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Partes de um diário e revelações tipicamente curitibanas, reflexos
saem das gavetas e ganham vida – muito além dos tons de cinza
- nas publicações de Arthur Neto: legítimas. Mais do que
insultos: uma leitura de presente.
Leitor incansável, Arthur de Lacerda tem a leitura como companheira
e quase um hábito que se mostra quase como uma necessidade
fisiológica. (Um vício?) Não tem e nem se propõe a ter a mesma
disciplina quanto ao escrever. O ler é necessário. O escrever
acontece.
Pode-se argumentar que o autor está mais interessado em estimular o
pensamento que em oferecer respostas e conclusões prontas. É
uma possibilidade. Muito atual, inclusive. Comentário que cabe
também ao livro “Bourdieu e Preconceito Linguístico: duas
refutações; escrito por Jeaninne Verdès-Leroux com
participação de Arthur Virmond de Lacerda Neto e também
publicado no Brasil pela
Vila do Príncipe
Não preocupou-se em usar seus textos como estilingue para
uma visão de mundo maniqueísta mais preocupada em sacudir e
indignar o leitor quem em oferecer a ele uma análise complexa
e pouco ingênua das situações retratadas em linhas tênues.
Algo próprio do autor e possível de ver refletido em seus escritos
é uma coerência própria. Eis aí algo que muitos escritores que
se intitulam pós-modernos não têm e, então, escondem-se atrás
de uma suposta ruptura ou não-linearidade simplesmente por
construírem obras sem pé nem cabeça e que não acrescentam,
além de um dadaísmo tardio e mal-feito.
Não concordo com Arthur Virmond de Lacerda Neta volta e meia, mas
não deixo de perceber lógica em muitas de suas proposições ou
constatações. Paradoxal? Não. Provocativo.Um tanto agressivo
para ser provocante.
Recheado de citações de Augusto Comte e Ortega y Gasset, o livro
“Provocações” fica mais interessante quando lido sem
compromisso. E, sugiro, numa ordem peculiar: pessoal. Ficará,
então, nítida a capacidade que esse conjunto de textos tem de
apontar ao leitor reflexões não tão doces, mas sadias e
interessantes justamente pelo que contêm de autoral. Para quem
o conhece e para quem ainda não.
Na tentativa de não alimentar ilusões, Arthur Virmond de Lacerda
Neto acaba por evidenciar sua sede por valores e sentimentos
como a amizade, a ética e – o que me provocou profundamente,
confesso – o sexo entre irmãos. Reagindo de maneira positiva,
construí argumentos ainda mais sólidos, a partir daí, para
continuar acreditando que qualquer forma de incesto não é
salutar; e me refiro a raízes muito mais profundas que as
normas e a cortesia que a sociedade sugere.
As primeiras páginas de “Provocações”, antes de se entrar nos
ensaios propriamente, não aparecem de forma prosaica. E foi um
acaso. Tenho a impressão que o livro ganhou alma e externou
seu próprio sentido, fugindo do controle do autor.
O livro é síntese de uma Curitiba atual e, ao mesmo tempo, uma
ruptura; já que admite o cenário como parcialmente
interessante. E só. Não há amarras, o que garante sinceridade
– apaixonada – à obra.
Pode-se esperar que, com o amadurecimento, fique mais evidente uma
releitura moderna dessa Curitiba babélica. Talvez uma saída
para alguma ordem (e progresso) na busca por identidades além
de lugares comuns.
Por meio da personalidade excêntrica dos diversos protagonistas sem
nomes – mas carregados de identidade – e das reações que são
capazes de suscitar, o autor traça, à sua maneira, um retrato
irônico – e impiedoso – de parte desta metrópole chamada
Curitiba.
Poderiam alguns críticos tentar classificar Arthur de Lacerda entre
os tradicionalistas pela sua lírica intensa e, por vezes,
seca. Contudo, se diferencia ao buscar uma expressão mais
enxuta e por não investir no poder da palavra isolada. Quer
contar. E ensaia. De maneira provocadora, sem dúvida. Aliás,
com posições muito bem definidas.
Algum amadurecimento quanto ao talhar das letras e das mensagens
ainda falta ao autor. Mas, com certeza, mesmo estes “frutos
verdes” são capazes de preencher muitos universos e saciar boa
fome de cultura.
A leitura vale pelas reflexões que é capaz de provocar. E como
presente também!
Serviço:
Livro: Provocações
Autor: Arthur Virmond de Lacerda Neto
Editora:Vila do
Príncipe
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