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O
programa de fiscalização por meio de sorteios será estendido
aos investimentos federais nos estados. A idéia é sortear, a
cada mês, um programa e os estados em que os fiscais atuarão.
A exemplo do que acontece nos municípios, o governo espera
contar com a ampla participação da sociedade na construção de
uma nova visão de política que seja comprometida com uma
civilização decente e com a dignidade das pessoas, diz o
ministro do Controle e da Transparência, Waldir Pires, nesta
entrevista ao Em Questão -
Editado pela Secretaria de
Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência da
República.Nº 4- Brasília, 30 de julho de 2004.
Waldir Pires esclarece em definitivo a proposta a ser estudada
pelo governo de instituir a sindicância patrimonial. O
ministro faz ainda um balanço do trabalho realizado até agora
no combate à corrupção no país, além de falar sobre o IV Fórum
Global de Combate à Corrupção, que se realiza no Brasil, em
junho de 2005.
Em Questão - O que vem
a ser a chamada Sindicância Patrimonial, que nos últimos dias
tem ocupado amplo espaço na mídia?
Waldir Pires
- Trata-se de uma das
metas da Estratégia Nacional de Combate à Lavagem de Dinheiro
(Encla), definida no final do ano passado, durante um grande
encontro realizado em Pirenópolis, por iniciativa do
Ministério da Justiça. Alguns setores da mídia informaram
equivocadamente que a medida implica em monitoramento diário
de contas bancárias. Mas não é nada disso, absolutamente. O
governo não vai quebrar o sigilo bancário de ninguém. Os
servidores, na sua imensa maioria dignos e probos, podem ficar
tranqüilos. A sindicância patrimonial, que ainda está em fase
de estudos, é um procedimento administrativo, de caráter
investigativo e sigiloso, que pode redundar na instauração de
processo administrativo disciplinar. Um dos métodos de
investigação da sindicância patrimonial poderá ser o pedido,
ao Judiciário, de quebra do sigilo bancário do investigado. A
sindicância pode ser iniciada a partir de sinais exteriores de
riqueza, incompatíveis com a renda do servidor.
A Encla envolve
muitas outras ações articuladas entre as diversas instituições
do Estado Brasileiro, que reduzirão enormemente o campo de
ação dos que buscam enriquecer com recursos públicos. O
governo do Presidente Lula não admite complacência com a
corrupção.
EQ - O Brasil vai
sediar em junho do ano que vem o IV Fórum Mundial Contra a
Corrupção e assinou, em 2003, a Convenção da ONU que define as
prioridades de combate à corrupção. Quais são as linhas
mestras dessa Convenção?
WP
- O que há de mais
significativo nessa convenção é que a ONU, afinal, deu um
tratamento mais abrangente à questão da corrupção e conseguiu
tirar uma posição em torno da repatriação dos ativos, isto é,
o dinheiro que é transferido de nações, na sua grande maioria
em processo de desenvolvimento, para outras nações ou bancos
de qualquer natureza por meio de mecanismos vinculados à
corrupção. É a primeira vez que nós temos uma convenção
internacional, e com a responsabilidade das Nações Unidas,
estabelecendo regras para a repatriação do dinheiro
transferido para paraísos fiscais ou mesmo em grandes praças
do mercado financeiro. Foi um avanço e nós estamos agora
estabelecendo os mecanismos de atuação, até mesmo porque a
Convenção ainda não está em vigor. Ela foi aprovada, mas
precisa ser ratificada pelo Congresso Nacional, para adquirir
consistência legal e vigência internacional. Essa Convenção da
ONU é, sem nenhuma dúvida, o grande código de luta contra a
corrupção que hoje nós temos.
EQ
- Por que a repatriação de ativos é tão importante para o
combate à corrupção?
WP
- Essas regras eram
muito combatidas dentro da ONU. As nações não admitiam a
hipótese de que esse dinheiro fosse repatriado. Era uma coisa
inimaginável. Em 2003 nós conseguimos avançar e incluir na
Convenção esse conjunto de regras de repatriação de ativos.
