ISSN 1678-8419        Ano IV n.44 -abril de 2004

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::Colunistas  - Adilson Luiz Gonçalves::

Brasileiros, com muita honra!

Quando me perguntam qual a minha nacionalidade, eu respondo: brasileira!

Quando perguntam minha ascendência, eu repito: brasileira!

Alguns dizem que, assim, eu nego minhas raízes, mas não! Raízes têm a ver com o solo onde se nasce e floresce, e não com a origem da semente. O café, o açúcar, o futebol e tantas outras coisas também não surgiram no Brasil, mas alguém consegue mencioná-los sem pensar em nossa pátria? Assim, não sei se sou boa semente, mas é esse solo que me alimenta e dá força! Só que existem pessoas que, apesar de aqui terem prosperado e encontrado a felicidade, insistem em atribuir sua “glória” a sua origem estrangeira, como se isso, a priori, as valorizasse. Alguns crêem tanto nisso, que ensinam a mesma cartilha aos seus filhos, aqui nascidos, como se não fossem brasileiros.

Será que esqueceram que, na maioria dos casos, eles próprios, ou seus ancestrais, vieram tentar a sorte no Brasil porque não tinham oportunidade em seus países? Não eram explorados, maltratados, desprezados e humilhados por seus patrícios mais afortunados ou nobres? Não eram plebe rude, submissa e faminta, em terras que não podiam possuir e onde não havia mobilidade social nem esperança? Mas foi aqui que encontraram solo fértil para plantar seus sonhos e, com méritos inegáveis, trabalharam a terra. Num primeiro momento, é compreensível que, por diferenças culturais, religiosas e de idioma, se aglutinassem em comunidades fechadas; mas as gerações que se seguiram formaram, naturalmente, esse grande amálgama que é o povo brasileiro. Europeus, orientais, africanos e índios fundiram uma das nações mais tolerantes do mundo. Mas ainda encontramos, com freqüência, aqueles que se esbaldam no carnaval para, depois, sentenciarem que o Brasil é um país imoral e promíscuo. Persistem os que exaltam os “valores morais” de países, que mal se lembram ou conhecem, mas que não praticam aqui. Continuam os que lucram nesta terra, mas aplicam em paraísos fiscais ou nos países que os tratavam como bastardos, apenas para provarem, aos seus antigos algozes, que “venceram na vida”. São “brasileiros” na saúde e na alegria, mas estrangeiros na doença e na tristeza...

Se essa terra me suporta e sustenta, o mínimo que posso fazer para agradecer-lhe é pisá-la com respeito! Afinal, mãe não é a que pari, é a que cria!

Ainda existe muito preconceito, rancor e irracionalidade em nosso país, frutos, em grande parte, da herança cultural de nossos antigos e novos colonizadores; mas estamos muito mais próximos de uma evolução positiva, que de um retrocesso.

Cada vez mais, estamos aprendendo a valorizar as pessoas, não pelo que elas dizem, aparentam, professam ou por seus sobrenomes, tanto mais “respeitáveis” quanto mais difíceis de pronunciar; mas pelo que são capazes de ser e fazer como simples, únicos e universais seres humanos. Cresce, também, a quantidade de pessoas dispostas a acreditar em potenciais, identificar talentos e garimpar as pedras preciosas anônimas de nosso povo, em vez de contentarem-se com as jóias falsas e patéticas de impérios decadentes, compostas de parasitas e alienados, legítimos herdeiros do ditado: “Pais ricos, filhos nobres, netos pobres!”. Mas essa nova disposição não poupa da prova! E para provar sua capacidade e lutar contra preconceitos o brasileiro continuará tendo que adaptar, criar, correr, equilibrar, dar saltos mortais carpados e, depois de todo esse esforço hercúleo, ainda sorrir e abrir os braços para o mundo, realizando que não há obstáculo que não possa superar!

Nossa equipe de ginástica artística: concentrada, altiva, serena e acima de todos os preconceitos e limitações, é o melhor exemplo desse enorme e, por isso mesmo, temido e reprimido potencial! Quem desdenha quer comprar...

Não faz sentido viver à sombra de memórias, sendo fanfarrões ou choramingas de conquistas ou sofrimentos que não são nossos. Esse passado estrangeiro só é importante se ajudar a construir um futuro melhor. Precisamos legar mais que isso aos nossos filhos! E que isso não seja, apenas, a possibilidade de uma dupla cidadania, que mais parece uma rota de fuga que um compromisso de fé...

