|
Aumentando
os limites
A importância dos alimentos e bebidas vai muito além do
“gosto do freguês”. É o condimento essencial para a
cultura de uma nação, revelando-se como recheio da
identidade regional de um determinado lugar. O turismo
utiliza este cardápio para propagar e propagandear o seu
sabor.
Educar o público-alvo para consumir o seu produto
turístico, em termos de alimentos e bebidas, é tarefa não
só dos turismólogos, mas de uma equipe interdisciplinar
que entenda de comunicação ao consumidor, que saiba
tratar um acontecimento, como a inauguração de um
restaurante, como notícia.
Com a momentânea queda da exigência de diploma
para a função de jornalista, abre-se um novo segmento e
oportunidade de trabalho para os – bons/ capacitados –
turismólogos: o jornalismo turístico e a crítica
gastronômica.
Tal abertura de mercado traz mais responsabilidades
aos profissionais de turismo que, além da técnica, terão
de mostrar boa argumentação, bom conhecimento da língua
portuguesa e da arte e técnica de escrever para ocuparem
esta página do menu possível de ser elaborado
pelos turismólogos.
Comunicação
e mercado turístico
A comunicação turística pode revelar, ao mesmo
tempo, as quatro funções do jornalismo: política, econômica,
educativa e de entretenimento, num só artigo, convidando
o leitor a degustar o turismo não apenas como um
passatempo, um sonho sem possibilidade de realizar ou algo
supérfluo, mas como algo que deve ser tratado com a
devida importância que tem para o desenvolvimento do país
e o aumento da qualidade de vida de seus cidadãos, também
leitores e consumidores. É o jornalismo que é
“uma comunicação buscada/ procurada e consciente”.
(Belau, 1966)
Frise-se
aqui que se busca a parte textual do jornalismo, e não
toda a sua abrangência. Esta é exclusiva dos
profissionais capacitados para tanto.
“A
comunicação é um processo natural, uma arte, uma
tecnologia, um sistema e uma ciência social. Ela pode ser
um instrumento de legitimação de estruturas sociais e de
governos, como também a força que os contesta e os
transforma. Ela pode ser veículo de auto-expressão e de
relacionamento entre as pessoas, mas também pode ser útil
recurso de opressão psicológica e moral. A comunicação
ensina, vende, distrai, entusiasma, dá status, constrói
mitos, destrói reputações, orienta, desorienta, faz
rir, faz chorar, inspira, narcotiza, reduz a solidão e
– num paradoxo digno de sua infinita versatilidade –
produz até incomunicação.” (Bordenave, 1984)
Além
disso, a comunicação turística pode ser incrementada
com elementos promocionais, que, partindo de fatos e dados
reais – que podem ser notícia ou não – seduzam o
paladar do leitor ao ponto de ele querer consumir aquele
lugar, aquelas comidas, aquele produto turístico. Para
Miguel Acerenza, a promoção é
“uma
atividade destinada à informação, à persuasão e à
influência sobre o cliente, na qual se incluem as
atividades de publicidade, promoção de vendas, vendas
pessoais, e outros meios, nos quais se incluem também as
relações públicas, quando estas se encontram integradas
ao processo de marketing”. (Acerenza,1985)
Boas imagens, fotografias e design gráfico
impactam e cativam mais rapidamente que um texto “nu”.
Mas este aspecto não deve ser o único a alimentar o
leitor.
Estamos numa época em que o apelo ao sensorial é
intenso. A área de alimentos e bebidas deve se valer
disto naturalmente, já que produzir agradáveis sensações
é o seu negócio. O setor de alimentos e bebidas se
comunica, primordialmente, através de sensações.
Explorar o cheiro, o sabor, o visual, a sedução através
das palavras certas é a tônica, é o tempero certo.
De acordo com Dóris Ruschmann,
“uma
comunicação dirigida à demanda turística potencial e
real é tarefa bastante complexa. Ela deve atingir um
grande número de pessoas, em regiões ou países de
estrtuturas sócio-econômicas e culturais diversas; com
diferentes necessidades, atitudes, gostos, expectativas,
padrões comportamentais, etc.
