|
John Donne, poeta inglês do século XVI, em seu famoso texto
“Meditações XVII”, escreveu um belíssimo trecho, mais tarde
usado pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway em seu
romance “Por quem os sinos dobram”, citação esta transcrita
aqui em inglês, abaixo traduzida, que sempre me encantou:
“No man is na island, entire of itself; every man is a piece
of the continent, a part of the main.
If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as
well as if promontory were, as well as if a manor of thy
friend’s or of thine own were. Any man’s death diminishes me,
because I am involved in mankind; and therefore never send to
know for whom the bell tolls; it tolls for thee”.
“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é
parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado
pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório,
assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a
morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da
humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos
dobram, eles dobram por ti”.
A razão de meu encanto pela citação acima não é apenas sua
beleza poética, é seu sentido mais profundo: John Donne já
sugeria que nenhum homem poderia existir sozinho. Ele afirma
que nós somos todos interligados, e que a perda de um ser
humano é também a nossa perda. Nesse mesmo sentido, a morte de
uma pessoa é a nossa própria morte, ou seja, cada vez que os
sinos dobram, a humanidade perde algo precioso: uma vida, e,
com ela, toda uma história. O som dos sinos é um lembrete de
nossa própria mortalidade, de nossa própria fragilidade.
Numa época em que amigos não se vêem mais, porque ninguém tem
tempo para visitas, numa época em que as pessoas têm amizades
e namoros virtuais, vivendo também uma realidade virtual e se
afastando cada vez mais uma das outras, estamos perdendo o
sentido do ser humano, de sermos humanos. Estamos nos
afastando de nossa essência, que é eminentemente social.
Estamos nos computadorizando, nos maquinizando. Nossas
relações são frias, via e-mail. Numa mesma empresa, pessoas
preferem enviar e-mails a falarem pessoalmente com seus
colegas. O que é isso? Preguiça, comodismo, indiferença,
individualismo? Não sei. Estamos perdendo a dimensão do
humano: tudo é banal, tudo é aceitável. Tudo é aceitável? Não
mesmo!
Adoro computadores, máquinas, tudo o que a tecnologia tem para
oferecer. Mas isso não me afasta do convívio de meus amigos,
de minhas filhas e de minha família. Por quê? Porque as
pessoas são mais importantes que as coisas, que as máquinas.
Nada substitui o calor humano do contato entre as pessoas. A
vida ainda é o grande milagre, o grande mistério. Temos que
vivê-la com vontade. Temos que mergulhar de cabeça em nossas
relações. Temos que conviver com as pessoas. Temos que tentar
entender o outro, e, assim, quem sabe entenderemos nós mesmos
um pouco mais?
O homem do novo milênio precisa refletir sobre essas questões:
ao se afastar das pessoas, ele se afasta de si mesmo. Ele fica
sozinho. E ser solitário é terrível: a solidão consome, mata.
Temos que ser solidários: a solidariedade aproxima, acolhe,
humaniza. E esse é o perfil desejável do homem pós-moderno:
não aquela criatura «clean», asséptica, distante, mas uma
pessoa próxima, presente, que se envolve, que se compromete,
que se vê no outro, que se conecta com o outro e entende suas
dores, porque também as sente.
Comentários para autora :
sandrakezen@fdc.br |