ISSN 1678-8419                                                                                                                                                                 Ano IV n.45 -maio de 2004

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::Em Questão::

Brioches e a roupa do imperador
 
por
Adilson Luiz Gonçalves


Até a década de 1970, a Noruega – terra de vikings e fiordes - era um país pobre, para os padrões europeus. Seus habitantes viviam de forma modesta, adequada ao seu poder aquisitivo, e ensinavam seus filhos a darem valor às coisas simples e à alegria de viver. O clima sempre foi frio, mas seus corações sempre estiveram aquecidos. Então, descobriram petróleo no Mar do Norte, em suas águas territoriais!

La dolce vitta”? Absolutamente, não! O poder aquisitivo aumentou significativamente, mas existe uma consciência nacional contra o desperdício e a ostentação. Vive-se bem, come-se bem! Mas sem exageros. Para eles a prosperidade do petróleo é efêmera. Assim, o grande desafio é construir bases sólidas e alternativas econômicas viáveis e sustentáveis para o futuro. Desde então, vivem uma páscoa diária, pois agradecem pelo que são, sem esquecerem o que foram. E os reis são os primeiros a dar o exemplo!

Infelizmente, ainda existem pessoas egoístas e alienadas em nossa sociedade, que vivem de aparências e lucram, ou tiram proveito próprio, fazendo apologia da ostentação. Provavelmente, nunca passaram necessidade ou tiveram que trabalhar para aprender a dar valor ao que é conquistado com esforço e merecimento. Vivem num mundo irreal, onde acreditam que seus padrões são ideais e seus gostos universais.

O curioso é que alguns pregam a singeleza de espírito, o desprendimento do mundo material e o prazer pelas coisas simples. Quem os ouve acredita estar diante de um guru iogue – só que “gourmet” - ou de um monge budista – com estágio no Tibet, mas com escalas em Paris e Milão. Só que a teoria, na prática, é outra, pois cultivam hábitos pessoais sofisticados, que pouquíssimos podem pagar. Simples? Sim! Mas tem que ser com classe, estilo, grife, talher de prata e guardanapo de linho!

Sua pouca relação com o mundo real resume-se à freqüência de jantares beneficentes - cheios de pompa e circunstância – onde os beneficiados não podem entrar...

E se o dinheiro envolvido fosse, apenas – com simplicidade de espírito e caridade virtuosa – doado, diretamente? Já sei... Isso não teria o mesmo glamour, cobertura dos meios de comunicação, shows de falta de compostura de “mauricinhos”, “patricinhas” e excêntricos de plantão, munição para fofocas, tietagem, desfile de “modelitos” exclusivos e apresentação pública dos resultados da cirurgia plástica mais recente. Exceção feita aos bem-intencionados, o que se vê é muita luz para os presentes e poucos presentes para quem precisa... Ou será o contrário?

Vivemos tempos bicudos! Podem não ser para alguns, mas não é de bom tom falar de brioches quando existem pessoas que não tem pão. Tampouco é adequado cobrar que gastem para vestir a “roupa nova do imperador” enquanto tem gente que mal tem o que vestir. Isso não implica em deixarmos de apreciar coisas que nos agradam, mas também não nos obriga a freqüentar lojas e restaurantes caros, apenas para satisfazer expectativas elitistas. O bom senso é de cada um. mas não é hipócrita ou piegas afirmar que existem coisas muito mais importantes, úteis e enobrecedoras para serem sugeridas e incentivadas, hoje e em qualquer tempo!

Temos muito que aprender com a saga dos noruegueses, mas Maria Antonieta e o “imperador nu” ainda fazem escola...

 

::educação::
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Adilson Luiz Gonçalves

Engenheiro, Professor Universitário e Articulista

algbr@ig.com.br

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