ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.40 dezembro de 2003

  Principal
 Agenda
 Comportamento
 Cotidiano
 Cultura
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Esportes
 Humor
 Links
 Nossa Língua
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Crônicas
 Política
 Reflexão
 Serviços
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Expediente
 Fale Conosco
   Especiais
 SP 450 anos
 Gilberto Freyre
 Igrejas
 Meio Ambiente
 Assédio Moral
::Turismo::
O JORNALISMO TURÍSTICO E A CRÍTICA GASTRONÔMICA: CAMPO DE PESQUISA E ATUAÇÃO PARA OS TURISMÓLOGOS
por
Ana Marina Godoy

RESUMO:
O objetivo deste trabalho é evidenciar a forte ligação entre o turismo e a comunicação – especialmente o jornalismo, como meio para a veiculação de informações – é a tônica do texto, colocando como motivo de reflexões a idéia de ter o jornalismo turístico e a crítica gastronômica como campo de pesquisa e atuação para os turismólogos. 
Palavras-chave: turismo, comunicação, jornalismo, jornalismo turístico, crítica gastronômica.

Mercado Municipal Paulistano - São Paulo - Projeto de Requalificação


Aumentando os limites

A importância dos alimentos e bebidas vai muito além do “gosto do freguês”. É o condimento essencial para a cultura de uma nação, revelando-se como recheio da identidade regional de um determinado lugar. O turismo utiliza este cardápio para propagar e propagandear o seu sabor.

         Educar o público-alvo para consumir o seu produto turístico, em termos de alimentos e bebidas, é tarefa não só dos turismólogos, mas de uma equipe interdisciplinar que entenda de comunicação ao consumidor, que saiba tratar um acontecimento, como a inauguração de um restaurante, como notícia.

         Com a momentânea queda da exigência de diploma para a função de jornalista, abre-se um novo segmento e oportunidade de trabalho para os – bons/ capacitados – turismólogos: o jornalismo turístico e a crítica gastronômica.

         Tal abertura de mercado traz mais responsabilidades aos profissionais de turismo que, além da técnica, terão de mostrar boa argumentação, bom conhecimento da língua portuguesa e da arte e técnica de escrever para ocuparem esta página do menu possível de ser elaborado pelos turismólogos.

Comunicação e mercado turístico

A comunicação turística pode revelar, ao mesmo tempo, as quatro funções do jornalismo: política, econômica, educativa e de entretenimento, num só artigo, convidando o leitor a degustar o turismo não apenas como um passatempo, um sonho sem possibilidade de realizar ou algo supérfluo, mas como algo que deve ser tratado com a devida importância que tem para o desenvolvimento do país e o aumento da qualidade de vida de seus cidadãos, também leitores e consumidores. É o jornalismo que é 
“uma comunicação buscada/ procurada e consciente”.  (Belau, 1966) 

Frise-se aqui que se busca a parte textual do jornalismo, e não toda a sua abrangência. Esta é exclusiva dos profissionais capacitados para tanto. 

“A comunicação é um processo natural, uma arte, uma tecnologia, um sistema e uma ciência social. Ela pode ser um instrumento de legitimação de estruturas sociais e de governos, como também a força que os contesta e os transforma. Ela pode ser veículo de auto-expressão e de relacionamento entre as pessoas, mas também pode ser útil recurso de opressão psicológica e moral. A comunicação ensina, vende, distrai, entusiasma, dá status, constrói mitos, destrói reputações, orienta, desorienta, faz rir, faz chorar, inspira, narcotiza, reduz a solidão e – num paradoxo digno de sua infinita versatilidade – produz até incomunicação.” (Bordenave, 1984)

Além disso, a comunicação turística pode ser incrementada com elementos promocionais, que, partindo de fatos e dados reais – que podem ser notícia ou não – seduzam o paladar do leitor ao ponto de ele querer consumir aquele lugar, aquelas comidas, aquele produto turístico. Para Miguel Acerenza, a promoção é 

“uma atividade destinada à informação, à persuasão e à influência sobre o cliente, na qual se incluem as atividades de publicidade, promoção de vendas, vendas pessoais, e outros meios, nos quais se incluem também as relações públicas, quando estas se encontram integradas ao processo de marketing”. (Acerenza,1985)  

         Boas imagens, fotografias e design gráfico impactam e cativam mais rapidamente que um texto “nu”. Mas este aspecto não deve ser o único a alimentar o leitor.

