.ISSN 1678-8419  

                                                          Revista Partes - Ano IV - agosto de 2004 - nº48 

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Pai - precisamos esperar por agosto?
por Paulo de Abreu Lima
Obs: este texto foi publicado pela primeira vez na edição 19 da Partes.

Alguns meses atrás, mais exatamente em agosto do ano passado (2001), a Folha de São Paulo, em alusão ao Dia dos Pais, publicou uma reportagem onde abordava diversos tipos de pais. Chamou-me a atenção a diversidade desta tipologia pois apresentou pais adotivos, ricos, pobres, etc., ou seja, tipos muito diferentes entre si e o quanto estes tipos e jeitos diferentes de atitudes e comportamentos são, no fundo, ricos em sentimentos e força de paternidade na relação pais-e-filhos (é claro que esta relação pais-e-filhos, não se restringe à figura paterna; tais sentimentos e significação são profundamente vividos na relação mãe-e-filhos, com modelo e referência diferentes, nem melhores nem piores).




Vale a pena lembrar alguns casos apresentados na reportagem.

o pai sociólogo que adotou a filha já adolescente – ex-interna da Febem, que cultiva e vive um relacionamento de muita felicidade e significação

o pai homem de negócios que, mesmo em viagem internacional que cubra o fim de semana, com certeza volta para casa na 6ª feira para ver os filhos, retornando ao país estrangeiro na 2ª feira seguinte para continuidade de suas atividades profissionais

o pai catador de papel, que até pouco tempo morava na rua com a esposa e 3 ou 4 filhos, sendo que o mais velho de 7 anos- que dormia numa caixa velha de geladeira – tem uma profunda e forte admiração pelo pai, a ponto de aspirar ser como ele quando crescer: um catador de papel, idéia reprovada imediatamente pelo pai

Quem são estes pais? E o que eles representam para os filhos?

São pessoas que construíram modelos e interesses para tocar a vida. Pessoas que lutam para sobreviver, de modos diferentes (e que diferenças!), para garantir segurança e conforto para a família. Não é demais lembrar e notar a distância entre condições e características que cada um destes pais vivem e buscam seu caminho. Buscas muito diferentes em condições muito diferentes. Isto nos faz refletir sobre a forma e a qualidade dos itens de segurança e conforto oferecidos por estes pais a seus filhos. Vale lembrar que como itens de segurança e conforto podemos pensar em moradia, saúde, alimentação, educação, vestuário, transporte, enfim, todos aqueles itens básicos na vida de qualquer pessoa, em qualquer sociedade, por mais ou menos urbana ou civilizada que seja - ou qualquer outra categoria sociológica de referência (a sociedade afegã, hoje, aparece diariamente na mídia nos mostrando que, ela também, com todos os traços culturais diferentes da sociedade ocidental, necessita a garantia de atendimento de todos estes itens de conforto e segurança; inclusive a sociedade palestina - se é que na prática a podemos chamá-la assim pela condição de precariedade de nação que Israel tem imposto à Autoridade Palestina – também necessita a garantia de atendimento de todos estes itens de conforto e segurança). Voltando à questão dos pais, a reportagem, portanto, ajuda a mostrar e lembrar – até porque todos nós já sabemos – as diferenças marcantes que distanciam as pessoas.

Mas há uma coisa muito legal e importante que a reportagem lembra: que, apesar das diferenças marcantes (muita riqueza, muita pobreza, muita espiritualidade, muito materialismo, etc.) os pais são referências fundamentais ao desenvolvimento afetivo e emocional dos filhos (sejam crianças ou adultos, é claro!). Novamente, reforço que a figura da mãe é fundamental e peculiar neste desenvolvimento, mas destaco - como também a própria matéria – a cumplicidade masculina; com filhos e filhas.

Esse destaque aparece com uma intensidade muito grande especialmente na expressão do menino cujo pai é catador de papel pois, apesar da pobreza, dos limites, da tristeza da carência, da violência (a nossa sociedade se mostra cada vez mais restritiva e cheia de limites para a liberdade – lembro-me, quando era criança, de brincar na rua até altas horas; hoje não nos atrevemos a ousar este procedimento com nossos filhos, pois até para nós, adultos, não sentimos segurança), apesar disso tudo então, a referência do pai para este menino é de um modelo de valentia, coragem e generosidade (para quem não lembra são os atributos-condição, determinados pela fada madrinha, para o Pinóquio tornar-se menino). Mas acima de tudo, é um modelo de autenticidade e lealdade.

Portanto, a reportagem lembra um item muito importante nas relações interpessoais, especialmente familiares, que é a questão das referências, dos modelos de comportamento, de conduta, de atitudes e de valores, destacando, especialmente nas relações pai-e-filhos, a referência do ser pai e não ao que ele é ou tem

Paulo de Abreu Lima
Fevereiro/2002
partes

Publicado pela primeira vez em:
http://www.partes.com.br/ed19/reflexao.asp

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Paulo de Abreu Lima é psicólogo
paulo@partes.com.br


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