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Os dados do Ministério da Educação e Cultura (MEC) de 2002,
relativos à repetência, evasão e ao atraso escolar e mais os
últimos resultados Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB),
Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM ) e Programa
Internacional
de Avaliação de Alunos (PISA) , são reveladores do fracasso
escolar no Brasil: os estudantes não dominam habilidades
básicas como leitura , escrita e matemática. No presente
texto, quero apontar o atraso escolar, o baixo rendimento e a
dislexia como fatores de exclusão do mundo da leitura no
Brasil.

O Censo escolar 2002 revela que, pelo menos, 7.577.784
alunos brasileiros estão na faixa etária irregular. São jovens
com 15 a mais anos de idade fora da faixa etária ideal e que,
em geral, apresentam sérias dificuldades de aprendizagem em
sala de aula.
Os relatórios recentes do Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Anísio Teixeira (INEP) afirmam presenciar uma
estabilização no crescimento de ofertas de vagas no Ensino
Fundamental, favorecido pelo o impacto dos programas de
melhoria do fluxo escolar (ciclos de progresso continuada) e
pela injeção de recursos do Fundo de Desenvolvimento do Ensino
Fundamental (FUNDEF) que, realmente, provocou uma grande
expansão nas matrículas nos anos 90. A despeito de tudo isso,
não há dúvida que o grande gargalo da educação brasileira é a
reprovação e, com ela, o atraso escolar.
A repetência é uma forma de exclusão social
Em 2002, o MEC constatou que a matrícula, em 2002, no
Ensino Fundamental regular, foi de cerca de 35 milhões
(incluindo todas as faixas etárias). No entanto, a população
na faixa etária ideal ou própria, de 7 a 14 anos, era de pouco
mais de 27 milhões de crianças. A matrícula está muito acima
da população na faixa etária própria em decorrência da
repetência e da forma tradicional de avaliação. A quantidade
aqui paradoxalmente indica má qualidade de ensino,
especialmente quando nos referimos à defasagem idade/série ou
simplesmente atraso escolar.
Quando analisamos os dados do Sistema de Avaliação da
Educação Básica (SAEB), relativos ao ano de 2001, nos
deparamos também com 22% dos alunos da quarta série do Ensino
Fundamental que não desenvolveram habilidades de leitura
compatíveis a esse patamar de escolaridade e 37% aprimoraram
algumas competências, mas ainda demonstram desempenho em
língua portuguesa bem abaixo do desejado. Os dois grupos de
estudantes, que totalizam 59% da matrícula do final do
primeiro ciclo da educação obrigatória, apresentam níveis de
rendimento escolar considerados “crítico” ou “muito crítico”.
Os dados oficiais denunciam, pois, uma tragédia no quadro do
ensino brasileiro.
Ocorre que o modelo de avaliação escolar vigente no país
não apenas reprova, mas faz com um número significativo de
crianças. em idade própria, não estudem para aprender. Os
alunos não reconhecem na escola um espaço para desenvolver
suas capacidades de aprendizagem (assimilação bem dos
conteúdos) e de suas capacidades de aprender (autonomia
intelectual).
Leitura e exclusão social
- Em se tratando de avaliação da Educação Básica, em nível
nacional, os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM),
relativos ao ano de 2002, são conclusivos e preocupantes: a
escola de educação básica, pública ou privada, no Brasil, é
uma fábrica de excluídos e de maus leitores. Falta aos jovens
o domínio da leitura compreensiva, isto é, ler e entender o
que lê. Tarefa básica da escola, mas difícil de ser apreendida
pelo aluno. A leitura é uma habilidade complexa e muitos
deixam a escola porque não conseguem responder às exigências
de lectoescrita da sociedade do conhecimento.
Os dados do Enem 2002 demonstram que a maioria dos
participantes fracassa na hora de ler e responder
objetivamente as questões de múltipla escolha e não
apresentam, também, boa argumentação na hora de redigir sobre
temas da atualidade como, por exemplo, o direito de votar.Por
que os jovens alunos fracassam? O primeiro ponto a considerar
é o seguinte: a concepção de leitura gerada no meio escolar
tem sido nefasta para o aprendizado das habilidades
lingüísticas (ler, escrever, falar, escutar e entender).
A escola tem concebido a leitura como um
simples ato de ler, isto é, de decodificar o sistema
lingüístico, ora soletrando vogais e consoantes ora
reconhecendo as letras como signos gráficos, como ocorre na
Educação Infantil.
O aprendizado da leitura, porém, efetiva-se, no
Ensino Fundamental e no Ensino Médio, somente com a
compreensão leitora. Há, realmente, leitura, quando o aluno lê
o texto e dá sentido ao texto lido.
Sem que tenham a leitura compreensiva, os
jovens brasileiros, na sua maioria, limitam-se, na hora do
ENEM , a fazer uma leitura superficial e fragmentada do
enunciado das questões, o que explica a opção por alternativas
de resposta dissociadas do contexto da questão e escolha de
afirmações e argumentos contraditórios e mutuamente
excludentes.
Apesar das cinco edições do ENEM, da divulgação
de resultados pedagogicamente catastróficos e vergonhosos para
todos que fazem o aparelho escolar, indicando e denunciando
baixos níveis de leitura e escrita, a escola brasileira
insiste em marcar passo: preocupa-se cada vez mais, de forma
iníqua, com a propaganda de seus belos e suntuosos prédios,
sua infra-estrutura e, o mais grave, suas propostas
pedagógicas e seus professores voltam-se exclusivamente para o
domínio de gramática e escrita ortográfica.
Os alunos, realmente, escrevem o que a escola
quer, mas poucoS deles, especialmente os jovens do ensino
médio, compreendem o que o mundo da leitura requer das pessoas
com o olhar crítico e argumentativo sobre os grandes temas da
vida em sociedade.
Os dados do ENEM 2002 revelam, portanto, o
quanto nossa escola está na contramão dos ideais da sociedade
letrada. É uma exigência da sociedade pós-industrial a leitura
compreensiva, fundamental para o desenvolvimento humano dos
jovens, seu exercício de cidadania e sua qualificação para o
mundo do trabalho.
Estima-se que, no Brasil, cerca de mais de 7 milhões de
pessoas, com atraso escolar, têm algum tipo de necessidade
especial. As necessidades especiais dessas pessoas, que ano a
ano são candidatas à reprovação e à exclusão ou abandono do
meio escolar, podem ser de vários tipos: físico e psicológico.
Deste universo, acredita-se que, pelo menos, entre 10 a 15 por
cento destes alunos, na educação básica, especialmente o
ensino fundamental, sofram com algum tipo de dificuldade de
aprendizagem relacionada à linguagem: dislexia (dificuldade de
ler), disgrafia (dificuldade de escrever) e disortografia
(dificuldade de grafar corretamente as palavras). Entre elas,
a dislexia é a de maior incidência e merece toda atenção por
parte dos gestores de política educacional, especialmente a de
educação especial.
A dislexia exclui a criança do mundo da leitura
- A dislexia é a incapacidade parcial de a criança ler
compreendendo o que se lê, apesar da inteligência normal,
audição ou visão normais e de serem oriundas de lares
adequados, isto é, que não passem privação de ordem doméstica
ou cultural.
Encontramos disléxicos em famílias ricas e pobres. Enquanto as
famílias ricas podem levar o filho a um psicólogo,
neurologista ou psicopedagogo, uma criança, de família pobre,
estudando em escola pública, tende a asseverar a dificuldade
de persistir com o transtornos de linguagem na fase adulta.
Talvez, por essa razão, isto é, por uma ordem social, de
situação sócio-econômica, a dislexia seja uma síndrome da
classe média, exatamente porque, desde cedo, os pais
conseguem diagnosticar a dificuldade e partir para
intervenções médicas e psicopedagógicas.
No âmbito das instituições de ensino, relatos de professores
registram situações em que crianças, aparentemente brilhantes
e muito inteligentes, não podem ler, escrever nem têm boa
ortografia para idade. Nos exames vestibulares, as comissões
executivas descrevem casos "bizarros" (às vezes, motivo de
chacotas) em que candidatos apresentam baixo nível de
compreensão leitora ou a ortografia ainda é fonética (baseada
na fala) e inconstante.
Assim, urge a realização de testes de leitura nas escolas públicas
e privadas, desde cedo, de modo a diagnosticar e avaliar a
dificuldade de leitura. Por trás do fracasso escolar ou da
evasão escolar, sempre há fortes indícios de dificuldades de
aprendizagem relacionadas à linguagem.
Nos casos de abandono escolar, em geral, também, verificamos
crianças que deixam a escola por enfrentarem dificuldades de
leitura e escrita. A dispedagogia, isto é, o desconhecimento
por parte dos professores, pais e gestores educacionais, do
que é a dislexia e suas mazelas na vida das crianças e dos
adultos também só piora a aprendizagem da leitura de seus
alunos.
A legislação reforça a exclusão escolar
- A legislação educacional, especialmente a Constituição
Federal (CF), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB) e a legislação educacional correlata, não trata as
diversas necessidades especiais dos educandos de forma clara,
objetiva, pragmática e programática. Sua omissão tem de certa
forma dificultado ações governamentais por parte dos gestores,
do professor ao secretário de educação. A Constituição
Federal, por exemplo, ao tratar sobre a educação especial diz:
o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a
garantia de atendimento educacional especializada aos
portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular
de ensino(Artigo 208, III, CF). E perguntaria ao leitor:
uma criança, com dislexia, isto é, com dificuldade de ler bem,
é um portador de deficiência?
A Lei 9.394/96, a de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
apresenta uma melhor redação sobre a matéria. Diz assim: o
dever do estado com a educação escolar pública será efetivado
mediante a garantia de atendimento educacional especializado
gratuito aos educandos com necessidades especiais,
preferencialmente na rede regular de ensino (Art. 4º,
LDB). A redação da Lei, na LDB, Melhorou e, em muito a versão
da Constituição Federal, porque faz referências às
necessidades especiais. Nesse caso, chegamos, por dedução ou
exegese jurídica, à conclusão de que a dislexia é uma
necessidade especial. Mas qual a natureza dessa necessidade
especial?
Por exclusão, diríamos que uma criança com dislexia não é portadora
de deficiência nem mental, física, auditiva, visual ou
múltipla. O disléxico, também, não é uma criança de alto
risco. Uma criança não é disléxica porque teve seu
desenvolvimento comprometido em decorrência de fatores como
gestação inadequada, alimentação imprópria ou nascimento
prematuro. A dislexia tem um componente genético, exceto em
caso de acidente cérebro-vascular (AVC). Ser disléxico é
condição humana e como tal é princípio d e ensino o respeito
às diferenças individuais.
O disléxico pode, sim, ser um portador de alta habilidade. Daí, em
geral, os disléticos, serem talentosos na arte, música,
teatro, desportes, mecânica, vendas, comércio, desenho,
construção e engenharia. Não se descarta ainda que venha a ser
um superdotado, com uma capacidade intelectual singular,
criativo, produtivo e líder.
O disléxico pode, também, ser um portador de conduta típica, com
síndrome e quadro de ordem psicológica, neurológica e
lingüística, de modo que sua síndrome compromete a
aprendizagem eficaz e eficiente de leitura e escrita, mas não
chega a comprometer seus ideais, idéias, talentos e sonhos.
Por isso, diagnosticar, avaliar e tratar a dislexia, conhecer
seu tipo, sua natureza, é um dever do Estado e da Sociedade e
um direito de todas as famílias com crianças disléxicas em
idade escolar.
A dislexia não é apenas um fato de exclusão
social. Excluídos, os educandos são fortes candidatos à
delinqüência juvenil. Uma dificuldade de leitura pode,
realmente, levar uma criança à exclusão do seu meio social e à
delinqüência juvenil? Cremos que sim.
Aqui faremos uma ilustrativa descrição da
relação entre leitura e pensamento, entre leitura e atitude e
revelam uma estreita relação entre agressividade e maus
leitores.
