|
A imprensa brasileira passa por uma crise
financeira sem precedentes e acirra as contradições das
elites e suas correntes de pensamento. Este fato coloca em
questão a forma de cobertura dada por esta imprensa e os
diversos interesses envolvidos na empresa jornalística,
em especial, o debate sobre a versão do fato ou a verdade
construída a partir do interesse específico.
Em recente análise sobre a cobertura dada a Alca,
verificamos as diversas tendências das coberturas sob o
aspecto ideológico e de combate ao progressista
pensamento de política externa do governo. Casos como a
revista Veja que faz campanha aberta a favor dos
interesses estadunidenses, da dissimulada Folha de São
Paulo que fez crítica pontual a ala progressista do
governo e ao Estado de São Paulo que tem interesse na
ampliação da participação do capital externo nas
empresas de comunicação, é sinal claro que há limites
de cobertura relacionados não apenas ao pensamento
particular dos proprietários dos veículos de comunicação
e suas representações no mundo da burguesia, mas também
os critérios e interesses de sobrevivência destes veículos
de comunicação.
Ainda sobre a Alca, o ultimo episódio que ganhou
espaço foi a briga entre a “Folha” e o “Estado”,
mais especificamente entre os colunistas Clóvis Rossi e
Paulo Sotero, que se engalfinharam para passar as versões
de suas fontes nas últimas rodadas de negociação.
Rossi apresentou uma cobertura mais ampla e acertada
apostando na estratégia de negociação do governo
federal e privilegiando fontes que representam o atual
pensamento do Itamaraty.
Sotero apostou na especulação e na queda de
representantes importantes como Samuel Pinheiro Guimarães
a partir da rodada de Trinidad e Tobago, no isolamento
brasileiro e na incapacidade de enfrentar o gigante
norte-americano. Informações que não se concretizaram e
diminuíram a veracidade dos fatos, embora o jornalista
mereça crédito de boa fé.
O resultado desta peleja foi a coluna de Rossi
denominando parte da imprensa como “quinta coluna”
defendendo os interesses diversos do Brasil. Outra
verificação factual verdadeira.
Todas estas observações fazem parte de um rol de
interesses das empresas jornalísticas, com muito
endividamento e dificuldades de sobrevivência. Além de o
Brasil estar vivendo um momento de viragem histórica com
a ascensão de um novo pensamento político o que alvoroça
e embaralha as idéias da sociedade, inclusive da própria
burguesia.
Posto estas questões, resta analisar a situação
das empresas de comunicação que dependem da ação
direta do governo para saírem da situação de crise,
tanto na legislação que trata do assunto como a ampliação
da participação do capital estrangeiro com o efetivo
controle acionário das empresas brasileiras, quanto o
plano de resgate das empresas a partir de empréstimos do
BNDES.
Sobre a primeira demanda do mercado jornalístico
é a pressão do capital estrangeiro interessado nos
lucros e no controle de um setor estratégico e sensível
da estrutura social brasileira, suscetível a chantagens e
campanhas de desestabilização do possível projeto
popular-desenvolvimentista. Ceder a esta reivindicação
é continuar jogando o Brasil no atoleiro dependente como
foram os projetos de privatização.
O segundo elemento deste debate, o resgate das
empresas jornalísticas através de financiamento do
BNDES, já é uma reivindicação antiga onde empresas
jornalísticas já se beneficiaram no governo FHC e hoje
se posicionam contra, como a Folha de São Paulo que
conseguiu crédito para renovar seu parque gráfico. Hoje,
Frias Filho acha que esta saída significa a subserviência
da imprensa junto ao governo, não achava isso no período
anterior. O assunto é polêmico e difícil de lidar.
Deveria o governo Lula abrir linhas de créditos para
empresas como a Globo, O Estado de São Paulo e outros
grandes monopólios da mídia?
Talvez a saída seja casada entre o resgate das
empresas brasileiras, sem interferência estrangeira e,
portanto, a sua não desnacionalização e a contrapartida
da produção de programas de maior caráter cultural e
educativo dificultando o sensacionalismo e a baixa
qualidade dos atuais programas e, mais estrategicamente,
uma fórmula que consiga ampliar as redes de comunicação
e diminuir o atual monopólio da mídia.
O mais correto, portanto, são as soluções
caseiras com nossas próprias forças sem a dependência e
interferência dos capitais e interesses estrangeiros,
pouco preocupados com o nosso desenvolvimento cultural e
social. O Brasil tem saídas e elas passam pelo projeto
popular e desenvolvimentista, de caráter nacional.
|