         Estamos numa época em que o apelo ao sensorial é intenso. A área de alimentos e bebidas deve se valer disto naturalmente, já que produzir agradáveis sensações é o seu negócio. O setor de alimentos e bebidas se comunica, primordialmente, através de sensações. Explorar o cheiro, o sabor, o visual, a sedução através das palavras certas é a tônica, é o tempero certo.  

         De acordo com Dóris Ruschmann,  

“uma comunicação dirigida à demanda turística potencial e real é tarefa bastante complexa. Ela deve atingir um grande número de pessoas, em regiões ou países de estrtuturas sócio-econômicas e culturais diversas; com diferentes necessidades, atitudes, gostos, expectativas, padrões comportamentais, etc.

Uma comunicação eficaz, neste caso, é aquela onde o comunicador (emissor) consegue detectar os gostos e as preferências das pessoas (receptores), criando imagens que as influenciem favoravelmente, estimulando-as a viajar para uma destinação específica. O êxito depende de como as mensagens são comunicadas, utilizando os canais mais influentes e os meios de comunicação mais efetivos do mercado”. (Ruschmann, 1997) 

O sabor de vários saberes

         A singularidade se expressa na comunicação da diferenciação. E não só em ser unicamente saboroso. Assim é com os pratos que encantamos o turista a saborear ou com o produto que vendemos.

         Não é diferente com aquele que, artesanalmente – técnica nunca foi segredo! -, prepara um texto gostoso de se ler. É nas entrelinhas que sentimos a bagagem e o cuidado na combinação de ingredientes de quem escreveu.

         A multidisciplinaridade já faz parte do mercado. Nós, turismólogos, constantemente trabalhamos em parceria com arquitetos, biólogos, chefs de cuisine, administradores, entre outros. Assim como, dependendo da capacidade, um turismólogo pode administrar com competência um hotel, ou montar um bom cardápio, pode escrever textos de seu metier. Os jornalismos turístico e gastronômico, assim como a crítica gastronômica, são o dia-a-dia de um bom turismólogo.

         O diferencial entre um turismólogo e um jornalista é que este entende de notícia, aquele de turismo. O profissional de turismo pode ser competente para escrever notícias de sua área. Mesmo que tenha que ler e estudar um pouco mais a respeito das técnicas, que não são mistérios. Assim como um bom jornalista deve ter conhecimento da área de turismo para não encher páginas de jornais apenas com fotos e boxes de serviços. 

“turismo e comunicação são indissociáveis para o bom desenvolvimento da atividade, uma vez que é somente através da comunicação que o turista irá alcançar o produto que deseja consumir, além de obter variadas informações e novidades de consumo em turismo. Assim, a linguagem jornalística facilita a compreensão do consumidor acerca das informações pertinentes ao seu consumo turístico. Não somente é importante o enfoque promocional, mas também os aspectos técnicos do atrativo ou destinação turística, fato este que poderá muito ser administrado pela comunicação”. (Zardo, 2000) 

         Um texto escrito por um profissional que entenda do recheio, da arte e da técnica terá muito mais sabor. 

O jornalismo gastronômico atualmente no Brasil: uma constatação
I         
O pós-modernismo se caracteriza em fragmentos, como se consumíssemos garfadas da realidade. Consumimos e (na maioria das vezes), não degustamos, não saboreamos totalmente o hoje, o prato presente.

          O jornalismo gastronômico evidencia esta atual postura. Poucos são os textos que se aprofundam, servem um conteúdo calórico. Os textos de maior extensão e conteúdo são de revistas especializadas, como a Gula e a Sabor. Em geral, o papel de chef de cuisine fica com os renomados colunistas, que nos dão a chance de deliciosas e saciáveis leituras. É o caso de Nina Horta, autora de livros sobre gastronomia e expert nesta área, com colunas em sítios da internet e em jornais escritos, além de participações na televisão.

         A grande parte dos textos de jornalismo gastronômico é um delicioso petisco da realidade. Quanto e como um texto assim pode educar?

         Partindo-se do princípio que a leitura não é uma simples decodificação, aquele fragmento da realidade tem um propósito e um sentido. São receitas que compõem o cardápio: a bagagem do autor, a do leitor, a ideologia do jornal.

         A interpretação, o gosto que cada um dos leitores irá sentir ao provar um texto é algo singular, mas dentro dos limites estabelecidos pelo jornalista que “cozinhou” e  “temperou” o texto.

         O influenciar, o informar e o educar se entrelaçam. Os diferentes tipos de discurso, a distinção entre leitura parafrástica e a polissêmica entram na confecção e no saborear do prato. A linguagem é transformadora da realidade e não simples mediadora.