Uma comunicação eficaz, neste caso, é
aquela onde o comunicador (emissor) consegue detectar os
gostos e as preferências das pessoas (receptores),
criando imagens que as influenciem favoravelmente,
estimulando-as a viajar para uma destinação específica.
O êxito depende de como as mensagens são comunicadas,
utilizando os canais mais influentes e os meios de
comunicação mais efetivos do mercado”. (Ruschmann,
1997)
O sabor de vários saberes
A singularidade se expressa na comunicação da
diferenciação. E não só em ser unicamente saboroso.
Assim é com os pratos que encantamos o turista a saborear
ou com o produto que vendemos.
Não é diferente com aquele que, artesanalmente
– técnica nunca foi segredo! -, prepara um texto
gostoso de se ler. É nas entrelinhas que sentimos a
bagagem e o cuidado na combinação de ingredientes de
quem escreveu.
A multidisciplinaridade já faz parte do mercado. Nós,
turismólogos, constantemente trabalhamos em parceria com
arquitetos, biólogos, chefs de cuisine,
administradores, entre outros. Assim como, dependendo da
capacidade, um turismólogo pode administrar com competência
um hotel, ou montar um bom cardápio, pode escrever textos
de seu metier. Os jornalismos turístico e gastronômico,
assim como a crítica gastronômica, são o dia-a-dia de
um bom turismólogo.
O diferencial entre um turismólogo e um jornalista
é que este entende de notícia, aquele de turismo. O
profissional de turismo pode ser competente para escrever
notícias de sua área. Mesmo que tenha que ler e estudar
um pouco mais a respeito das técnicas, que não são mistérios.
Assim como um bom jornalista deve ter conhecimento da área
de turismo para não encher páginas de jornais apenas com
fotos e boxes de serviços.
“turismo
e comunicação são indissociáveis para o bom
desenvolvimento da atividade, uma vez que é somente através
da comunicação que o turista irá alcançar o produto
que deseja consumir, além de obter variadas informações
e novidades de consumo em turismo. Assim, a linguagem
jornalística facilita a compreensão do consumidor acerca
das informações pertinentes ao seu consumo turístico. Não
somente é importante o enfoque promocional, mas também
os aspectos técnicos do atrativo ou destinação turística,
fato este que poderá muito ser administrado pela comunicação”.
(Zardo, 2000)
Um texto escrito por um profissional que entenda do
recheio, da arte e da técnica terá muito mais sabor.
O jornalismo gastronômico atualmente no Brasil: uma
constatação
I
O pós-modernismo se caracteriza em fragmentos,
como se consumíssemos garfadas da realidade. Consumimos e
(na maioria das vezes), não degustamos, não saboreamos
totalmente o hoje, o prato presente.
O
jornalismo gastronômico evidencia esta atual postura.
Poucos são os textos que se aprofundam, servem um conteúdo
calórico. Os textos de maior extensão e conteúdo são
de revistas especializadas, como a Gula e a Sabor.
Em geral, o papel de chef de cuisine fica com os
renomados colunistas, que nos dão a chance de deliciosas
e saciáveis leituras. É o caso de Nina Horta, autora de
livros sobre gastronomia e expert nesta área, com
colunas em sítios da internet e em jornais escritos, além
de participações na televisão.
A grande parte dos textos de jornalismo gastronômico
é um delicioso petisco da realidade. Quanto e como um
texto assim pode educar?
Partindo-se do princípio que a leitura não é uma
simples decodificação, aquele fragmento da realidade tem
um propósito e um sentido. São receitas que compõem o
cardápio: a bagagem do autor, a do leitor, a ideologia do
jornal.
A interpretação, o gosto que cada um dos leitores
irá sentir ao provar um texto é algo singular, mas
dentro dos limites estabelecidos pelo jornalista que
“cozinhou” e “temperou”
o texto.
O influenciar, o informar e o educar se entrelaçam.
Os diferentes tipos de discurso, a distinção entre
leitura parafrástica e a polissêmica entram na confecção
e no saborear do prato. A linguagem é transformadora da
realidade e não simples mediadora.
O universo simbólico é ingrediente básico no que
se refere ao jornalismo gastronômico. A leitura requer
instrumentos para ser saboreada e digerida, e a
gastronomia em si trabalha diretamente com os sentidos e
com o prazer.
