.ISSN 1678-8419  

                                                          Revista Partes - Ano IV - outubro de 2005 - nº50 

  Principal
 Agenda
 Colunistas
 Cultura e Humor
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Notícias
 Poesias e Crônicas
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Reflexão
 Terceira Idade
 Turismo e Lazer
 
 Outras edições
 
   Participe
 Cartas
 Expediente
 Fale Conosco
  
   Especiais
 SP 450 anos
 Gilberto Freyre
 Igrejas
 Meio Ambiente
 Assédio Moral
::Educação::
 

Os excluídos do mundo da leitura
Por Vicente Martins

Os dados do Ministério da Educação e Cultura (MEC) de 2002, relativos à repetência, evasão e ao atraso escolar e  mais os últimos resultados Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM ) e Programa Internacional
de Avaliação de Alunos (PISA) , são reveladores do fracasso escolar no Brasil: os estudantes não dominam habilidades básicas como leitura , escrita e matemática. No presente texto, quero apontar o atraso escolar, o baixo rendimento e a dislexia como fatores de exclusão  do mundo da leitura no Brasil.


O Censo escolar 2002 revela que, pelo menos, 7.577.784 alunos brasileiros estão na faixa etária irregular. São jovens com 15 a mais anos de idade fora da faixa etária ideal e que, em geral, apresentam sérias dificuldades de aprendizagem em sala de aula.

 Os relatórios recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (INEP) afirmam presenciar uma estabilização no crescimento de ofertas de vagas no Ensino Fundamental, favorecido pelo o impacto dos programas de melhoria do fluxo escolar (ciclos de progresso continuada) e pela injeção de recursos do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (FUNDEF) que, realmente, provocou uma grande expansão nas matrículas nos anos 90. A despeito de tudo isso, não há dúvida que o grande gargalo da educação brasileira é a reprovação e, com ela, o atraso escolar.      

A repetência é uma forma de exclusão social

 Em 2002, o MEC constatou que a matrícula, em 2002, no Ensino Fundamental regular, foi de cerca de 35 milhões (incluindo todas as faixas etárias). No entanto, a população na faixa etária ideal ou própria, de 7 a 14 anos, era de pouco mais de 27 milhões de crianças. A matrícula está muito acima da população na faixa etária própria em decorrência da repetência e da forma tradicional de avaliação. A quantidade aqui paradoxalmente indica má qualidade de ensino, especialmente quando nos referimos à defasagem idade/série ou simplesmente atraso escolar.

Quando analisamos os dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), relativos ao ano de 2001, nos deparamos também com 22% dos alunos da quarta série do Ensino Fundamental que não desenvolveram habilidades de leitura compatíveis a esse patamar de escolaridade e 37% aprimoraram algumas competências, mas ainda demonstram desempenho em língua portuguesa bem abaixo do desejado. Os dois grupos de estudantes, que totalizam 59% da matrícula do final do primeiro ciclo da educação obrigatória, apresentam níveis de rendimento escolar considerados “crítico” ou “muito crítico”. Os dados oficiais denunciam, pois, uma tragédia no quadro do ensino brasileiro.

Ocorre que o modelo de avaliação escolar vigente no país não apenas reprova,  mas faz com um número significativo de crianças. em idade própria, não estudem para aprender.  Os alunos não reconhecem na escola um espaço para desenvolver suas capacidades de aprendizagem (assimilação  bem dos conteúdos) e de suas capacidades de aprender (autonomia intelectual). 

Leitura e exclusão social - Em se tratando de avaliação da Educação Básica, em nível nacional, os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), relativos ao ano de 2002, são conclusivos e preocupantes: a escola de educação básica, pública ou privada, no Brasil, é uma fábrica de excluídos e de maus leitores. Falta aos jovens o domínio da leitura compreensiva, isto é, ler e entender o que lê. Tarefa básica da escola, mas difícil de ser apreendida pelo aluno. A leitura é uma habilidade complexa e muitos deixam a escola porque não conseguem responder às exigências de lectoescrita da sociedade do conhecimento.

