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Quando fiquei grávida de minha primeira filha, fiz o que,
acho, a maiorias das mães fazem: lêem livros e revistas
sobre bebês para aprender a lidar com eles. Meu marido
comprou o livro do Dr. De Lamare, muito conceituado. Comprava,
também, a Revista Pais e Filhos, na qual havia dicas e
conselhos sobre gravidez, moda para grávidas, enxoval do bebê,
nomes para o bebê, festas de bebês, assim como matérias
sobre amamentação, sobre o melhor tipo de alimentação para
mulheres grávidas ou para os bebês; problemas comuns durante
e após a gravidez; artigos sobre educação de crianças e
adolescentes, e tantos outros tópicos; enfim, uma revista tão
abrangente e tão completa que na verdade todos deveriam ler,
pela riqueza de conteúdo, pela credibilidade das matérias e
pela seriedade com que tratam os assuntos. Amo a revista até
hoje e não estou ganhando nada para falar bem dela.
Uma das seções me chamava a atenção especialmente:
“Criança diz cada uma”, na qual o Pedro Bloch, com aquele
jeito especial que ele tem de contar as histórias das crianças
com as quais ele lida. Sempre pensei em escrever para ele
contando as gracinhas das minhas filhas.
O tempo passou, as meninas cresceram, mas mãe coruja de
verdade não esquece as tiradas de seus filhotes. Ainda mais
se forem engraçadinhas como as que relato a seguir:
(1) Sempre gostei de cabelos compridos, talvez porque minha mãe
nos mantinha, minhas duas irmãs e eu, com cabelo cortado à
“Joãozinho”. Acho que era para não dar muito trabalho na
hora de penteá-los, pois minha irmã mais velha e eu tínhamos
cabelos cacheados e acredito que naquele tempo não havia
tanta variedade de xampus e cremes para disciplinar os cabelos
como há hoje. Assim, quando pude, deixei os cabelos
crescerem. Com dois anos de idade, minha filha mais velha era
acostumada a me ver sempre de cabelos compridos. Uma tarde fui
ao cabeleireiro para cortar os cabelos e a deixei do lado de
fora com a babá. Após algum tempo, com os cabelos bem mais
curtos, saí e me dirigi a elas. Ela, surpresa, me olhou e
disse:
- Mamãe, você mudou de Sandra!
(2) Minha segunda filha, assim como a primeira, desenvolveu a
fala muito precocemente. Realmente, as pessoas estranhavam que
ela, com apenas um ano de idade, já formulasse frases
completas, usando verbos, pronomes e advérbios corretamente.
Contudo, ela alegava que não sabia falar tão bem, já que não
sabia falar a palavra “cômoda”: dizia ”pocônio” para
se referir à cômoda, sei lá por que razão. Um dia,
conversando com minha sobrinha, que mencionou como ela já
estava falando tudo, ela saiu com essa:
- Eu não falo tudo. Eu nem sei dizer “cômoda”, só sei
falar “pocônio”!
(3) Numa outra ocasião, minha filha mais velha ouvia o grupo
de estudos do qual eu fazia parte na minha pós-graduação
falar sobre leitura em língua estrangeira. Era o que um autor
achava, o que outro pensava, enfim, eram muitos autores com
diferentes opiniões. Ela virou-se para nós e disse:
- Gente, chama o Bakhtin para jantar e conversa com ele, ué!
(4) Minha filha mais nova aprendeu a ler com as revistas da Mônica.
Todas as tardes ela apanhava uma revista e ficava olhando. Um
belo dia ela deu aquela risada gostosa que só as crianças
conseguem dar e disse:
- Olha, o Cebolinha falou (...) para a Mônica!
Ninguém acreditou no que ela disse, mas o avô foi para perto
dela verificar se ela tinha realmente entendido, ou lido a
revista. E ela:
- Vocês acham que só gente grande sabe ler?
P.S.: Os nomes das meninas foram omitidos porque elas são
muito envergonhadas.
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