“Se
consumimos por desejo e por necessidade, significa que
consumimos não só produtos, mas também imaginários,
idealizações guardadas cuidadosamente junto ao coração
de cada um de nós, com as nossas coisas mais preciosas.
Cada um leva seu sonho no coração, cada um vê o que está
em seu coração. Então, é também ao nosso imaginário,
tão caro a nós mesmos, que os produtos podem e devem
atender, levando àquelas necessidades que estão em nosso
coração”. (Gastal, 2001)
Dentro do cenário pós-moderno, o jornalismo
gastronômico aparece como uma das traduções do
interesse contemporâneo por viver a paixão. Cada receita
é um fragmento particular, saboreado naquele momento,
contendo um brilho particular.
O gosto individual de cada um e sobre aquele
momento são subjetivos. No entanto, o jornalista pode
fornecer alguns elementos que sejam próprios do texto
jornalístico para que o leitor tenha subsídios, os
talheres, para resolver o que e como quer comer ou,
simplesmente, engolir.
II
O lead (abertura, resumo, condução da notícia)
continua a ser a parte fundamental de um texto jornalístico.
Num primeiro momento aborda os seguintes aspectos de um
determinado assunto: quem fez o quê, quando e onde. O
corpo ou desenvolvimento do texto é recheado numa
continuação de como ocorreu, porque, em que contexto e
com que resultados. Utiliza-se bastante em jornalismo
gastronômico, logo em seguida, a parte de serviço, ou
seja, indicações de nomes, endereços restaurantes, preços.
Esta construção procura enquadrar o texto dentro de um
formato mínimo para ele ser jornalístico e, ao mesmo
tempo, se manter dentro do mito da objetividade. Mito
porque é a subjetividade do jornalista que construirá o
texto dentro destas regras, e será a subjetividade do
leitor que irá digerir.
A organização das informações e a combinação
com as imagens podem ser grandes chamarizes à leitura. É
o escritor do texto quem escolhe (devendo saber escolher!)
os títulos que terão suas matérias e é quem trabalha
com as funções emotivas (apelativas) e referenciais da
linguagem. A função conativa nas manchetes e títulos em
jornalismo gastronômico não costuma deturpar a
realidade. Já o editor, em geral, é quem revisa esta
“argumentação”, este “jogo” de informações,
esta combinação entre título, fotos e texto que irá ou
não convencer o leitor, num primeiro momento, a degustar
o texto. O estilo particular do jornalista, tão podado na
imprensa atual, pode ser desenvolvido aí, assim como a
diferenciação do veículo de comunicação.
Como comenta Ciro Marcondes Filho, “notícia é a
informação transformada em mercadoria com todos os seus
apelos estéticos, emocionais e sensacionais; para isso a
informação sofre um tratamento que a adapta às normas
mercadológicas de generalização, padronização,
simplificação e negação do subjetivismo” (Marcondes
Filho, 1986).
Um outro componente fundamental em textos de
jornalismo gastronômico é a estética. Um texto bem
escrito e gostoso de ler pode ter a capacidade de fazer o
leitor “salivar” por aquele assunto. A fotografia que
acompanha os textos –
é uma extensão do que está escrito, devendo
haver uma coerência entre o que é mostrado e o que está
escrito – é de grande valia para atrair o leitor. A
aparência desperta paixão.
As receitas são momentos de prazer. Seja ao lê-las
ou ao fazê-las. O leitor, de um modo geral, não lê à
distância, mas com um arrebatamento que leva à entrega.
Com paixão, própria do pós-modernismo. O prazer aparece
com grande importância, como forma de superar o vazio de
identidade que as pessoas cada vez mais têm.
A gastronomia carrega os ingredientes criatividade
e espontaneidade. Uma receita não é absoluta, ela pode
ser alterada e variada conforme a paixão e o envolvimento
daquele que a faz e que a degusta em sua criação. Reunir
amigos para saborear um prato é um espetáculo e um
prazer posteriores às fases de leitura, degustação da
receita, envolvimento, entrega, criação e prazer que vêm
antes. A espetacularização e a busca pelo prazer, acima
do simples lazer, são características do hoje.