Os dados do Enem 2002 demonstram que a maioria dos participantes fracassa na hora de ler e responder objetivamente as questões de múltipla escolha e não apresentam, também, boa argumentação na hora de redigir sobre temas da atualidade como, por exemplo, o direito de votar.Por que os jovens alunos fracassam? O primeiro ponto a considerar é o seguinte: a concepção de leitura gerada no meio escolar tem sido nefasta para o aprendizado das habilidades lingüísticas (ler, escrever, falar, escutar e entender).

A escola tem concebido a leitura como um simples ato de ler, isto é, de decodificar o sistema lingüístico, ora soletrando vogais e consoantes ora reconhecendo as letras como signos gráficos, como ocorre na Educação Infantil.

O aprendizado da leitura, porém, efetiva-se, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, somente com a compreensão leitora. Há, realmente, leitura, quando o aluno lê o texto e dá sentido ao texto lido.

Sem que tenham a leitura compreensiva, os jovens brasileiros, na sua maioria, limitam-se, na hora do ENEM , a fazer uma leitura superficial e fragmentada do enunciado das questões, o que explica a opção por alternativas de resposta dissociadas do contexto da questão e escolha de afirmações e argumentos contraditórios e mutuamente excludentes.

Apesar das cinco edições do ENEM, da divulgação de resultados pedagogicamente catastróficos e vergonhosos para todos que fazem o aparelho escolar, indicando e denunciando baixos níveis de leitura e escrita, a escola brasileira insiste em marcar passo: preocupa-se cada vez mais, de forma iníqua, com a propaganda de seus belos e suntuosos prédios, sua infra-estrutura e, o mais grave, suas propostas pedagógicas e seus professores voltam-se exclusivamente para o domínio de gramática e escrita ortográfica.

Os alunos, realmente, escrevem o que a escola quer, mas poucoS deles, especialmente os jovens do ensino médio, compreendem o que o mundo da leitura requer das pessoas com o olhar crítico e argumentativo sobre os grandes temas da vida em sociedade.

Os dados do ENEM 2002 revelam, portanto, o quanto nossa escola está na contramão dos ideais da sociedade letrada. É uma exigência da sociedade pós-industrial a leitura compreensiva, fundamental para o desenvolvimento humano dos jovens, seu exercício de cidadania e sua qualificação para o mundo do trabalho.

Estima-se que, no Brasil, cerca de mais de 7  milhões de pessoas, com atraso escolar, têm algum tipo de necessidade especial. As necessidades especiais dessas pessoas, que ano a ano são candidatas à reprovação e à exclusão ou abandono do meio escolar, podem ser de vários tipos: físico e psicológico. Deste universo, acredita-se que, pelo menos, entre 10 a 15 por cento destes alunos,  na educação básica, especialmente o ensino fundamental, sofram com algum tipo de dificuldade de aprendizagem relacionada à linguagem: dislexia (dificuldade de ler), disgrafia (dificuldade de escrever) e disortografia (dificuldade de grafar corretamente as palavras). Entre elas, a dislexia é a de maior incidência e merece toda atenção por parte dos gestores de política educacional, especialmente a de educação especial.

A dislexia exclui a criança do mundo da leitura - A dislexia é a incapacidade parcial de a criança ler compreendendo o que se lê, apesar da inteligência normal, audição ou visão normais e de serem oriundas de lares adequados, isto é, que não passem privação de ordem doméstica ou cultural.

Encontramos disléxicos em famílias ricas e pobres. Enquanto as famílias ricas podem levar o filho a um psicólogo, neurologista ou psicopedagogo, uma criança, de família pobre, estudando em escola pública, tende a asseverar a dificuldade de persistir com o transtornos de linguagem na fase adulta. Talvez, por essa razão, isto é, por  uma ordem social, de situação sócio-econômica,  a dislexia seja uma  síndrome da classe média, exatamente porque,  desde cedo, os pais conseguem diagnosticar a dificuldade e partir para intervenções médicas e psicopedagógicas.

No âmbito das instituições de ensino, relatos de professores registram situações em que crianças, aparentemente brilhantes e muito inteligentes, não podem ler, escrever nem têm boa ortografia para idade. Nos exames vestibulares, as comissões executivas descrevem casos "bizarros" (às vezes, motivo de chacotas) em que candidatos apresentam baixo nível de compreensão leitora ou a ortografia ainda é fonética (baseada na fala) e inconstante.

