.ISSN 1678-8419  

                                                          Revista Partes - Ano IV - agosto de 2004 - nº48 

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Pelé Eterno... e Universal
Por Adilson Luiz Gonçalves

Quem o vê ainda acredita que ele possa entrar em campo e exercer sua majestade irreverente. O porte atlético, o sorriso aberto, o jeito mineiro – a pedra mais preciosa extraída das Minas Gerais -, o sotaque santista – onde a pedra foi lapidada - e o inconfundível “entende?” ainda são os mesmos. Por onde ele passa, mesmo os que não assistiram seu reinado espalham pétalas de sorrisos amigáveis e agradecidos.

Quem diria que ele nasceu numa época em que algumas cidades brasileiras ainda tinham as calçadas para brancos e as para negros...

Tive a felicidade de vê-lo jogar quando mingau de aveia ainda era minha comida favorita e não via motivos para distinguir pessoas, por qualquer razão que fosse. Só havia as boas e as más. Graças a Pelé, quando mais tarde alguém tentou justificar o preconceito, aquilo me pareceu tão sem propósito e coerência, que passei a nutrir um profundo desprezo, sim, mas pelos preconceituosos.

Pelé surtiu esse efeito em muitas pessoas, no Brasil e no mundo.

Até as torcidas adversárias, quando o atiçavam ou ofendiam, não era por preconceito, mas para extrair dele um novo momento mágico, uma nova obra-prima. Tanto que os mesmos que xingavam, aplaudiam de pé seus prodígios, agradecidos e deslumbrados. A dor do adverso existia, mas o fascínio era um bálsamo que aliviava seus efeitos. A sabedoria popular sabe que não há arte sem inspiração!

A paixão de Pelé pela bola foi tão grande, que até goleiro ele foi para poder abraçar sua maior amada! Mas sua ascensão ao Olimpo não foi fácil: Pelé foi caçado, às vezes abatido de forma covarde e desleal, mas nunca se abateu perante os desafios do esporte e da vida. O físico extraordinário, a visão privilegiada – apesar da miopia mínima -, a percepção quase premonitória, a orientação - no tempo certo – dos mais experientes e a imprevisibilidade do gênio foram complementados pela a malícia do revide preciso e pedagógico.

Quando eu e meu filho, de dez anos, vimos “Pelé Eterno” foi um festival de emoções e gargalhadas incontidas. Em dado momento ele olhou para mim, com um largo sorriso do rosto, e comemorou: “- E ele jogou no nosso time!”.

Pelé tem essa aura de eternidade, que expõe sorrisos espontâneos, que parou guerras e curvou poderosos. Só ele era capaz de lotar estádios com pessoa de todas as raças, etnias, credos, ideologias e nacionalidades sem que isso fizesse a menor diferença para uns ou outros. Mais que isso, fez com que trocassem sorrisos e abraços, e gritassem, em uníssono, a mesma palavra: Goooool! 

Que grande embaixador do ecumenismo e da paz universal! Que grande maestro de platéias, que ao seu comando, preciso, gritavam ou calavam. Pensando bem, existe uma divina coerência e propriedade no nome dos dois times que Pelé defendeu profissionalmente: Santos e Cosmos!

Defeitos? Vão encontrar muitos! Mas quem não os tem? Como figura pública, o peso de seus atos e palavras é muito maior. Mas pouquíssimas personalidades souberam conduzir sua carreira de forma tão sóbria e correta, apesar do assédio selvagem a que sempre esteve sujeito, desde a adolescência. Consciente de seu papel foi um operário de sua arte: exercendo-a, dentro do campo, e aperfeiçoando-a, fora dele. E nunca deixou de agradecer a Deus por ela!

O que mais surpreende é que Pelé veio de uma família humilde, mas sólida. Graças a esse diferencial ele pôde ascender ao estrelado, com a velocidade da luz, para transformar-se na estrela de maior grandeza do esporte mundial, sem sair da órbita de si próprio e sem perder a noção de seu papel. Luz negra, que realçou todos os detalhes da grande festa do futebol e foi cortejado por grandes líderes e artistas. Mas era nos braços do povo que encontrava o carinho ideal!

Será lembrado pela história que construiu, pelas 1281 vezes que balançou, oficialmente, as redes adversárias, pelos gols que não fez, pelos “gols de bandeja”, pela quantidade imbatível de títulos, pelas tabelinhas, pelos dribles improváveis – que faziam a alegria dos ortopedistas -, pelas arrancadas fulminantes e pelos socos no ar, mas também por ter suportado as pressões e dores sem recorrer ou sucumbir ao vício. Por tudo isso seu nome jamais ficará perdido, nem na poeira da vida nem na bruma do tempo...

Pelé não precisa de altar, nem da devoção de fanáticos! Só pede que lhe prestem homenagens em vida. Nada mais justo para quem ensinou que o mundo – como a bola - só tem dois lados: o de dentro e o de fora; e que estamos todos dentro dele e devemos tratá-lo - e ao próximo - com o mesmo respeito e amor! E não precisa ser de Três Corações para fazê-lo... Basta um!

Salve o Craque Café! Salve o Rei do Futebol! Salve o Atleta do Século...

... Que jogou no meu time e na minha seleção!

