.ISSN 1678-8419  

                                                          Revista Partes - Ano V - outubro de 2004 - nº50 

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::Colunistas - Adilson Luiz Gonçalves::
 

Portal do Tempo
Por Adilson Luiz Gonçalves

Quando o celular tocou, o identificador de chamada não ajudou em nada...

Do outro lado, uma voz de outros tempos, mas de lembrança recente, lembrou que estávamos próximos de completar 30 anos de formatura do antigo primeiro grau!

- Que tal tentarmos reunir a turma para celebrar?

Não me lembro de uma idéia que tivesse soado tão agradável.

- Como você conseguiu meu telefone? – perguntei.

- Lembrei onde você morava, pedi o telefone de seus pais para um vizinho...

A idéia era excelente e topei de imediato!

De repente, os e-mails – milagre da Internet – e telefones começaram e se multiplicar; nomes e fatos perdidos na memória ganharam a nitidez da saudade; e de repente, eu me vi voltar no tempo, como se ele nunca tivesse passado.

Não era nem o fatídico 1964, nem o obscuro 1984... Era um despreocupado 1974, ao menos aos olhos de adolescentes, ainda ingênuos e cheios de esperança.

Estudávamos numa escola pública: EEPSG “Prof. Primo Ferreira”, num tempo em que ainda se fazia exame de admissão, e todos tínhamos orgulho de freqüentá-la.

Nas férias, os alunos eram convidados – e compareciam em peso – para ajudar na manutenção da escola: pintura, limpeza... Todos tínhamos nossas mentes e nossos corações nela!

Nossos passatempos eram frugais: jogos de bola, tampinha de garrafa e botões, espeto, queimada... Os trabalhos em grupo terminavam, invariavelmente, com lanches e brincadeiras.

Cada um tinha seus sonhos e os compartilhava, sem medo do futuro, com os outros. Tudo era possível!

De repente, alguns caminhos se separaram na estrada da vida, onde nem sempre temos o controle do destino. Mas o mundo dá voltas e, num lapso, vozes familiares voltam a ser ouvidas, ainda da calçada...

Quando a porta se abre, os olhos rejuvenescem 30 anos e só conseguem ver os mesmos rostos amigos, que surgem da bruma de um passado cuidadosamente guardado e saudoso.

Não são mais rostos imberbes e cabeleiras da moda; as calças não são mais “boca-sino”, nem as camisas psicodélicas; mas nem os cabelos brancos e quilinhos a mais são capazes de ocultar o olhar, que nunca mudou.

Estão quase todos lá: o roqueiro, que virou violeiro; as musas, que nunca deixaram de ser; os amigos e amigas, de estudo e brinquedo; as mesmas lembranças e os sonhos realizados. E eu ainda tenho tantos...

Uma tarde é pouco, mas a noite não apaga a luz desse dia, como o tempo não desfaz o que plantamos no jardim da memória.

É preciso voltar no tempo, para lembrar o valor de um abraço, de um sorriso e de um sonho; mas como é bom viver o presente, para sentir que algumas coisas ultrapassam, leve e calmamente, a barreira do tempo e o tornam relativo.

Um deles preparou, cuidadosamente, um vídeo com o que cada um enviou... Surpresa: Sua câmera passeou pelos mesmos corredores por onde desfilamos nossa pré-adolescência! Um efeito esmaeceu e descoloriu as imagens, mas os sorrisos iluminaram os rostos! Quem ainda não havia recordado de alguém, voltou no tempo e passou a enxergar com os mesmos olhos e não teve mais dúvidas. Todos havíamos rejuvenescido, como por encanto!

Fonte da juventude? Não! Bela juventude, como fonte!

As lembranças são mesmo assim: imagens que podem perder o foco, mas que não resistem a todo o novo olhar.

Foi pouco tempo para matar tanta saudade; mas foi tempo suficiente para plantar nova semente!

No olhar e sorriso de cada um a certeza de momentos futuros, que serão, com certeza, presentes... Mas que nunca serão passados!

 

::Artigo 2::

 Moinhos de Ventos

Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, imortalizado por Cervantes, tornou-se o protótipo daqueles que lutam contra “moinhos de vento”, leais defensores de utopias e valores que estão se perdendo, ou já se perderam.

Como ele, ainda existem muitos, que insistem em lutar contra marés e ventos, e provar que o ser humano não é, apenas, uma gota d’água no oceano da mediocridade, mas um oceano na gota d’água da virtude.

A fragilidade e anacronismo de suas aparências e atitudes escondem uma infinita e incansável força de espírito, pois não é fácil remar contra a correnteza, enfrentar tornados e sobreviver às avalanches, em nome de ideais e sonhos.

Suas lutas podem parecer inglórias e temerárias, pois estão, sempre, em menor número. Suas armas aparentam não servir mais para o combate moderno, pois: honestidade, coerência e discernimento não são páreo para a corrupção, malícia e violência, que ponteiam e são celebradas pela sociedade. Mas nem por isso eles esmorecem, se prostram ou se rendem; pelo contrário, prosseguem sua saga por entre obstáculos, que são renovados e multiplicados, para protegerem os castelos da farsa, da cobiça e da tirania.

Muitos os questionam porque não aceitam as facilidades oferecidas e a conjunção de forças... Seria tão mais simples! Ignoram que essas facilidades são como nós górdios, e que a conjugação de forças opostas tende a exaurir o espírito e transformar ideais em oportunismo ou provar que eles nunca foram nada mais do que isso!

Muitos, na verdade, os respeitam por isso; mas têm medo de tornar sua luta solitária o ideal de uma legião. A sombra e as sobras do poder ainda fascinam mais...

Os que os crêem tolos ou insensatos têm, na verdade, medo do sucesso de sua luta, pois sabem que seus “atributos” não teriam serventia num mundo utópico. De fato, o pior momento da escravidão para quem aceita ser escravo, por conveniência ou inércia, é o da libertação, pois quem vive assim tem medo de enfrentar os desafios da liberdade. Então, preferem continuar escravos ou feitores, por medo do novo ou de descobrirem seu real valor.

Os moinhos de vento ainda existem, e os ventos são cada vez mais fortes. Os cavaleiros ainda lutam, não mais contra os moinhos, mas contra as tempestades de um mundo cada vez mais desumano e limítrofe. Hoje, além de motivo de escárnio ou condenados ao ostracismo – pois negar o sucesso material “fácil” é um pecado mortal, num mundo sem virtudes – também estão próximos da extinção! Se deixarem de existir, num átimo o vento será tão forte, que erodirá todos os sonhos, Sanchos Panças, Rocinantes e Dulcineas. Só haverá senhores de ventos e servos, ao sabor deles ou eternamente macerados sob as mós de seus deveres e dívidas...

Todos nós, por mais materialistas que pareçamos, temos ao menos uma recordação boa e um sonho puro em nossas mentes. A vida pode soprar seus ventos na tentativa de ocultá-los, sob a poeira do esquecimento, ou apagá-los, na erosão do desencanto; mas todos temos nossa armadura, nosso escudo, nossa lança e nossa espada, para lutar contra as forças que nos negam a liberdade do espírito e a chance de aflorá-los, sem que nos sintamos tolos. Sempre haverá os que preferem usar essas armas para destruir qualquer vestígio de virtude em si e nos outros, preferindo viver dos sonhos e desejos de poder de seus senhores; mas se cada um acreditar numa vida melhor, não haverá tempestade que apague essa chama; e com tantas chamas acesas, não haverá espaço para a escuridão e quem vive dela ou nela.

E quem se atreverá a escarnecer da bela figura de uma legião de Quixotes, sonhando e fazendo um mundo melhor - por seus méritos e partilhas -, semeando esperança e espantando corvos, ervas daninhas e parasitas, que tolhem a evolução da seara humana?

Se os sonhos são produtos de mentes férteis, nossa vitória definitiva será aprender a domar os ventos adversos, para que passem a servir à disseminação de seu pólen e semente!

Eh, Rocinante!


Adilson Luiz Gonçalves é Engenheiro, Professor Universitário e Articulista algbr@ig.com.br



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