ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.41 janeiro de 2004

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::Política::
Revezamento democrático
por
Adilson Luiz Gonçalves

Foto: Jaqueline Novaes

Revoluções, golpes e radicalismo não rimam com democracia! Mas cobranças são naturais e recíprocas, sobretudo no meio político. Quem se dispõe a participar tem que estar preparado para conviver, relevar ou tirar proveito delas.  

As correntes ideológicas podem ser diferentes, mas a prática democrática demonstra que situação e oposição são estágios cíclicos, que os governos se alternam sem grandes alterações sistêmicas e que o discurso e as teses variam de acordo com a posição ocupada no momento. Ora se é "pedra", ora se é "vidraça"!

Obviamente, quanto mais e por mais tempo se é pedra, maior será a cobrança quando as posições se inverterem.

É o caso do Governo "Lula"!

O PT era um partido "geneticamente" radical e cheio de rancor (muitos de seus membros portavam traumas físicos e psicológicos adquiridos ou agravados na ditadura). Com um discurso bem-intencionado, embora algo anacrônico e intimamente ligado a modelos totalitários de esquerda, a dificuldade em estabelecer uma relação conciliadora entre a utopia socialista e a prática democrática motivou alguns fracassos comprometedores. Havia mais opiniões do que conclusões.

A derrocada da União Soviética e seu "efeito dominó" sobre seus satélites, foi um a dura perda de referência, mas gerou uma saudável reformulação que, no entanto, não agradou a alguns "intelectuais" e filiados de primeira hora, que preferiam manter os ideais revolucionários, de "luta de classes" e outros motes. Mas a idéia de "governo revolucionário" não passa de uma figura de retórica, que usa das mesmas armas e artifícios de qualquer governo de exceção, com o único objetivo de obter e manter poder pela força. Derruba elites aristocráticas e burguesas, mas cria "elites" burocráticas laicas ou religiosas. E toda a revolução semeia uma contra-revolução.

O PT, após muitos percalços, chegou a conclusão elementar de que para mudar o país é preciso estar dentro e não em paralelo. Esse processo reduziu progressivamente a rejeição popular ao PT e culminou com a eleição de Lula.

Hoje governo, o PT prossegue sua "reengenharia" cortando a própria carne (enquadrando ou, infelizmente, expulsando personagens históricos, emblemáticos e coerentes) e flertando com "santos e lobisomens" para construir uma base de apoio consistente. Em vez de radicalismo, busca a estabilidade; em vez de atitudes abruptas e temerárias, até exagera nas negociações e acordos.

Seus opositores, naturalmente, devolvem na mesma moeda as críticas que recebiam, acusando o PT de empreguista, fisiologista, ineficiente, recessivo e incoerente.

Infelizmente, são raros os exemplos de governos, em qualquer país do mundo, que não carreguem essa pecha; e muitos os governantes que, com palavras ou atos, pedem para esquecer tudo o que escreveram ou disseram, antes.

No caso do empreguismo, principalmente, a desculpa é sempre a mesma: o funcionalismo público é arcaico, ineficiente, incompetente, corrupto e acomodado.

É? Bem, se não for, qual será a desculpa que os governantes terão para inchar os quadros públicos com cabos eleitorais, correligionários, parentes, amigos, credores e toda a sorte de aduladores, viventes ou fantasmas?

O curioso é que após qualquer mudança de governo todos os “competentes” do anterior cedem lugar aos “competentes” do novo, que afirmam que tudo estava errado! E dá-lhe reforma administrativa! Dizem que é para mudar a cara do governo... Haja paciente para agüentar tanta cirurgia plástica!

No caso do PT, principalmente, ainda havia a crítica de que seu modelo de gestão partidária era financiado pelos salários públicos, e que seus quadros eram semelhantes a gafanhotos. Só que os críticos desse "modelo" nunca oferecem outra alternativa que não fosse a "ação entre amigos". Em ambos os casos, a população só perde!

Mas talvez a maior frustração dos opositores mais ferrenhos do atual governo seja o fato do Presidente Lula não estar "metendo os pés pelas mãos". Daí a insistência de alguns em enfatizar seus os deslizes lingüísticos e protocolares.

Seu primeiro ano pode ter sido um ano sem impactos bombásticos - ao menos não além do que estamos acostumados -, mas ao menos não foi um ano de sustos, o que já é um mérito!

O Brasil tem muitos problemas e nem o PT, nem nenhum partido político, de qualquer vertente, conseguirá solucioná-los por decreto, estalo de dedos ou varinha de condão, muito menos em quatro anos. Governar é uma corrida de revezamento, com obstáculos, e não de cem metros rasos!

A disputa entre partidos nem sempre visa o bem da Nação; normalmente, busca o bem de seus correligionários e financiadores. A postura "camaleônica" da maioria dos políticos também não os credencia como pessoas íntegras e confiáveis, mas seu afã em desacreditar seus antagonistas tem o subproduto útil de inibir irregularidades.

Um ano de governo é um período suficientemente longo para justificar a cobrança de promessas de campanha, mas muito curto para mudanças consistentes, eficazes e duradouras. Não há mais espaço para encilhamentos e empirismos econômicos.

É inegável, mesmo para os mais radicais, que a eleição de Lula foi um marco - talvez o mais significativo - na história da democracia brasileira. Existem frustrados dos dois lados, mas existe a certeza de que o processo democrático é um imenso e intenso aprendizado e aperfeiçoamento, que envolve, inclusive, a coragem de reconhecer e dar continuidade às boas iniciativas do antecessor, e a grandeza de não solapar, quando derrotado pela vontade popular, o terreno do sucessor.

