|
Oração
pelas cidades e por cidadãos
A cidade é mais que um fenômeno: é um ente. Mais do que
uma criação ou arte humana – como gatos que derramam
leite e desperdiçam, à toa, apaixonados pelas lambidas
individualistas de ida com sede ao pote do chamado
progresso -, é cenário da sinestesia intensa que
acontece nesta pós-modernidade. Muito além das muralhas
que cercavam os originais burgos europeus, quando ali era
um útero, uma casa comum com pátios, sinônimo de
solidariedade por objetivos comuns; corremos, de carro ou
de bicicleta, motorizados ou não, num cotidiano uns
contra os outros dentro dos limites do palco urbano,
horizonte ideal de muitos interioranos e também de espécies
de seres humanos que não mais se adaptam a outro habitat.
A cidade virou um tabuleiro: limites – abertos, com
escolhas para quem não quer as regras: sair, não jogar,
não participar... ficar à margem – onde viver é jogar
e (não há como resistir ao trocadilho!) se joga para
(poder) viver. Mundos paralelos existem. São até
sonhados, falados, almejados, pregados, estudados,
escritos, cantados...neste cenário onde o subjetivo
impera e a imparcialidade é lei – mais pra uns que pra
outros -, regras parecem se anarquizar e aquele ser
natural que era o ser humano se esquece da essência, se
torna histórico e virtual. A exploração do espaço é
tecnológica, mas não sapiens; poluidora – sobre duas
ou mais rodas – e estressante. Ser “café-com-leite”
por alguns instantes só para –o ter humano –
recarregar as baterias... necessidade de
evasão. Retiro. Aquele que nasce pela vontade divina como
ser humano não tem mais tempo pra cuidar de si em todos
os seus espectros, incluindo o psicológico e o
espiritual. O capital é essencial; um passaporte para a
vida. Mas até ele e o seu controlador se tornaram cibernéticos.
Cada um por si e Deus por todos... a lei da cidade, mesmo
que ecológica e social...Falta estrutura física para
ser. Respirar não é fácil. E mais difícil é
abandonar, por um dia, todas as armas, escudos e armaduras
(desta ou daquela marca, original ou nem tanto) de guerra:
seja para deixar o carro em casa e se expor, ficar mais
perto de seus semelhantes, ou seja, para abandonar
preconceitos e conviver com a sua própria face
espiritual, percebendo a necessidade de colo divino. A
guerra é contra o trânsito caótico e a favor de uma
reeducação espiritual. Se retirar numa chácara, em
praia deserta ou dentro de uma floresta num arquipélago
é simbólico. A árvore, mesmo na aridez, é simbólica.
A relação humano-divino é fruto semeado e almejado ser
colhido, após os ciclos que a mãe-natureza exige, em
abundância. Muito mais do que simples e imediatas válvulas
de escape e pilhas para poder sobreviver uma semana, um
retiro – mesmo que em seu quintal, sem o carro; um
retiro universal do cotidiano barulhento daquela nossa
aldeia - deve procurar significar um encontro para
estimular ação em direção ao que, em geral, entende-se
ser o bem e o bom. E isso precisa de Deus pra acontecer!
É só olharmos o trânsito nas horas de rush e logo
pensamos: “só um milagre pra mudar isso e me tirar
daqui”. Mas acreditar no que não existe? Paradoxo:
mundo que depende e faz o impalpável e não acredita no
que não vê, mesmo sabendo ser necessário e saudável o
acreditar, o apostar... afinal, estamos num jogo. Saber o
seu limite mínimo e máximo para que a harmonia o faça
acontecer sem grandes choques para seus participantes
é fugir de erros e involuções. Em curto prazo tudo
deveria deixar de ser instantâneo para que possa
persistir e evoluir. A embalagem do ser é importante: o
ter humano. O conteúdo, é impossível não perceber,
fica a critério e nas mãos de Deus. O caos é para os
nossos sentidos. Mas, acreditemos e peçamos: que os céus
estejam certos de nós, nos nossos engarrafamentos e
acidentes de percurso. Que os anjos nos despertem desta
maldição, ajudando a olharmos pra dentro: de nós, da
sociedade, da cidade.
As pessoas têm limites, espaciais e temporais. A cidade,
como expressão de um conjunto de pessoas, também: um
ente próprio que ganha, faz vida.
Melhor se continuamente criado e recriado com arte, amor,
planejamento e detalhado cuidado. Para todos. Afinal,
neste jogo, trafegando caminhos similares, todos somos um.
Transitar com as bênçãos divinas pela vida, harpas e
violinos tocando: festas nos céus, anjos entre nós.
Rezemos.
ANA MARINA GODOY
|