         O universo simbólico é ingrediente básico no que se refere ao jornalismo gastronômico. A leitura requer instrumentos para ser saboreada e digerida, e a gastronomia em si trabalha diretamente com os sentidos e com o prazer.

 

“Se consumimos por desejo e por necessidade, significa que consumimos não só produtos, mas também imaginários, idealizações guardadas cuidadosamente junto ao coração de cada um de nós, com as nossas coisas mais preciosas. Cada um leva seu sonho no coração, cada um vê o que está em seu coração. Então, é também ao nosso imaginário, tão caro a nós mesmos, que os produtos podem e devem atender, levando àquelas necessidades que estão em nosso coração”. (Gastal, 2001) 

         Dentro do cenário pós-moderno, o jornalismo gastronômico aparece como uma das traduções do interesse contemporâneo por viver a paixão. Cada receita é um fragmento particular, saboreado naquele momento, contendo um brilho particular.

         O gosto individual de cada um e sobre aquele momento são subjetivos. No entanto, o jornalista pode fornecer alguns elementos que sejam próprios do texto jornalístico para que o leitor tenha subsídios, os talheres, para resolver o que e como quer comer ou, simplesmente, engolir.

                                                        II

         O lead (abertura, resumo, condução da notícia) continua a ser a parte fundamental de um texto jornalístico. Num primeiro momento aborda os seguintes aspectos de um determinado assunto: quem fez o quê, quando e onde. O corpo ou desenvolvimento do texto é recheado numa continuação de como ocorreu, porque, em que contexto e com que resultados. Utiliza-se bastante em jornalismo gastronômico, logo em seguida, a parte de serviço, ou seja, indicações de nomes, endereços restaurantes, preços. Esta construção procura enquadrar o texto dentro de um formato mínimo para ele ser jornalístico e, ao mesmo tempo, se manter dentro do mito da objetividade. Mito porque é a subjetividade do jornalista que construirá o texto dentro destas regras, e será a subjetividade do leitor que irá digerir.

         A organização das informações e a combinação com as imagens podem ser grandes chamarizes à leitura. É o escritor do texto quem escolhe (devendo saber escolher!) os títulos que terão suas matérias e é quem trabalha com as funções emotivas (apelativas) e referenciais da linguagem. A função conativa nas manchetes e títulos em jornalismo gastronômico não costuma deturpar a realidade. Já o editor, em geral, é quem revisa esta “argumentação”, este “jogo” de informações, esta combinação entre título, fotos e texto que irá ou não convencer o leitor, num primeiro momento, a degustar o texto. O estilo particular do jornalista, tão podado na imprensa atual, pode ser desenvolvido aí, assim como a diferenciação do veículo de comunicação.  Como comenta Ciro Marcondes Filho, “notícia é a informação transformada em mercadoria com todos os seus apelos estéticos, emocionais e sensacionais; para isso a informação sofre um tratamento que a adapta às normas mercadológicas de generalização, padronização, simplificação e negação do subjetivismo” (Marcondes Filho, 1986).  

         Um outro componente fundamental em textos de jornalismo gastronômico é a estética. Um texto bem escrito e gostoso de ler pode ter a capacidade de fazer o leitor “salivar” por aquele assunto. A fotografia que acompanha os textos –  é uma extensão do que está escrito, devendo haver uma coerência entre o que é mostrado e o que está escrito – é de grande valia para atrair o leitor. A aparência desperta paixão.

         As receitas são momentos de prazer. Seja ao lê-las ou ao fazê-las. O leitor, de um modo geral, não lê à distância, mas com um arrebatamento que leva à entrega. Com paixão, própria do pós-modernismo. O prazer aparece com grande importância, como forma de superar o vazio de identidade que as pessoas cada vez mais têm.

         A gastronomia carrega os ingredientes criatividade e espontaneidade. Uma receita não é absoluta, ela pode ser alterada e variada conforme a paixão e o envolvimento daquele que a faz e que a degusta em sua criação. Reunir amigos para saborear um prato é um espetáculo e um prazer posteriores às fases de leitura, degustação da receita, envolvimento, entrega, criação e prazer que vêm antes. A espetacularização e a busca pelo prazer, acima do simples lazer, são características do hoje.                                                         III

         Um texto de jornalismo gastronômico pode ser um elemento de educação quanto ao gosto e à estética, argumentando a favor dos lugares que servem bem, que têm atmosferas agradáveis, que primam pela elegância, pelo bem comer e pelo bem servir; onde o exaltar dos sentidos se faz de maneira calculada, preparada, providenciada, pensada. São os valores contemporâneos que se servem nestes lugares e respectivos textos.

