ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.42 fevereiro de 2004

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::Esportes::

No basquete, tamanho não é sinônimo de talento
Ronei Thezolin - Assessor de imprensa da Unicamp


Depois de analisar dezenas de fitas de vídeo de partidas de basquete e avaliar a aptidão de 225 atletas de equipes brasileiras, o professor de educação física Vagner Roberto Bergamo, da PUC de Campinas, chegou a uma curiosa conclusão: embora a altura seja uma ferramenta importante, a inteligência, a liberdade de ação e a agilidade de marcação do adversário, associada à perspicácia de prever jogadas e antecipar possíveis lances são alguns componentes que caracterizam a evolução do atleta brasileiro de basquete, uma das modalidades esportivas mais populares do país.

A altura deixou de ser o elemento principal quando vista de modo isolado. Com o tempo, outros fatores considerados talvez até mais significativos como a inteligência espacial, a astúcia e a habilidade na execução de bons lances, aliaram-se à performance do atleta.
Em sua tese de doutorado "O perfil físico e técnico de atletas de basquetebol feminino: contribuições para identificação do talento esportivo múltiplo", orientada pelo professor Roberto Rodrigues Paes, da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, Bergamo não descarta que a altura continua sendo um componente fundamental para o atleta. Principalmente na figura do pivô, jogador que serve de base para os rebotes defensivos e segurança dos companheiros para os arremessos na finalização das jogadas no rebote ofensivo.
Bergamo diz que o atleta de hoje deve ser mais completo, uma vez que os espaços de jogo estão ficando cada vez mais reduzidos devido à ênfase dada ao condicionamento físico do atleta. Isso se dá em virtude da necessidade de um jogador ser dotado de outras habilidades como noção espacial, percepção, e tomada de decisão extremamente rápida para resolver problemas táticos num jogo. O desenvolvimento de suas competências dentro do esporte – relacionamento social, como o atleta age em grupo, como resolve problemas táticos que porventura surjam durante a partida – deve começar na sua formação. “Ou seja, o aprendizado deve estar voltado para as ações do jogo, onde estão presentes essas competências, diferentemente do processo atual que começa com o treinamento propriamente dito. Quando focalizamos esse treinamento específico do esporte ou da sua posição, estamos reduzindo os recursos táticos do jogador. Isso vale dizer que ao enfatizarmos os gestos técnicos descontextualizados da afetividade da ação do jogo não estamos instrumentalizando essas crianças a resolver problemas que surgirão na prática do basquetebol, considerado um esporte repleto de imprevistos”, diz o pesquisador.
Com isso, o jogador deve ser trabalhado no seu conjunto, desde a sua formação, para que aprenda não só a desempenhar uma função específica, mas que consiga, com o desenvolvimento, apreender outras habilidades dentro da quadra, como noção de tempo, de espaço, a relação inter e intrapessoal, “que são as inteligências inerentes ao atleta, e igualmente importantes para um trabalho coletivo, em que os atletas saibam ocupar o vazio que por ventura lhe seja concedido”, salienta.
Bergamo conclui, no entanto, que jogadores de menor estatura, mas com muito mais habilidade e inteligência, acabam tendo mais sucesso que os jogadores apenas mais altos, que não apresentam tais aptidões. Hoje o que se leva em conta é o conjunto de competências técnicas, físicas, táticas e psicológicas. “Selecionar uma criança só pelo fato dela ser alta não significa que ela será fatalmente uma grande jogadora”, deduz o pesquisador. Essa criança é alta para uma determinada idade, que poderá, com o passar dos anos, não crescer mais. Há, no entanto, crianças que vão desenvolver outros recursos, que são mais baixas e que precisam de outras habilidades podem, ao longo do tempo, crescer e se tornarem grande jogadores.
Paula - Um dos maiores ícones do basquete no Brasil foi a armadora Paula (Maria Paula Gonçalves da Silva), atleta cuja altura não era lá essas coisas: 1,74 m. Para Roberto Bergamo, Paula era uma dessas atletas raras, que possuía uma “inteligência diferenciada” das demais jogadoras de sua época, “não por causa de sua condições físicas, mas devido à sua sagacidade com a bola”. Brilhou por 28 anos, conquistando os mais cobiçados títulos. Entre eles os de campeã pan-americana (1991), de campeã mundial (1994), e de vice-campeã olímpica (1996).
Dotada de uma cognição desenvolvida, associada a uma percepção aguçada, a atleta “jogava pela equipe toda”, conforme avalia o professor Bergamo. Era capaz de perceber, de imediato, para onde essa marcação se deslocava, no exato momento que a bola era passada de um lado a outro da quadra.
E, quando driblava, provocava um deslocamento no jogo que era um verdadeiro tabuleiro de xadrez, onde os jogadores representam as peças que se movimentam de acordo com a posição da bola.
“Paula era capaz de observar, rapidamente, onde é que poderia surgir um espaço para passar a bola à jogadora melhor colocada para recebê-la”, lembra o pesquisador. Ele diz que Paula jogava imbuída de uma inteligência tridimensional, que conseguia ver movimentos mesmo com as jogadoras paradas.
Dona de uma técnica refinada, podia ser até uma jogadora não muito veloz, mas tinha a perspicácia de antever as jogadas e antecipava os lances. Ao antecipar e recuperar a bola, num espaço curto que é a quadra de basquete, as adversárias, mesmo as mais velozes, não conseguiam recuperar a bola.

Serviço
Título: “O perfil físico e técnico do basquetebol feminino: contribuições para identificaçãodo talento esportivo múltiplo”.

Autor: Vagner Roberto Bergamo
Orientador: Roberto Rodrigues Paes
Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)
(Antonio Roberto Fava)
Contato com a Assessoria de Imprensa da Unicamp

 
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