ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.43 março de 2004

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Mito da performance excelente
 
por Sandra Kezen



Foto: Jaqueline NovaesMulheres do mundo inteiro vivem rotinas pesadas: são mães, namoradas, esposas, amantes, filhas, avós, profissionais, patroas, empregadas, donas-de-casa, chefes de família, etc. É possível realizar bem todas essas tarefas? Obviamente não.


Nós, mulheres, somos sempre mais cobradas quando o assunto é casa e/ou família: temos que dar conta da limpeza da casa, da organização e da manutenção de tudo em seus devidos lugares, embora trabalhemos fora como os homens; temos que verificar se comida é do agrado de cada membro de nossas famílias; temos que dar conta da “educação” e “bons modos” de nossos filhos na escola e em sociedade; temos que nos preocupar com a aparência de filhos, maridos, e providenciar roupas apropriadas para ocasiões diversas; temos que acompanhar nossos filhos nas tarefas escolares, às vezes esclarecer dúvidas sobre assuntos que nem dominamos bem ou que aprendemos de forma diferente; temos que saber receber amigos nossos e de nossos filhos; temos que levá-los à escola, às aulas de inglês, de informática, de balé, ao coral, etc; temos que dar orientação religiosa a nossos filhos; temos que ajudar nossos filhos a superarem as dificuldades naturais da adolescência e a cultivar sua auto-estima; temos que levar nossos filhos a festas, shows, e apanhá-los de madrugada, mortas de sono; enfim, a lista é tão grande que não dá para enumerar todos os itens que a compõem.

O pior é que, quando não conseguimos realizar bem algumas dessas tarefas, uma enorme sensação de fracasso nos invade. Por quê? Fomos criadas para resolver tudo, principalmente para os outros. A revolução feminista nos trouxe alguns benefícios: na área profissional, por exemplo, já estamos em quase todas as profissões, mas ganhamos menos que os homens exercendo a mesma função; na área pessoal, já estamos mais independentes financeiramente e emocionalmente, mas depois de casadas a sociedade nos cobra um comportamento como os das mulheres de antes. Se um filho vai mal na escola, a “culpa” é da mãe, que não estuda com ele. Se um filho tem uma atitude um pouco mais rebelde, nós também somos consideradas “culpadas”: não fomos capazes de dar-lhes uma boa educação. Enfim, ao pai cabe ainda o apenas honroso papel de “provedor da casa”, mas em relação à educação dos filhos, cobre-se das mães. “Apenas”, porque às mulheres cabem vários papéis: somos também provedoras, mas temos que responder por outras áreas: é a famosa dupla (que na verdade é múltipla) jornada de trabalho.

 

Educação não-sexista 

 Nós, mulheres, somos as maiores (não as únicas) responsáveis pela perpetuação dessa conduta machista. Não chamamos nossos filhos homens para ajudar nas tarefas de casa. Tratamos os meninos de forma diferente, mais livres, exigimos deles mais iniciativas para resolverem as coisas, enquanto esperamos que as meninas sejam mais dependentes. Talvez façamos essa divisão de maneira inconsciente, mas seria bom refletir mais sobre essa questão. É claro que existem diferenças, mas ajudaria muito aos futuros maridos se nós, suas queridas mãezinhas, desde cedo pedíssemos sua cooperação com as tarefas em casa. É preciso que os homens não considerem o trabalho doméstico uma coisa menor, à qual eles nem sequer possam dedicar um pouco do seu precioso tempo. Por isso, cabe a nós, mães e educadoras, incutir a idéia da divisão de tarefas como coisa natural em família. Certamente nossos meninos se tornarão melhores maridos e suas esposas nos agradecerão.

 

Chega de culpa

 

Chega de culpas e de cobranças! Principalmente quando nós nos culpamos ou nos cobramos desempenhos excelentes.  Essa é a armadilha à qual me referi no título. Queremos provar que somos capazes de tudo. Queremos provar  que trabalhamos fora, mas que conseguimos administrar também a vida em família. Estamos presas pela obsessão da “performance excelente”, um desempenho excepcional ao qual nós, mulheres, nos propomos. Mas essa é uma tarefa sobre-humana. Temos que ter expectativas mais reais, caso contrário seremos sempre infelizes em algum aspecto de nossas vidas. Esse desempenho ideal é também irreal, impossível de ser obtido devido aos tantos papéis que desempenhamos em nosso dia-a-dia. Desempenhos regulares ou bons seriam mais satisfatórios, mais próximos da realidade, e, conseqüentemente, mais passíveis de serem alcançados.

Não falo como profissional da área: não sou psicóloga, psiquiatra ou coisa assim. Sou professora, esposa, mãe, filha, e falo por experiência, por observação e por dedução. Acho que não temos que provar nada para ninguém, que já percorremos um longo caminho de vitórias e conquistas, que temos tantas outras ainda a conseguir e que certamente vamos realizar o que sonharmos. Sem pressa, sem culpa, sem medo de fracassar (sempre podemos tentar de novo). No nosso ritmo e no nosso tempo.

Quanto às cobranças, bem ... temos que nos acostumar a ouvi-las de bom-humor. Ou não. Dependendo do dia, da hora, também temos direito a ironias. Às vezes, respondo, rindo: sabe fazer melhor? Então faça!

Mulher, sim. Super-mulher, não.

*Comentários para a autora: sandrakezen@fdc. 

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Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@fdc.

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