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                                                          Revista Partes - Ano IV - julho de 2004 - nº47 

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Repensando a importância do convívio familiar
Por
Armando Correa de Siqueira Neto


As últimas décadas têm proporcionado modificações revolucionárias na vida do ser humano. Avanços tecnológicos que resultaram em maior conforto e possibilitaram o acesso entre os lugares, através dos meios de transporte e a comunicação. Eletrodomésticos a preços acessíveis, entre outros. Contudo, nota-se, em particular, uma transformação expressiva, uma vez que se trata de gênero: o feminino.

De acordo com o DIEESE (2004) com as conquistas realizadas pela mulher na vida profissional, houve uma enorme modificação quanto as ocupações de vaga de trabalho e posição hierárquica dentro das organizações. Onde existiam apenas homens anteriormente, hoje se encontram mulheres disputando e executando diversas atividades. Isto aconteceu a duras penas, com muito sacrifício. Transpor as barreiras machistas - e ainda existem várias – não foi tarefa fácil. A luta tem valido a pena e serve de estímulo para continuar a trajetória desta evolução.

Todavia, para tudo nesta vida, há que se pagar um preço. Em nosso conhecimento comum é sabido sobre a importância da figura materna na criação dos filhos, é próprio da natureza. O papel fundamental da mãe para com a sua criança nos primeiros anos de vida, período em que ocorre a estruturação da personalidade infantil (Bowlby, 1990, Winnicott, 1993). Também importante é o papel do pai, com o seu amor e a inserção dos limites alguns anos depois. Vários aspectos são construídos neste rico período, tais como as relações afetivas e o processo de educação. Elementos fundamentais para o porvir, na vida adulta da criança. Sem eles, torna-se precária a formação. Aprende-se no contato diário, no relacionamento comum.

Portanto, se somente pela quantidade e qualidade de convívio é possível se constituir uma boa formação de afetos e educação, que servirão de modelo e hábito para o resto da vida, e as pessoas que cuidam das crianças encontram-se trabalhando, ou seja, longe deste contato necessário, o que resulta disso?

A esta pergunta, pondera-se sob diversos ângulos, levando a algumas reflexões que podem servir de base a constantes questionamentos acerca dos problemas observados com o passar dos anos, repetindo-se e aumentando a estatística das dificuldades nos relacionamentos humanos (Grabois, 2004).

Exemplos comuns a respeito deste convívio familiar insuficiente são a precária formação afetiva, resultando em algumas dificuldades conjugais na vida adulta da criança. Uma vez que ela não formou este tipo de relacionamento em seu período de estruturação, encontra enorme obstáculo em oferecer algo que não possui, pelo menos o suficiente. Leva o casamento a um grau de frieza e decorrente distanciamento, ocasionando em alguns casos a separação (Siqueira, 2004). Outro fato é o comportamento conseqüente da falta de educação em muitos lares. Siqueira (2003) afirma: pouco convívio, baixa construção educacional e de valores. Soma-se isto à falsa idéia de que limites traumatizam e pesam mais do que as regras, e então, vê-se uma tremenda falta de educação por todos os lados.

Estas considerações que enraízam alguns dos problemas de relacionamento humano fazem voltar a atenção novamente para a evolução feminina, e é possível advogar na defesa daquilo que já foi conquistado: a independência, sem radicalizar através da opção involutiva, e ademais, seria impossível retroceder pela própria natureza das progressões. Busca-se, então, uma alternativa de equilíbrio, a justa medida.

Para trazer este novo dado às dificuldades existentes, faz-se necessária a contextualização política e econômica da época em que vivemos. Ou seja, com tanto desemprego existente (DIEESE, 2004), medo freqüente de entrar em contato com a miséria (esta, tão bem expressa pela mídia diariamente), a necessidade de se aumentar a carga horária de trabalho para criar maior rendimento (De Masi, 2001).

Pergunta-se: Como tratar da questão da quantidade e qualidade do convívio familiar? Soa como um absurdo, mas não o é!

