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Mulheres do mundo inteiro vivem rotinas pesadas: são mães,
namoradas, esposas, amantes, filhas, avós, profissionais,
patroas, empregadas, donas-de-casa, chefes de família, etc.
É possível realizar bem todas essas tarefas? Obviamente não.
Nós, mulheres, somos sempre mais cobradas quando o assunto é
casa e/ou família: temos que dar conta da limpeza da casa,
da organização e da manutenção de tudo em seus devidos
lugares, embora trabalhemos fora como os homens; temos que
verificar se comida é do agrado de cada membro de nossas
famílias; temos que dar conta da “educação” e “bons modos”
de nossos filhos na escola e em sociedade; temos que nos
preocupar com a aparência de filhos, maridos, e providenciar
roupas apropriadas para ocasiões diversas; temos que
acompanhar nossos filhos nas tarefas escolares, às vezes
esclarecer dúvidas sobre assuntos que nem dominamos bem ou
que aprendemos de forma diferente; temos que saber receber
amigos nossos e de nossos filhos; temos que levá-los à
escola, às aulas de inglês, de informática, de balé, ao
coral, etc; temos que dar orientação religiosa a nossos
filhos; temos que ajudar nossos filhos a superarem as
dificuldades naturais da adolescência e a cultivar sua
auto-estima; temos que levar nossos filhos a festas, shows,
e apanhá-los de madrugada, mortas de sono; enfim, a lista é
tão grande que não dá para enumerar todos os itens que a
compõem.
O pior é que, quando não conseguimos realizar bem algumas
dessas tarefas, uma enorme sensação de fracasso nos invade.
Por quê? Fomos criadas para resolver tudo, principalmente
para os outros. A revolução feminista nos trouxe alguns
benefícios: na área profissional, por exemplo, já estamos em
quase todas as profissões, mas ganhamos menos que os homens
exercendo a mesma função; na área pessoal, já estamos mais
independentes financeiramente e emocionalmente, mas depois
de casadas a sociedade nos cobra um comportamento como os
das mulheres de antes. Se um filho vai mal na escola, a
“culpa” é da mãe, que não estuda com ele. Se um filho tem
uma atitude um pouco mais rebelde, nós também somos
consideradas “culpadas”: não fomos capazes de dar-lhes uma
boa educação. Enfim, ao pai cabe ainda o apenas honroso
papel de “provedor da casa”, mas em relação à educação dos
filhos, cobre-se das mães. “Apenas”, porque às mulheres
cabem vários papéis: somos também provedoras, mas temos que
responder por outras áreas: é a famosa dupla (que na verdade
é múltipla) jornada de trabalho.
Educação não-sexista
Nós, mulheres, somos as maiores (não as únicas)
responsáveis pela perpetuação dessa conduta machista. Não
chamamos nossos filhos homens para ajudar nas tarefas de
casa. Tratamos os meninos de forma diferente, mais livres,
exigimos deles mais iniciativas para resolverem as coisas,
enquanto esperamos que as meninas sejam mais dependentes.
Talvez façamos essa divisão de maneira inconsciente, mas
seria bom refletir mais sobre essa questão. É claro que
existem diferenças, mas ajudaria muito aos futuros maridos
se nós, suas queridas mãezinhas, desde cedo pedíssemos sua
cooperação com as tarefas em casa. É preciso que os homens
não considerem o trabalho doméstico uma coisa menor, à qual
eles nem sequer possam dedicar um pouco do seu precioso
tempo. Por isso, cabe a nós, mães e educadoras, incutir a
idéia da divisão de tarefas como coisa natural em família.
Certamente nossos meninos se tornarão melhores maridos e
suas esposas nos agradecerão.
Chega de culpa
Chega de culpas e de cobranças! Principalmente quando nós
nos culpamos ou nos cobramos desempenhos excelentes. Essa é
a armadilha à qual me referi no título. Queremos provar que
somos capazes de tudo. Queremos provar que trabalhamos
fora, mas que conseguimos administrar também a vida em
família. Estamos presas pela obsessão da “performance
excelente”, um desempenho excepcional ao qual nós, mulheres,
nos propomos. Mas essa é uma tarefa sobre-humana. Temos que
ter expectativas mais reais, caso contrário seremos sempre
infelizes em algum aspecto de nossas vidas. Esse desempenho
ideal é também irreal, impossível de ser obtido devido aos
tantos papéis que desempenhamos em nosso dia-a-dia.
Desempenhos regulares ou bons seriam mais satisfatórios,
mais próximos da realidade, e, conseqüentemente, mais
passíveis de serem alcançados.
Não falo como profissional da área: não sou psicóloga,
psiquiatra ou coisa assim. Sou professora, esposa, mãe,
filha, e falo por experiência, por observação e por dedução.
Acho que não temos que provar nada para ninguém, que já
percorremos um longo caminho de vitórias e conquistas, que
temos tantas outras ainda a conseguir e que certamente vamos
realizar o que sonharmos. Sem pressa, sem culpa, sem medo de
fracassar (sempre podemos tentar de novo). No nosso ritmo e
no nosso tempo.
Quanto às cobranças, bem ... temos que nos acostumar a
ouvi-las de bom-humor. Ou não. Dependendo do dia, da hora,
também temos direito a ironias. Às vezes, respondo, rindo:
sabe fazer melhor? Então faça!
Mulher, sim. Super-mulher, não.
*Comentários para a autora: sandrakezen@fdc. |