Com este instrumento internacional regulando a cooperação
internacional e a repatriação de ativos, além de outras
normas, eu creio que temos como instrumentar governo,
cidadãos, entidades públicas e privadas mobilizadas para a
luta contra a corrupção. No último Fórum, eu fui representando
o governo e lá reafirmamos o compromisso oficial do presidente
Lula de combate à corrupção no Brasil. Desviar dinheiro para
enriquecimento ilícito ou qualquer tipo de destinação
criminosa é uma coisa absolutamente intolerável num país com
as desigualdades, com as privações e o sofrimento do nosso
povo. Nesse fórum, fomos escolhidos para sediar o IV Fórum
Global de Combate à Corrupção e já começamos a prepará-lo. O
evento deverá trazer ao Brasil delegações de mais de cem
países de todos os continentes.
EQ
- O senhor anunciou há alguns dias a realização de
auditorias em programas federais executados pelos estados.
Como vai funcionar esse programa?
WP
- Esse programa ainda
está em processo de elaboração. A idéia é utilizar a
experiência bem sucedida do Programa de Fiscalização por meio
de Sorteios e fiscalizar todos os grandes programas de
investimento do Governo Federal, que estão nos orçamentos e no
Plano Plurianual. A idéia é de que venhamos a estabelecer, por
sorteio, um programa a ser fiscalizado a cada mês. Sorteado o
programa, sortearíamos os estados que seriam objetos de
fiscalização. Vamos mobilizar a população e também a opinião
pública para ficar atenta e nos ajudar, ajudar a si mesma,
ajudar ao governo republicano popular na construção de uma
nova visão de política desse país, que seja comprometida com
uma civilização decente e com a dignidade das pessoas.
EQ
- O programa de sorteios, uma iniciativa inédita talvez no
mundo, está consolidado. Já foram fiscalizados mais de 500
municípios. Como o senhor avalia a experiência?
WP
- A metodologia dos
sorteios ganhou a consciência da opinião pública. Esse
mecanismo tem uma base de sustentação política extraordinária
que está na Constituição da República, que é a idéia da
impessoalidade, e que, por sua vez, é um princípio da vida
administrativa, um princípio não apenas de ordem ética, mas,
como está escrito na letra da Constituição, trata-se de um
princípio jurídico constitucional.
EQ
- Algumas prefeituras estão entrando na Justiça para tentar
barrar essas fiscalizações. A que o senhor atribui essas
resistências?
WP
- Essas resistências são
teoricamente inexplicáveis, porque nós temos competência legal
para fiscalizar a aplicação dos recursos federais por gestores
de qualquer esfera da administração. Não exercemos nenhuma
fiscalização em relação à receita municipal, típica da
competência municipal. Nós nos mantemos na fiscalização e
auditoria do dinheiro federal, dos recursos federais que o
Governo da República passa para um determinado território
municipal, para ser aplicado por Estados, por Municípios ou
pelo próprio gestor federal. Então surgem aí esses mandados de
segurança pretendendo estabelecer uma impugnação à nossa
competência, em relação ao controle. Mas estamos ganhando as
batalhas contra as liminares, tanto as que pretendiam impedir
as fiscalizações, quanto as que queriam proibir a divulgação
dos resultados das auditorias. Todos os pedidos de liminares
até aqui foram rejeitados pelo Superior Tribunal de Justiça.
EQ
- Como o senhor disse, esse programa de fiscalização
procura estimular a participação da população. Como está o
trabalho da CGU junto aos conselhos populares?
WP
- Os conselhos
municipais hoje têm desvios gigantescos decorrentes da velha
prática clientelista, patrimonialista da nossa sociedade. Com
esta experiência que adquirimos já realizamos fiscalizações em
mais de 500 municípios e tivemos a certeza de que é preciso
reformular essa concepção de formação dos conselhos. Estamos
atuando em duas frentes para alterar esse quadro:
Primeiro,
desenvolvendo estudos para propor medidas legislativas visando
a reformulação dos conselhos no tocante à sua composição e
critérios de nomeação, de modo a torná-los independentes do
poder público local e mais eficazes para garantia da
participação cidadã na gestão pública. Segundo, já começamos a
desenvolver um programa de capacitação para membros desses
conselhos e de informação à população sobre as funções e
responsabilidades dos mesmos. Com esses objetivos, três
seminários-piloto já aconteceram nas regiões de Ipiaú (Bahia),
Anápolis (Goiás) e Barbacena (Minas Gerais).
Nessa mesma
linha de fomento ao controle social, estamos elaborando
cartilhas informativas destinadas aos agentes públicos
municipais, com orientações sobre a correta aplicação dos
recursos públicos; e à população em geral, com informações
sobre as formas de identificar e denunciar a corrupção.
EQ
- A Controladoria tem anunciado, também, a implantação do
Portal da Transparência. O que visa essa iniciativa?