As crianças com dificuldade de leitura ou escrita, quase
sempre, são alunos isolados com relação aos demais da sala,
mas procuram, doutra sorte, superar suas limitações
lingüísticas por meio de comportamentos agressivos, rebeldes e
violentos. Outras crianças é verdade, tornam-se excelentes
líderes ou atletas da escola. No entanto, esta não é regra.
Dislexia leva aluno à exclusão escolar
- As dificuldades de leitura e a delinqüência juvenil são dois
tipos de problemas escolares que caminham juntos e, por isso
mesmo, exigem uma intervenção por parte dos agentes
educacionais. Uma política de leitura não apenas compensaria o
déficit cultural dos alunos como, também, iria engajá-los no
discurso da sociedade centrada no direito democrático, na
informação, na cultura e no cultivo de valores como tolerância
e respeito à diversidade.
As crianças, jovens ou mesmo os adultos, com
baixo rendimento escolar, em geral, padecem com as
dificuldades de ler, escrever calcular bem. Por isso, uma
avaliação escolar que tende a reprovar ano a ano uma criança
não apenas a torna inculta, mas desenvolve um sentimento de
felonia muitas vezes por motivos frívolos e banais.
Algumas providências iniciais com os alunos
agressivos poderiam ser de grande valia para a escola e para a
sociedade como o todo. A primeira cabe à escola, especialmente
ao professor, articular-se com as famílias. A segunda
providência deve ser a de levar o aluno, através do diálogo
aberto, à consciência de suas limitações pessoais e
cognitivas, e mostrar-lhes, por exemplo, que, através de uma
boa orientação ou reeducação da leitura, poderia mudar suas
próprias atitudes, ideais aspirações pessoais e, a terceira
ação educacional, é a de promover, através da leitura,
aquisição de conhecimentos e a integração social.
Um aluno que fracassa na leitura fracassa
também na hora de ler um problema de matemática ou na hora de
fazer um exercício de gramática. Um aluno que fracassa na
leitura não encontra sentido algum em ler um Machado de Assis
ou ler os versos de um Camões que estão parafraseados na sua
canção predileta de uma Legião Urbana.
Um aluno que constantemente fracassa é
empurrado de forma perversa para a delinqüência.
Uma última palavra: a privação da leitura interfere no
desenvolvimento da personalidade dos alunos. Um aluno com
deficiência de leitura é triste e deprimido, agressivo e
angustiado, potencialmente um delinqüente.
Numa sociedade de informação, ler ou escrever
bem é condição de superação da desigualdade social. A leitura
vai além do repertório de palavras que brotam do alfabeto.
Ler é compreender, interpretar, descobrir, criar e sobretudo
desfrutar do reino do conhecimento.
Papel da família na inclusão dos filhos ao mundo da
leitura- Uma das reclamações mais freqüentes de pais com filhos
em idade escolar é a de que as instituições de ensino,
públicas ou privadas, populares ou burguesas, não têm dado uma
resposta adequada e, em tempo hábil, às crianças que sofrem
com as dificuldades de leitura e de escrita no Ensino
Fundamental. As dificuldades lectoescritoras atingem ricos e
pobres, brancos ou negros, europeus ou latinos, que estão nos
bancos escolares.
A escola ainda não responde, eficazmente, ao desafio de
trabalhar com as necessidades educacionais das crianças
especiais, especialmente às relacionadas com as dificuldades
de linguagem como dislexia, disgrafia e disortografia.
A dislexia ocorre quando uma criança não lê bem ou não encontra
sentido diante do texto escrito. A disgrafia e a ortografia se
manifestam quando há dificuldade no plano da escrita ou do ato
de escrever.
São os distúrbios de letras déficts que preocupam os pais porque
sabem que o sucesso escolar de seus filhos depende, e muito,
da aprendizagem eficiente da leitura, escrita e ortografia.
Não são poucos os pais que me relatam, por exemplo, as
dificuldades de linguagem de seus filhos. Educandos, aos 8 ou
9 anos de idade, que apresentam leitura e escrita ou
ortografia defeituosas. É a idade não só da aquisição, mas do
desenvolvimento da linguagem.
As causas das deficiências lingüísticas são muitas, mas a tese
de que a escola é uma fábrica de maus leitores não deve ser
descartada como a mais importante em se tratando de etiologia
das patologias ou distúrbios de letras.
A escola, a rigor, não se deu conta que ensinar bem é
favorecer a memória de longo prazo das crianças (MLP) para
que, na última etapa da educação básica, quando jovens, tenham
desempenho eficiente na hora de ler um livro ou de escrever um
texto para concurso ou vestibular.
Em geral, os alunos com dificuldades específicas de lectoescrita,
já no final do primeiro ciclo do ensino fundamental, fazem a
troca dos fonemas simétricos: t/d, f/v, b/p principalmente.
Muitos pais, sem uma resposta eficaz da escola, procuram, fora
do ambiente escolar, profissionais como fonoaudiólogos,
pediatras, neurologistas e psicopedagogos na busca de
superação do problema.
Não é por acaso que, hoje, os profissionais de saúde
- mais do que os professores - são os grandes leitores e
autores de obras relacionadas com as patologias de linguagem.
Quase sempre, com a ajuda desses profissionais que
se dedicam à reeducação lingüística - diagnóstico e
intervenção - o problema da dislexia, disgrafia ou
disortografia, é amenizado, compensado, mas não significa a
superação definitiva dos distúrbios.
Os problemas de leitura e escrita deveriam ter resposta eficaz no
meio escolar, num trabalho interdisciplinar, contando, é
claro, com a ajuda externa de profissionais da psicologia, da
fonoaudiologia e da Medicina, mas, também, com soluções
endógenas, advindas do próprio ambiente escolar.
O professor, principal agente do processo reeducador, deveria,ou
deve ser, o mais aplicado, o mais qualificado, nas questões
referentes à pedagogia da lectoescrita.
Sem um trabalho consistente da escola, as trocas de letras
simétricas, por exemplo, tendem a persistir por toda vida
escolar. Em alguns casos, claro, com menos freqüência. Em
outros, uma síndrome que acompanhará a criança, o jovem e o
adulto por toda sua vida.
É primordial o trabalho de reeducação lingüística, isto é, formar a
consciência fonológica dos sons da fala. Ensinar bem as vogais
e as consoantes da língua materna. É esta consciência
fonológica ou lingüística que fará com que a criança, ao
escrever palavras com letras simétricas (p, b, p, q), pense e
repense sobre o processo da escrita alfabética.
Uma das conseqüências da falta de consciência fonológica é, na
escrita formal, os alunos, “saltarem” grafemas, por exemplo:
coisa, ela escreve coia/ glóbulo/gobulo.
Certo é dizer para pais e educadores ou, para todos profissionais
que operam com diagnóstico e intervenção psicolingüística, que
a partir de 8 ou 9 anos de idade e, já no final do primeiro
ciclo do Ensino Fundamental, é importante que estejam atentos
quanto aos defeitos de leitura e de escrita das crianças.
A troca de fonemas, ainda nessa fase, reflete, muitas vezes, uma
deficiência de ordem lingüística e não um déficit
necessariamente neurolíngüístic), na formação lingüística
inicial (alfabetização e letramento) da criança.
Sabemos que muitas deficiências estão enraizadas na própria
pedagogia. Muitos de nossos alfabetizadores, a despeito dos
anos de experiência, o esforço exemplar, a dedicação ao
magistério, têm deficiência de formação. Claro, a má instrução
é involuntária. Todavia, traz conseqüências sérias para a
aprendizagem da leitura.
Uma escola que ensina, por exemplo,
termos, no sistema lingüístico do português, apenas 5 vogais,
estão dando as bases precárias, de ordem cognitiva, para uma
leitura eficiente, o que acaba por levar o educando à
aquisição de uma dislexia pedagógica.
Sabemos que são 12 vogais (7 orais e 5
nasais). Vogais são os sons da fala. Vogais não são letras.
Vogais são fonemas, isto é, unidades sonoras distintivas da
palavra.
Vogais têm a ver com a leitura. As
letras, que representam as vogais ou sons da fala, têm uma
estreita relação com a escrita.
Não obstante, a escrita não é espelho da
fala. Como se diz, não é necessariamente como se escreve. Não
há uma correspondência biunívoca entre fonema ou som da fala
com a escrita, com os grafemas.
Nos casos em que crianças apresentam,
insistentemente, a troca de letras, podemos supor, por
exemplo, uma dificuldade por motivação fonológica.
Uma informação lingüística ou metafonológica no
processo de formação escolar faz diferença na habilidade
lectoescritora da criança.
Vejamos, por exemplo, os fonemas /t/ e /d/, que são
consoantes linguodentais. Uma surda (/t). A outra sonora
(/d/).
Os pais devem estar atentos quanto à articulação
desses fonemas:
Estão sendo bem articulados por seus filhos
na fala espontânea ou na leitura de textos escolares?
Então, se não estão, que tal um trabalho
com as cordas vocais, para que os percebam a diferença quanto
à sonoridade ?
É uma hipótese importante. Em geral, quando
ocorre esse déficit fonológico, essa hipótese há de ser
confirmada na pronúncia ou soletração de consoantes
labiodentais, como: /f/ e /v/ e as labiodentais /p/ e /b/.
Os pais, com ou sem formação superior, devem ter o
hábito de abrir as gramáticas escolares que, quase sempre,
trazem regras básicas, mas imprescindíveis ao ensino
sistemático de leitura e soletração.
A gramática ensina que “antes de P e B não se
escreve N e sim M”, mas não explica nada. Entretanto, se
repararmos bem: /b/, /p/ e /m/ são fonemas bilabiais. O fonema
/n/ é linguodental. Por isso, devemos escrever M e não N. É,
pois, uma regra fonológica. Portanto, uma boa explicação do
fenômeno fonético promove a consciência fonológica da criança.
Desse modo, os pais não devem ter qualquer cerimônia
para abrir uma gramática ou um dicionário escolar na tarefa
coadjuvante de ensinar a língua materna.
Aos filhos, com dislexia escolar, pode um pai ou mãe
(ou mesmo um irmão mais velho) ensinar a Gramática, na parte
relativa à fonologia, e ver e desenvolver, em seu filho, a
percepção auditiva, pronunciando as consoantes da língua
portuguesa.
Observará a família, lendo as gramáticas escolares,
como são classificadas quanto ao modo e ponto de articulação.
Deve articular cada consoante. Olhar para seu filho ou filha.
Pedir para que olhe o movimento de seus lábios quando
articulam fonemas em algumas palavras do cotidiano (papai,
bola, caderno, faca, tarefa etc).
Pedir também que imitem sua articulação é um modo
antigo, mas interessante de aprender. Há um ditado latino que
diz: “repetitio studiorum mater est” (A repetição é mãe do
conhecimento). A repetição acaba por levá-los, assim, à
consciência dos fonemas.
Um pai ou uma mãe que assim se disponha a ensinar,
mesmo não sendo um(a)pedagogo (a) ou lingüista de formação,
poderá, com esse procedimento, ajudar na formação leitora de
seus filhos.
As famílias têm, pois, um importante papel na
formação escolar de seus filhos.
Por
fim, sempre desconfiemos do que pode estar ocorrendo na
formação escolar dos filhos. Às vezes, a escola deixa de
dizer, por negligência ou incompetência, que as letras do
alfabeto surgiram, a 3.000 anos, antes de Cristo. Uma
informação que tira a oportunidade de criança observar que
nossa língua é histórica.
O “a” ou o “A”, minúsculo ou maiúsculo, foram
inspirados na “cabeça de um boi”; a letra “b” foi inspirada,
por sua vez, numa “casa mediterrânea de teto achatado” e que o
“´p” foi motivado, em seu traçado, por “uma boca” e assim por
diante. A escola precisa desenvolver essa competência
histórica da língua.
Na verdade, quis dizer até aqui o seguinte : a escola
precisa devolver à criança a competência lingüística e
metalingüística, para que cumpra o papel de desenvolver a
capacidade do educando de ler para aprender, de escrever para
aprender, de aprender a aprender.
Revelar que a língua é histórica, que seu alfabeto
tem origem grega, tem influência hebraica, tem marcas dos
signos semíticos e traz também as marcas pictográficas de
hieróglifos egípcios, é de extrema importância para o
reconhecimento das letras, para decodificação, primeira etapa
da leitura proficiente.
A história das letras do alfabeto deve fundamentar as
aulas de língua materna na educação infantil e no ensino
fundamental. Começar pelas palavras é útil ao processo de
alfabetização escolar.
Assim procedendo, cedo o professor ou pai desconfiará
ou desconfiarão, quando do processo escritor da criança, que
um erro na caligrafia pode ser motivado por questão de
lateralidade no traçado das letras.
A desconfiança docente ou dos pais servirá como boa
hipótese significativa para uma pedagogia compensatória no
quadro da deficiência lingüística.
Refiro-me a uma pedagogia ou ensino de
coisas simples. Ensinar bem é ensinar com simplicidade, com
objetividade. Aliás, a ciência da linguagem, a lingüística, se
caracteriza pela explicação e descrição claras dos fenômenos
da linguagem.
Vejamos, por exemplo, “p “e “b” como são
letras parecidas. Quando a perninha desce, é um “p”, mas
quando sobe é um “b”. Subir e descer. Descer e subir. Espaço.
Lateralidade. Fácil para os adultos. Grande complexidade
lingüística para as crianças na Educação Infantil e no Ensino
Fundamental.
Uma letra (ou grafema) parecida com um
outro signo gráfico, mas com traçado diferente, pode
representar, na leitura, um som diferente e, conseqüentemente,
trará significado diferente na produção lexical, frasal e
textual. Fácil , não? Para os professores sim, mas, em geral,
para os alunos, exigem um grau de abstração muito grande no
processo de aquisição da linguagem.
Os professores estudaram os fatos da
língua. Sabem disso informações da aquisição, desenvolvimento
e processamento da linguagem. Mas uma criança aos 9 anos pode
não armazenar as informações lingüísticas de forma eficiente.
Quando não se aprende a grafar bem pode ser uma
deficiência de percepção espacial, de lateralidade. Pode ser,
pois, uma deficiência cognitiva.
É preciso que a escola ensine aos educandos como se
dão as coisas relativas ao conhecimento da linguagem, como se
processa a informação lingüística. E isso serve não só para o
ensino da língua materna como também para as demais
disciplinas escolares.
Um cálculo como 34 x 76 tem muito a ensinar além do
resultado. Há etapas de uma operação matemátic que devem ser
vistas como algo mais significativo no ensino e, por que não
dizer, mais significativo, também, no momento da avaliação
formativa.
As crianças precisam aprender e apreender
essas informações da linguagem, da leitura, da escrita e do
cálculo, com clareza e de forma prazerosa, lúdica. Quem sabe,
ensina.
Quem ensina, deve saber os conteúdos a
serem repassados para o aluno. A escola precisa levar as
crianças ao reino da contemplação do conhecimento. Vale o
inverso: a escola deve levar o reino do saber às crianças.
Nas ruas, as crianças não aprenderão
informações lingüísticas. Farão, claro, hipóteses, extraídas,
quase sempre, da fala espontânea. É nas escolas, com bons
professores, que aprenderão que essas informações lhes darão
habilidade para a leitura e para a vida dentro e fora da
escola.
Nos lares, a tarefa de reforço do que se
aprender na escola se constitui um complemento importante,
desde que os pais se sintam parte do processo.
Aliás, a educação escolar, de qualidade, é
um dever das instituições de ensino. Doutra, dever, também,
compartilhado por familiares e co-responsabilidade dos que
operam com os saberes sistemáticos, que envolve a sociedade
como um todo.
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