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Diferentemente do modelo de
decodificação (centrado no texto) e do psicolingüístico
(centrado no leitor), o ato de ler no modelo interacional é
visto como um processo que envolve tanto a informação
encontrada na página impressa – um processo perceptivo –
quanto a informação que o leitor traz para o texto – seu
pré-conhecimento, um processo cognitivo.
Em linhas gerais, a direção
que o fluxo da informação toma nos vários modelos de leitura
encontrados na literatura pode ser entendida como a
diferença crucial entre eles.
Acreditamos que o modelo
sociointeracional oferece uma maneira mais apropriada para a
compreensão do ato de ler. Mais ainda, concebemos o ato de
ler como um ato comunicativo, ou seja, a perspectiva de como
a linguagem é usada na interação comunicativa entre os
participantes do discurso – aspectos sociais e psico-sociais
– corresponde à visão de leitura. Assim sendo, gostaríamos
de sugerir que este modelo seja complementado por visões da
tradição da análise do discurso, que traz a recuperação do
processo real de negociação de significado entre os
participantes em uma interação comunicativa, no caso em
questão, o leitor e o escritor, posicionados social,
política, cultural e historicamente. Desta forma, na busca
do significado, o leitor utiliza sua competência textual ao
interagir com o escritor através das pistas lingüísticas que
este escolheu incluir no texto. O significado do texto é
então um processo caracterizado por procedimentos
interacionais entre o escritor e o leitor através dos quais
seus respectivos esquemas são negociados.
Um modelo que tem esta
preocupação é, portanto, mais relevante para professores de
leitura, pois leva em consideração os valores, crenças e
projetos políticos de ambos os lados na construção do
significado.
Este modelo também sugere a
relevância pedagógica de que é primordial no ensino de
leitura o desenvolvimento da consciência crítica de como a
linguagem reflete as relações de poder na sociedade através
das quais se defrontam leitores e escritores.
Estado da questão
A bibliografia sobre leitura
tem-se voltado muito mais para investigações sobre o
processo de ler, o preparo do material didático, os
objetivos de leitura, do que para o professor. A visão de
leitura tem sofrido inúmeras mudanças, e as próprias
pesquisas sobre o ato de ler têm uma história recente. Mais
precisamente, só após a década de cinqüenta, realmente, os
conhecimentos sobre leitura tomaram forma de modelos
teóricos explícitos, distinguindo-se cada um deles no que se
refere ao processamento da informação e ao envolvimento
leitor-texto : modelo de decodificação, psicolingüístico e
interacional.
No primeiro, o sentido é inerente ao texto,
e envolve uma concepção logocêntrica da linguagem. Leitura é
uma habilidade passiva, em que se espera que o leitor
decodifique o significado de cada palavra. O fluxo da
informação é visto como ascendente, do texto para o leitor.
Se o significado não depende da contribuição do leitor, o
texto é olhado como um universo em si, e o sentido é
monológico, exato. Ler passa a ter um sentido, o de associar
a palavra ao seu significado, por mediação fonológica,
visual ou pela língua materna. Diante disso, espera-se que o
professor de leitura em língua estrangeira imponha-se como
um “expert” que dita ao aluno o sentido. O ensino parte do
que o aluno não sabe e o professor permanece como fonte de
conhecimento e informação de quem o aluno depende.
Quanto ao modelo
psicolingüístico, o significado não é visto como exato, o
texto tem como papel ativar o processo de atribuição de
sentido, que depende da contribuição do leitor : este é que
atribui coerência ao texto. O fluxo da informação é
descendente, do leitor para o texto. No ato de ler, há uma
recriação do significado por meio do leitor, que é ativo :
ele planeja, decide, coordena habilidades e estratégias,
traz para o texto expectativas, informações, idéias,
crenças, seleciona pistas significativas, formula ou
confirma hipóteses. Muda, assim, o papel do professor de
leitura. A habilidade de leitura passa a ser um problema
dissociado do oral e dependerá de estratégias especiais. Ao
professor cabe ajudar o aluno, portanto, a desenvolver essas
estratégias de compreensão e controlar o impulso de
intervenção em sala de aula.
Pesquisas atuais mostram
tanto a leitura quanto a aprendizagem como resultantes de
procedimentos sociointeracionais. Este modelo de leitura é
interacional no sentido de que é derivado de uma visão
interacional do fluxo da informação – na linha de teorias de
esquema ; e do discurso, entendido aqui como o processo
comunicativo entre leitor e escritor na negociação do
sentido do texto. Assim, o sentido é criado através da
interação entre autor, leitor e texto. Nessa visão de
leitura, o significado não é intrínseco ao texto, mas é
construído pelos participantes do discurso. Este tem sentido
potencial, que o leitor reconstrói por meio de sua interação
com o texto e baseando-se em pistas fornecidas pelo autor e
em seu conhecimento prévio. Pode, portanto, variar de leitor
para leitor. O fluxo da informação é bidirecional :
ascendente ( do texto para o leitor) e descendente ( do
leitor para o texto). Espera-se que o professor assuma uma
série de papéis diferentes : introduzir e praticar
estratégias de leitura, estimular o envolvimento do leitor,
compensar as variações culturais de cada leitor, minimizar
dificuldades e maximizar a compreensão. Para que o sentido
em aula de leitura seja negociado, construído, partilhado
social e dialogicamente, tem que haver a co-participação dos
atores em sala de aula. O professor agora é mais um
consultor, um mediador, que facilita a leitura, monitora e
explora os processos de leitura dos alunos. Ele transfere ou
partilha com os alunos a responsabilidade no aprendizado.