         Os temas tratados num artigo de jornalismo gastronômico variam. Em geral, giram em torno de: etiqueta e boas maneiras, divulgação de restaurantes, receitas e dicas, história gastronômica e da alimentação, comida e saúde e “causos”.  

Considerações para o profissional da área

Partindo do princípio que fomento é  

“toda atividade, ação ou manifestação que se desenvolve com o fim de criar condições adequadas para a recepção temporária ou permanente de correntes turísticas. O fomento será substituído ou reforçado pelas atividades de “propaganda” e “publicidade”, as quais nada mais são do que a continuação orgânica do fomento inicial” (Andrade, 1992), o profissional de turismo ao escrever um texto de sua área estará fomentando seu trabalho, seja com fins únicos de promoção turística ou também de informação e notícia.

A profissão de jornalista tem suas características próprias, seus méritos próprios. Não pretendamos entrar numa área que não nos pertence; não tivemos formação para sermos jornalistas. Mas tomemos conta do que, naturalmente, é nosso. Entendemos de tudo o que é relativo ao turismo. Incluindo aí textos. O jornalista tem como dever escrever textos. O turismólogo tem no escrever textos de sua área um direito. A língua portuguesa é uma ferramenta de trabalho para todos os brasileiros alfabetizados.

O profissional da área de turismo que for escrever textos ainda terá uma vantagem que os jornalistas, por questão de princípio, não podem ter: estilo. O que lhes é podado poderá ser o nosso diferencial, fazendo de um texto no máximo agridoce, com pitadas do que não é da nossa profissão: as técnicas de notícia. Mas sempre separando o doce do salgado. Cada um com o seu papel, cada um com o seu porquê.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACERENZA, Miguel Angel. Promoção turística – um enfoque metodológico. São Paulo: Pioneira, 1991.

ANDRADE, José Vicente de. Turismo – fundamentos e dimensões.  São Paulo: Ática, 1992.

BELAU, Angel Faus. La ciencia periodística de Otto Groth. Pamplona: Instituto de Periodismo de la Universidad de Navarra, 1966.

BORDENAVE, Juan. Além dos meios e mensagens. Petrópolis, Vozes, 1984.

CONNOR, Steven. Cultura Pós-Moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1993.

GASTAL, Susana. Turismo na pós-modernidade: agregando  Imaginários. Fortaleza: Cbetur, 2001.

GUIMARÃES, Marian. Cross Training Café oferece alimentação saudável. Disponível em: www.gazetadopovo.com/verao.

HENRI, Marie-France. França, a grande dama da cozinha.

Disponível em: www.basilico.com.br.  

MARCONDES FILHO, Ciro. O capital da notícia. S.P: Ática, 1986.

MELO, Josimar. Vinhos e comida: um casamento feliz.

Disponível em:www.basilico.com.br/cultura/arte.

 MERGUIZZO, Marco Aurélio. Para refrescar a alma. Sabor, São Paulo: no. 9, 58-61, novembro de 2000.  

PETTA, Eduardo. O refúgio da noviça. Gula, São Paulo, no. 103, 76-79, Maio de 2001.

ROSSI, Clóvis. O que é jornalismo. S.P: Editora Brasiliense, 1981.

RUSCHMANN, Doris. Marketing turístico – um enfoque promocional.  Campinas: Papirus, 1991.

ZAJDSZNAJDER, Luciano. Travessia do pós-modenismo. Rio de Janeiro: Gryphus Editora,1992.

ZARDO, Eduardo. Respostas de questionário. Curitiba, outubro de 2000.

::educação::
INCULTO E BELO : BEM-VINDOS AO PORTUGUÊS BRASILEIRO
por
Sandra Kezen 
sobreoautor.jpg (6467 bytes)

Ana Marina Godoy é formada em Turismo pela Universidade Federal do Paraná, ênfase em Planejamento Turístico Municipal
anamarinagodoy@ig.com.br

ABSTRACT:
The aim of this paper is to evidence the strong vinculation between tourism and communication – specially the journalism, entended as na information vehicle – the paper concenters on the idea that the touristic journalism joined with the gastronomic critics would be an excellent area of the practical actuation and scientific research for professionals on tourism.
Keywords: tourism, communication, journalism, touristic journalism, gastronomic critic.

institucional

ajude.jpg (10331 bytes)

 

© copyright revista partes 2000-2003
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil