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Para muitas famílias, a gravidez é motivo de alegria. Para outras,
porém, a notícia gera um misto de felicidade e preocupação, pois
nem sempre a mãe biológica tem condições de ordem física,
emocional ou psicológica para criar um filho. As razões são
diversas e muito peculiares e, em grande parte dos casos, a guarda
da criança é assumida por uma avó.
Essa realidade é vivida também pelo Sistema Educativo da Unicamp,
que sente aumentar o número de vagas para netos. A criança é
recebida mediante a concessão da guarda pela Justiça, de acordo
com a diretora do Centro de Convivência Infantil (Ceci) da
instituição, Lucila Eliana Moreira Sandoval. “Uma vez que a avó
tem a guarda da criança passa a ter os mesmos diretos de uma mãe
funcionária para utilizar o sistema educativo”, afirma. Em muitos
casos, revela Lucila, a funcionária-avó se vê com uma criança sob
sua responsabilidade da noite para o dia, e a concessão de vaga
tem de ser avaliada com urgência. “A funcionária avó procura vaga
numa situação de emergência.”
Na hora certa – Para a avó-mãe Angela
Maria Teixeira, do Hospital das Clínicas da Unicamp, o nascimento
da neta Ana Luisa Teixeira Viana, de 3 anos, aconteceu em boa
hora, um ano depois do desquite. “Veio na hora certa, pois não
tive tempo de sofrer com a separação. Deus sabe fazer as coisas”,
comemora Angela, que, após 23 anos, viu-se novamente no papel de
mãe.
Ao se dar conta das condições precárias de sua filha, Angela não
teve dúvida, requisitou a guarda de Ana Luisa, atualmente
matriculada no maternal 2 do Ceci. “Só tenho a agradecer, pois
aqui eu sei que ela é bem-cuidada. Sinto isso na reação dela,
quando chegamos pela manhã e ela já entra brincando com os colegas
e as ‘tias’ Simone e Edna”, diz com serenidade, no parque da
escola.
Planos –Em muitos casos, é preciso adiar alguns planos anos
e render-se às inovações. Depois de 17 anos sem cuidar de um bebê,
Sandra Aparecida de Almeida Ramos, funcionária da Coordenadoria de
Desenvolvimento Cultural da Unicamp, tornou-se mãe novamente ao
assumir a guarda da neta Gabriela Fernanda Ramos da Silva, há sete
anos. Hoje, já mais atualizada, ela dedica-se também à criação do
neto Gabriel Henrique de Almeida Ramos, de 2 anos. Sandra assumiu
os filhos de suas filhas e, para isso, sem lamentar, aos 46 anos,
teve de adiar alguns planos, como freqüentar um curso
universitário. “Quando a Gabriela nasceu, minha filha foi embora,
e eu não sabia trocar uma fralda descartável”, relembra.
Apesar dos contratempos,
Sandra
nunca teve problema de aceitação. A alegria de ter nos braços o
neto é perceptível ao dar seu depoimento e nas constantes visitas
ao maternal do Ceci, no horário de almoço, momento em que as mães
podem estar com seus filhos. Gabriela ingressou na Emei da Unicamp
aos 4 anos de idade, atualmente é aluna da primeira série da EEEF
Físico “Sérgio Porto”, que funciona na Unicamp. “Uma das melhores
coisas que a Unicamp fez foi abrir vagas para as avós-mães. Muitas
mulheres que passam por isso não têm onde deixar as crianças para
trabalhar”, reflete Sandra.
Dados – De acordo com informações prestadas pela
estatística Márcia Milena Pivato Serra, pesquisadora no Núcleo de
Estudos da População (Nepo) da Unicamp, o número de crianças
não-criadas pela genitora teve um aumento de 1999 a 2002. Dados
mais recentes do Pnad, consultados por Márcia, mostram um número
de 3.513.052 menores sem a presença da mãe biológica. Este número
equivale a 7,4% da população infantil brasileira. Em 1999, eram
3,3 milhões, o equivalente a 7,1%.
Traumas – As mazelas deixadas pelo rompimento do laço entre
filho e mãe podem ser amenizadas com terapias. A psiquiatra Maria
José Franklin Moreira, que durante muitos anos se reuniu com pais
usuários do Ceci, afirma que é mais fácil a criança elaborar a
perda, do pai ou da mãe, do que a rejeição e o abandono. “É mais
difícil ajudar em casos de abandono”.
Doenças mentais, falta de afeto, mágoa por não ter amor do pai da
criança estão entre as várias causas relatadas pela psiquiatra.
“Às vezes, a mãe não pode dar afeto. Do ponto de vista psíquico, é
ignorância julgar as atitudes das pessoas. Os motivos são vários.
O ser humano faz o que pode, por mais terrível que isso pareça”,
explica.
Uma das iniciativas, na opinião de Maria José, é ajudar a avó a
aceitar a nova situação e fazê-la compreender que aquele ser
humano que está sob sua guarda não tem culpa do que aconteceu. “É
preciso ajudar os avós a olhar as crianças como seres humanjos em
desenvolvimento a quem se pode direcionar recursos para serem
adultos independentes. E, mais tarde, podem até ajudar os avós”,
conclui.
(Maria
Alice da Cruz)
Fotos:
Antonio Scarpinetti
Fonte - Assessoria de Imprensa da Unicamp |