III
Um texto de jornalismo gastronômico pode ser um
elemento de educação quanto ao gosto e à estética,
argumentando a favor dos lugares que servem bem, que têm
atmosferas agradáveis, que primam pela elegância, pelo
bem comer e pelo bem servir; onde o exaltar dos sentidos
se faz de maneira calculada, preparada, providenciada,
pensada. São os valores contemporâneos que se servem
nestes lugares e respectivos textos.
Os temas tratados num artigo de jornalismo gastronômico
variam. Em geral, giram em torno de: etiqueta e boas
maneiras, divulgação de restaurantes, receitas e dicas,
história gastronômica e da alimentação, comida e saúde
e “causos”.
Considerações para o profissional da área
Partindo
do princípio que fomento é
“toda atividade, ação ou manifestação que se
desenvolve com o fim de criar condições adequadas para a
recepção temporária ou permanente de correntes turísticas.
O fomento será substituído ou reforçado pelas
atividades de “propaganda” e “publicidade”, as
quais nada mais são do que a continuação orgânica do
fomento inicial” (Andrade, 1992), o
profissional de turismo ao escrever um texto de sua área
estará fomentando seu trabalho, seja com fins únicos de
promoção turística ou também de informação e notícia.
A profissão de jornalista tem suas características
próprias, seus méritos próprios. Não pretendamos
entrar numa área que não nos pertence; não tivemos
formação para sermos jornalistas. Mas tomemos conta do
que, naturalmente, é nosso. Entendemos de tudo o que é
relativo ao turismo. Incluindo aí textos. O jornalista
tem como dever escrever textos. O turismólogo tem no
escrever textos de sua área um direito. A língua
portuguesa é uma ferramenta de trabalho para todos os
brasileiros alfabetizados.
O profissional da área de turismo que for escrever
textos ainda terá uma vantagem que os jornalistas, por
questão de princípio, não podem ter: estilo. O que lhes
é podado poderá ser o nosso diferencial, fazendo de um
texto no máximo agridoce, com pitadas do que não é da
nossa profissão: as técnicas de notícia. Mas sempre
separando o doce do salgado. Cada um com o seu papel, cada
um com o seu porquê.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ACERENZA,
Miguel Angel. Promoção turística – um enfoque metodológico.
São Paulo: Pioneira, 1991.
ANDRADE,
José Vicente de. Turismo – fundamentos e dimensões.
São Paulo: Ática, 1992.
BELAU, Angel Faus. La
ciencia periodística de Otto Groth. Pamplona:
Instituto de Periodismo de la Universidad de Navarra,
1966.
BORDENAVE,
Juan. Além dos meios e mensagens. Petrópolis,
Vozes, 1984.
CONNOR,
Steven. Cultura Pós-Moderna. São Paulo: Edições
Loyola, 1993.
GASTAL,
Susana. Turismo na pós-modernidade: agregando Imaginários.
Fortaleza: Cbetur, 2001.
GUIMARÃES,
Marian. Cross Training Café oferece alimentação saudável.
Disponível em: www.gazetadopovo.com/verao.
HENRI,
Marie-France. França, a grande dama da cozinha.
Disponível
em: www.basilico.com.br.
MARCONDES
FILHO, Ciro. O capital da notícia. S.P: Ática,
1986.
MELO,
Josimar. Vinhos e comida: um casamento feliz.
Disponível
em:www.basilico.com.br/cultura/arte.
MERGUIZZO,
Marco Aurélio. Para refrescar a alma. Sabor, São
Paulo: no. 9, 58-61, novembro de 2000.
PETTA,
Eduardo. O refúgio da noviça. Gula, São Paulo,
no. 103, 76-79, Maio de 2001.
ROSSI,
Clóvis. O que é jornalismo. S.P: Editora
Brasiliense, 1981.
RUSCHMANN, Doris. Marketing turístico – um enfoque promocional. Campinas:
Papirus, 1991.
ZAJDSZNAJDER,
Luciano. Travessia do pós-modenismo. Rio de
Janeiro: Gryphus Editora,1992.
ZARDO,
Eduardo. Respostas de questionário. Curitiba,
outubro de 2000.
|