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                                                          Revista Partes - Ano IV - junho de 2004 - nº46 

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A última serenata
Por José Pedreira da Cruz

Éramos bons amigos, e com música costumávamos fortalecer nossos vínculos de amizade.

Nosso principal robe era fazer serenatas em noites de lua cheia: uma brincadeira ingênua, que enriquecia  nosso ego e divertia os enamorados.

Certa noite, eu e meus amigos João Cosme e Raimundo Torres, resolvemos fazer mais uma.

Entre um gole e outro, comíamos torresmo e rodelas de salame  e a seguir o som do violão quebrava o silêncio daquela madrugada de brisa, luar e poesia. 

 “ Tanto tempo longe de você

   quero ao menos lhe falar.

   A distância não vai impedir,

   meu amor de te encontrar….(….)

   ...... Eu te amo, eu te amo, eu te amo”.

 

Havia a certeza de estarmos fazendo uma linda serenata. Nossas canções se alternavam, e muitos na cama se deleitavam com nossas cantorias. Já outros, xingavam-nos. 

             

 “ Esta noite,

    eu queria que o mundo acabasse

    e para o inferno o Senhor me mandasse

    para pagar todos pecados meus.......”.

 

A bebida já, já, acabaria. É alta noite. Plena madrugada. Hora dos corococós dos galos, e nós já havíamos cantado algumas canções. Sentíamo-nos contentes e orgulhosos.

Eu, ladeado pelo dois amigos, estava sentado num dos degraus da calçada da igreja, cantando e dedilhando o violão. Pressenti que alguma coisa não ia bem, pois mesmo cantando e bebendo conhaque vinha-me pensamento desagradável: “ali, naquela igreja, todos os mortos do lugar, obrigatoriamente fazem sua última visita, antes de irem para suas covas”, e nós, estávamos sentados no caminho deles. Isto muito me desagradava e deixava-me apreensivo.

A lua descia rapidamente para o poente e sua luz já estava a desejar. Nesse instante, nuvens negras e gigantes passam sobre nós, escorregando sua imensa sombra sobre a praça: o que nos deixava momentaneamente às escuras, sem o brilho do luar.

Executávamos a última cantoria.....

 

 “Não há, oh! Gente,

   oh! Não!

   Luar como esse do Sertão ...”

 

..... quando o Raimundo toca em meu ombro e diz: -  olha gente ! Olha lá! Tem gente nos espiando, - e acrescentou ­- alguém está fumando na esquina da igreja. Vejam! Vejam!

Parei o violão e calei. Olhamos para lá e vimos uma imensa brasa que, continuamente, acendia e apagava, acendia e apagava: parecia um charuto ao ser tragado. Mas, só víamos a brasa e nada mais. - Quem seria o engraçadinho? -  Com olhares, telepaticamente nos perguntamos.

- Deve ser algum sacana! Um filho da p…. qualquer! - Proferiu o João Cosme, em tom de zombaria, depois, encorajando-nos acrescentou: - vamos lá? Vamos ver quem é? Vamos ver?

Deixamos nossos pertences na calçada e disparamos rumo a tal luz. Ao chegarmos lá... Espanto! Quase caímos dos degraus. - Aqui não tem ninguém! Não há ninguém! Quem estava aqui? - Nos questionamos boquiabertos, olhando às voltas, atropelando nossas falas.

Eu me arrepiava dos pés à cabeça. - Que está acontecendo? - Indaguei aos outros.

Voltei a me lembrar que todos os mortos da cidade são levados à igreja e dela ao cemitério.  Tive a nítida impressão de estar vendo um cortejo fúnebre, arrastando-se pela praça em plena madrugada, com mulheres de véus pretos e homens de chapéus na mão.

Observamos que naquela hora, nuvens negras cobriam a praça e um inesperado relâmpago iluminou o céu, certamente para enfeitar aquela cena macabra.

Senti um frio correr nas vértebras e minhas pernas, desgovernadas, pareciam se congelar: Era o medo, aliás, o pânico. Minha respiração era ofegante e o coração batia-me até na língua. Ficamos inertes no tempo, um colado ao outro, como fôssemos trigêmeos siameses.

Estava decretado o fim de nossa serenata.

Com uma pistola em punho, o João Cosme proclama: - se for vivo leva chumbo e se for morto, que se vá para o inferno. -  Cala-se pôr um instante, enquanto nós nos entreolhávamos e a seguir acrescenta: - vejam! Vem alguma coisa lá na frente. Um vulto. Quem seria a essa hora?

Não dava para se distingüir, mas víamos que era algo cinza, volumoso, do tamanho de um jipe; vindo lentamente em nossa direção; no meio da sombra da igreja. Ele rosnava e fazia um barulho sinilar ao de um cavalo andando no asfalto, e isso, mais e mais nos aterrorizava. Ali não havia calçamento, nem cavalo. A praça era de  terra, pedregulho, grama  e areia. Porquê aquele barulho?

O vulto veio, veio, veio, e sem ser identificável, parou há cinco metros de nossos pés. Ele parecia uma nuvem. -  Nem eu mesmo sei definí-lo.

Naquela hora a cidade preguiçosamente dormia e os galos não paravam com seus cânticos de corococós, assustando-nos, ao tempo em que saudavam mais um amanhecer. Enquanto isso, nós fazíamos companhia àquele fantasma, que pôr sua vez, deveria estar no céu, no purgatório ou no inferno, menos ali, perturbando o sossego e acabando com nossa pacífica cantoria.

- Vamos rezar um Pai Nosso? - Sugeriu o Raimundo, com a voz trêmula, puxando-nos pelo ombro, para ajoelharmo-nos no pedregulho da rua. E o fizemos.

- “Pai -Nosso que estás no céu, santificado seja o  Vosso nome. . .”  ­- antes do fim da reza a nossa voz desapareceu. O vulto em nossa frente se mexia e rosnava, o que nos deixara afônicos, atônitos e em pânico.

Instantes depois ele desviou-se para nossa esquerda, indo em direção a uma casa de esquina. Lá, havia um poste de madeira há aproximadamente um metro da parede, e lá, o vulto misteriosamente encolheu-se e parou entre a parede e o poste. Ficou ali pôr um instante e a seguir emitiu um ruído similar a um feixe de lenha, que é violentamente triturado e junto a esse barulho, ele desapareceu terra adentro.

Estávamos semivivos ou semimortos. Nada nos importava, só tínhamos tremor  o medo.

A lua, nossa velha amiga, nos abandonara. Ficamos sós, amedrontados na escuridão.

Andamos um colado ao outro até o centro da praça, onde teríamos que nos separar.

 João Cosme, arrogantemente sacava sua arma  e dizia nada temer. - Quem invadir meu caminho leva chumbo. -  Assim jurava, enquanto dava alguns passos em direção à rua de sua casa e desligando-se, totalmente de nós dois, desapareceu na escuridão.   

O Raimundo foi para minha casa e o João Cosme, que se dizia destemido, foi novamente molestado pelo vulto: que o fez andar de costas até o batente de sua porta,  totalmente mudo.

Creio que o vulto não gostou da dita encomenda: - se for morto, que se vá para o inferno.

E a todos que me indagam sobre o fato, simplesmente respondo:

- Não sei! Vulto não fala. 

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José Pedreira da Cruz (Tico).  Nasceu dia 5 de janeiro de 1948 em  Sátiro Dias- Bahia. Mora na cidade de  São Paulo onde é atualmente Secretário de Escola da Secretaria de Estado da Educação.
Nas horas vagas dedica-se a ler e escrever Contos, Crônicas e Cordel.
Possui vários textos publicados em sites de  literatura, onde alguns deles  já foram expostos como Destaques Semanais nos seguintes portais: www.temploxv.pro.br, www.cronistasreunidos.com.br e ww.eptv.globo.com/caipira. É colaborar  do jornal Gazeta Voz Ativa de Sátiro Dias-BA, e tem participação no livro “Arrail do Junco: crônica de sua existência” de Ronaldo Torres.
Casado com Marly Mendes há 33 anos. Tem quatro filhos e três netas –    
www.ticocruz.hpg.com.br

 
ticocruz@bol.com.br


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