O ser humano, em seu caos social, ver-se-á obrigado a modificar os rumos e estabelecer novas medidas para atender a reorganização que deverá ocorrer dentro de algum tempo: a redistribuição de carga horária na vida profissional. Esta proposta é amplamente descrita por De Masi (2001), que sugere a distribuição do trabalho em períodos de quatro horas diárias para cada profissional, aumentando o número de vagas e abrindo as portas para tantos desempregados. Isto gerará maior tempo disponível para as pessoas, que poderão usufruir conforme o seu interesse. Inclui-se aqui, o precioso tempo necessário às relações familiares de base; aquelas da formação no período infantil. Maior quantidade e qualidade no convívio, ampliando as chances de uma boa estruturação da personalidade para uma vida posterior melhor. E isto, sem ser preciso lançar mão de artifícios radicais, contando com o bom senso e a inevitável reorganização social.

Não é um empreendimento fácil. Muita discussão deverá acontecer até que os primeiros passos sejam dados nesta direção. Refletir desde já a respeito pode colaborar ainda mais, viabilizando o lado preventivo da questão, e não permitindo que se chegue ao limite insuportável, como ocorrem as grandes mudanças, via de regra.

Sabe-se que muitas mães expressam claramente o desejo de dispor de tempo para se dedicar as suas famílias. E que a falta de perspectiva em transformações neste campo levam à ansiedade e frustração a respeito do futuro.

Outra reflexão, ainda importante, é sobre a qualidade de vida e do trabalho doravante. Que profissionais as organizações terão sob o seu teto? Pessoas cada vez mais estressadas pela desenfreada corrida por horas a mais no trabalho? Que gastos, privados e governamentais, suportarão a demanda por tratamentos, cada vez maiores, para as doenças que têm consumido a saúde do ser humano? Quem suportará o crescimento dos filhos, observando a instalação gradativa de doenças até então de adultos? Conforme Lipp (2000) o estresse já é parte da convivência infantil.

Por que permitir o desenvolvimento destes males, por conta do frenesi das horas e dos péssimos hábitos facilmente adquiridos?

Hoje a criação é distante, fugindo ao importante convívio do significado do termo família, do grego: famulo, que quer dizer servo, aquele que serve (Aurélio, 2001). Servir é a base. É preciso estar disponível.

Quem sabe, em breve ocorram as transformações essenciais para que o ser humano continue a sua evolução, pagando o preço justo por ela, e não a pesada taxa que o consome. É pela reflexão constante, vontade e atitude que se tornará possível contribuir, individualmente para o conjunto familiar, formando assim, uma comunidade melhor. Repensar é olhar os fatos atuais, as possibilidades e o resultado entre ambos.

Referências

BOWLBY, J. Trilogia Apego e Perda. Volumes I e II. São Paulo. Martins Fontes, 1990.

DE MASI, Domenico. A economia do ócio / Bertrand Russel, Paul Lafargue. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2001.

DIEESE. Cresce a participação da mulher no mercado de trabalho. Internet, disponível em: www.dieese.org.br/esp/es2mai97.html. Acesso em 16/06/04.

GRABOIS, Ana Paula. Casamentos diminuem e separações aumentam, diz o IBGE. Internet, disponível em: www.frigoletto.com.br/GeoPop/estadocivil.htm. Acesso em 16/06/04.

LIPP, Marilda E. Novaes. Crianças estressadas: causas, sintomas e soluções. Campinas: Editora Papirus, 2000.

AURÉLIO. Minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

SIQUEIRA, Armando Correa Neto. Dificuldades no relacionamento conjugal ocasionadas pela Síndrome do Comportamento de Hospedagem. Internet, disponível em: www.partes.com.br. Acesso em 22/01/04.

SIQUEIRA, Armando Correa Neto. Educação sem limites. Internet, disponível em: www.psicopedagogia.com.br. Acesso em 27/10/03.

WINNICOTT, D. W. A Família e o Desenvolvimento Individual. São Paulo. Martins Fontes, 1993.  

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Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo, consultor, conferencista e escritor. É mestrando em Liderança.

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