ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.41 janeiro de 2004

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Deixem a língua em paz - Uma reflexão sobre os estrangeirismos 
por Sandra Kezen

 

Neste artigo explico por que os estrangeirismos fazem parte da evolução das línguas e não devem ser encarados com medo de que descaracterizem nosso idioma ou desconfiança pela «invasão» dos novos termos em inglês.  

Muitas pessoas acreditam que atualmente se fala o pior português de todos os tempos. Ora, isso não é novidade: em todas as épocas, os mais velhos acham que os jovens estão «assassinando» a língua e que no tempo deles é que se falava bem.  O que essas pessoas nem imaginam é que esssas mudanças fazem parte do processo natural de evolução das línguas. Se não houvesse mudança lingüística, estaríamos até hoje falando o latim. 

 

As línguas indo-européias 

O latim pertence às chamadas línguas itálicas, que eram faladas antes de Cristo na península de mesmo nome. Por sua vez, as ditas línguas otálicas pertenciam ao indo-europeu, que deu origem a quase todas as línguas faladas na Europa. Além do latim, são indo-européias :

-          as línguas célticas (irlandês, inglês, escocês);

-          as línguas germânicas (alemão, inglês, holandês);

-          as línguas eslavas (russo, polaco, tcheco, búlgaro e servo-croata);

-          as línguas escandinavas;

-          o grego;

-          o albanês. 

As línguas que se falam e falaram na Europa que não pertencem à família indo-européia são: o etrusco(desaparecido), o finlandês, o lapão, o estoniano, o húngaro e o vascuense. Fora da Europa, pertencem ao tronco indo-europeu o grupo das línguas indus e a persa. 

 

As línguas neolatinas 

A língua portuguesa proveio do latim vulgar que os romanos introduziram na Lusitânia, região situada a oeste da Península Ibérica. Seguiu-se então um processo de romanização da região, com a imposição do latim como língua oficial. No entanto, o latim levado a essas regiões era o popular (ou vulgar), uma língua dinâmica, em constante evolução, falada por soldados e por pessoas que provinham de vários lugares, o que a tornara diferente da língua falada em Roma.

Além disso, os povos conquistados já possuíam uma língua e, ao serem obrigados a usar o latim, modificavam a pronúncia, incoeporavam ao vocabulário latino palavras suas, resultando disso uma língua, desenvolvida com o tempo, que não era exatamente o latim.

Posteriormente, os árabes, mouros, dominaram a Península,  e o árabe foi adotado como língua oficial. Contudo, o latim, agora mais modificado ainda (romanço), continuou a ser a língua falada pelos vencidos. Isto se explica pelo fato de o árabe ser um idioma completamente diferente do que falavam. Houve o respeito aos costumes dos vencidos.

Nesta região acima referida, formou-se um dialeto chamado galaico-português. Com a independência política do Condado Portugalense (hoje Portugal) da Galiza, o português separou-se do galego.

Pose-se afirmar, com mais propriedade, que o português é o próprio latim modificado. 

 

Formação e influências 

No caso particular do português, com sua enorme área geográfica de expansão, temos que levar em conta alguns dados: o vocabulário vernáculo fundamental é constituído de palavras provenientes do latim e do grego, mas também de palavras de origem árabe, germânica , galega, inglesa, francesa, italiana, entre outras.

No caso específico do português brasileiro, não podemos deixar de mencionar as palavra de origem indígena e africana.  

 

A existência de estrangeirismos 

Como a nossa língua é uma colcha de retalhos ainda por terminar, é de se estranhar o preconceito contra as palavras estrangeiras que incorporamos ao nosso vocabulário do dia-a-dia. As próprias gramáticas normativas listam exemplos de estrangeirismos agregados ao nosso léxico, já devidamente aportuguesados ou abrasileirados.

Contudo, algumas pessoas que não estudam profundamente os fenômenos lingüísticos que fazem parte da evolução natural das línguas, acham que atualmente está havendo uma exagerada influência do inglês devido à tão–chamada globalização. Essa assimilação não implica substituição de nossa língua-mãe por outra, no caso o inglês, de modo algum. Ao contrário, como somos em maior número que os falantes nativos da língua inglesa, nós é que estamos provocando mudanças nela. David Crystall, o grande lingüista inglês, fala da « Mudança Lingüística » pela qual o inglês está passando, pelo contato com as outras línguas. A língua inglesa está passando por mudanças no léxico, com a aquisição de palavras de origem latina; na pronúncia, com a modificação da tonicidade típica da língua inglesa à semelhança das línguas latinas e com o fenômeno da vocalização, que é o acréscimo de uma vogal ao final de uma palavra que termine com consoante; nas expressões idiomáticas (uso da língua) e na postura  em relação aos falantes não-nativos do idioma inglês, com mais tolerância e menos preconceito, numa atitude de quem está vendo o óbvio: todas as línguas passam por mudanças e não há como impedir este fato.

É essa a verdade: as línguas latinas é que estão mudando o inglês, e não o contrário. Portanto, é hora de acabar com esse preconceito tolo contra quaisquer línguas estrangeiras, afinal, não vieram todas de uma mesma e única língua-mãe?

Comentários para a autora : sandrakezen@fdc.br

 

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Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
Comentários para a autora : sandrakezen@fdc.br

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