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Querido Zé,
Soube que você morreu. Fiquei muito triste porque não pude me
despedir de você. Sei que da última vez que esteve aqui, você
perguntou por mim. Queria te ver e botar nosso papo em dia, te
contar das minhas filhas (a mais velha já tem 15 anos, Zé). Há
quanto tempo, amigo! Que saudade!
Aprendi muito com você, quando trabalhamos juntos. Achava
graça quando você dizia que explicava a matéria toda que o
livro do professor não trazia, no quadro. Eu achava que não
podia fazer isso. Eu era muito ainda “by the book” (mais ou
menos, alguém que segue literalmente as instruções do livro do
professor), e ficava confusa quando minha turma não entendia
completamente algum assunto. Afinal, era meu primeiro emprego
numa franquia de escola de idiomas. Aprendi, com você, a
mandar os manuais às favas. E aí, me tornei a professora que
sou: muito mais criativa e independente. Obrigada, amigo. Pena
não ter podido te falar isso pessoalmente. É que a gente
sempre acha que vai rever os amigos.
Quando a gente é criança, a gente acredita que nada de ruim
vai acontecer com nossa família ou com nossos amigos. Com a
inocência típica das crianças, sempre achamos que, de alguma
forma, nossos entes queridos estão protegidos sob um manto
invisível que os resguardará de todos os possíveis problemas e
maldades do mundo. Depois a gente cresce e vê que não é bem
assim. A vida é bem outra, não é, amigo? A gente amadurece, e
vê o mundo com outros olhos. Que pena, né?
Viemos de um tempo que me parecia mais inocente, talvez até
mais previsível, mas sem dúvida alguma, mais poético.
Hoje, numa época em que se descartam valores e sentimentos,
podemos concordar com Lennon e dizer: é, o sonho acabou.
Acabou mesmo? Não sei. Acho que você ainda tinha muitos
sonhos. E lamento que não os tenha podido realizar. Mas,
teimosos que somos, vamos insistir em viver ainda mais um
pouco, enquanto nos for permitido. Vamos sonhar mais um pouco
com um mundo diferente para quem vem depois de nós. Vamos
renovar nossa esperança em cada criança que nasce. Enquanto
houver crianças, vamos sonhar. Vamos nos permitir ainda ter
esperanças. Esperanças de que as pessoas sejam mais alegres,
mais verdadeiras, como você.
Um grande abraço e muitas saudades, da amiga,
Sandra.
PS: este texto foi escrito para um grande amigo, recentemente
falecido, José Renato Siqueira de Azevedo.
* Comentários para a autora:
sandrakezen@fdc.br |