Assim, urge a realização de testes de leitura nas escolas públicas e privadas, desde cedo, de modo a diagnosticar e avaliar a dificuldade de leitura. Por trás do fracasso escolar ou da evasão escolar, sempre há fortes indícios de dificuldades de aprendizagem relacionadas à linguagem.

Nos casos de abandono escolar, em geral, também, verificamos crianças que deixam a escola por enfrentarem dificuldades de leitura e escrita. A dispedagogia, isto é, o desconhecimento por parte dos professores, pais e gestores educacionais, do que é a dislexia e suas mazelas na vida das crianças e dos adultos também só piora a aprendizagem da leitura de seus alunos.

A legislação reforça a exclusão escolar - A legislação educacional, especialmente a Constituição Federal (CF), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a legislação educacional correlata, não trata as diversas necessidades especiais dos educandos de forma clara, objetiva, pragmática e programática. Sua omissão tem de certa forma dificultado ações governamentais por parte dos gestores, do professor ao secretário de educação. A Constituição Federal, por exemplo, ao tratar sobre a educação especial diz: o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de atendimento educacional especializada aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino(Artigo 208, III, CF). E perguntaria ao leitor: uma criança, com dislexia, isto é, com dificuldade de ler bem, é um portador de deficiência?

A Lei 9.394/96, a de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, apresenta uma melhor redação sobre a matéria. Diz assim: o dever do estado com a educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino (Art. 4º, LDB). A redação da Lei, na LDB, Melhorou e, em muito a versão da Constituição Federal, porque faz referências às necessidades especiais. Nesse caso, chegamos, por dedução ou exegese jurídica, à conclusão de que a dislexia é uma necessidade especial. Mas qual a natureza dessa necessidade especial?

Por exclusão, diríamos que uma criança com dislexia não é portadora de deficiência nem mental, física, auditiva, visual ou múltipla. O disléxico, também, não é uma criança de alto risco. Uma criança não é disléxica porque teve seu desenvolvimento comprometido em decorrência de fatores como gestação inadequada, alimentação imprópria ou nascimento prematuro. A dislexia tem um componente genético, exceto em caso de acidente cérebro-vascular (AVC). Ser disléxico é condição humana e como tal é princípio d e ensino o respeito às diferenças individuais.

O disléxico pode, sim, ser um portador de alta habilidade. Daí, em geral, os disléticos, serem talentosos na arte, música, teatro, desportes, mecânica, vendas, comércio, desenho, construção e engenharia. Não se descarta ainda que venha a ser um superdotado, com uma capacidade intelectual singular, criativo, produtivo e líder.

O disléxico pode, também, ser um portador de conduta típica, com síndrome e quadro de ordem psicológica, neurológica e lingüística, de modo que sua síndrome compromete a aprendizagem eficaz e eficiente de leitura e escrita, mas não chega a comprometer seus ideais, idéias, talentos e sonhos. Por isso, diagnosticar, avaliar e tratar a dislexia, conhecer seu tipo, sua natureza, é um dever do Estado e da Sociedade e um direito de todas as famílias com crianças disléxicas em idade escolar.

A dislexia não é apenas um fato de exclusão social. Excluídos, os educandos são fortes candidatos à delinqüência juvenil. Uma dificuldade de leitura pode, realmente, levar uma criança à exclusão do seu meio social e à delinqüência juvenil? Cremos que sim.

 Aqui faremos uma ilustrativa descrição da relação entre leitura e pensamento, entre leitura e atitude e revelam uma estreita relação entre agressividade e maus leitores.

As crianças com dificuldade de leitura ou escrita, quase sempre, são alunos isolados com relação aos demais da sala, mas procuram, doutra sorte, superar suas limitações lingüísticas por meio de comportamentos agressivos, rebeldes e violentos. Outras crianças é verdade, tornam-se excelentes líderes ou atletas da escola. No entanto, esta não é regra.

