.ISSN 1678-8419  

                                                          Revista Partes - Ano IV - outubro de 2005 - nº50 

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PROVOCAÇÕES – Como presente literário, escritor lança livro com linguagem incomum e pouco pós-moderna.
De ANA MARINA GODOY (Curitiba-PR) para a Revista PARTES (www.partes.com.br)

 

Partes de um diário e revelações tipicamente curitibanas, reflexos saem das gavetas e ganham vida – muito além dos tons de cinza - nas publicações de Arthur Neto: legítimas. Mais do que insultos: uma leitura de presente.

Leitor incansável, Arthur de Lacerda tem a leitura como companheira e quase um hábito que se mostra quase como uma necessidade fisiológica. (Um vício?) Não tem e nem se propõe a ter a mesma disciplina quanto ao escrever. O ler é necessário. O escrever acontece.

Pode-se argumentar que o autor está mais interessado em estimular o pensamento que em oferecer respostas e conclusões prontas. É uma possibilidade. Muito atual, inclusive. Comentário que cabe também ao livro “Bourdieu e Preconceito Linguístico: duas refutações; escrito por Jeaninne Verdès-Leroux com participação de Arthur Virmond de Lacerda Neto e também publicado no Brasil pela Vila do Príncipe

         Não preocupou-se em usar seus textos como estilingue para uma visão de mundo maniqueísta mais preocupada em sacudir e indignar o leitor quem em oferecer a ele uma análise complexa e pouco ingênua das situações retratadas em linhas tênues.

Algo próprio do autor e possível de ver refletido em seus escritos é uma coerência própria. Eis aí algo que muitos escritores que se intitulam pós-modernos não têm e, então, escondem-se atrás de uma suposta ruptura ou não-linearidade simplesmente por construírem obras sem pé nem cabeça e que não acrescentam, além de um dadaísmo tardio e mal-feito.

Não concordo com Arthur Virmond de Lacerda Neta volta e meia, mas não deixo de perceber lógica em muitas de suas proposições ou constatações. Paradoxal? Não. Provocativo.Um tanto agressivo para ser provocante.

Recheado de citações de Augusto Comte e Ortega y Gasset, o livro “Provocações” fica mais interessante quando lido sem compromisso. E, sugiro, numa ordem peculiar: pessoal. Ficará, então, nítida a capacidade que esse conjunto de textos tem de apontar ao leitor reflexões não tão doces, mas sadias e interessantes justamente pelo que contêm de autoral. Para quem o conhece e para quem ainda não.

Na tentativa de não alimentar ilusões, Arthur Virmond de Lacerda Neto acaba por evidenciar sua sede por valores e sentimentos como a amizade, a ética e – o que me provocou profundamente, confesso – o sexo entre irmãos. Reagindo de maneira positiva, construí argumentos ainda mais sólidos, a partir daí, para continuar acreditando que qualquer forma de incesto não é salutar; e me refiro a raízes muito mais profundas que as normas e a cortesia que a sociedade sugere.

As primeiras páginas de “Provocações”, antes de se entrar nos ensaios propriamente, não aparecem de forma prosaica. E foi um acaso. Tenho a impressão que o livro ganhou alma e externou seu próprio sentido, fugindo do controle do autor.

O livro é síntese de uma Curitiba atual e, ao mesmo tempo, uma ruptura; já que admite o cenário como parcialmente interessante. E só. Não há amarras, o que garante sinceridade – apaixonada – à obra.

Pode-se esperar que, com o amadurecimento, fique mais evidente uma releitura moderna dessa Curitiba babélica. Talvez uma saída para alguma ordem (e progresso) na busca por identidades além de lugares comuns.

Por meio da personalidade excêntrica dos diversos protagonistas sem nomes – mas carregados de identidade – e das reações que são capazes de suscitar, o autor traça, à sua maneira, um retrato irônico – e impiedoso – de parte desta metrópole chamada Curitiba.

Poderiam alguns críticos tentar classificar Arthur de Lacerda entre os tradicionalistas pela sua lírica intensa e, por vezes, seca. Contudo, se diferencia ao buscar uma expressão mais enxuta e por não investir no poder da palavra isolada. Quer contar. E ensaia. De maneira provocadora, sem dúvida. Aliás, com posições muito bem definidas. 

Algum amadurecimento quanto ao talhar das letras e das mensagens ainda falta ao autor. Mas, com certeza, mesmo estes “frutos verdes” são capazes de preencher muitos universos e saciar boa fome de cultura.

A leitura vale pelas reflexões que é capaz de provocar. E como presente também!

Serviço:

Livro: Provocações

Autor: Arthur Virmond de Lacerda Neto

Editora:Vila do Príncipe 

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Ana Marina Godoy, turismóloga, consultora e professora do curso de Turismo e Lazer. É editora de Turismo da Revista Partes.
anamarinagodoy@ig.com.br


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