15 MINUTOS DE AUTO-ESTIMA
O jornalista Luís Nacif, ao
comentar a campanha da Associação Brasileira de Anunciantes
sobre auto-estima, lembrou que um dos principais fatores
para a determinação de nações desenvolvimento é a
solidariedade nacional. De fato, baixa auto-estima tende
mais a precisar do que a prestar solidariedade.
A propaganda aborda a
proposta seguindo um viés bem objetivo: mostrar a
determinação, superação e sucesso de brasileiros, quase
todos de origem humilde, mostrando que é possível alcançar
nossos sonhos e, portanto, devemos acreditar neles, ter
orgulho de nossas origens e mudar o que não está bom.
Curiosamente, não há nenhum político no material
apresentado...
Afora os desvios pontuais do
ufanismo exagerado, esse tipo de campanha pode surtir
efeitos positivos, se acompanhada de fatos que levem os
brasileiros, não apenas a pensarem e buscarem o melhor, mas
a sentirem fisicamente os efeitos benéficos dessa atitude.
O uso de símbolos é
inevitável e não há nação, empresa ou grupo bem-sucedido que
não tenha usado de publicidade massiva e exortações para
animar seus habitantes. O problema sempre foi o uso
indevido, alienante, desses recursos...
Iludir e induzir ao erro já
provocou a queda de governos e impérios, reduzindo nações à
miséria, mas a auto-estima reconduziu-as ao caminho do
sucesso, pela depuração de ideais e aprendizado. A presença
do símbolo: herói ou mártir, pode ter servido para motivar,
mas ninguém mantém sua motivação apenas com estímulos
externos!
O Brasil, especificamente,
herdou uma tradição de adotar como símbolos nativos
personagens mal-sucedidos, atribuindo-lhes feitos e
inspirações românticos e estóicos. Símbolo, de certa forma,
é isso mesmo...
A Inconfidência Mineira, por
exemplo, foi um episódio isolado, frustrado e sem maior
repercussão no vice-reino. Do pequeno grupo que participou
da conjuração, apenas Tiradentes foi punido mais
severamente. Mais tarde, ideólogos republicanos do império
elevaram-no à condição mítica - quase messiânica - de Mártir
da Independência. Provavelmente muitos tiveram – antes e
depois dele - o mesmo destino trágico, mas ele foi o
escolhido, com sua memória celebrada em um feriado nacional.
Mas seu movimento foi,
basicamente, mineiro - como a Revolução Constitucionalista
foi paulista, embora com pretensões nacionais; como a
Revolução Farroupilha foi sulista; como a Guerra de Canudos
foi baiana, e assim por diante. E alguns nem são comemorados
em seus estados de origem!
Em compensação: José
Bonifácio e o Barão de Mauá - que deixou os poderosos
ingleses vitorianos de cabelos em pé -, bem sucedidos e, até
prova em contrário, comprometidos com os interesses
nacionais, não desfrutam dos mesmos status e reconhecimento
nacionais. Será porque, em vez de mártires, eles souberam
assimilar revezes e superar dificuldades contra inimigos
poderosos, enfrentando-os diretamente e permanecendo vivos?
É... Mártir não morre de velhice... Mesmo assim, eles - e
muitos outros - também mereceriam uma data nacional que
exaltasse a auto-estima dos brasileiros - individual ou
coletivamente - por lutarem, sobreviverem, vencerem e
assegurarem um futuro melhor para seus patrícios. Quero uma
para meus pais!
Mas de que adianta celebrar
os ideais dos patriotas de Vila Rica se a realidade
continuar a ser a aventura clandestina e temerária dos
emigrantes de Governador Valadares?
Não necessitamos de mais
feriados, nem de mártires, nem de heróis, nem de campanhas
publicitárias otimistas. Se 170 milhões de brasileiros, com
exemplos diários de fome, humilhação, espoliação, injustiça,
sofrimento e insegurança, não conseguem sensibilizar e mudar
a mentalidade de alguns milhares de políticos, que insistem
em fechar os olhos para eles, como imaginar que uma simples
campanha publicitária - por mais bem-intencionada que seja -
consiga o contrário? Seus autores, sim, são otimistas!
Cultuar a memória ou o
sucesso de ídolos e heróis, aliás, pode gerar mais submissão
e prostração, do que inspiração e motivação...
O que precisamos é de metas
compensadoras para atingir, de sonhos realizáveis por nossos
próprios méritos e de um país que valha, não a pena, mas a
benção de se viver nele!
Não devemos chorar, nem pelo
leite, nem pelo sangue derramados. É preciso, sim, exaltar o
suor dos que trabalham, a aplicação dos que se esmeram e a
persistência dos que não se entregam; e dar-lhes
oportunidades e recompensas, sem obstáculos artificiais e
injustos!
A esperança e a felicidade de
um povo não devem vir, apenas, do orgulho que sentir pelo
sucesso que poucos conseguiram, sozinhos, ao contrariar o
que destino que seu país lhe reservava: pobreza,
mediocridade ou marginalidade. Devem brotar da certeza de
que pode plantar seus sonhos nessa terra e vê-los germinar,
florir e serem pródigos em safras, com a mesma fertilidade
de nosso solo!
Quer motivar? Então que o
seja por infraestrutura física, educação, saúde, segurança e
trabalho de boa qualidade, resultados de governantes,
legisladores e juízes laboriosos, honestos, competentes e
comprometidos com o país e seu povo.
O resto: Deixa com a gente,
que dedicação e solidariedade não vão faltar!