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Mãe, me dá um copo dágua?
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Mãe, eu quero um celular.
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Mãe, ela mexeu nas minhas coisas!
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Mãe, faz um bolo de chocolate?
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Mãe, por que você trabalha tanto?
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Mãe, você está horrível com essa cor de cabelo.
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Mãe, por que você tem que estudar mais?
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Mãe, que horas você volta hoje?
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Mãe, tá na minha vez de mexer no computador!
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Mãe, por que você não vem almoçar em casa?
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Mãe, tô com fome!
Elas usam de tudo para tirar minha
concentração, para chamar minha atenção: querem ficar com
comigo. Ligam para o trabalho algumas vezes por dia: a mais
nova para saber se precisa lavar o cabelo ou que roupa vai
usar para o curso de inglês; para dizer que precisa comprar
um presente para a coleguinha que faz aniversário hoje à
noite, e quer que EU vá junto pra comprar, o pai não
“serve”, porque não entende de moda para garotas (acho que
nem eu, já que eu sou de “outra época”); que tem que levar
material de artes amanhã de manhã bem cedo, que já me disse
isso na semana passada, como é que eu pude esquecer???; a
mais velha para que eu a leve ao cabeleireiro; para dizer
que quer o CD de algum(a) cantor(a) novo(a); que quer um
computador novo; que quer ir ao show daquela banda nova,
etc, etc, etc. Brigam por tudo e por nada, mas quando querem
algo em conjunto, viram as melhores amigas. E são amigas
carinhosas, também:
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Mãe, não chora. Você pode fazer de novo essa tal prova para
o mestrado, não pode?
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Mãe, vamos lanchar?
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Mãe, eu te adoro.
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Mãe, vamos ver esse filme juntas?
Assim são os filhos. Despertam em nós as
maiores emoções de nossas vidas. Não conseguimos ficar
indiferentes a eles. Vê-los dormindo é como contemplar
anjos, e, no entanto, de anjo não têm nada, como, aliás,
qualquer um de nós. Muitas de nós dariam a vida por eles,
muitas de nós deram os melhores anos de suas vidas a eles.
“Valeu a pena? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena” ,
como diz o grande Fernando Pessoa.
Muitas de nós, que vivemos numa época em que é
impossível não trabalhar, carregamos uma enorme carga em
nossos ombros: é a famosa culpa por não acompanhar mais de
perto o dia-a-dia de nossos filhos. Gostaríamos de ficar com
eles mais tempo, sabemos que eles precisam de nós. Mas
também é preciso que os deixemos para que resolvam suas
pequenas coisas. Também é preciso que retomemos a nossa
vida. Precisamos olhá-los de longe, às vezes, senão corremos
o risco de sufocá-los e nos sufocarmos com esse amor todo.
Precisamos ir adiante e precisamos deixá-los ir. É tão
difícil nos separarmos deles! No entanto, chega uma hora em
que é preciso olhar mais para nós. Dedicamos tanto tempo à
criação de nossos filhos que esquecemos de nos dedicar a nós
mesmas. Também precisamos de mais tempo para nós, para
resolvermos nossas coisas. Ou para não resolvermos nada. A
decisão é nossa. Vale a pena nos dedicarmos a nossos filhos,
acompanhá-los bem de perto, mas não vale a pena esquecermos
das coisas de que gostamos de fazer. Devemos ter consciência
disso. Com a correria de nossas vidas, é muito difícil achar
um tempinho para nós. Contudo, se nós mesmas não lutarmos
por mais esse tempinho, quem o fará? Por isso, às vezes é
preciso dizer que vamos cuidar mais de nós: nós também temos
que ir ao cabeleireiro, à manicure, ao cinema, ao teatro,
aos shows de nossos artistas favoritos, ouvir nossos CDs,
ler nossos livros. O importante é não deixar a vida passar
sem fazer alguma coisa para nós mesmas. Não podemos esquecer
de nós. É muito triste não ter o que fazer quando os filhos
crescem e vão-se embora, viver suas vidas. Não devemos nos
perguntar: e agora, o que vou fazer? Sabemos o que vamos
fazer: há uma vida inteira para viver, milhões de coisas por
fazer e por aprender. E cabe a nós pensar nisso. Desde já.
Por nós mesmas.
Comentários para a autora : sandrakezen@fdc.br |