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Éramos bons amigos, e com música costumávamos fortalecer
nossos vínculos de amizade.
Nosso principal robe era fazer serenatas em noites de
lua cheia: uma brincadeira ingênua, que enriquecia
nosso ego e divertia os enamorados.
Certa noite, eu e meus amigos João Cosme e Raimundo
Torres, resolvemos fazer mais uma.
Entre um gole e outro, comíamos torresmo e rodelas de
salame e a seguir o som do violão quebrava o silêncio
daquela madrugada de brisa, luar e poesia.
“
Tanto tempo longe de você
quero ao menos lhe falar.
A
distância não vai impedir,
meu
amor de te encontrar….(….)
...... Eu te amo, eu te amo, eu te amo”.
Havia a certeza de estarmos fazendo uma linda serenata.
Nossas canções se alternavam, e muitos na cama se
deleitavam com nossas cantorias. Já outros,
xingavam-nos.
“
Esta noite,
eu
queria que o mundo acabasse
e
para o inferno o Senhor me mandasse
para pagar todos pecados meus.......”.
A
bebida já, já, acabaria. É alta noite. Plena madrugada.
Hora dos corococós dos galos, e nós já havíamos cantado
algumas canções. Sentíamo-nos contentes e orgulhosos.
Eu, ladeado pelo dois amigos, estava sentado num dos
degraus da calçada da igreja, cantando e dedilhando o
violão. Pressenti que alguma coisa não ia bem, pois
mesmo cantando e bebendo conhaque vinha-me pensamento
desagradável: “ali, naquela igreja, todos os mortos do
lugar, obrigatoriamente fazem sua última visita, antes
de irem para suas covas”, e nós, estávamos sentados no
caminho deles. Isto muito me desagradava e deixava-me
apreensivo.
A lua
descia rapidamente para o poente e sua luz já estava a
desejar. Nesse instante, nuvens negras e gigantes passam
sobre nós, escorregando sua imensa sombra sobre a praça:
o que nos deixava momentaneamente às escuras, sem o
brilho do luar.
Executávamos a última cantoria.....
“Não há, oh! Gente,
oh! Não!
Luar como esse do Sertão ...”
..... quando o Raimundo toca em meu ombro e diz: - olha
gente ! Olha lá! Tem gente nos espiando, - e acrescentou
- alguém está fumando na esquina da igreja. Vejam!
Vejam!
Parei
o violão e calei. Olhamos para lá e vimos uma imensa
brasa que, continuamente, acendia e apagava, acendia e
apagava: parecia um charuto ao ser tragado. Mas, só
víamos a brasa e nada mais.
- Quem
seria o engraçadinho? -
Com olhares, telepaticamente nos perguntamos.
-
Deve ser algum sacana! Um filho da p…. qualquer! -
Proferiu o João Cosme, em tom de zombaria, depois,
encorajando-nos acrescentou: - vamos lá? Vamos ver quem
é? Vamos ver?
Deixamos nossos pertences na calçada e disparamos rumo a
tal luz. Ao chegarmos lá... Espanto! Quase caímos dos
degraus.
- Aqui não tem
ninguém! Não há ninguém! Quem estava aqui? -
Nos questionamos boquiabertos, olhando às voltas,
atropelando nossas falas.
Eu me
arrepiava dos pés à cabeça.
- Que
está acontecendo? -
Indaguei aos outros.
Voltei
a me lembrar que todos os mortos da cidade são levados à
igreja e dela ao cemitério. Tive a nítida impressão de
estar vendo um cortejo fúnebre, arrastando-se pela praça
em plena madrugada, com mulheres de véus pretos e homens
de chapéus na mão.
Observamos que naquela hora, nuvens negras cobriam a
praça e um inesperado relâmpago iluminou o céu,
certamente para enfeitar aquela cena macabra.
Senti
um frio correr nas vértebras e minhas pernas,
desgovernadas, pareciam se congelar: Era o medo, aliás,
o pânico. Minha respiração era ofegante e o coração
batia-me até na língua. Ficamos inertes no tempo, um
colado ao outro, como fôssemos trigêmeos siameses.
Estava
decretado o fim de nossa serenata.
Com
uma pistola em punho, o João Cosme proclama:
- se for vivo leva
chumbo e se for morto, que se vá para o inferno. -
Cala-se pôr um instante, enquanto nós nos entreolhávamos
e a seguir acrescenta: -
vejam! Vem alguma coisa lá na frente. Um vulto. Quem
seria a essa hora?
Não
dava para se distingüir, mas víamos que era algo cinza,
volumoso, do tamanho de um jipe; vindo lentamente em
nossa direção; no meio da sombra da igreja. Ele rosnava
e fazia um barulho sinilar ao de um cavalo andando no
asfalto, e isso, mais e mais nos aterrorizava. Ali não
havia calçamento, nem cavalo. A praça era de terra,
pedregulho, grama e areia. Porquê aquele barulho?
O
vulto veio, veio, veio, e sem ser identificável, parou
há cinco metros de nossos pés. Ele parecia uma nuvem.
-
Nem eu mesmo sei definí-lo.
Naquela hora a cidade preguiçosamente dormia e os galos
não paravam com seus cânticos de corococós,
assustando-nos, ao tempo em que saudavam mais um
amanhecer. Enquanto isso, nós fazíamos companhia àquele
fantasma, que pôr sua vez, deveria estar no céu, no
purgatório ou no inferno, menos ali, perturbando o
sossego e acabando com nossa pacífica cantoria.
-
Vamos rezar um Pai Nosso? -
Sugeriu o Raimundo, com a voz trêmula, puxando-nos pelo
ombro, para ajoelharmo-nos no pedregulho da rua. E o
fizemos.
-
“Pai -Nosso que estás no céu, santificado seja o Vosso
nome. . .” -
antes do fim da reza a nossa voz desapareceu. O vulto em
nossa frente se mexia e rosnava, o que nos deixara
afônicos, atônitos e em pânico.
Instantes depois ele desviou-se para nossa esquerda,
indo em direção a uma casa de esquina. Lá, havia um
poste de madeira há aproximadamente um metro da parede,
e lá, o vulto misteriosamente encolheu-se e parou entre
a parede e o poste. Ficou ali pôr um instante e a seguir
emitiu um ruído similar a um feixe de lenha, que é
violentamente triturado e junto a esse barulho, ele
desapareceu terra adentro.
Estávamos semivivos ou semimortos. Nada nos importava,
só tínhamos tremor o medo.
A lua,
nossa velha amiga, nos abandonara. Ficamos sós,
amedrontados na escuridão.
Andamos um colado ao outro até o centro da praça, onde
teríamos que nos separar.
João
Cosme, arrogantemente sacava sua arma e dizia nada
temer.
- Quem invadir meu
caminho leva chumbo. -
Assim jurava, enquanto dava alguns passos em direção à
rua de sua casa e desligando-se, totalmente de nós dois,
desapareceu na escuridão.
O
Raimundo foi para minha casa e o João Cosme, que se
dizia destemido, foi novamente molestado pelo vulto: que
o fez andar de costas até o batente de sua porta,
totalmente mudo.
Creio
que o vulto não gostou da dita encomenda:
-
se for morto, que se vá para o inferno.
E a
todos que me indagam sobre o fato, simplesmente
respondo:
-
Não sei! Vulto não fala. |