Continua a ter autoridade, mas sem exercer seu poder, deve
criar confiança, garantir continuidade e mostrar
envolvimento.
Silberstein (1987) descreve
outras implicações para a preparação e uso do material de
leitura, apontando para este modelo, no qual a leitura é
vista como um processo ativo :
“O
leitor forma preliminarmente expectativas sobre o material,
então seleciona algumas pistas mais produtivas necessárias
para confirmar ou rejeitar estas expectativas. É um processo
de amostragem no qual o leitor usa seu conhecimento de
vocabulário, de sintaxe, de discurso e de mundo. A
habilidade de leitura depende de uma coordenação de um
número de habilidades e estratégias especiais”.
Contudo, não estamos
familiarizados com a idéia de leitura como um processo
durante o qual continuamente levantamos hipóteses para
depois as rejeitarmos, confirmarmos ou redefinirmos.
Precisamos entender que ler é um ato de comunicação, como
afirma Nuttall (1982) em :
“Ler,
dentro desta visão, é um processo interativo – como
conversar – porque tanto o leitor como o escritor dependem
um do outro”.
Contudo, a leitura é também um processo
social, como explicita Moita Lopes (2001) quando escreve
que :
“A
leitura não ocorre num vácuo social. É primordial no ensino
de leitura o desenvolvimento da consciência crítica de como
a linguagem reflete as relações de poder na sociedade
através das quais se defrontam leitores e escritores.
Ler, é, portanto, saber-se envolvido em uma interação com
alguém em um momento sócio-histórico específico e que o
escritor, como qualquer interlocutor, usa a linguagem a
partir de um lugar social marcado. Ler é se envolver em uma
prática social. Portanto, os projetos políticos de
escritores e leitores estão em jogo, isto é, a noção de
poder é intrínseca aqui”.
Fairclough (1989), indo
além, explica a relação entre língua e poder em :
“A
língua é essencialmente envolvida com o poder, ela luta pelo
poder e ela é envolvida dessa maneira por suas propriedades
ideológicas”.
Uma outra decorrência da
participação do leitor na construção do sentido dos textos é
a influência das identidades sociais no uso da língua. Com
muita propriedade, Hall (1995) esclarece o papel de nossas
identidades sociais nesta interação :
“Nossas vozes em uma interação são limitadas por mais coisas
que os sentidos convencionais já existentes nos elementos
que usamos. Nossa participação é também limitada por quem
somos, como percebemos o outro e como acreditamos que o
outro nos percebe”.
A leitura crítica nunca foi
encorajada em aulas de língua estrangeira. Pelo contrário, a
leitura tem sido uma atividade não-problematizada,
simplesmente algo que acontece quando o leitor encontra o
texto. Muitas vezes os professores têm a prática de
“pular”
a leitura, ou mandá-la como tarefa de casa, sem dar-lhe a
devida importância. Os textos dos livros não são
selecionados pelo seu potencial desafiador, para levar o
aluno a pensar. Eles são apenas considerados veículos para a
apresentação e/ou fixação de estruturas lingüísticas, vistos
como um material de interesse geral, de conteúdo seguro e
não questionado. Wallace (1990) confirma este ponto de vista
em :
“Os
alunos de língua estrangeira são freqüentemente
marginalizados como leitores. O que está faltando é (a) uma
tentativa de situar a leitura e a escrita em um contexto
social ; (b) o uso de textos provocativos e (c) uma
metodologia para a interpretação crítica dos textos”.
Textos não podem ser
considerados produtos isolados. E, no entanto, na sala de
aula de língua estrangeira este é o procedimento padrão – o
texto é trazido para a sala ou então está no livro, é lido e
talvez analisado ou seguido de exercícios. Muitas vezes não
se sabe a autoria, a data nem a origem dos textos. Eles não
têm história. Entretanto, estes elementos fazem parte do
sentido de um texto. Temos que saber alguma coisa sobre a
situação histórica na qual um texto foi escrito, as
circunstâncias de sua produção e como este texto se situa em
relação a outros textos. É aqui que os saberes da análise do
discurso podem elucidar nossa prática pedagógica quanto à
compreensão de textos, ajudando professores e alunos a
responderem perguntas como : quem produziu o texto; para
quem ele foi produzido (o público-alvo) ; por que ele foi
produzido; este tipo de texto é relevante para você/ por
quê/ por que não. Tais questões ajudariam a refletir sobre
os aspectos do poder no mundo real – que tipo de influências
sociopolíticas afetam o que se publica, onde e de que
forma.
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