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As últimas décadas têm proporcionado modificações
revolucionárias na vida do ser humano. Avanços
tecnológicos que resultaram em maior conforto e
possibilitaram o acesso entre os lugares, através dos
meios de transporte e a comunicação. Eletrodomésticos a
preços acessíveis, entre outros. Contudo, nota-se, em
particular, uma transformação expressiva, uma vez que se
trata de gênero: o feminino.
De acordo com o DIEESE (2004) com as conquistas
realizadas pela mulher na vida profissional, houve uma
enorme modificação quanto as ocupações de vaga de
trabalho e posição hierárquica dentro das organizações.
Onde existiam apenas homens anteriormente, hoje se
encontram mulheres disputando e executando diversas
atividades. Isto aconteceu a duras penas, com muito
sacrifício. Transpor as barreiras machistas - e ainda
existem várias – não foi tarefa fácil. A luta tem valido
a pena e serve de estímulo para continuar a trajetória
desta evolução.
Todavia, para tudo nesta vida, há que se pagar um preço.
Em nosso conhecimento comum é sabido sobre a importância
da figura materna na criação dos filhos, é próprio da
natureza. O papel fundamental da mãe para com a sua
criança nos primeiros anos de vida, período em que
ocorre a estruturação da personalidade infantil (Bowlby,
1990, Winnicott, 1993). Também importante é o papel do
pai, com o seu amor e a inserção dos limites alguns anos
depois. Vários aspectos são construídos neste rico
período, tais como as relações afetivas e o processo de
educação. Elementos fundamentais para o porvir, na vida
adulta da criança. Sem eles, torna-se precária a
formação. Aprende-se no contato diário, no
relacionamento comum.
Portanto, se somente pela quantidade e qualidade de
convívio é possível se constituir uma boa formação de
afetos e educação, que servirão de modelo e hábito para
o resto da vida, e as pessoas que cuidam das crianças
encontram-se trabalhando, ou seja, longe deste contato
necessário, o que resulta disso?
A esta pergunta, pondera-se sob diversos ângulos,
levando a algumas reflexões que podem servir de base a
constantes questionamentos acerca dos problemas
observados com o passar dos anos, repetindo-se e
aumentando a estatística das dificuldades nos
relacionamentos humanos (Grabois, 2004).
Exemplos comuns a respeito deste convívio familiar
insuficiente são a precária formação afetiva, resultando
em algumas dificuldades conjugais na vida adulta da
criança. Uma vez que ela não formou este tipo de
relacionamento em seu período de estruturação, encontra
enorme obstáculo em oferecer algo que não possui, pelo
menos o suficiente. Leva o casamento a um grau de frieza
e decorrente distanciamento, ocasionando em alguns casos
a separação (Siqueira, 2004). Outro fato é o
comportamento conseqüente da falta de educação em muitos
lares. Siqueira (2003) afirma: pouco convívio, baixa
construção educacional e de valores. Soma-se isto à
falsa idéia de que limites traumatizam e pesam mais do
que as regras, e então, vê-se uma tremenda falta de
educação por todos os lados.
Estas considerações que enraízam alguns dos problemas de
relacionamento humano fazem voltar a atenção novamente
para a evolução feminina, e é possível advogar na defesa
daquilo que já foi conquistado: a independência, sem
radicalizar através da opção involutiva, e ademais,
seria impossível retroceder pela própria natureza das
progressões. Busca-se, então, uma alternativa de
equilíbrio, a justa medida.
Para trazer este novo dado às dificuldades existentes,
faz-se necessária a contextualização política e
econômica da época em que vivemos. Ou seja, com tanto
desemprego existente (DIEESE, 2004), medo freqüente de
entrar em contato com a miséria (esta, tão bem expressa
pela mídia diariamente), a necessidade de se aumentar a
carga horária de trabalho para criar maior rendimento
(De Masi, 2001).
Pergunta-se: Como tratar da questão da quantidade e
qualidade do convívio familiar? Soa como um absurdo, mas
não o é!
O ser humano, em seu caos social, ver-se-á obrigado a
modificar os rumos e estabelecer novas medidas para
atender a reorganização que deverá ocorrer dentro de
algum tempo: a redistribuição de carga horária na vida
profissional. Esta proposta é amplamente descrita por De
Masi (2001), que sugere a distribuição do trabalho em
períodos de quatro horas diárias para cada profissional,
aumentando o número de vagas e abrindo as portas para
tantos desempregados. Isto gerará maior tempo disponível
para as pessoas, que poderão usufruir conforme o seu
interesse. Inclui-se aqui, o precioso tempo necessário
às relações familiares de base; aquelas da formação no
período infantil. Maior quantidade e qualidade no
convívio, ampliando as chances de uma boa estruturação
da personalidade para uma vida posterior melhor. E isto,
sem ser preciso lançar mão de artifícios radicais,
contando com o bom senso e a inevitável reorganização
social.
Não é um empreendimento fácil. Muita discussão deverá
acontecer até que os primeiros passos sejam dados nesta
direção. Refletir desde já a respeito pode colaborar
ainda mais, viabilizando o lado preventivo da questão, e
não permitindo que se chegue ao limite insuportável,
como ocorrem as grandes mudanças, via de regra.
Sabe-se que muitas mães expressam claramente o desejo de
dispor de tempo para se dedicar as suas famílias. E que
a falta de perspectiva em transformações neste campo
levam à ansiedade e frustração a respeito do futuro.
Outra reflexão, ainda importante, é sobre a qualidade de
vida e do trabalho doravante. Que profissionais as
organizações terão sob o seu teto? Pessoas cada vez mais
estressadas pela desenfreada corrida por horas a mais no
trabalho? Que gastos, privados e governamentais,
suportarão a demanda por tratamentos, cada vez maiores,
para as doenças que têm consumido a saúde do ser humano?
Quem suportará o crescimento dos filhos, observando a
instalação gradativa de doenças até então de adultos?
Conforme Lipp (2000) o estresse já é parte da
convivência infantil.
Por que permitir o desenvolvimento destes males, por
conta do frenesi das horas e dos péssimos hábitos
facilmente adquiridos?
Hoje a criação é distante, fugindo ao importante
convívio do significado do termo família, do grego:
famulo, que quer dizer servo, aquele que serve (Aurélio,
2001). Servir é a base. É preciso estar disponível.
Quem sabe, em breve ocorram as transformações essenciais
para que o ser humano continue a sua evolução, pagando
o preço justo por ela, e não a pesada taxa que o consome.
É pela reflexão constante, vontade e atitude que se
tornará possível contribuir, individualmente para o
conjunto familiar, formando assim, uma comunidade melhor.
Repensar é olhar os fatos atuais, as possibilidades
e o resultado entre ambos.
Referências
BOWLBY, J. Trilogia Apego e Perda. Volumes
I e II. São Paulo. Martins Fontes, 1990.
DE MASI, Domenico. A economia do ócio / Bertrand
Russel, Paul Lafargue. Rio de Janeiro: Editora
Sextante, 2001.
DIEESE. Cresce a participação da mulher no mercado
de trabalho. Internet, disponível em:
www.dieese.org.br/esp/es2mai97.html. Acesso
em 16/06/04.
GRABOIS, Ana Paula. Casamentos diminuem e
separações aumentam, diz o IBGE. Internet,
disponível em:
www.frigoletto.com.br/GeoPop/estadocivil.htm.
Acesso em 16/06/04.
LIPP, Marilda E. Novaes. Crianças estressadas:
causas, sintomas e soluções. Campinas: Editora
Papirus, 2000.
AURÉLIO. Minidicionário da língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
2001.
SIQUEIRA, Armando Correa Neto. Dificuldades no
relacionamento conjugal ocasionadas pela Síndrome do
Comportamento de Hospedagem. Internet,
disponível em:
www.partes.com.br.
Acesso em 22/01/04.
SIQUEIRA, Armando Correa Neto. Educação sem
limites. Internet, disponível em:
www.psicopedagogia.com.br.
Acesso em 27/10/03.
WINNICOTT, D. W. A Família e o Desenvolvimento
Individual. São Paulo. Martins Fontes, 1993.
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