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Ir a
uma loja de antiguidades ou à feira-hippie nos domingos
curitibanos é caminhar muito além dos passos de turistas
ou curiosos. São convites a
desvendar as bugigangas e similares. Arte ou futilidade?
Arte ou inutilidade? Arte útil? Ou arte fútil? Cópias de
peças que garantem o mesmo pão de cada dia? Numa série de
dias rotineiros... Me lembro do artista Edson Barrus, num
artigo de jornal*, declarando:”acredito na precariedade,
na falta de autoria, na apropriação”. No artesanal e em
série?
Na frente da Sociedade Garibaldi, exemplo de cópia
arquitetônica e “replay” de arte européia, vários pintores
expõem seus quadros. É obrigatório o garimpo para
encontrar uma originalidade. Barrus, ao meu ouvido,
novamente: “A qualidade é um parâmetro de exclusão”. Todos
os desenhos e todas as pinturas feitos com evidentes
tintas e traços comuns, sem estilo especial.
Mas o comum é sem qualidade? Que é o auditor? As cores
agradam aos olhos e as flores se multiplicam. Muitas são
da mesma espécie, mas de variados
tamanhos e assinaturas. Estilo? Não! Divertimento! Prazer!
E trabalho.
Honesto e “sujo”, ao mesmo tempo! O curador e crítico de
arte, Luiz Camillo Osório, aparece e me diz: “Nós vivemos
uma crise vocabular, uma crise de sentido, uma crise das
categorias legadas pela tradição. Um tal vazio semântico
exige uma postura, uma vontade de inserção que está
presente nesses grupos”. Ele me foi apresentado pela
jornalista Juliana Monachesi, quem escreveu um artigo
intitulado “A explosão do a (r) tivismo para o jornal
Folha de S. Paulo no dia 6 de abril deste ano.
Paro para conversar com um artista (?). Ele pinta paredes
também, me conta. E faz propaganda.
O que é produzido em série também pode ser “fora de
série”! O símbolo é cada vez mais individual. Embora a
embalagem remonte à idéia fordista e de
Andy Warhol, com a sopa e a moça loira – bem conhecida,
inclusive – repetidas, deixando claro que ele prefere
bastante daquilo que gosta e, para tanto, melhor que
existam iguais, como as latas de sopas nas prateleiras do
supermercado; o conteúdo é muito da criação do receptor,
do experimentador, do interpretador. A gente vivencia o
que quer e como quer. A realidade virou
virtual. E brincamos com os significados e com as
apreensões da realidade para estarmos na atualidade – ou
fora dela?! – e chegarmos ao alvo: sermos felizes!
A arte, tanto do pintor de paredes de segunda a sexta e de
flores aos sábados e domingos, como as sopas degustadas em
quantidade e em cores por Warhol, são frutos da busca.
Seja para ganhar o ganha-pão ou para degustar a
variedade idêntica produzida por si, procura-se, artista
ou arteiro, o prazer, momentos de felicidade.
Escolher entre a virtualidade (cibernética ou no plano da
imaginação como primeiro e último) ou a tecnologia do
pincel são duas das opções que se tem
num tempo em que se criam as respostas e as alternativas
que mais trazem prazer ao utilizador delas, seja na arte
ou na vida. Démodé é a rigidez, o fazer sem gosto. O
perder tempo sem serotonina no cérebro.
Para tentar dar forma a este castelo de areia que é a
pós-modernidade, frágil, provisório, convidativo ao
faze-lo, desfazê-lo e ter medo de tentar ou de não tentar
nele mexer, utilizo as palavras de Nicolau Sevcenko
(literato brasileiro, escritor coajduvante do livro
“Pós-Modernidade”, da editora da UNICAMP, 1993): “o
pós-moderno sem dúvida traz ambiguidades –
aliás, é feito delas e deve ser criticado e superado. É
isso que ele propõe: a prudência como método, a ironia
como crítica, o fragmento como base e o descontínuo como
limite”. Estamos na época da chance: “o aprendizado
humilde, que já tarda, da convivência difícil mas
fundamental com o imponderável, o incompreensível, o
inefável – depois de séculos da fé brutal
de que tudo pode ser conhecido, conquistado, controlado”.
Estamos sem chão.
Fronteiras vastas. Nós como deuses. Buscando um Pai
seguro. E a verdade aparece vestida de resposta. Já como
dúvida.
Entrando num antiquário, ali mesmo no Largo da Ordem, vejo
no mesmo ambiente, antiguidades e relíquias e peças
produzidas em série – xícaras, canecos e afins –
produzidos em série. E assinados por artistas, pois o
desenho multiplicado é de autoria chique. Como afirma
Dominic Strinati (no
livro “CULTURA POPULAR – uma introdução, da editora HEDRA,
1999) “consumimos cada vez mais imagens e signos em
conseqüência do interesse por si mesmos, e
não por sua “utilidade” ou pelos valores mais fundamentais
que simbolizam”.
Poucas pessoas, imagino, desembolsarão quantia tão alta
para usar estes objetos. Ficarão na cristaleira. Ou em
exposição, num lugar alto na cozinha.
E sempre que amigos aparecerem em casa ostentarão a
assinatura do artista.
Em sua cozinha. Parte do cotidiano (?).
O tic-tac de um relógio de carrilhão ao lado de um cuco
barroco. Viajo no tempo. As linhas art nouveau me levam a
protagonizar por instantes, em meu imaginário – onde sou a
artista em todos os aspectos e funções-, um filme
hollywoodiano. Converso comigo com palavras de outros: “É
simplesmente
começar a chegar e sentir e interagir com os outros para
criar “situações” baseadas no que cada pessoa está fazendo
no momento(...) para fornecer um
novo modelo de significação produzido ativamente, e não
passivamente (isto é, institucionalmente) recebido; e
criar algo que possa ser discutido, mas nunca entendido,
pelo olho treinado e controlador, algo sem potencial
comercial, mas de valor além de seu preço, que depende da
situação, não do estilo ou do conteúdo”, segundo manifesto
publicado no site
www.resdochao.hpg.com.br e extraído do artigo “O jogo
das subjetividades convergentes” de Juliana Monachesi, na
Folha MAIS! do jornal Folha de S.Paulo.
Strinati aparece e diz ”o pós-modernismo considera o
cinema contemporâneo indulgente com a nostalgia; um cinema
que revive o passado, saqueia-o em busca de idéias,
recicla suas imagens e tramas e cita-o engenhosamente em
paródias conscientes”. Teorias encaixando na prática.
Quase 22 horas. Eu acordo cutucada pelo professor de
Processos Midiáticos.
A carteira com babas...Ele, muito gentil, mas fazendo
questão de me atentar a aula, indaga: “Onde estão suas
anotações? O que é isso no seu caderno?”.
Está passando um documentário na TV; um vídeo ou DVD; não
sei ao certo. O que sei é que, dessa vez, não conseguiram
minha atenção.“É um labirinto,
professor”, respondo. Arteiros e artistas: fragmentos
possíveis da interpretação e do prazer no
labirinto interativo pós-moderno. |