Quem defende e prefere o radicalismo é porque não tem competência para lutar com as "armas" da lógica e do bom senso!

O que os políticos precisam entender, estejam de um lado ou de outro, é que enquanto fazer oposição ou ser aliado resumir-se a: devolver na mesma moeda, buscar “trinta moedas” ou encher o bolso com elas; o país e seu povo nunca serão valorizados como desejam e merecem!

::lei da reciprocidade::

O PACIENTE AMERICANO

 por Adilson Luiz Gonçalves

A maioria dos jornais estampou, nas primeiras páginas de 2004, a indignação dos turistas dos EUA ao receberem, no Brasil, o mesmo tratamento “profilático” dispensado aos brasileiros que viajam ao seu país.

“Tadinhos”! Eles não estão acostumados à terapia de choque.

Se analisarmos a situação sem paixões, até que o controle de acesso aos EUA é justificado, pois eles estão sob risco de ataques terroristas. Não que eles tenham alguma culpa disso, afinal sua conduta internacional é exemplar e sua diplomacia extremamente cordial e defensora da autodeterminação dos povos.

Eles podem desconfiar das verdadeiras intenções dos outros, mas não há porque questionar a lisura, puritanismo, firmeza de caráter e boas intenções dos cidadãos estadunidenses do norte que nos visitam!

A causa dessa indignação também faz sentido se fizermos uma analogia com seus equivalentes históricos; afinal, os cidadãos romanos tinham privilégios e trânsito livre em todo o império. O mesmo ocorria com os franceses, no tempo de Napoleão, e ingleses, no período vitoriano.

Seguindo essa linha, a atitude de “fichar” egressos dos EUA é, para eles, realmente ultrajante!

Agora, fazer o mesmo em suas fronteiras é um ato de defesa plenamente justificado, mesmo que isso contradiga os princípios “democráticos” e “libertários”, que tanto orgulham – e, por vezes, cegam - seu povo.

Viver com medo é difícil! Que o digam os povos dos países que vivem à sombra do poder sem limites e dos interesses econômicos e estratégicos de eminências, cada vez menos, pardas.

“Quem com ferro fere, com ferro será ferido!”, diz um ditado; “Olho por olho, dente por dente!”, afirma outro; e a máxima do atual governo dos EUA é punir exemplarmente qualquer um que afronte sua supremacia. Todos são fermento do ciclo vicioso do revide!

O problema é que eles sempre se deram melhor em conflitos abertos, como os que eram travados até o século XIX, com hora e lugar certo, rufar de tambores e cordialidade entre comandantes inimigos. Quando se trata de guerrilha urbana, terrorismo e selva eles ainda não encontraram uma fórmula ideal. A alternativa atual é o comportamento hipocondríaco: o gigante saudável e forte é capaz de combater em qualquer parte do mundo, com armamentos formidáveis, sejam convencionais, nucleares ou químicos; mas não consegue sentir-se seguro dentro de suas próprias fronteiras, temendo um “vírus”.

Na verdade, o “calcanhar de Aquiles” do governo Bush não é a segurança interna, mas sim sua política internacional. O resultado é que o paciente continua sofrendo com um diagnóstico errado, enquanto a doença prolifera!

Globalização com epicentro em Washington ou Nova Iorque; democracia, para uso interno, e xenofobia para dar e vender, num mundo sem fronteiras para eles!

Se as potências anteriores quiseram assim, por quê não eles?

Pensando bem, eles estão corretos em controlar o acesso de estrangeiros aos EUA! Se todos os povos tivessem feito o mesmo não teria ocorrido o colonialismo predatório da Era Moderna - que tem efeitos negativos até hoje; os agentes da CIA e da KGB, e seus antecessores do serviço secreto britânico, GESTAPO etc., não teriam fomentado e financiado golpes de estado na América do Sul, África e Ásia; as imigrações teriam sido proibidas. Assim, talvez os EUA não fossem o que são hoje; talvez a Europa já tivesse se consumido em guerras internas; talvez o Roma ainda fosse o centro do mundo; ou talvez ainda estivéssemos na Idade da Pedra!

Na Medicina, vacinas são obtidas a partir do próprio agente patológico e antídotos são produzidos a partir de veneno letal. No âmbito da Psiquiatria, é fundamental desvendar os fatores pregressos, que motivaram um distúrbio comportamental. O objetivo de ambos é curar ou neutralizar as causas antes que seus efeitos sejam irreversíveis. A profilaxia também é indispensável como elemento preventivo; mas não é se isolando numa redoma, paranóicos, e manipulando o mundo, megalomaníacos, com braços mecânicos e amputações cirúrgicas que os EUA conseguirão viver sem medo!

É anseio de todos erradicar o mundo de doenças. O mesmo vale para a violência! Nesse caso é preciso administrar, indiscriminadamente, vacinas antiarrogância e antipreconceito. Infelizmente, ainda se investe muito pouco nessa área de pesquisa, pelo “baixo retorno financeiro”; e nada, atualmente, tem feito mais mal aos EUA do que as atitudes de seus governantes e financiadores! O tecido que tentam “enxertar” no mundo tem gerado tanta rejeição, que os “medicamentos” adotados tendem a comprometer a integridade do “paciente” em vez de assegurar sua assimilação.

Se o governo Bush quer eliminar o terrorismo antiamericano do mundo deve, antes, administrar essas vacinas em si próprio. Afinal, o bom médico deve ter a consciência e coerência de usar o mesmo remédio que receita!

O dia que isso acontecer, talvez haja alguma verdade na frase: O que é bom para os EUA é bom para o mundo!
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Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro e professor universitário.Santos - SP
algbr@ig.com.br
 

 
 

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