::Artigo 2::

15 MINUTOS DE AUTO-ESTIMA

 

O jornalista Luís Nacif, ao comentar a campanha da Associação Brasileira de Anunciantes sobre auto-estima, lembrou que um dos principais fatores para a determinação de nações desenvolvimento é a solidariedade nacional. De fato, baixa auto-estima tende mais a precisar do que a prestar solidariedade.

A propaganda aborda a proposta seguindo um viés bem objetivo: mostrar a determinação, superação e sucesso de brasileiros, quase todos de origem humilde, mostrando que é possível alcançar nossos sonhos e, portanto, devemos acreditar neles, ter orgulho de nossas origens e mudar o que não está bom. Curiosamente, não há nenhum político no material apresentado...
 

Afora os desvios pontuais do ufanismo exagerado, esse tipo de campanha pode surtir efeitos positivos, se acompanhada de fatos que levem os brasileiros, não apenas a pensarem e buscarem o melhor, mas a sentirem fisicamente os efeitos benéficos dessa atitude.

O uso de símbolos é inevitável e não há nação, empresa ou grupo bem-sucedido que não tenha usado de publicidade massiva e exortações para animar seus habitantes. O problema sempre foi o uso indevido, alienante, desses recursos...
 

Iludir e induzir ao erro já provocou a queda de governos e impérios, reduzindo nações à miséria, mas a auto-estima reconduziu-as ao caminho do sucesso, pela depuração de ideais e aprendizado. A presença do símbolo: herói ou mártir, pode ter servido para motivar, mas ninguém mantém sua motivação apenas com estímulos externos!

O Brasil, especificamente, herdou uma tradição de adotar como símbolos nativos personagens mal-sucedidos, atribuindo-lhes feitos e inspirações românticos e estóicos. Símbolo, de certa forma, é isso mesmo...

A Inconfidência Mineira, por exemplo, foi um episódio isolado, frustrado e sem maior repercussão no vice-reino. Do pequeno grupo que participou da conjuração, apenas Tiradentes foi punido mais severamente. Mais tarde, ideólogos republicanos do império elevaram-no à condição mítica - quase messiânica - de Mártir da Independência. Provavelmente muitos tiveram – antes e depois dele - o mesmo destino trágico, mas ele foi o escolhido, com sua memória celebrada em um feriado nacional.

Mas seu movimento foi, basicamente, mineiro - como a Revolução Constitucionalista foi paulista, embora com pretensões nacionais; como a Revolução Farroupilha foi sulista; como a Guerra de Canudos foi baiana, e assim por diante. E alguns nem são comemorados em seus estados de origem!
 

Em compensação: José Bonifácio e o Barão de Mauá - que deixou os poderosos ingleses vitorianos de cabelos em pé -, bem sucedidos e, até prova em contrário, comprometidos com os interesses nacionais, não desfrutam dos mesmos status e reconhecimento nacionais. Será porque, em vez de mártires, eles souberam assimilar revezes e superar dificuldades contra inimigos poderosos, enfrentando-os diretamente e permanecendo vivos? É... Mártir não morre de velhice... Mesmo assim, eles - e muitos outros - também mereceriam uma data nacional que exaltasse a auto-estima dos brasileiros - individual ou coletivamente - por lutarem, sobreviverem, vencerem e assegurarem um futuro melhor para seus patrícios. Quero uma para meus pais!
 

Mas de que adianta celebrar os ideais dos patriotas de Vila Rica se a realidade continuar a ser a aventura clandestina e temerária dos emigrantes de Governador Valadares?

Não necessitamos de mais feriados, nem de mártires, nem de heróis, nem de campanhas publicitárias otimistas. Se 170 milhões de brasileiros, com exemplos diários de fome, humilhação, espoliação, injustiça, sofrimento e insegurança, não conseguem sensibilizar e mudar a mentalidade de alguns milhares de políticos, que insistem em fechar os olhos para eles, como imaginar que uma simples campanha publicitária - por mais bem-intencionada que seja - consiga o contrário? Seus autores, sim, são otimistas!
 

Cultuar a memória ou o sucesso de ídolos e heróis, aliás, pode gerar mais submissão e prostração, do que inspiração e motivação...

O que precisamos é de metas compensadoras para atingir, de sonhos realizáveis por nossos próprios méritos e de um país que valha, não a pena, mas a benção de se viver nele!

Não devemos chorar, nem pelo leite, nem pelo sangue derramados. É preciso, sim, exaltar o suor dos que trabalham, a aplicação dos que se esmeram e a persistência dos que não se entregam; e dar-lhes oportunidades e recompensas, sem obstáculos artificiais e injustos!

A esperança e a felicidade de um povo não devem vir, apenas, do orgulho que sentir pelo sucesso que poucos conseguiram, sozinhos, ao contrariar o que destino que seu país lhe reservava: pobreza, mediocridade ou marginalidade. Devem brotar da certeza de que pode plantar seus sonhos nessa terra e vê-los germinar, florir e serem pródigos em safras, com a mesma fertilidade de nosso solo!
 

Quer motivar? Então que o seja por infraestrutura física, educação, saúde, segurança e trabalho de boa qualidade, resultados de governantes, legisladores e juízes laboriosos, honestos, competentes e comprometidos com o país e seu povo.

O resto: Deixa com a gente, que dedicação e solidariedade não vão faltar!



Adilson Luiz Gonçalves é Engenheiro, Professor Universitário e Articulista algbr@ig.com.br


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