.ISSN 1678-8419  

                                                          Revista Partes - Ano IV - agosto de 2004 - nº48 

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::Reflexão::
 

Ser humano
Por Sandra Kezen


John Donne, poeta inglês do século XVI, em seu famoso texto “Meditações XVII”, escreveu um belíssimo trecho, mais tarde usado pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway em seu romance “Por quem os sinos dobram”, citação esta transcrita aqui em inglês, abaixo traduzida, que sempre me encantou:
“No man is na island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main.
If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if promontory were, as well as if a manor of thy friend’s or of thine own were. Any man’s death diminishes me, because I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee”.
“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

A razão de meu encanto pela citação acima não é apenas sua beleza poética, é seu sentido mais profundo: John Donne já sugeria que nenhum homem poderia existir sozinho. Ele afirma que nós somos todos interligados, e que a perda de um ser humano é também a nossa perda. Nesse mesmo sentido, a morte de uma pessoa é a nossa própria morte, ou seja, cada vez que os sinos dobram, a humanidade perde algo precioso: uma vida, e, com ela, toda uma história. O som dos sinos é um lembrete de nossa própria mortalidade, de nossa própria fragilidade.

Numa época em que amigos não se vêem mais, porque ninguém tem tempo para visitas, numa época em que as pessoas têm amizades e namoros virtuais, vivendo também uma realidade virtual e se afastando cada vez mais uma das outras, estamos perdendo o sentido do ser humano, de sermos humanos. Estamos nos afastando de nossa essência, que é eminentemente social. Estamos nos computadorizando, nos maquinizando. Nossas relações são frias, via e-mail. Numa mesma empresa, pessoas preferem enviar e-mails a falarem pessoalmente com seus colegas. O que é isso? Preguiça, comodismo, indiferença, individualismo? Não sei. Estamos perdendo a dimensão do humano: tudo é banal, tudo é aceitável. Tudo é aceitável? Não mesmo!

Adoro computadores, máquinas, tudo o que a tecnologia tem para oferecer. Mas isso não me afasta do convívio de meus amigos, de minhas filhas e de minha família. Por quê? Porque as pessoas são mais importantes que as coisas, que as máquinas. Nada substitui o calor humano do contato entre as pessoas. A vida ainda é o grande milagre, o grande mistério. Temos que vivê-la com vontade. Temos que mergulhar de cabeça em nossas relações. Temos que conviver com as pessoas. Temos que tentar entender o outro, e, assim, quem sabe entenderemos nós mesmos um pouco mais?

O homem do novo milênio precisa refletir sobre essas questões: ao se afastar das pessoas, ele se afasta de si mesmo. Ele fica sozinho. E ser solitário é terrível: a solidão consome, mata. Temos que ser solidários: a solidariedade aproxima, acolhe, humaniza. E esse é o perfil desejável do homem pós-moderno: não aquela criatura «clean», asséptica, distante, mas uma pessoa próxima, presente, que se envolve, que se compromete, que se vê no outro, que se conecta com o outro e entende suas dores, porque também as sente.

Comentários para autora : sandrakezen@fdc.br

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Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@fdc.


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