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INTRODUÇÃO
A questão do tempo livre e lazer tornou-se uma preocupação
constante nos depoimentos das pessoas que possuem uma carga
excessiva de trabalho, como também nos meios de comunicação
de massa. O Lazer se tornou
uma palavra da moda e o seu uso corrente serve para designar
normalmente pacotes de turismo, passeio no parque, assistir à
televisão e leitura entre outros; algumas vezes o lazer é
associado à questão econômica e outras vezes
não.
Ele está presente nas manifestações verbais e nas mais
diversas práticas corporais, em diferentes formas de expressão
nas diferentes classes sociais e grupos étnicos. Estas
manifestações de lazer podem ser vistas na
TV, nas ruas , nos parques, nas universidades, etc. Mas,
infelizmente inúmeras vezes, o lazer ainda é visto como algo
supérfluo, um bem de que grande parte da população não
desfruta porque não possui condições dignas de
existência. As pessoas das camadas mais pobres da sociedade não
possuem
casa, comida e ainda querem lazer? Pensar desta forma seria
privar uma grande parte da população de seus direitos de
cidadãos. O lazer deve ser compreendido como um meio de
essencialização do ser humano.
Atualmente, diferentes áreas de conhecimento consideram o
lazer como área importante de estudo. E reconhecem, a sua
importância
sócio-cultural, de um meio privilegiado para a manifestação
de hábitos, culturas e expressão das mais diferentes formas,
inclusive as de aspecto ludomotor.
Este artigo tem como objetivo compreender os conceitos de
Lazer, tempo livre e ócio, que foram adquirindo diferentes
conotações com o passar do tempo, e suas relações com a
sociedade atual.
A HISTÓRIA DO LAZER
Os gregos denominavam de ócio o tempo livre, atribuindo-lhe
maior valor que a vida de trabalho, principalmente os
atenienses. Na Grécia clássica, o ideal de sabedoria que se
cultivava tinha no ócio sua condição essencial. Havia uma
grande significação e exaltação das atividades ociosas em
contraposição às de trabalho, pelo menos para os
atenienses, já que os espartanos eram guerreiros. A cultura
agonista espartana pode ser considerada uma cultura laboral. O
cotidiano deste povo acontecia fundamentalmente nos ginásios,
nas termas, no fórum e em outros lugares de
reunião. Havia o culto aos deuses que representava função
permanente no tempo, pois se acreditava que a via para atingir
a perfeição e a sabedoria passava pela contemplação dos
deuses.
Cronos é o deus do tempo, daí advindo às palavras cronômetro,
cronometragem,
cronograma, etc.
Segundo Bacal (1988) a etimologia da palavra ‘’ócio’’
orienta-se do grego; ócio em grego é skole, em latim schola
e em castelhano escuela.
Podemos ver que a educação significava ócio, pois do ponto
de vista semântico, a raiz skole implicava nos atos de parar
ou cessar, indicando idéias de repouso ou paz.
Convém ressaltar que os nomes com que se denominavam lugares
para educação significavam ócio, e, para os gregos, toda a
atividade era um meio, um instrumento, sendo o ócio um fim em
si mesmo, algo a ser alcançado para ser desfrutado.
Já para Aristóteles, ainda na Grécia Antiga, o ócio era
uma condição ou estado – o estado de estar livre da
necessidade de trabalhar. O
filósofo fala também da vida de ócio em contraposição à
de ação, entendendo por ações as atividades dirigidas para
obtenção de fins. Não considerava a diversão (Paidéia) ou
recreio (anapáusis) como ócio, uma vez que são meios necessários
para conduzir o ser às atividades laborais.
As atividades de recreio e diversão estavam diretamente
relacionadas com descanso do trabalho, e a capacidade de
empregar
devidamente o ócio era à base do homem livre e da felicidade
humana.
Já o conceito de ócio que circulava em Roma durante toda a
Idade Média é que indivíduos muito ocupados buscam o otium,
não como fim em si, mas em função do negotium (Dumazedier,
1979). Ou seja, o homem ocupado com diversas atividades – exército,
comércio, Estado – encontra seu descanso e
diverte-se pelo ócio.
