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                                                          Revista Partes - Ano IV - agosto de 2004 - nº48 

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Carta a um velho amigo
Por Sandra Kezen


Querido Zé,

Soube que você morreu. Fiquei muito triste porque não pude me despedir de você. Sei que da última vez que esteve aqui, você perguntou por mim. Queria te ver e botar nosso papo em dia, te contar das minhas filhas (a mais velha já tem 15 anos, Zé). Há quanto tempo, amigo! Que saudade!
Aprendi muito com você, quando trabalhamos juntos. Achava graça quando você dizia que explicava a matéria toda que o livro do professor não trazia, no quadro. Eu achava que não podia fazer isso. Eu era muito ainda “by the book” (mais ou menos, alguém que segue literalmente as instruções do livro do professor), e ficava confusa quando minha turma não entendia completamente algum assunto. Afinal, era meu primeiro emprego numa franquia de escola de idiomas. Aprendi, com você, a mandar os manuais às favas. E aí, me tornei a professora que sou: muito mais criativa e independente. Obrigada, amigo. Pena não ter podido te falar isso pessoalmente. É que a gente sempre acha que vai rever os amigos.
Quando a gente é criança, a gente acredita que nada de ruim vai acontecer com nossa família ou com nossos amigos. Com a inocência típica das crianças, sempre achamos que, de alguma forma, nossos entes queridos estão protegidos sob um manto invisível que os resguardará de todos os possíveis problemas e maldades do mundo. Depois a gente cresce e vê que não é bem assim. A vida é bem outra, não é, amigo? A gente amadurece, e vê o mundo com outros olhos. Que pena, né?
Viemos de um tempo que me parecia mais inocente, talvez até mais previsível, mas sem dúvida alguma, mais poético.
Hoje, numa época em que se descartam valores e sentimentos, podemos concordar com Lennon e dizer: é, o sonho acabou. Acabou mesmo? Não sei. Acho que você ainda tinha muitos sonhos. E lamento que não os tenha podido realizar. Mas, teimosos que somos, vamos insistir em viver ainda mais um pouco, enquanto nos for permitido. Vamos sonhar mais um pouco com um mundo diferente para quem vem depois de nós. Vamos renovar nossa esperança em cada criança que nasce. Enquanto houver crianças, vamos sonhar. Vamos nos permitir ainda ter esperanças. Esperanças de que as pessoas sejam mais alegres, mais verdadeiras, como você.
Um grande abraço e muitas saudades, da amiga,
Sandra.

PS: este texto foi escrito para um grande amigo, recentemente falecido, José Renato Siqueira de Azevedo.


* Comentários para a autora: sandrakezen@fdc.br

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Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@fdc.


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