o açougueiro Wellington Canibal
(Chico Díaz), brada sem titubear: “O bicho que mais
merece morrer no mundo é o ser humano”.
Até o riso ocorre por descrença, e cada manifestação
individual de vontade e desejo se dá sem a menor noção
de respeito ao próximo. O homossexual Dunga (Matheus
Nachtergaele), afetadíssimo e no entanto dissimulado e cínico,
arma toda uma situação para separar o açougueiro
Wellington, ao mesmo tempo, de sua esposa Kika (Dira Paes)
e de sua amante Dayse (Magdale Alves). Sua filosofia:
“Bicha quer, bicha faz”. Por outro lado, o único
cordeiro do filme vira lobo. Ao descobrir-se traída por
Wellington, Kika, antes crente, moça recatada e dedicada
à casa e ao marido, avança em Dayse e arranca-lhe um
pedaço da orelha. Depois, anda pela rua e dá para o
primeiro que aparece: o necrófilo Isaac (Jonas Bloch).
Sua última providência é pintar o cabelo de amarelo
(!), disposta a mudar de vida – será que casando com um
jogador de futebol?!
Na
periferia carioca, ambiente de “O homem do ano”, Máiquel
(Murilo Benício) pinta o cabelo de amarelo para pagar uma
aposta. Sente-se um novo homem.
Arruma uma confusão com o bandidão da área, Suel
(Wagner Moura), e o mata.
Atarantado, não sabe o que fazer. Tem medo. A reação
da população local o surpreende: Máiquel é olhado com
carinho pelas ruas, recebe presentes e agradecimentos.
Logo, transforma-se numa celebridade. Acaba convencido a
se profissionalizar no ofício de matar, e se convence
também: é o seu talento e a possibilidade que surgiu de
fazer fortuna que merecem ser preservados, apesar de seu
visível desconforto com a posição alcançada e com a própria
rotina de seu trabalho. (Há sempre um remorso oculto e
psicossomatizado numa dorzinha-de-cabeça. O mau humor de
Máiquel também é marcante.) O próximo passo é o
reconhecimento oficial do sucesso de sua empreitada. Máiquel
se torna empresário, na verdade um bom laranjão de uma
firma de segurança comandada por um delegado, Santana
(Carlo Mossy); e é eleito “o homem do ano”, pelos
serviços (!) prestados à comunidade. Sua utilidade,
pois, se torna incontestável, e isso é o que vale. O
resto é detalhe – inclusive o fato de ele ser um
matador. Máiquel serve a uma elite de pessoas influentes
da região, que pretendem dar uma limpeza na área e, se
possível, claro, faturar algum; para tanto, carecem de um
funcionário, que possa ser, a qualquer momento, utilizado
e descartado. O lobo, neste caso (e seria só neste?), se
confunde com o cordeiro: alimenta e é alimentado pela
violência do sistema; é criador e criado.
Já
“O homem que copiava” é um filme estranho e sutil. Em
tese, é alegre, bobinho, comercial. O ambiente é mais
clean, sem as cores pesadas dos outros filmes. Os
personagens conservam algum (falso) pudor, ao contrário
dos personagens de “O homem do ano” e “Amarelo
Manga”. Acontece que, na hora de se dar bem, todos
comparecem. Todos são lobos em pele de cordeiros –
casos de André (Lázaro Ramos), Sílvia (Leandra Leal) e
Cardoso (Pedro Cardoso) – ou lobos assumidos – como a
popozuda Marinês (Luana Piovani), que só aceita se casar
com homem rico, ou do “pai” de Sílvia (Carlos Cunha
Filho), capaz de comercializar francamente a felicidade da
filha, compactuando com um crime, e de, escondido, observá-la
tomando banho todas as noites. No decorrer da história, o
crime parece ter luz própria, numa sucessão natural de
fraudes, armações e delitos. Sem que o espectador se dê
conta, acaba por torcer pelo final feliz de um herói
(André) falsificador de dinheiro, voyeur, assaltante e
assassino. O crime está perdoado – foi o único modo de
os personagens atingirem seus objetivos pessoais, dos mais
sinceros aos mais fúteis.
A
liga que une os quatro filmes analisados é a desesperança
quanto ao resultado do viver em sociedade. A exploração,
a mediocridade, a violência, o crime são mostrados como
a linguagem pertinente à participação do indivíduo na
sociedade de mercado. A princípio, os filmes parecem
fazer uma apologia do indivíduo em seu duelo contra o
mercado, o social, o coletivo; em contrapartida, não
apontam mecanismos concretos de supressão da ordem
vigente. No rol de sentimentos que transbordam de cada um,
não sobra muito espaço para a expectativa por dias
melhores. Nenhum dos filmes têm uma proposta definida; só
há a constatação, por vieses bastante críticos. Não há,
sequer, uma contestação formal, e nem sequer a cogitação
de “um mundo melhor”. São filmes que demonstram
desnorteio, desalento, aporia, falta de perspectiva e de
soluções. A
crítica é aguda, desconsolada, triste (com exceção
d’ “O homem que copiava”), angustiada. O recado
desola: “A sociedade é perversa e não temos outro
modelo para implantar.” Não há caminhos, novas fórmulas,
novas propostas políticas.
No
entanto, tamanho desencanto pode ser encarado de outro
modo. Qualquer processo honesto de mudança para melhor
pressupõe sinceridade crítica e intelectual, no que a
arte costuma ser implacável. O cinema é uma arte
cimentada na linguagem artística visual, o que por si só
já lhe garante uma maior abrangência, visto que vivemos
o declínio da influência da manifestação artística
via palavra escrita (literatura). O cinema é uma indústria
de fôlego, com distribuição em escala mundial. Faz
parte, portanto, do sistema de relações capitalistas
internacionais. Nesse sentido, criticar, de dentro do
processo, costuma corroer mais. Um Oscar para
“Dogville”, por exemplo, simbolizaria todo um processo
de crítica e autocrítica a que vem sendo submetido o império
norte-americano, por mais que seus comandantes se esforcem
em enviar ao mundo sinais de arrogância e poder sem
limites, desde o 11 de Setembro.
Em
outro ângulo, o fim das utopias herdadas do século XIX só
reafirma a validade de uma revisão histórica que não
sabemos exatamente em que vai dar. Se as incertezas inibem
o otimismo, pressupõem o surgimento de novas
possibilidades: uma nova sociedade; um homem que não
precise necessariamente optar por ser lobo ou cordeiro. Se
é verdade que tudo pode piorar mais ainda, também é
plausível à nossa imaginação crer, a partir do vazio
ideológico de hoje, na construção de um novo sistema,
com relações de poder mais equilibradas e uma reorganização
de forças. Nesta nossa Idade do Zero, o espetáculo do
desalento pode ser o ponto inicial de uma complexa
transformação no cerne da sociedade do espetáculo,
alicerce do modelo cruel que nos trouxe o desencanto.
Esperemos, com a menor angústia possível nesses tempos
sombrios.
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