De acordo com Bacal (1988), só foi possível a vida de ócio
dos gregos devido à escravidão, pois, nesta fase, havia duas
classes de homens:uns dedicados à tarefa da arte, à
contemplação ou à guerra; outros que eram
obrigados a trabalhar inclusive em condições precárias.
Para o homem grego, o ócio não significava estar ocioso no
sentido de não fazer nada, mas implicava operações de
natureza intelectual e espiritual que se traduziam da
contemplação da verdade, do bem, e da beleza, de forma não
utilitária.
Enquanto para os gregos o ócio era considerado um estado de
alma que consistia em o indivíduo sentir-se livre do
trabalho, que era relegado aos escravos, em Roma predominava o
conceito de descanso e da diversão, necessários para a
preservação das condições de poder trabalhar. O trabalho
era entendido como condição necessária para o ócio.
Encontram-se aqui as sementes de conceito de Ócio Criativo
proposto pelo sociólogo do trabalho italiano Domenico Di Masi
(2000).
A partir destas explicações, podemos verificar que existe um
ponto comum nos indivíduos do mundo clássico: valorizavam o
tempo de não-trabalho e atribuíam uma valorização
psicossocial às atividades exercidas neste tempo.
A relação entre ócio e a religião começa a se modificar,
e,segundo Bacal (1988), a contemplação se converte em uma
busca específica – sem ser um fim em si mesma – da
Verdade Religiosa. A meta final era a salvação, a outra
vida, o Reino do Céu, e o trabalho era algo desagradável,
feito por necessidade como castigo imposto, sendo o corpo
usado como instrumento de purificação, de meio de se
expurgar os pecados.
O cristianismo ajudou a manter a ordem social durante a Idade
Média, mediante o destaque que atribuía ao drama da salvação
e ao ideal monástico; assim, atividades de lazer se
restringiam às festividades religiosas e às comemorações
referentes às vitórias nas guerras.
A época medieval é caracterizada como teocêntrica. As
preocupações religiosas eram excessivas e o homem
preocupava-se com a salvação de sua alma, vivendo numa
realidade sagrada, intocada, na qual não deveria
interferir, apenas contemplar. O corpo era resguardado em função
da pureza da alma.
A sociedade medieval justificava-se pelo fato de que Deus
atribuía funções distintas a cada indivíduo ou grupo e os
problemas sociais eram encarados como castigos divinos, e,
nesta época, a essência do ócio é à busca de Deus
e o cultivo da fé.
A partir da Idade Média e da Renascença, em decorrência de
razões históricas, econômicas e sociais, já é possível
visualizar mudanças na
atitude do homem em relação aos valores que regem a vida. A
desarticulação do processo feudal e o desenvolvimento do
capitalismo mercantil vão modificar radicalmente o rumo da
história.
Foi a partir de uma nova interpretação da Bíblia e de um
movimento cultural burguês que se aglutinaram todas as
manifestações artísticas, filosóficas e científicas,
visando justificar os valores e padrões sociais burgueses.
Esta
nova interpretação é feita por Lutero mediante a Reforma (Bacal
1988).
Com a Reforma – a ética protestante – surge uma nova
atitude frente o significado do trabalho, havendo uma valorização
do tempo necessário para as atividades produtivas. O
cumprimento dos deveres é o único modo de agradar a Deus, e
o trabalho como missão enobrece e exalta os homens.
Pelo exposto, percebe-se que na Idade Moderna houve uma grande
valorização
do trabalho e condenação do ócio, pois as normas de
comportamento da ética
protestante (diligência, temperança, parcimônia, reserva,
afastamento dos
prazeres da carne e poupança) são princípios responsáveis
pelo surgimento do
capitalismo moderno, dentro da perspectiva marxista.
Surge um novo pensamento da época desenvolvendo a característica
básica da
atitude, que é o individualismo e o significado valorativo do
trabalho (supremacia do dinheiro).
Pode-se perceber ai o fundamento das taras do ter e do poder.
Na sociedade pré-industrial, trabalho e lazer não eram
excludentes, e as atividades de produção e trabalho
(colheita, plantação) misturavam-se. O trabalho estava
inserido nos ciclos naturais das estações e dos dias; o seu
ritmo era tão natural como o ritmo do amanhecer e anoitecer,
sendo interrompido às vezes por pausas para repouso,
descanso, jogos, competições, danças e cerimônias, não
podendo ser denominadas lazer, pois não se
constituíam num tempo isolado. O trabalho era suspenso quando
ocorriam imprevistos como, por exemplo, seca, inundação,
doenças epidêmicas, guerras.
O século XVIII ficou marcado pela expansão comercial e
financeira com a Revolução Industrial; houve o aparecimento
de uma série de invenções técnicas que modificaram as
condições de produção nos diversos setores
industriais, as relações entre empregados e empregadores,
bem como a relação
com o lazer.
Com o desenvolvimento da moral burguesa na época do advento
capitalista, na sociedade industrial, há uma repressão das
atividades consideradas mais espontâneas e descompromissadas
com o sistema, mostrando uma clara aversão, por exemplo,
pelos divertimentos populares do domingo, fora das horas de
culto, pois estes provocavam um desvio de atenção sobre a
vida santificada,
tornando-se cada vez mais importante para sedimentar a nova
ordem social.
As atividades capitalistas, embora existentes anteriormente no
Oriente Próximo e no Extremo Oriente (corporações, privilégios
de mercado,
diferenças entre cidade e campo etc.), foram modestos primórdios
se comparadas às empresas modernas as quais organizaram o
trabalho de forma capitalista no Ocidente. É dentro do
trabalho livre e da sua organização
racional que as contas poderiam ser calculadas com maior
exatidão. Agora o valor passa a ser o trabalho e o corpo
passa a ser visto como meio de produção. O corpo produtivo,
útil, alienado pelo caráter do trabalho que lhe
é imposto.
O tempo livre passa a ser definido em oposição ao trabalho,
e mesmo os momentos livres (de não-trabalho) são
determinados pela relação
capital-capitalismo. Novos valores começam a ser estabelecer
entre trabalho e tempo livre do trabalho. O trabalhador vende
a única coisa que dispõe, a própria força de trabalho, e o
tempo liberado surge apenas para a
recuperação das energias.
No início, o trabalhador assalariado trabalhava horas
bastante extensas; com a implantação das leis trabalhistas,
houve a necessidade de redução de carga horária assim como
férias remuneradas. Percebe-se, assim, outros conteúdos no
tempo liberado – além do descanso o trabalhador disporá de
mais tempo
para recuperar-se fisicamente e de um tempo que usará com
liberdade para o exercício de atividades de sua escolha.
1.2 O CONCEITO DE LAZER
Vários autores e o cidadão comum utilizam diferentes termos
para se referirem ao tempo livre, nomeadamente:
- ócio (do latim otiu)= vagar, descanso, repouso, preguiça;
- ociosidade (do
latim otiositate)- o vício de gastar tempo inutilmente,
preguiça;- descanso = repouso, sossego, folga, vagar, pausa,
apoio, demora;
- lazer (do latim licere) = ócio, vagar.
Como componente geral de convergência entre os diversos
termos, podemos considerar a ausência de qualquer atividade
concreta, ou seja, uma certa liberdade de não fazer coisa
nenhuma. Surgem de forma inequívoca uma
tentativa de definição de um certo tempo (fora das ocupações
diárias) em contraponto com o outro tempo (o das ocupações
diárias).
Assim, parece o conceito Tempo Livre aquele que melhor
corresponde à sentida necessidade de ‘’batizar’’ à
parte do dia em que não estamos ocupados com atividades
objetivamente definidas. O significado de Tempo Livre (Tempo
– duração limitada e Livre – desimpedido) parece de fato
traduzir o espaço desimpedido do dia, que pode ser utilizado
subjetivamente.
O conceito mais aceito a respeito do lazer, é do sociólogo
francês Joffre Dumazedier que o caracteriza como:
‘’um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode
entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para
divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para
desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua
participação social voluntária ou sua livre capacidade
criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações
profissionais, familiares e sociais’’. (1980, 20).
De Masi (2000) afirma que, na era pós-industrial, vamos ter
cada vez menos
trabalho; no entanto, a escola e a família nos preparam para
o trabalho; não nos preparam para o tempo livre. Segundo este
pesquisador , o homem precisa aprender a desfrutar do seu
tempo livre, pois a tendência mundial é de que
as pessoas passem a ter mais horas disponíveis e será necessário
que elas se adaptem a esta tendência que aos poucos vai se
instaurando, principalmente na Europa.
1.3 CLASSIFICAÇÃO DE LAZER
A classificação de lazer é muito controvertida devido ao número
de soluções propostas. Na literatura sobre o assunto temos a
diferenciação entre lazer e recreação. No Brasil, ouve-se
muito uma classificação de atividades de lazer em atividades
esportivas, recreativas e culturais. Lazer esportivo seria
aquele praticado segundo regras, o recreativo seria aquele
exercido livremente, e o cultural centrado nas artes e no
conhecimento. Existem
muitas objeções a esta classificação, pois estes termos na
realidade se equivalem e se derivam em peculiaridades idiomáticas.
Em espanhol, italiano e alemão, não existe a palavra
correspondente a lazer; e utilizam-se os termos recreação e
tempo livre. Na França e no Brasil, recreação é um termo
que nos remete a recreação escolar, assim prefere-se o termo
lazer. Nos países de língua inglesa, ambas as expressões são
usadas corretamente.
1.4 LAZER E TURISMO
O lazer e o turismo são fenômenos que vêm ganhando um peso
cada vez maior no
cotidiano e na economia da vida moderna. De elementos da vida
aristocrática,
reservados aos que estavam no topo da pirâmide sócio-econômica
, o lazer e o
turismo estão se tornando cada vez mais acessíveis a um público
cada vez mais extenso, graças aos processos de democratização
ocidental ( como a Revolução Francesa e a Revolução
Americana) e ao progresso tecnológico e organizacional, que
aumentou a produtividade, reduziu custos e as jornadas de
trabalho e elevou o nível de recursos disponíveis para
consumo
discricionário(inclusive de tempo) em mãos de camadas cada
vez mais amplas da sociedade.
No século XX, o lazer e o turismo tornaram-se atividades de
massas, trazendo à tona, assim, muitas oportunidades de novos
negócios; e passaram a ser objeto de investimentos e
administração profissionais. Após a Segunda
Guerra, atingiram um patamar de crescimento que fez com que,
do ponto de vista econômico, passassem a ser considerados
como ‘’indústrias’’.
Atualmente a indústria e os serviços ligados ao lazer e ao
turismo estão entre os campeões de crescimento, alinhando-se
seguramente entre os mais promissores para o futuro, que já
esta presente. Há inclusive linhas de créditos bancários
para esta atividade fundamental ao nosso equilíbrio psicossomático.
Se o Esporte foi considerado por muitos o maior fenômeno
social do mundo no século XX, podemos que o Lazer segue o
mesmo caminho e devera se tornar o maior fenômeno social
deste século XXI. Devemos estar preparados para esta nova
realidade e com toda a certeza
a Universidade devera alavancar este processo de mudança de
paradigma , caso contrário estará se colocando na conta-mão
da historia e da pós -modernidade..
CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES
No decorrer da história, os conceitos de lazer, ócio e tempo
livre foram sendo modificados acompanhando as mudanças de
valores e comportamentos, relacionados sempre com os aspectos
sociais, políticos, econômicos e
culturais vigentes em cada época.
As transformações das cidades condicionaram e determinaram
novos hábitos de vida e o lazer foi sendo incorporado à
sociedade e adquirindo maior importância com o passar do
tempo, embora ainda seja pouco estudado na
Academia.
É importante registrar a importância sócio-cultural em que,
através do lazer, a sociedade vai expondo suas marcas e
características, principalmente através dos veículos de
comunicação de massa. Ao que parece, no entanto, esses veículos
estão favorecendo mais uma atitude passiva de anti-lazer, do
que uma atitude proativa característica do verdadeiro lazer
como uma opção consciente.
Recomenda-se que os cursos de graduação em Turismo e Lazer,
Educação Física, Pedagogia, Ciências Sociais , Psicologia
, Serviço Social e mesmo Medicina, tenham discussões teóricas
mais aprofundadas sobre o impacto do fenômeno do lazer em
nossas vidas e na nossa saúde.
O Lazer não pode e não deve mais ser entendido como
atividade, ou como, o mero entretenimento, pois ate a opção
consciente pelo relaxamento e a meditação pode ser
compreendido como lazer por algumas pessoas.
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