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O
viajante sentia-se solitário ao sair de uma missa. De
repente, foi abordado por um amigo: - Preciso muito falar com
você, ele disse. O viajante viu naquele encontro um sinal, e
ficou tão entusiasmado que começou a conversar sobre tudo que
considerava importante. Falou das bênçãos de Deus, do amor,
disse que o amigo era um sinal de seu anjo, pois sentia-se
solitário minutos atrás, e agora tinha companhia.
O outro
escutou tudo em silêncio, agradeceu e foi embora.
Em vez de alegria, o viajante
sentiu-se mais solitário que nunca. Mais tarde se deu conta
... no seu entusiasmo, não tinha dado atenção ao pedido
daquele amigo: falar.
O
viajante olhou o chão, e viu suas palavras jogadas na calçada,
porque o universo estava querendo outra coisa naquela hora.
Paulo Coelho
Sentidos ...
Ao ler esse
texto do Paulo Coelho fiquei pensando em como os nossos
sentidos (tato, olfato, visão, paladar, audição) muitas vezes
não possuem sentido (do verbo sentir) algum. Usamos nossa
visão, por exemplo, para enxergar tão somente a nós mesmos e
quase nada vemos do outro e pior ainda quando somos incapazes
de nos ver.
É triste
termos olhos que mal vêem a um palmo de distância.
Continuamente falamos sem ouvir, caminhamos lado a lado sem
enxergar o rosto do companheiro de jornada, não enxergamos
suas feições, não reconhecemos seu nome, não sentimos a força
do seu olhar.
Esbarramos
como se fosse um objeto qualquer. Sei de pessoas que passam a
noite com alguém, que trocam “carícias” e se despendem sem
maiores compromissos, sem ao menos saber o nome daquele(a)
fulano(a). Vivemos relações em que estamos perdendo a dimensão
do amor, da capacidade de sermos empáticos, de prestarmos
atenção no essencial.
Nossos
sentidos não percebem a urgência da expressão do afeto, do
carinho, do amparo, do ouvir, como a estória (ou seria
história, já que tantas vezes se repete no dia a dia?) do
viajante contada acima. E com tudo isso vamos vivendo relações
em que somos cegos. Não percebemos os sentimentos alheios, não
nos importamos com as dores e alegrias do outro, não
valorizamos acertos, não conversamos sobre medos, incertezas,
angústias, decepções, pois tudo isso exige disponibilidade,
cuidados, tempo, comportamentos de amor que não mais nos
habituamos a fazer.
Há quem diga
que cada um que cuide de seus problemas e eu pergunto: Não
seria por isso que as pessoas vão se distanciando, que as
relações se enfraquecem e que a amizade e o amor parecem serem
coisas do passado?
Usamos mil
desculpas para justificar a apatia, a insensibilidade, o
desinteresse, a desconfiança, a cegueira, a pouca
disponibilidade ao outro como pessoa.
Isso
acontece na família, nas relações com a pessoa amada, no
ambiente de trabalho, no clube ... e vamos perdendo, sem
perceber, nossa capacidade de tratar o outro com respeito,
dignidade e profundo amor. E vamos nos perdendo em ansiedades,
angústias, agressões, desrespeitos, exigências e reclamações.
Esquecemos, também, que está em nossas mãos a
capacidade de criar e mudar nosso próprio futuro, de fazer
diferente, de não precisar repetir os erros. Esquecemos que só
nós podemos tornar fascinante a vida e sermos uma pessoa
melhor.
Podemos e devemos aproveitar melhor nossos
cinco sentidos, ou seja, nossa capacidade humana, e para isso
não é necessário mudanças extraordinárias de comportamento,
basta que nossa missão de vida passe pelo caminho estreito da
paciência, bondade, humildade, respeito, perdão e compromisso.
Que saibamos nos ver e ao outro como seres
complexos, frágeis, singulares; que possamos entender que os
sentimentos são conseqüências dos comportamentos, assim sendo,
que saibamos transformar momentos de raiva e frustração em
momentos de ternura, serviço e amor e isso enquanto ainda há
tempo, porque somos finitos.
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