FLORES AZUIS NOS CABELOS
Maria de Fátima Seehagen
Nestes recentes
dias de carnaval encontrei-me com uma amiga que trazia
uma linda flor azul nos cabelos. Ante os elogios do
grupo em que nos encontrávamos, justificava-se ela num
misto de alegria e rebeldia:
-
“Durante o carnaval é possível... ”
Sim... Durante o
carnaval tudo parece possível! Tudo parece fantasia.
Para uma mulher
cuja beleza exótica parecia explodir com aquele
arranjo singular nos cabelos, parecia o único período
do ano em que era possível ainda se adornar assim.
O encontro
deixou-me perplexa e pensativa:
- Em que época
vivemos, para que uma mulher adorne a sua figura com
flores, ela precise de uma desculpa especial, de uma
data especial?
Não
deveriam ser as mulheres, tanto como as flores, invólucros de
encanto e magia que supostamente guardam sensibilidade e
beleza?
O vício da moda tem nos levado a usar as mais estranhas
criações que em uma boa parte das vezes não foram idealizadas
exatamente para o nosso tipo físico ou idade. Quantas vezes
vemos na rua mulheres magérrimas com seus rostos encovados e
pálidos ditados por algum modismo? Outras, nem tão magras,
gordinhas mesmo, tentando moldar-se numa justíssima saia, sem
perceber a imagem grotesca que formam no desrespeito à sua
beleza pessoal, em louvor a alguma capa de revista do dia...As
sensações visuais que despertam nem sempre são as almejadas.
Na
vida, assim como na arte, a beleza do conjunto residirá no
equilíbrio das partes, sem a obsessão de uma beleza
idealizada, ditada por um estilista, escultor ou cirurgião
plástico.
Da
mesma maneira como uma escultura está localizada num espaço
estranho entre o mundo dos vivos e dos mortos, a mulher que se
deixa influenciar, esquecendo a sua vontade própria, o seu
gosto pessoal, a sua beleza única e particular, mais parece
uma estátua sem vontade numa situação digna de lástima... Não,
não estranhem a minha colocação. Não vai aqui nenhum tipo de
preconceito, mas apenas uma análise descompromissada da
situação atual.
A
nossa saúde física e mental, o nosso conforto, o nosso bem
estar espiritual, não dependem de estarmos ou não em dia com a
última moda. O crescimento como seres humanos não passa pela
dor de roupas apertadas, pelo sacrifício de regimes insanos ou
situações similares. Quanto menor a dependência de aparências
pré-concebidas, maior será a alegria de viver verdadeiramente
o seu próprio modo, fazendo-o desabrochar em toda a sua
plenitude, independente de qual seja o seu tipo físico, idade,
cor ou raça. O mais belo para você será sempre aquilo que se
desenvolveu do seu modo de ser, de acordo com o seu gosto
pessoal, moldado em sua figura única, plasmado por seus
pensamentos mais íntimos.
Minha
doce amiga que encontrei em um dia de carnaval, continue a
usar as suas flores nos cabelos. Azuis, vermelhas, brancas...
Use-as neste dia 8 de março como uma celebração, muito mais do
que como uma comemoração. Vamos celebrar o direito de sermos
nós mesmas, sem os ditames frívolos de um comércio
direcionado. Não estamos aqui para sermos do modo que um ou
outro espera que sejamos nem para nos mostrarmos como um ou
outro espera nos ver.
É
tempo de curar internamente.
A ilustração deste texto
nos foi gentilmente cedida pela artista plástica
LIVIA GIRARDELLO
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