|
1.
QuQue
fatores são prioritários para o desenvolvimento da
capacidade de aprender?
Vicente Martins – São três os
fatores que influem no desenvolvimento da capacidade de
aprender: l) Primeiramente, a atitude de querer aprender. É
preciso que a escola desenvolva, no aluno, o aprendizado
ontológico dos verbos querer e aprender, de modo a motivar
para conjugá-los assim: eu quero aprender.
Tal
comportamento exigirá do aluno, de logo, uma série de
atitudes como interesse, motivação, atenção, compreensão,
participação e expectativa de aprender a conhecer, a fazer,
a conviver e a ser pessoa.
O segundo
fator diz respeito às competências e habilidades, no que
poderíamos chamar, simplesmente, de desenvolvimento de
aptidões cognitivas e procedimentais. Quem aprende a ser
competente, desenvolve um interesse especial de aprender. No
entanto, só desenvolvemos a capacidade de aprender quando
aprendemos a pensar. Só pensamos bem quando aprendemos
métodos e técnicas de estudo. É este fator que garante,
pois, a capacidade de auto-aprendizagem do aluno.
O terceiro
fator refere-se à aprendizagem de conhecimentos ou
conteúdos. Para tanto, a construção de um currículo escolar,
com disciplinas atualizadas e bem planificadas, é
fundamental para que o aluno desenvolva sua compreensão do
ambiente natural e sociais, do sistema político, da
tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a
sociedade, conforme o que determina o artigo 32 da LDB (Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional)
2.
Saber
ensinar é tão importante quanto saber aprender? O que
depende de quem?
VM
– Há um ditado, no meio escolar, que diz assim: quem sabe,
ensina. Muitos sabem conhecimentos, mas poucos ensinam a
aprender. Ensinar a aprender é ensinar estratégias de
aprendizagem. Na escola tradicional, o P, maiúsculo,
significa professor-representante do Conhecimento; o C,
maiúsculo, significa Conhecimento acumulado historicamente
na memória social e na memória do professor e o a,
minúsculo, significa o aluno, que, a rigor, para o
professor, e para a própria escola, é tabula rasa,
isto é, conhece pouco ou não sabe de nada. Isto não
é verdade. Saber ensinar é oferecer condições para que o
discípulo supere, inclusive, o mestre. Numa palavra: ensinar
é fazer aprender a aprender, de modo que o modelo pedagógico
desenvolva os processos de pensamento para construir o
conhecimento, que não é exclusividade de quem ensina ou
aprende.
É papel dos
professores levar o aluno a aprender para conhecer, o que
pode ser traduzido por aprender a aprender, em que o aluno
é capaz de exercitar a atenção, a memória e o pensamento
autônomo.
3.
Quais
são as maiores dificuldades daqueles que ensinam?
VM
– As maiores dificuldades dos docentes residem nas
deficiências próprias do processo de formação acadêmica. Nas
universidades brasileiras, os cursos de formação de
professores (as chamadas licenciaturas) se concentram muito
nos conteúdos que vêm de ciências duras, mas se descuidam
das competências e habilidades que deve ter o futuro
professor, em particular, o domínio de estratégias que
permitam se comportar como docentes eficientes, autônomos e
estratégicos.
Os docentes enfrentam dificuldades de
ensinar a aprender, isto é, desconhecem, muitas vezes, como
os alunos podem aprender e quais os processos que devem
realizar para que seus alunos adquiram, desenvolvam e
processem as informações ensinadas e apreendidas em sala de
aula. Nesse sentido, o trabalho com conceitos como
aprendizagem, memória sensorial, memória de curto prazo,
memória de longo prazo, estratégias cognitivas, quando
não bem assimilados, no processo de formação dos docentes,
serão convertidos em dores de cabeça constantes, em que o
docente ensina, mas não tem a garantia de que está,
realmente, ensinando a aprender.
A noção de memória é central para
quem quer ensinar a aprender.
4.
Quais
são as maiores dificuldades daqueles que aprendem?
VM
– As maiores dificuldades dos alunos referem-se ao
aprendizado de estratégias de aprendizagem. A leitura, a
escrita e a matemática são meios ou estratégias para o
desenvolvimento da capacidade de aprender. Entre as três
domínios cognitivos, certamente, a leitura, especialmente a
compreensão leitora, tem o seu lugar de destaque.
Ler para aprender é fundamental para qualquer
componente pedagógico do currículo escolar.
A leitura envolve a atividade de ler para
compreender, exigindo que o aluno, por seu turno, aprenda a
concentrar-se na seleção de informação relevante no texto,
utilizando, para tanto, estratégias de aprendizagem e
avaliação da eficácia da leitura.
Aprender, pois, a selecionar informação,
extrair bem uma informação de determinado texto, é uma
tarefa fundamental para que se propõe a ser um bom professor
e desafio para quem quer, realmente, construir um pensamento
próprio.
5.
Em sua
opinião, os paradigmas convencionais do ensino, que mantêm
distantes professores e alunos, estão mudando?
VM
– A escola e a família são instituições ainda muito
conservadoras. No caso do Brasil, o ensino jesuítico que
perdurou por mais de dois séculos ainda é um paradigma
seguido na maior parte dos estabelecimentos de ensino,
presentes nas aulas expositivas, ditados, cópias e sistema
rígido de disciplina. Nisso, por um lado, não há demérito,
quando vem com equilíbrio, mas às vezes também não há mérito
se vislumbramos uma sociedade mais aberta, mais democrática.
Como disse anteriormente, no Brasil, muitas
escolas utilizam procedimentos do século XVI, do período
jesuítico como a cópia e o ditado, com punições para aqueles
que não seguem o modelo apresentado pelo professor. Nada
contra os dois procedimentos, mas poderiam ser mais
produtivos se tivessem uma fundamentação pedagógica ou
lingüística e que valorizassem, por exemplo, a escrita
espontânea e criativa do aluno; sem um caráter científico
ou epistemológico, qualquer paradigma pedagógico está fadado
ao insucesso e, decerto, terá pouca repercussão no seu
aprendizado.
Doutra sorte, muitas escolas, por pressões
familiares, não discutem temas como sexualidade,
especialmente a vertente homossexual. Sexualidade é tabu no
meio familiar e no meio escolar mesmo numa sociedade que
enfrenta uma síndrome grave como a AIDS.
A escola ensina, como paradigma da língua
padrão, regras gramaticais com exemplário de citações do
século XIX, e não aceita a variação lingüística de origem
popular, que traz marcas do padrão oral e não-escrito. E
assim por diante. São exemplos de que a escola é realmente
conservadora.
Isso acontece também com as
pedagogias. Tivemos a pedagogia tradicional, a escolanovista,
piagetiana, Vigostky e já falamos em uma pedagógica
pós-construtivista com base em teoria de Gardner. Umas
cuidam plenamente de um aspecto do aprendizado como o
conhecimento, mas se descuidam completamente da capacidade
cognitiva e metacognitiva, interesses e necessidades dos
alunos.
Na história educacional, no Brasil, os dados
mostram que quanto mais teoria educacional mirabolante,
menos conhecemos o processo ensino-aprendizagem e mais
tendemos, também a reforçar um distanciamento
professor-aluno, porque as pedagogias tendem a reduzir ações
e espaços de um lado ou do outro. Ora o professor é sujeito
do processo pedagógico ora o aluno é o sujeito aprendente. O
desafio, para todos nós, é o equilíbrio que vem da
conjugação dos pilares do processo de ensino-aprendizagem:
mediação, avaliação e qualidade educacional.
Seja como for, o importante é que os docentes
tenham conhecimento dessas pedagogias e possam criar modelos
alternativos para que haja a possibilidade de o aluno
aprender a aprender, ou seja, ser capaz de descobrir e
aprender por ele mesmo, ou, em colaboração com outros, os
procedimentos, conhecimentos e atitudes que atendam às novas
exigências da sociedade do conhecimento.
6.
Qual o
papel da família no desenvolvimento da capacidade de
aprender?
VM
– A Constituição Federal, no seu artigo 205, e a LDB, no seu
artigo 2, preceituam que a educação é dever da família e do
Estado. Em diferentes momentos, a família é convocada, pelo
poder público, a participar do processo de formação
escolar: no
primeiro instante, matriculando, obrigatoriamente, seu
filho, em idade escolar, no ensino fundamental.
No segundo instante, zelando pela freqüência
à escola e num terceiro momento se articulando com a escola,
de modo a assegurar meios para a recuperação dos alunos de
menor rendimento e zelando, com os docentes, pela
aprendizagem dos alunos.
O papel da família, no
desenvolvimento da capacidade de aprender, é tarefa, pois,
de natureza legal ou jurídica, isto é, deve ser, pois, o de
articular-se com a escola e seus docentes, velando, de forma
permanente, pela qualidade de ensino.
Numa palavra, diria: o papel
da família é de zelar, a exemplo dos docentes, pela
aprendizagem. Isto significa acompanhar de perto a
elaboração da proposta pedagógica da escola, não abrindo mão
de prover meios para a recuperação dos alunos de menor
rendimento, ou em atraso escolar, bem como assegurar meios
de acesso aos níveis mais elevados de ensino, segundo a
capacidade de cada um.
7.
Com o
advento da Internet e outras mídias, o que muda na condição
do aprendente, já que se têm informações demais, de diversas
fontes e dificuldade em selecionar o que realmente é
importante?
VM–
As mídias convencionais ou eletrônicas apontam para uma
revolução pós-industrial, centrada no conhecimento. Estamos
na chamada sociedade do conhecimento em que um
aprendente dedicado à pesquisa pode, em pouco tempo, superar
os conhecimentos acumulados do mestre. Nenhum professor pode
mais dizer que sabe tudo sobre todos os tópicos de sua
disciplina. Há, portanto, uma correria pela atualização dos
conhecimentos.E tudo isso é bom para quem ensina e para quem
aprende.
O
conhecimento é possível de ser democraticamente capturado ou
adquirido por todos: todos estão em condições de
aprendizagem. Claro, a figura do professor não desaparece,
exceto o modelo tradicional do tipo sabe-tudo, mas passa a
exercer um papel de mediador ou instrutor ou mesmo um
facilitador na aquisição e desenvolvimento de aprendizagem.
A tarefa do mediador deve ser, então, a de
buscar, orientar, diante das diversas fontes disponíveis,
especialmente as eletrônicas, os melhores sites,
indicando links que realmente trazem a informação
segura.
Infelizmente, por uma série de fatores de
ordem sócio-econômica, muitos docentes não acessam à
Internet e, o mais grave, já sofrem conseqüência dessa
limitação, levando, para sala de aula, informações
desatualizadas e desnecessárias para os alunos,
especialmente em disciplinas como História, Biologia,
Geografia e Língua Portuguesa.
8.
De
forma geral, os professores tem conhecimento para reconhecer
uma criança que apresenta um quadro de dislexia ou algum
outro transtorno de aprendizagem?
VM
– A dislexia, como tenho definido nos meus artigos, é uma
dificuldade específica de leitura. É um transtorno
inesperado que professores e pais observam no desempenho
leitor da criança. Todos os docentes são professores de
linguagem e, desse modo, devem estar atentos aos primeiros
sinais de dificuldade específica de leitura ou escrita de
seus alunos.
Os sintomas da
dislexia podem ser observadas no ato de ler, escrever ou
soletrar.
São as seguintes as características da
síndrome disléxica: l) dificuldade para ler uma só palavra
isolada; 2) Dificuldade para decodificar (discriminar letras
e fonemas da língua), de forma precisa, palavras pouco
familiares ou sem sentido; 3) Dificuldades para ler;
apresentando, em geral, leitura lenta e pouca precisa,
revelando falta de fluidez ao ler e 4) Dificuldade para
aprender a soletrar.
|