ISSN 1678-8419                                                                                                    Ano IV n.44 -abril de 2004

  Principal
 Agenda
 Comportamento
 Colunistas
 Cultura
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Esportes
 Em Rhede
 Entrevistas
 Nossa Língua
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Crônicas
 Política
 Reflexão
 Reportagens
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Expediente
 Fale Conosco
   Especiais
 SP 450 anos
 Gilberto Freyre
 Igrejas
 Meio Ambiente
 Assédio Moral
::Em questão::

A norma culta falhou
  por Sandra Kezen

Aula de Português 

Carlos Drummond de Andrade 

A linguagem
na ponta da língua
tão fácil de falar
e de entender. A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.

 

Usei este poema de Drummond para, mais uma vez, ilustrar nossa incapacidade em lidar com a língua portuguesa. Veja bem: ele, o grande Drummond, já se queixava da dualidade do português em seus textos. Ele sabia o que dizia. Como poucos, ele conhecia os segredos da língua, sabia que a língua se inventa e reinventa a cada texto novo, a cada fala nova. Sabia que falamos uma língua, mas temos que aprender outra, mas não entendia a razão. Na verdade, entendia, mas acho que não se conformava.

Não é à toa que não falamos nem escrevemos segundo as regras postuladas pelas gramáticas: a norma culta nos é uma ilustre desconhecida.

Seremos todos nós, brasileiros, burros, ignorantes, incapazes de aprender, intelectualmente limitados ou bloqueados em se tratando de nossa língua? Creio que não. O problema é bem outro: estudamos uma outra língua, não a nossa, a que usamos no dia-a-dia, em família, na escola, no trabalho, etc. Não me refiro aos diferentes registros que utilizamos para as diferentes situações que vivenciamos. É claro que, de acordo com nossos interlocutores, falamos de modo diferente: se falamos com crianças, usamos palavras mais simples; com nossos colegas de trabalho e amigos, usamos gírias e uma linguagem coloquial; com nossos chefes, patrões ou autoridades, usamos uma linguagem mais elaborada, em sinal de respeito. Nesse caso cabe uma pergunta: será que a linguagem que usamos com crianças ou colega seria desrespeitosa? Claro que não: essa linguagem é apenas mais descuidada porque nessas situações não precisamos nos policiar, nem tentamos causar uma boa impressão. É aí que somos nós mesmos. É aí que nossa língua se torna mais rica porque não se prende a regras estáticas, não se aprisiona em construções cristalizadas que na verdade ninguém usa.

Pense bem: você acha mesmo que alguém fala aquelas frases escolhidas a dedo pelos gramáticos? Nem precisa se questionar, ninguém fala. São trechos pinçados apenas para ilustrar um uso específico da língua, que algum escritor famoso usou em um de seus livros, provavelmente somente uma vez, e o gramático vai lá e colhe para que, com um troféu, seja prova contundente e irrefutável que a língua deve ser usada daquela maneira. Afinal, se o tal grande autor usa, é o correto, deve ser o certo, portanto todos devem também usar. Só que aquela determinada frase foi usada em alguma obra talvez antiga, talvez tenha sido usada apenas uma vez, mas o gramático faz dela uma arma para usar contra nós, os “assassinos” da língua, que não a falamos daquela maneira. Na suposta “defesa” da língua, muita coisa se faz erroneamente. Falo da pretensão em ensinar uma língua que não é a usada pelo povo.  

O poder da norma culta

Há um grande interesse das elites dominantes em se manter no alto de seus pedestais, já que são os “detentores” de saber.

O objetivo da idolatria à norma culta da língua não é, ao contrário do que se pensa, democratizar seu acesso às camadas mais populares; é, justamente, o oposto: dificultar seu conhecimento a essas classes menos privilegiadas, para que o domínio desse saber continue restrito às elites, que, por saberem se expressar e escrever segundo as normas gramaticais da língua portuguesa, se acham no direito de atacar quem não sabe. E  professores,  escolas e currículos mantêm essa postura autoritária quanto ao ensino da língua. Os professores sabem, os alunos, não.

A norma culta é poderosa: ao ser imposta, ela garante a continuidade de seu desconhecimento, ela se perpetua como distante e inatingível. Dessa maneira ela continua a exercer seu poder. E através dessa não-disseminação da norma se consolida o preconceito social: que não domina as regras da gramática é burro ou ignorante.

Ora, não é bem assim: o não-conhecimento de um saber não significa a incapacidade de aprendê -lo.

 

Autoridade sem autoritarismo 

O início de todo “ensino” é o respeito ao aluno que provém de classes sociais subalternas, porque ele detém saberes outros que não o domínio da norma culta, mas que são também importantes e dignos de serem conhecidos.

Quando se respeita o outro, estabelece-se uma relação de equilíbrio, mais propícia para a troca de conhecimentos. Sim, porque não se concebe mais em nossos dias a figura do professor autoritário, detentor absoluto do saber. A postura mais adequada e desejável seria a de colaborador, de amigo, de facilitador. A palavra certa para uma boa interação professor-aluno é negociação.

Um segundo passo seria demonstrar verdadeiro interesse pelo universo do aluno: quando sente que será ouvido, ele se sente mais disposto a ouvir. E é exatamente nessa troca que se situa a verdadeira aprendizagem. É aqui que o conhecimento é construído.

::educação::
Ensino de leitura em língua estrangeira : a contribuição do modelo sociointeracional na construção do conhecimento e do sentido dos textos.  por Sandra Kezen
sobreoautor.jpg (6467 bytes)

Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@fdc.

institucional

ajude.jpg (10331 bytes)

 

© copyright revista partes 2000-2003
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil