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Aula de Português
Carlos Drummond de Andrade
A linguagem
na ponta da língua
tão fácil de falar
e de entender. A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
Usei este poema de Drummond para, mais uma vez, ilustrar
nossa incapacidade em lidar com a língua portuguesa. Veja
bem: ele, o grande Drummond, já se queixava da dualidade do
português em seus textos. Ele sabia o que dizia. Como
poucos, ele conhecia os segredos da língua, sabia que a
língua se inventa e reinventa a cada texto novo, a cada fala
nova. Sabia que falamos uma língua, mas temos que aprender
outra, mas não entendia a razão. Na verdade, entendia, mas
acho que não se conformava.
Não é à toa que não falamos nem escrevemos segundo as
regras postuladas pelas gramáticas: a norma culta nos é uma
ilustre desconhecida.
Seremos todos nós, brasileiros, burros, ignorantes,
incapazes de aprender, intelectualmente limitados ou
bloqueados em se tratando de nossa língua? Creio que não. O
problema é bem outro: estudamos uma outra língua, não a
nossa, a que usamos no dia-a-dia, em família, na escola, no
trabalho, etc. Não me refiro aos diferentes registros que
utilizamos para as diferentes situações que vivenciamos. É
claro que, de acordo com nossos interlocutores, falamos de
modo diferente: se falamos com crianças, usamos palavras
mais simples; com nossos colegas de trabalho e amigos,
usamos gírias e uma linguagem coloquial; com nossos chefes,
patrões ou autoridades, usamos uma linguagem mais elaborada,
em sinal de respeito. Nesse caso cabe uma pergunta: será que
a linguagem que usamos com crianças ou colega seria
desrespeitosa? Claro que não: essa linguagem é apenas mais
descuidada porque nessas situações não precisamos nos
policiar, nem tentamos causar uma boa impressão. É aí que
somos nós mesmos. É aí que nossa língua se torna mais rica
porque não se prende a regras estáticas, não se aprisiona em
construções cristalizadas que na verdade ninguém usa.
Pense bem: você acha mesmo que alguém fala aquelas frases
escolhidas a dedo pelos gramáticos? Nem precisa se
questionar, ninguém fala. São trechos pinçados apenas para
ilustrar um uso específico da língua, que algum escritor
famoso usou em um de seus livros, provavelmente somente uma
vez, e o gramático vai lá e colhe para que, com um troféu,
seja prova contundente e irrefutável que a língua deve ser
usada daquela maneira. Afinal, se o tal grande autor usa, é
o correto, deve ser o certo, portanto todos devem também
usar. Só que aquela determinada frase foi usada em alguma
obra talvez antiga, talvez tenha sido usada apenas uma vez,
mas o gramático faz dela uma arma para usar contra nós, os
“assassinos” da língua, que não a falamos daquela maneira.
Na suposta “defesa” da língua, muita coisa se faz
erroneamente. Falo da pretensão em ensinar uma língua que
não é a usada pelo povo.
O poder da norma culta
Há um grande interesse das elites dominantes em se manter no
alto de seus pedestais, já que são os “detentores” de saber.
O objetivo da idolatria à norma culta da língua não é, ao
contrário do que se pensa, democratizar seu acesso às
camadas mais populares; é, justamente, o oposto: dificultar
seu conhecimento a essas classes menos privilegiadas, para
que o domínio desse saber continue restrito às elites, que,
por saberem se expressar e escrever segundo as normas
gramaticais da língua portuguesa, se acham no direito de
atacar quem não sabe. E professores, escolas e currículos
mantêm essa postura autoritária quanto ao ensino da língua.
Os professores sabem, os alunos, não.
A norma culta é poderosa: ao ser imposta, ela garante a
continuidade de seu desconhecimento, ela se perpetua como
distante e inatingível. Dessa maneira ela continua a exercer
seu poder. E através dessa não-disseminação da norma se
consolida o preconceito social: que não domina as regras da
gramática é burro ou ignorante.
Ora, não é bem assim: o não-conhecimento de um saber não
significa a incapacidade de aprendê -lo.
Autoridade sem autoritarismo
O início de todo “ensino” é o respeito ao aluno que provém
de classes sociais subalternas, porque ele detém saberes
outros que não o domínio da norma culta, mas que são também
importantes e dignos de serem conhecidos.
Quando se respeita o outro, estabelece-se uma relação de
equilíbrio, mais propícia para a troca de conhecimentos.
Sim, porque não se concebe mais em nossos dias a figura do
professor autoritário, detentor absoluto do saber. A postura
mais adequada e desejável seria a de colaborador, de amigo,
de facilitador. A palavra certa para uma boa interação
professor-aluno é negociação.
Um segundo passo seria demonstrar verdadeiro interesse pelo
universo do aluno: quando sente que será ouvido, ele se
sente mais disposto a ouvir. E é exatamente nessa troca que
se situa a verdadeira aprendizagem. É aqui que o
conhecimento é construído. |