|
As correntes ideológicas podem ser diferentes, mas a prática
democrática demonstra que situação e oposição são
estágios cíclicos, que os governos se alternam sem
grandes alterações sistêmicas e que o discurso e as
teses variam de acordo com a posição ocupada no momento.
Ora se é "pedra", ora se é "vidraça"!
Obviamente, quanto mais e por mais tempo se é pedra, maior
será a cobrança quando as posições se inverterem.
É o caso do Governo "Lula"!
O PT era um partido "geneticamente" radical e
cheio de rancor (muitos de seus membros portavam traumas físicos
e psicológicos adquiridos ou agravados na ditadura). Com
um discurso bem-intencionado, embora algo anacrônico e
intimamente ligado a modelos totalitários de esquerda, a
dificuldade em estabelecer uma relação conciliadora
entre a utopia socialista e a prática democrática
motivou alguns fracassos comprometedores. Havia mais opiniões
do que conclusões.
A derrocada da União Soviética e seu "efeito dominó"
sobre seus satélites, foi um a dura perda de referência,
mas gerou uma saudável reformulação que, no entanto, não
agradou a alguns "intelectuais" e filiados de
primeira hora, que preferiam manter os ideais revolucionários,
de "luta de classes" e outros motes. Mas a idéia
de "governo revolucionário" não passa de uma
figura de retórica, que usa das mesmas armas e artifícios
de qualquer governo de exceção, com o único objetivo de
obter e manter poder pela força. Derruba elites aristocráticas
e burguesas, mas cria "elites" burocráticas
laicas ou religiosas. E toda a revolução semeia uma
contra-revolução.
O PT, após muitos percalços, chegou a conclusão
elementar de que para mudar o país é preciso estar
dentro e não em paralelo. Esse processo reduziu
progressivamente a rejeição popular ao PT e culminou com
a eleição de Lula.
Hoje governo, o PT prossegue sua "reengenharia"
cortando a própria carne (enquadrando ou, infelizmente,
expulsando personagens históricos, emblemáticos e
coerentes) e flertando com "santos e lobisomens"
para construir uma base de apoio consistente. Em vez de
radicalismo, busca a estabilidade; em vez de atitudes
abruptas e temerárias, até exagera nas negociações e
acordos.
Seus opositores, naturalmente, devolvem na mesma moeda as
críticas que recebiam, acusando o PT de empreguista,
fisiologista, ineficiente, recessivo e incoerente.
Infelizmente, são raros os exemplos de governos, em
qualquer país do mundo, que não carreguem essa pecha; e
muitos os governantes que, com palavras ou atos, pedem
para esquecer tudo o que escreveram ou disseram, antes.
No caso do empreguismo, principalmente, a desculpa é
sempre a mesma: o funcionalismo público é arcaico,
ineficiente, incompetente, corrupto e acomodado.
É? Bem, se não for, qual será a desculpa que os
governantes terão para inchar os quadros públicos com
cabos eleitorais, correligionários, parentes, amigos,
credores e toda a sorte de aduladores, viventes ou
fantasmas?
O curioso é que após qualquer mudança de governo todos
os “competentes” do anterior cedem lugar aos
“competentes” do novo, que afirmam que tudo estava
errado! E dá-lhe reforma administrativa! Dizem que é
para mudar a cara do governo... Haja paciente para agüentar
tanta cirurgia plástica!
No caso do PT, principalmente, ainda havia a crítica de
que seu modelo de gestão partidária era financiado pelos
salários públicos, e que seus quadros eram semelhantes a
gafanhotos. Só que os críticos desse "modelo"
nunca oferecem outra alternativa que não fosse a "ação
entre amigos". Em ambos os casos, a população só
perde!
Mas talvez a maior frustração dos opositores mais
ferrenhos do atual governo seja o fato do Presidente Lula
não estar "metendo os pés pelas mãos". Daí a
insistência de alguns em enfatizar seus os deslizes lingüísticos
e protocolares.
Seu primeiro ano pode ter sido um ano sem impactos bombásticos
- ao menos não além do que estamos acostumados -, mas ao
menos não foi um ano de sustos, o que já é um mérito!
O Brasil tem muitos problemas e nem o PT, nem nenhum
partido político, de qualquer vertente, conseguirá
solucioná-los por decreto, estalo de dedos ou varinha de
condão, muito menos em quatro anos. Governar é uma
corrida de revezamento, com obstáculos, e não de cem
metros rasos!
A disputa entre partidos nem sempre visa o bem da Nação;
normalmente, busca o bem de seus correligionários e
financiadores. A postura "camaleônica" da
maioria dos políticos também não os credencia como
pessoas íntegras e confiáveis, mas seu afã em
desacreditar seus antagonistas tem o subproduto útil de
inibir irregularidades.
Um ano de governo é um período suficientemente longo para
justificar a cobrança de promessas de campanha, mas muito
curto para mudanças consistentes, eficazes e duradouras.
Não há mais espaço para encilhamentos e empirismos econômicos.
É inegável, mesmo para os mais radicais, que a eleição
de Lula foi um marco - talvez o mais significativo - na
história da democracia brasileira. Existem frustrados dos
dois lados, mas existe a certeza de que o processo democrático
é um imenso e intenso aprendizado e aperfeiçoamento, que
envolve, inclusive, a coragem de reconhecer e dar
continuidade às boas iniciativas do antecessor, e a
grandeza de não solapar, quando derrotado pela vontade
popular, o terreno do sucessor.
Quem defende e prefere o radicalismo é porque não tem
competência para lutar com as "armas" da lógica
e do bom senso!
O que os políticos precisam entender, estejam de um lado
ou de outro, é que enquanto fazer oposição ou ser
aliado resumir-se a: devolver na mesma moeda, buscar
“trinta moedas” ou encher o bolso com elas; o país e
seu povo nunca serão valorizados como desejam e merecem!
|