Dislexia leva aluno à exclusão escolar - As dificuldades de leitura e a delinqüência juvenil são dois tipos de problemas escolares que caminham juntos e, por isso mesmo, exigem uma intervenção por parte dos agentes educacionais. Uma política de leitura não apenas compensaria o déficit cultural dos alunos como, também,  iria engajá-los no discurso da sociedade centrada no direito democrático, na informação, na cultura e no cultivo de valores como tolerância e respeito à diversidade.

As crianças, jovens ou mesmo os adultos, com baixo rendimento escolar, em geral, padecem com as dificuldades de ler, escrever calcular bem. Por isso, uma avaliação escolar que tende a reprovar ano a ano uma criança não apenas a torna inculta, mas desenvolve um sentimento de felonia muitas vezes por motivos frívolos e banais.

 Algumas providências iniciais com os alunos agressivos poderiam ser de grande valia para a escola e para a sociedade como o todo. A primeira cabe à escola, especialmente ao professor, articular-se com as famílias. A segunda providência deve ser a de levar o aluno, através do diálogo aberto, à consciência de suas limitações pessoais e cognitivas, e mostrar-lhes, por exemplo, que, através de uma boa orientação ou reeducação da leitura, poderia mudar suas próprias atitudes, ideais aspirações pessoais e, a terceira ação educacional, é a de promover, através da leitura, aquisição de conhecimentos e a integração social.

Um aluno que fracassa na leitura fracassa também na hora de ler um problema de matemática ou na hora de fazer um exercício de gramática. Um aluno que fracassa na leitura não encontra sentido algum em ler um Machado de Assis ou ler os versos de um Camões que estão parafraseados na sua canção predileta de uma Legião Urbana.

Um aluno que constantemente fracassa é empurrado de forma perversa para a delinqüência.

Uma última palavra: a privação da leitura interfere no desenvolvimento da personalidade dos alunos. Um aluno com deficiência de leitura é triste e deprimido, agressivo e angustiado, potencialmente um delinqüente.

Numa sociedade de informação, ler ou escrever bem é condição de superação da desigualdade social. A leitura vai além do repertório de palavras que brotam do alfabeto.  Ler é compreender, interpretar, descobrir, criar e sobretudo desfrutar do reino do conhecimento.

 Papel da família na inclusão dos filhos ao mundo da leitura- Uma das reclamações mais freqüentes de pais  com filhos em idade escolar  é a de que as instituições de ensino, públicas ou privadas, populares ou burguesas, não têm dado uma resposta adequada e,  em tempo hábil, às crianças que sofrem com as dificuldades de leitura e de escrita no Ensino Fundamental. As dificuldades lectoescritoras atingem ricos e pobres, brancos ou negros, europeus ou latinos, que estão nos bancos escolares.

A escola ainda não responde, eficazmente, ao desafio de trabalhar com as necessidades educacionais das crianças especiais, especialmente às relacionadas com as dificuldades de linguagem como dislexia, disgrafia e disortografia.

A dislexia ocorre quando uma criança não lê bem ou não encontra sentido diante do texto escrito. A disgrafia e a ortografia se manifestam quando há dificuldade no plano da escrita ou do ato de escrever.

São os distúrbios de letras déficts que preocupam os pais porque sabem que o sucesso escolar de seus filhos depende, e muito, da aprendizagem eficiente da leitura, escrita e ortografia.

Não são poucos os pais que me relatam, por exemplo, as dificuldades de linguagem de seus filhos. Educandos, aos 8 ou 9 anos de idade, que apresentam leitura e escrita ou ortografia defeituosas. É a idade não só da aquisição, mas do desenvolvimento da linguagem.

As causas das deficiências lingüísticas são muitas, mas a tese de que a escola é uma fábrica de maus leitores não deve ser descartada como a mais importante em se tratando de etiologia das patologias ou distúrbios de letras.

A escola, a rigor, não se deu conta que ensinar bem é favorecer a memória de longo prazo das crianças (MLP) para que, na última etapa da educação básica, quando jovens, tenham desempenho eficiente na hora de ler um livro ou de escrever um texto para concurso ou vestibular.