WP
- Trata-se de um sistema
informatizado capaz de disponibilizar aos cidadãos, via
Internet, mas também por outros meios, em linguagem acessível,
as informações relativas à aplicação de todos os recursos
públicos federais. Já foram definidas as estratégias de
divulgação das informações, abrangendo o leiaute do sítio e a
definição dos dados que serão divulgados. No momento, estão
sendo viabilizados os canais de comunicação e a
disponibilização dos dados, em articulação com os Correios, o
Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e outros órgãos que
dispõem de estrutura e capilaridade de agências que facilitem
a divulgação dessas informações ao maior número possível de
interessados. Nas pequenas localidades, as informações sobre
os recursos públicos serão afixadas em painéis, periodicamente
atualizados.
EQ
- O combate à corrupção no serviço público é um tema
polêmico porque apesar de todo o trabalho feito por quem cabe
investigar, muitas vezes fica a impressão, para o cidadão
comum, de que isso não leva a nada. Qual o melhor caminho? Há
mecanismos novos que podem ser implementados para tornar esse
trabalho mais visível para o cidadão?
WP
- Para mim, o caminho é
o da ampla abertura e transparência em todas as áreas da
sociedade. A corrupção é um crime, assim como o homicídio.
Mas, infelizmente, sempre vão existir homicidas e corruptos. O
que é preciso fazer, no caso da corrupção, é combatê-la,
acabando com a impunidade, e é isso que o governo do
Presidente Lula está fazendo.
EQ
- O senhor já falou em percepção da corrupção. Às vezes o
cidadão, ao ler informações sobre o trabalho da CGU, faz uma
certa confusão e chega a pensar que a corrupção está
aumentando, quando na verdade ela está sendo combatida e
levada a público. Explique esse paradoxo.
WP
- A percepção se dá
exatamente quando se abre o assunto à sociedade. Numa ditadura
você não vê nenhuma percepção da corrupção, tudo está
censurado. Quando você abre à sociedade, tem a impressão de
que, de repente, surgiu a corrupção. É bom deixar claro que,
para os corruptos, o melhor momento é quando não se ouve falar
em corrupção. De outro lado, o desbaratamento de esquemas de
desvios de recursos públicos e o interesse da mídia por esses
casos só demonstram que o combate à corrupção ganha eficácia,
com o custo inevitável de um aumento da percepção sobre o
assunto. O fato concreto é que este governo encara o combate à
corrupção como uma política de Estado, com prioridade
absoluta.
EQ
- A CGU realizou recentemente concurso para preenchimento
de vários cargos. Esse pessoal é suficiente para todo esse
trabalho da Controladoria?
WP
- Não. O quadro de
pessoal da antiga Secretaria Federal de Controle era de 5.000
servidores (analistas e técnicos de finanças) e quando
assumimos encontramos apenas 1.800 em serviço. Havia,
portanto, 3.200 vagas não preenchidas. Não precisamos criar
cargo nenhum. Basta que possamos realizar os concursos para
preencher os cargos. O Presidente Lula nos autorizou e nós
realizamos concurso para 300 vagas. Já nomeamos os 300 e
estamos pedindo autorização para, nos termos da lei, elevar em
50% o preenchimento desses cargos. Seriam mais 150 que nós
aproveitaríamos desse concurso já realizado. Eu já pedi para
fazermos um concurso, no início do próximo ano, de 500 vagas,
e mais um outro, posteriormente, para, gradativamente,
recuperar o quadro de 5 mil. Precisamos crescer ainda mais na
nossa capacidade de combater a corrupção.
EQ
- Qual o papel da Ouvidoria-Geral da União, órgão vinculado
à CGU?
WP - A Ouvidoria é uma
coisa importantíssima porque é a relação que se dá entre o
cidadão, não propriamente com a corrupção, mas com a
ineficiência do serviço público, com a desatenção do serviço
público, com as suas incapacidades de servir bem ou melhor em
diversas áreas. A Ouvidoria é muito isso, essa compreensão
geral de uma capacidade de refletir a natureza e a justa
expectativa que a população tem dos seus serviços públicos.
Nós estamos ampliando a Ouvidoria-Geral, vamos fazê-la dotada
de organização e de ampla articulação com as ouvidorias
públicas de todo o país para que ela possa recolher, possa
encaminhar, possa estimular, possa orientar as ouvidorias de
um modo geral em toda a parte do país. |