|
É bastante interessante observarmos na
linguagem dos jovens a pressa que eles têm em viver. Antes mesmo
de irem a algum lugar, dizem « Fui ! ». Quando acham que
algo está demorando, dizem « Demorou !». Eles estão usando
o tempo pretérito mais que qualquer outro tempo verbal em
sua linguagem. Parece que tudo é « pra ontem ». Querem
viver tudo de uma vez ! Que bom que não têm a nossa experiência
...
Estive refletindo sobre o modo como falam
entre si : eles falam uma língua muito diferente da nossa, com
suas gírias, com suas referências próprias, como se fosse um
dialeto deles. Não me refiro a Não me refiro a « Fala sério !», « Tipo
assim », « Irado ! », falas essas já consagradas pela
personagem « Tati » da extinta Escolinha do Professor Raimundo e
que já caíram na boca do povo. Refiro-me a gírias novas : trabalho
é « trampo », sair é « vazar », estragar ou
atrapalhar é « quebrar corrente » , falar algo na « cara »
de alguém é « botar na pedra ». Fala sério ! Quem entende
isso ? Quem é jovem, é claro !
Além das gírias mencionadas, eles usam e
abusam de palavras no aumentativo. As coisas, para eles,
apresentam uma dimensão diferente, maior do que
realmente têm : se fazemos algo errado, ouvimos « Que micão ! ».
Até bem pouco tempo atrás era apenas « Que mico ! ». Se
não gostam de algo, dizem « Mauzão ! ».
Evidentemente, querem ser originais, querem
provar sua autenticidade, querem se auto-afirmar. Faz parte da
experiência de serem jovens. E usam a língua como reflexo de sua
maneira de pensar. O resultado é uma língua viva, dinâmica, que
muitas vezes não entendemos. Estamos « em outra ». Estarão indo na
contramão da linguagem ? Não, somos nós que estaremos perdendo
este « bonde » se não os acompanharmos. Eles estão contribuindo
para a evolução da língua. Daqui a pouco, muitas de suas
invencionices estarão fixadas na memória popular. Ou não. A
decisão não cabe a nós, professores de língua, nem aos políticos,
nem aos gramáticos, nem aos ligüistas. O povo é quem escolhe o que
vai adotar como uso comum. Não adianta dizermos que os jovens
estão « assassinando » a língua portuguesa. A língua muda,
independente de nós. Podemos acompanhá-la ou ficarmos para trás.
Essa escolha, sim, é nossa. Eu escolho acompanhá-los. Fiquemos de
olho nos jovens. Eles vão longe. E você ?
Coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de
Campos
Comentários
para a autora: sandrakezen@fdc.br |