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Alguns
meses atrás, mais exatamente em agosto do ano passado (2001),
a Folha de São Paulo, em alusão ao Dia dos Pais, publicou uma
reportagem onde abordava diversos tipos de pais. Chamou-me a
atenção a diversidade desta tipologia pois apresentou pais
adotivos, ricos, pobres, etc., ou seja, tipos muito diferentes
entre si e o quanto estes tipos e jeitos diferentes de
atitudes e comportamentos são, no fundo, ricos em sentimentos
e força de paternidade na relação pais-e-filhos (é claro que
esta relação pais-e-filhos, não se restringe à figura paterna;
tais sentimentos e significação são profundamente vividos na
relação mãe-e-filhos, com modelo e referência diferentes, nem
melhores nem piores).
Vale a pena lembrar alguns casos apresentados na reportagem.
o pai
sociólogo que adotou a filha já adolescente – ex-interna da
Febem, que cultiva e vive um relacionamento de muita
felicidade e significação
o pai
homem de negócios que, mesmo em viagem internacional que cubra
o fim de semana, com certeza volta para casa na 6ª feira para
ver os filhos, retornando ao país estrangeiro na 2ª feira
seguinte para continuidade de suas atividades profissionais
o pai
catador de papel, que até pouco tempo morava na rua com a
esposa e 3 ou 4 filhos, sendo que o mais velho de 7 anos- que
dormia numa caixa velha de geladeira – tem uma profunda e
forte admiração pelo pai, a ponto de aspirar ser como ele
quando crescer: um catador de papel, idéia reprovada
imediatamente pelo pai
Quem são
estes pais? E o que eles representam para os filhos?
São
pessoas que construíram modelos e interesses para tocar a
vida. Pessoas que lutam para sobreviver, de modos diferentes
(e que diferenças!), para garantir segurança e conforto para a
família. Não é demais lembrar e notar a distância entre
condições e características que cada um destes pais vivem e
buscam seu caminho. Buscas muito diferentes em condições muito
diferentes. Isto nos faz refletir sobre a forma e a qualidade
dos itens de segurança e conforto
oferecidos por estes pais a seus filhos. Vale lembrar que como
itens de segurança e conforto podemos pensar em moradia,
saúde, alimentação, educação, vestuário, transporte, enfim,
todos aqueles itens básicos na vida de qualquer pessoa, em
qualquer sociedade, por mais ou menos urbana ou civilizada que
seja - ou qualquer outra categoria sociológica de referência
(a sociedade afegã, hoje, aparece diariamente na mídia nos
mostrando que, ela também, com todos os traços culturais
diferentes da sociedade ocidental, necessita a garantia de
atendimento de todos estes itens de conforto e segurança;
inclusive a sociedade palestina - se é que na prática a
podemos chamá-la assim pela condição de precariedade de nação
que Israel tem imposto à Autoridade Palestina – também
necessita a garantia de atendimento de todos estes itens de
conforto e segurança). Voltando à questão dos pais, a
reportagem, portanto, ajuda a mostrar e lembrar – até porque
todos nós já sabemos – as diferenças marcantes que distanciam
as pessoas.
Mas há
uma coisa muito legal e importante que a reportagem lembra:
que, apesar das diferenças marcantes (muita riqueza, muita
pobreza, muita espiritualidade, muito materialismo, etc.) os
pais são referências fundamentais ao desenvolvimento afetivo e
emocional dos filhos (sejam crianças ou adultos, é claro!).
Novamente, reforço que a figura da mãe é fundamental e
peculiar neste desenvolvimento, mas destaco - como também a
própria matéria – a cumplicidade masculina; com
filhos e filhas.
Esse
destaque aparece com uma intensidade muito grande
especialmente na expressão do menino cujo pai é catador de
papel pois, apesar da pobreza, dos limites, da tristeza da
carência, da violência (a nossa sociedade se mostra cada
vez mais restritiva e cheia de limites para a liberdade –
lembro-me, quando era criança, de brincar na rua até altas
horas; hoje não nos atrevemos a ousar este procedimento com
nossos filhos, pois até para nós, adultos, não sentimos
segurança), apesar disso tudo então, a referência do pai
para este menino é de um modelo de valentia, coragem e
generosidade (para quem não lembra são os atributos-condição,
determinados pela fada madrinha, para o Pinóquio tornar-se
menino). Mas acima de tudo, é um modelo de autenticidade e
lealdade.
Portanto, a reportagem lembra um item muito importante nas
relações interpessoais, especialmente familiares, que é a
questão das referências, dos modelos de comportamento, de
conduta, de atitudes e de valores, destacando, especialmente
nas relações pai-e-filhos, a referência do ser
pai e não ao que ele é ou tem.
Paulo de
Abreu Lima
Fevereiro/2002
partes
Publicado pela primeira vez em:
http://www.partes.com.br/ed19/reflexao.asp |