Em geral, os alunos com dificuldades específicas de lectoescrita, já no final do primeiro ciclo do ensino fundamental, fazem a troca dos fonemas simétricos: t/d, f/v, b/p principalmente. Muitos pais, sem uma resposta eficaz da escola, procuram, fora do ambiente escolar, profissionais como fonoaudiólogos, pediatras, neurologistas e psicopedagogos na busca de superação do problema.

Não é por acaso que, hoje, os profissionais de saúde - mais do que os professores - são os grandes leitores e autores de obras relacionadas com as patologias de linguagem.

Quase sempre, com a ajuda desses profissionais que se dedicam à reeducação lingüística - diagnóstico e intervenção - o problema da dislexia, disgrafia ou disortografia, é amenizado, compensado, mas não significa a superação definitiva dos distúrbios.

Os problemas de leitura e escrita deveriam ter resposta eficaz no meio escolar, num trabalho interdisciplinar, contando, é claro, com a ajuda externa de profissionais da psicologia, da fonoaudiologia e da Medicina, mas, também,  com soluções endógenas, advindas do próprio ambiente escolar.

O professor, principal agente do processo reeducador, deveria,ou deve ser, o mais aplicado, o mais qualificado, nas questões referentes à pedagogia da lectoescrita.

Sem um trabalho consistente da escola, as trocas de letras simétricas, por exemplo, tendem a persistir por toda vida escolar. Em alguns casos, claro, com menos freqüência. Em outros, uma síndrome que acompanhará a criança, o jovem e o adulto por toda sua vida.

É primordial o trabalho de reeducação lingüística, isto é, formar a consciência fonológica dos sons da fala. Ensinar bem as vogais e as consoantes da língua materna. É esta consciência fonológica ou lingüística que fará com que a criança, ao escrever palavras com letras simétricas (p, b, p, q), pense e repense sobre o processo da escrita alfabética.

Uma das conseqüências da falta de consciência fonológica é, na escrita formal, os alunos, “saltarem” grafemas, por exemplo: coisa, ela escreve coia/ glóbulo/gobulo.

Certo é dizer para pais e educadores ou, para todos profissionais que operam com diagnóstico e intervenção psicolingüística, que a partir de 8 ou 9 anos de idade e, já no final do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, é importante que estejam atentos quanto aos defeitos de leitura e de escrita das crianças.

A troca de fonemas, ainda nessa fase, reflete, muitas vezes, uma deficiência de ordem lingüística e não um déficit necessariamente neurolíngüístic), na formação lingüística inicial (alfabetização e letramento) da criança.

Sabemos que muitas deficiências estão enraizadas na própria pedagogia. Muitos de nossos alfabetizadores,  a despeito dos anos de experiência, o esforço exemplar, a dedicação ao magistério, têm deficiência de formação. Claro, a má instrução é involuntária. Todavia, traz conseqüências sérias para a aprendizagem da leitura.

           Uma escola que ensina, por exemplo, termos, no sistema lingüístico do português, apenas 5 vogais, estão dando as bases precárias, de ordem cognitiva, para uma leitura eficiente, o que acaba por levar o educando à aquisição de uma dislexia pedagógica.

           Sabemos que são 12 vogais (7 orais e 5 nasais). Vogais são os sons da fala. Vogais não são letras. Vogais são fonemas, isto é, unidades sonoras distintivas da palavra.

           Vogais têm a ver com a leitura. As letras, que representam as vogais ou sons da fala, têm uma estreita relação com a escrita.

           Não obstante, a escrita não é espelho da fala. Como se diz, não é necessariamente como se escreve. Não há uma correspondência biunívoca entre fonema ou som da fala com a escrita, com os grafemas.

         Nos casos em que crianças apresentam,  insistentemente, a troca de letras, podemos supor, por exemplo, uma dificuldade por motivação fonológica.

         Uma informação lingüística ou metafonológica no processo de formação escolar faz diferença na habilidade lectoescritora da criança.

         Vejamos, por exemplo,  os fonemas /t/ e /d/, que são consoantes linguodentais. Uma surda (/t). A outra sonora (/d/).

