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                                                          Revista Partes - Ano IV - junho de 2004 - nº46 

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 Por Sandra Kezen

                    É bastante interessante observarmos na linguagem dos jovens a pressa que eles têm em viver. Antes mesmo de irem a algum lugar, dizem « Fui ! ». Quando acham que algo está demorando, dizem « Demorou !». Eles estão usando o tempo pretérito mais que qualquer outro tempo verbal em sua linguagem. Parece que tudo é « pra ontem ». Querem viver tudo de uma vez ! Que bom que não têm a nossa experiência ...

                    Estive refletindo sobre o modo como falam entre si : eles falam uma língua muito diferente da nossa, com suas gírias, com suas referências próprias, como se fosse um dialeto deles. Não me refiro a Não me refiro a « Fala sério !», « Tipo assim », « Irado ! », falas essas já consagradas pela personagem « Tati » da extinta Escolinha do Professor Raimundo e que já caíram na boca do povo. Refiro-me a gírias novas : trabalho é « trampo », sair é « vazar », estragar ou atrapalhar é « quebrar corrente » , falar algo na « cara » de alguém é « botar na pedra ». Fala sério ! Quem entende isso ? Quem é jovem, é claro !

                    Além das gírias mencionadas, eles usam e abusam de palavras no aumentativo. As coisas, para eles, apresentam uma dimensão diferente, maior do que realmente têm : se fazemos algo errado, ouvimos « Que micão ! ». Até bem pouco tempo atrás era apenas « Que mico !  ». Se não gostam de algo, dizem  « Mauzão ! ».

                    Evidentemente, querem ser originais, querem provar sua autenticidade, querem se auto-afirmar. Faz parte da experiência de serem jovens. E usam a língua como reflexo de sua maneira de pensar. O resultado é uma língua viva, dinâmica, que muitas vezes não entendemos. Estamos « em outra ». Estarão indo na contramão da linguagem ? Não, somos nós que estaremos perdendo este « bonde » se não os acompanharmos. Eles estão contribuindo para a evolução da língua. Daqui a pouco, muitas de suas invencionices estarão fixadas na memória popular. Ou não. A decisão não cabe a nós, professores de língua, nem aos políticos, nem aos gramáticos, nem aos ligüistas. O povo é quem escolhe o que vai adotar como uso comum. Não adianta dizermos que os jovens estão « assassinando » a língua portuguesa. A língua muda, independente de nós. Podemos acompanhá-la ou ficarmos para trás. Essa escolha, sim, é nossa. Eu escolho acompanhá-los. Fiquemos de olho nos jovens.  Eles vão longe. E você ?

Coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos 

Comentários para a autora: sandrakezen@fdc.br

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Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@fdc.

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