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A expressão "Última
flor do Lácio, inculta e bela" é o primeiro verso
de um famoso poema de Olavo Bilac, poeta brasileiro que
viveu no período de 1865 a 1918. Esse verso é usado para
designar o nosso idioma: a última flor é a língua
portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O
termo inculta fica por conta de todos aqueles que a
maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua
a ser bela. (Comentário retirado da internet, do site
Nossa Língua_Nossa Pátria, de Eduardo Fernandes Paes, do
qual discordo profundamente, no sentido de que « errado »
é um conceito bastante relativo : errado segundo
qual modalidade? A culta? E as outras, não têm valor?
Discuto abaixo sobre estes preconceitos tão difundidos
nas escolas e na mídia).
LÍNGUA
PORTUGUESA
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amote
assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o
teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em
que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Uma língua
“culta” ou “inculta” ?
Todos
nós sabemos que o português veio do latim “vulgar”,
sendo assim, todos nós falamos, por via de conseqüência,
uma língua inculta, obviamente. Penso que já é
hora de parar com rótulos do tipo língua
“culta” e “inculta”. Não é esse o
principal problema da língua portuguesa no Brasil de
hoje. Vejo dois problemas sobre os quais precisamos
refletir com seriedade e sem preconceitos. O primeiro
seria a postura da escola em relação à questão da
norma culta. O segundo é a falência da escola no
ensino desta mesma norma. Discuto cada um destes
problemas abaixo.
A
maioria dos
professores acredita realmente que o estudo da norma culta
é a única forma de resgatar a “verdadeira” língua
portuguesa, e consideram-na ideal pra todos. É uma postura
opressiva no sentido de que a escola mantém um discurso
autoritário ao desrespeitar os falantes das modalidades
consideradas não-padrão. As escolas têm
obtido relativo êxito ao sistematizar a norma culta para
crianças de classe média, que já convivem com esta
norma desde seu nascimento, em seu próprio ambiente
familiar. Esses alunos não se sentem desrespeitados:
acham natural aprender mais sobre a língua que usam e
como aprimorá-la. Contudo, ao lidar com alunos
provenientes de classes menos privilegiadas e que não
usam a modalidade considerada “padrão” no seu
dia-a-dia, a escola não procura meios diferenciados
para alcançar o mesmo objetivo: age de forma semelhante.
Este é o grande problema de nossas escolas, de nossos
professores e de nossos alunos. Ao apontar a norma
culta como única, a escola está hierarquizando os
falares. Por que seria a norma culta superior à norma
popular? Apenas por que é falada pelas elites dominantes?
Aqui subjaz o preconceito social, disfarçado de
preconceito lingüístico. Julga-se o aluno pelo que
ele representa, não pelo que ele é. Não só estranhamos
seu jeito de falar, muitas vezes mais bonito que o nosso,
como também rejeitamos sua origem,
classificando-o como “ignorante” ou
“pobre”. Pobre de quê?
Economicamente mais pobres, essas crianças não são
lingüisticamente mais pobres. Muitos professores
referem-se a essas crianças como incapazes de aprender a
língua culta, e, o que é pior, fazem este tipo de comentário
na presença delas próprias, inferiorizando-as.
Certamente estes mesmos alunos terão maiores problemas na
aprendizagem da língua culta: sentindo-se rejeitados e
desmotivados, não se esforçarão mais e acabarão correspondendo
às expectativas negativas, consolidando o que foi
previsto para eles. A possibilidade de sucesso para um
ensino tradicional de língua a essas crianças é
ilusória. O resultado é conhecido de todos
nós : fracasso escolar. Todas as pesquisas
mostram que pessoas das classes menos privilegiadas
continuam marginalizadas. A escola, com isso, está perpetuando
o fracasso escolar e dificultando o acesso ao
aprendizado da língua culta às camadas mais populares.
Leia-se com todas as letras : aqui a falha é da escola
e não do aluno. Contudo, o que costumeiramente se faz é mascarar
os fatos, culpando-se o aluno por seu fraco
desempenho. Faz-se necessária uma mudança de postura
já! Escola e professor precisam repensar o ensino
da língua. É urgente pensar outras maneiras de se
levar a modalidade culta a esses alunos. Como dominam a
norma popular, só têm a lucrar com o aprendizado da
norma culta. E podem contribuir com seus falares para o
resgate de uma cultura popular mais distante das
escolas.
Ensinar
a norma culta sim, oferecendo-a como uma
possibilidade a mais e não como a única a ser
valorizada pela escola. Esse é o desafio de um ensino
sério e comprometido com as mais recentes teorias
lingüísticas.
A língua como patrimônio cultural
A língua
de um povo é possivelmente seu atributo cultural mais
importante: a língua é nosso legado para as gerações
futuras. O Brasil herdou a língua do povo que o
colonizou. Por isso se valoriza tanto a língua falada em
Portugal, diz-se que lá se fala o verdadeiro português. E
aqui, falamos o falso português? Isso não
existe em língua. Este tipo de comentário chega a ser
ridículo. Mas, influenciados pela idolatria do europeu,
pela síndrome de desvalorização de que o brasileiro
sofre e cultuando tudo o que vem de fora como melhor,
acabamos por achar que devemos falar igual a eles. Por
isso, estudamos a gramática deles, com as regras deles (a
repetição, aqui, é proposital). Acho isso terrível. E
a situação é pior nas escolas, com a imposição da
norma culta sobre os diversos falares. Falo da utilização
da língua como instrumento de dominação. A
imposição de uma língua tem resultados drásticos para
as sociedades: a aculturação as fragmenta, levando-as à
perda de suas identidades lingüísticas e, conseqüentemente,
de suas raízes. Ora, se desejamos resgatar
nossas identidades e
nossas raízes, devemos lutar também contra a
dominação da norma a nós imposta.
Ao
dizermos “nossa língua, nossa pátria”,
estamos elevando a língua à sua verdadeira categoria: se
nossa pátria é o Brasil, nossa língua é o português
brasileiro! Não mudaremos nossa maneira de falar
por decretos governamentais. Por que nos prendermos a
regras do português de Portugal? Não faz sentido! Não
usamos o português à maneira deles. Herdamos a língua
deles, mas temos os nossos próprios falares. Nossa língua
reflete nosso modo ver o mundo, nosso pensamento e
nossa cultura (e não o pensamento e a cultura dos
portugueses). A diversidade lingüística é fator
precioso para a evolução das línguas. Em língua,
o belo é a alteridade, não a mesmice. Todos os falares são iguais em
valor lingüístico, pois todas as pessoas são
iguais em dignidade, e, em decorrência desse fato,
pedagogicamente, a opção potencialmente mais rica é
aquela do entendimento desta questão, que passa pela não-hierarquização
da norma culta sobre a popular, pois todas as normas são
igualmente ricas e belas. O destino das línguas
reflete uma escolha consciente de seus falantes. Por isso,
impõe-se a nós a escolha do idioma que deixaremos como
herança a nossos filhos, brasileirinhos ou brasileirinhas
nascidos em solo brasileiro: digamos sim ao português
brasileiro, inculto e belo.
Comentários para a autora : sandrakezen@fdc.br
Referências bibliográficas
BAGNO,
Marcos. Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical, mídia & exclusão social. São
Paulo: Loyola, 2000.
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Preconceito lingüístico – o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2001.
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Antonio Flavio Barbosa. Conhecimento educacional e formação do professor. São
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Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado deLetras, 1997.
VALENTE,
André. Aulas de português: perspectivas inovadoras. Petrópolis: Vozes, 1999.
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