         Os pais devem estar atentos quanto à articulação desses fonemas:

         Estão sendo bem articulados por seus filhos na fala espontânea ou na leitura de textos escolares?

         Então, se não estão, que tal um trabalho com as cordas vocais, para que os percebam a diferença quanto à sonoridade ?

         É uma hipótese importante. Em geral, quando ocorre esse déficit fonológico, essa hipótese há de ser confirmada na pronúncia ou soletração de consoantes labiodentais, como: /f/ e /v/ e as labiodentais /p/ e /b/.

         Os pais, com ou sem formação superior, devem ter o hábito de abrir as gramáticas escolares que, quase sempre, trazem regras básicas, mas imprescindíveis ao ensino sistemático de leitura e soletração. 

         A gramática ensina que “antes de P e B não se  escreve N e sim M”, mas não explica nada. Entretanto, se repararmos bem: /b/, /p/ e /m/ são fonemas bilabiais. O fonema /n/ é linguodental. Por isso, devemos escrever M e não N. É, pois, uma regra fonológica. Portanto, uma boa explicação do fenômeno fonético promove a consciência fonológica da criança.

Desse modo, os pais não devem ter qualquer cerimônia para abrir uma gramática ou um dicionário escolar na tarefa coadjuvante de ensinar a língua materna.

Aos filhos, com dislexia escolar, pode um pai ou mãe (ou mesmo um irmão mais velho) ensinar  a Gramática, na parte relativa à fonologia, e ver e desenvolver, em seu filho, a percepção auditiva, pronunciando as consoantes da língua portuguesa.

Observará a família, lendo as gramáticas escolares, como são classificadas quanto ao modo e ponto de articulação. Deve articular cada consoante. Olhar para seu filho ou filha. Pedir para que olhe o movimento de seus lábios quando articulam fonemas em algumas palavras do cotidiano (papai, bola, caderno, faca, tarefa etc).

Pedir também que imitem sua articulação é um modo antigo, mas interessante de aprender. Há um ditado latino que diz: “repetitio studiorum mater est”  (A repetição é mãe do conhecimento). A repetição acaba por levá-los, assim, à consciência dos fonemas.

Um pai ou uma mãe que assim se disponha a ensinar, mesmo não sendo um(a)pedagogo (a) ou lingüista de formação, poderá, com esse procedimento, ajudar na formação leitora de seus filhos.

As famílias têm, pois, um importante papel na formação escolar de seus filhos.

     Por fim, sempre desconfiemos do que pode estar ocorrendo na formação escolar dos filhos. Às vezes, a escola deixa de dizer, por negligência ou incompetência, que as letras do alfabeto surgiram, a 3.000 anos, antes de Cristo. Uma informação que tira a oportunidade de criança observar que nossa língua é histórica.

         O “a” ou o “A”, minúsculo ou maiúsculo, foram inspirados na “cabeça de um boi”; a letra “b” foi inspirada, por sua vez, numa “casa mediterrânea de teto achatado” e que o “´p” foi motivado, em seu traçado, por “uma boca” e assim por diante. A escola precisa desenvolver essa competência histórica da língua.

         Na verdade, quis dizer até aqui o seguinte : a escola precisa devolver à criança a competência lingüística e metalingüística, para que cumpra o papel de desenvolver a capacidade do educando de ler para aprender, de escrever para aprender, de aprender a aprender.

         Revelar que a língua é histórica, que seu alfabeto tem origem grega, tem influência hebraica, tem marcas dos signos semíticos e traz também as marcas pictográficas de hieróglifos egípcios, é de extrema importância para o reconhecimento das letras, para decodificação, primeira etapa da leitura proficiente.

         A história das letras do alfabeto deve fundamentar as aulas de língua materna na educação infantil e no ensino fundamental.  Começar pelas palavras é útil ao processo de alfabetização escolar.

         Assim procedendo, cedo o professor ou pai desconfiará ou desconfiarão, quando do processo escritor da criança, que um erro na caligrafia pode ser motivado por questão de lateralidade no traçado das letras.

         A desconfiança docente ou dos pais servirá como boa hipótese significativa para uma pedagogia compensatória no quadro da deficiência lingüística.