Imaginem um país que consiga unir todas essas múltiplas e “exclusivas” virtudes e tradições, nutrindo-as com os sais minerais da vontade, capacidade e ternura sem limites, dos quais o solo do Brasil é pródigo!

Fomos “descobertos”, mas ainda precisamos nos descobrir como nação!

O povo brasileiro, nato ou não, é maravilhoso! Só precisa aprender a dar valor a si próprio, para levar esta gentil pátria amada ao “Olímpo” das nações!

::Reflexão::

Um dia de cão!
por Adilson Luiz Gonçalves

A cena é forte e insana:

Um carro ao lado de uma moto... Uma, aparente, discussão... Um braço esticado...

De repente, uma arma surge do nada e não é, apenas, para intimidar ou, no máximo, ferir!

Tiros na cabeça! Um corpo que cai e tenta se arrastar... Um corpo que sai do veículo e continua atirando, sempre na cabeça, até a certeza da morte!

Nem o preto e branco amenizam o choque!

Assassino! Assassino!

Outra notícia não tem imagem, só um relato:

Um acidente de trânsito... Uma discussão... Pai e filho espancados e esfaqueados... No carro dos agressores: uma garrafa de uísque e roupas de luta...

Meu estômago virou e revirou várias vezes. Dormi pessimamente, por saber que isso pode acontecer a qualquer um de nós, sem aviso!

Obra de traficantes? Bandidos do crime organizado? O Iraque é aqui?

Não! Atitudes de jovens de classe média alta!

Isoladas? Não! Pois outros, como eles, já queimaram índios; planejaram, encomendaram ou executaram parricídios e matricídios; furtaram e roubaram; disputaram “rachas”, atropelando e matando inocentes... E tudo em nome da “curtição”, da “adrenalina”, da aventura, da ganância e da prova de masculinidade. Masculinidade?

O “berço”, as boas roupas, os carros novos e as vontades feitas não os tornaram pessoas melhores, mas aberrações humanas!

Parece que as boas - e caras – escolas não lhes deram argumentos suficientes para viver. Precisaram buscá-los em academias de luta ou no tráfico de entorpecentes e de armas, pensando em ataque animal e não em defesa pessoal.

Foram em busca de filosofias orientais, que falam de harmonia entre o corpo e a mente? Não! Na verdade queriam instrumentos para realizar, pela força, suas vontades e caprichos. Foram buscar defesa contra agressões? Não! Foram buscar um complemento fálico para sua impotência mental e moral.

Onde estão seus pais? Onde estão seus mestres? Onde estão os valores morais e religiosos que receberam? Querem se vingar de algo no mundo? Já ouviram falar de Deus? Ou conhecem e seguem apenas quem lhes ensina que respeito só se obtém na base de dinheiro e “porrada”?

Será que a obsessão pessoal ou a cobrança alienada de uma sociedade, que só valoriza o sucesso financeiro, transformou seus filhos em cães de raça mal adestrados? Em feras, com pedigree, mas sem coleira e focinheira? Em espécimes bem tratados, mas verdadeiros vira-latas da Humanidade?

Pois saibam que mesmo os cães mais refinados e altivos, quando descuidamos de sua criação, podem transformar-se em animais raivosos, espumando e espalhando terror e morte por onde passam. Não é o caso? Mas com esse tipo de “gente”, talvez os pais, subitamente zelosos, ainda dêem um carinhoso tapinha nas costas, dizendo: “- A gente dá um jeito, filhinho”. Depois: Quem sabe um relaxamento de prisão se for réu primário... Talvez uma oportuna e sorrateira viagem para lugar incerto e não sabido...

Pais cegos? Pais mortos? Pais separados? Pais distantes? Drogas de pais? Drogas? Instinto? Tentação do “cão”?

Cada um deve ter sua justificativa... Mas nada justifica a violência gratuita e assassina, qualquer que seja a idade ou classe social! O mesmo vale para a omissão! Se a elite da sociedade, com todos os seus recursos, não consegue controlar seus filhos, que moral terá para combater e julgar a marginalidade!

Se a prevenção falhou, que a punição corrija!

E se a domesticação não funcionar... Lugar de animais selvagens é longe da civilização ou na jaula!

 
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Adilson Luiz Gonçalves
Engenheiro, Professor Universitário e Articulista

algbr@ig.com.br
       

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