         Refiro-me a uma pedagogia ou ensino de  coisas simples. Ensinar bem é ensinar com simplicidade, com objetividade. Aliás, a ciência da linguagem, a lingüística, se caracteriza pela explicação e descrição claras dos fenômenos da linguagem.

         Vejamos, por exemplo, “p “e “b” como são letras parecidas. Quando a perninha desce, é um “p”, mas quando sobe é um “b”. Subir e descer. Descer e subir. Espaço. Lateralidade. Fácil para os adultos. Grande complexidade lingüística para as crianças na Educação Infantil e no Ensino Fundamental.

         Uma letra (ou grafema) parecida com um outro signo gráfico, mas com traçado diferente, pode representar, na leitura, um som diferente e, conseqüentemente, trará significado diferente na produção lexical, frasal e textual. Fácil , não? Para os professores sim, mas, em geral, para os alunos, exigem um grau de abstração muito grande no processo de aquisição da linguagem.

         Os professores estudaram os fatos da língua. Sabem disso informações da aquisição, desenvolvimento e processamento da linguagem. Mas uma criança aos 9 anos pode não armazenar as informações lingüísticas de forma eficiente.

Quando não se aprende a grafar bem pode ser uma deficiência de percepção espacial, de lateralidade. Pode ser, pois, uma deficiência cognitiva.

         É preciso que a escola ensine aos educandos como se dão as coisas relativas ao conhecimento da linguagem, como se processa a informação lingüística. E isso serve não só para o ensino da língua materna como também para as demais disciplinas escolares.

         Um cálculo como 34 x 76 tem muito a ensinar além do resultado. Há etapas de uma operação matemátic que devem ser vistas como algo mais significativo no ensino e, por que não dizer, mais significativo, também, no momento da avaliação formativa.

         As crianças precisam aprender e apreender essas informações da linguagem, da leitura, da escrita e do cálculo, com clareza e de forma prazerosa, lúdica. Quem sabe, ensina.

         Quem ensina, deve saber os conteúdos a serem repassados para o aluno. A escola precisa levar as crianças ao reino da contemplação do conhecimento. Vale o inverso: a escola deve levar o reino do saber às crianças.

         Nas ruas, as crianças não aprenderão informações lingüísticas. Farão, claro, hipóteses, extraídas, quase sempre,  da fala espontânea. É nas escolas, com bons professores, que aprenderão que essas informações lhes darão habilidade para a leitura e para a vida dentro e  fora da escola.

         Nos lares, a tarefa de reforço do que se aprender na escola se constitui um complemento importante, desde que os pais se sintam parte do processo.

         Aliás, a educação escolar, de qualidade, é um dever das instituições de ensino. Doutra, dever, também, compartilhado por familiares e co-responsabilidade dos que operam com os saberes sistemáticos, que envolve a sociedade como um todo.

 Bibliografia

 

1.     ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. (1987). Leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas.

2.     DUBOIS, Jean et ali. (1993). Dicionário de lingüística. Direção e coordenação geral da tradução de Izidoro Blinstein. SP: Cultrix.

3.     ELLIS, Andrew W.  (1995).Leitura, escrita e dislexia: uma analise cognitiva. 2ª edição. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes Médicas.

4.     HARRIS, Theodore L, HODGES, Richard. (1999). Dicionário de alfabetização: vocabulário de leitura e escrita.  Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: Artes Médicas

5.     MONTEIRO, José Lemos. (2002). Morfologia portuguesa. Campinas: Pontes.

6.     RODRIGUES, Norberto. (1999). Neurolingüística dos distúrbios da fala.. São Paulo: Cortez: EDUC (Fala viva; v.1)

7.     YAVAS, Mehmet, HERNANDOREMA, Carmen L. Matzenauer. LAMPRECHT, Regina Ritter. (1991). Avaliação fonológica da criação: reeducação e terapia. Porto Alegre: Artes Médicas.

::educação::
 



Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), de Sobral, Ceará, Brasil.


Popularização da ciência
por Gilberto da Silva

::outras editorias::




O crime do colarinho branco. Visão Geral
por Renato Ribeiro Velloso




© copyright Revista P@rtes 2000-2004
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil