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Brasília
- O presidente Luíz Inácio Lula da Silva dá entrevista
coletiva para 13 emissoras de rádio. Foto: Roosewelt
Pinheiro/ABr
Luís
Fara Monteiro:
A partir de agora, passamos a transmitir a entrevista
coletiva do presidente Lula para emissoras de rádio.
Bom
dia, amigo ouvinte em todo o Brasil. Eu sou Luís Fara
Monteiro e, a partir de agora, damos início, direto do
Palácio do Planalto, à entrevista coletiva de rádio com
o presidente Lula.
O
Presidente da República vai responder às perguntas de 13
comunicadores de emissoras de São Paulo, Rio de Janeiro,
Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Amazonas, Pará e
Rio Grande do Sul.
As
perguntas serão feitas de acordo com a ordem alfabética
dos nomes das emissoras.
Bom dia, Presidente.
Presidente:
Bom dia, Luís.
Luís
Fara Monteiro:
Tudo bem com o senhor?
Presidente:
Tudo bem.
Luís
Fara Monteiro:
Então, está certo. A gente vai começar a nossa rodada de
perguntas.
Presidente:
Só não está melhor porque o Flamengo perdeu nos pênaltis
ontem.
Luís
Fara Monteiro:
Eu concordo 100%. A gente vai começar, então, a nossa
rodada de perguntas. Secretário Ricardo Kotscho, bom
dia. Vamos começar com a Ana Paula Cunha, correspondente
do Jornal da Amazônia, da Rede Amazônica de Manaus. Bom
dia.
Ana
Paula Cunha – Jornal da Amazônia: Bom dia. Bom dia, Presidente.
Presidente:
Bom dia, Ana Paula.
Ana
Paula Cunha – Jornal da Amazônia: O senhor esteve participando da II Feira Internacional da Amazônia,
onde estiveram presentes ministros de oito países da
América do Sul e, ainda, o presidente da Venezuela, Hugo
Chávez. O senhor ressaltou no seu discurso a importância
da integração da Amazônia. Esse foi um passo nesse
processo de integração que o senhor tanto defende no seu
governo?
Presidente:
Quando nós defendemos, Ana Paula, o desenvolvimento da
Amazônia, muitas vezes parece que nós estamos em choque
com outras regiões do país, que têm contrariedades a que
façamos políticas que possam favorecer, em algum
momento, toda a região Norte do país e, dentro da região
Norte, a Zona Franca de Manaus.
Eu
digo sempre que só pode ser contra a Zona Franca de
Manaus quem não a conhece, porque se soubessem o bem que
aquilo fez para a região Norte, se soubessem do
crescimento extraordinário da Zona Franca de Manaus, do
crescimento das exportações e da alta tecnologia
implantada na região, todo mundo estaria de acordo que
nós deveríamos fazer o mesmo para regiões como Amapá,
Acre, uma parte do Pará e o Amapá. Porque senão, nós não
vamos desenvolver a região Norte do país, e eu acho que
ela vai ser integrada exatamente pelo desenvolvimento.
Na
nossa política de integração da América do Sul, todos os
nossos objetivos são fazer com que a região da Amazônia
se integre com todos os países que fazem fronteira, as
Guianas, a Venezuela, a Colômbia, o Peru. Ou seja, são
países que têm quase as mesmas dificuldades que o
Brasil, países também em vias de desenvolvimento e que
têm um potencial, seja no transporte fluvial, seja nas
estradas, onde estamos fazendo parcerias com o Peru e
com a Venezuela, e eu penso que nós iremos construir não
apenas um bom modelo de desenvolvimento sustentável
depois da proposta apresentada pela ministra Marina e
pelo ministro Ciro Gomes, como nós, nesse entrosamento
com outros governos da região e de outros países
inclusive, vamos dar um salto de qualidade para aumentar
a produção e as exportações da região. E vamos tentar
levar desenvolvimento para outros estados.
Veja,
por exemplo, que a ponte que nós estamos combinando
fazer, tem alguns problemas jurídicos, tem problemas,
talvez, de ordem no governo francês. A ponte que vai
ligar o Amapá à Guiana Francesa vai dar um salto
extraordinário no comércio de exportação entre o Brasil
e a França, a partir da Guiana Francesa e a partir do
estado do Amapá.
Por
isso eu estou seguro que o povo da região da Amazônia
vai viver um período muito importante daqui para a
frente, porque a economia vai crescer e porque nós vamos
fazer as obras de infra-estrutura necessárias para que a
Amazônia possa ter um desenvolvimento sustentável, onde
o ambiente seja levado em conta na sua preservação.
Luís
Fara Monteiro:
O presidente Lula responde, agora, à pergunta do
jornalista José Paulo de Andrade, comunicador do
programa “O Pulo do Gato” e também do “Jornal Gente”, da
rádio Band de São Paulo. José Paulo.
José
Paulo de Andrade – Jornal Gente: Obrigado, Luís. Bom dia, Presidente.
Presidente:
Bom dia, José Paulo.
José
Paulo de Andrade – Jornal Gente: O senhor, quando inaugurou a ponte que liga o Brasil à
Bolívia, em agosto, disse: “quero terminar minha vida
vendo a América Latina transformada numa grande nação”.
Na declaração de Havana do IV Encontro do Fórum de São
Paulo, realizado em 1993, constou a necessidade de
integração latino-americana e caribenha, para se opor
aos grandes blocos econômicos, especialmente Estados
Unidos. Essa cartilha vem sendo seguida à risca pelo
senhor, quando anuncia empréstimos a vizinhos, perdoa
dívidas de países pobres e até pede investimentos para
os empresários brasileiros em países amigos, como a
Venezuela.
Vossa
Excelência acredita realmente na possibilidade do único
país que não fala espanhol neste continente liderar esse
bloco? E o que seria esse bloco? Seria o neo-socialismo
contra o neo-liberalismo?
Presidente:
Primeiro, José Paulo, o Brasil não tem nenhum interesse
de liderar, até porque liderança você não autodetermina,
você não faz por medida provisória ou por decreto-lei.
Liderança, você conquista na relação, na medida em que
você tem uma boa relação, na medida em que as pessoas
acreditam em você, na medida em que as pessoas depositam
na ação política de um país uma proximidade com as ações
e com os pensamentos deles. O problema sério é que
durante 500 anos nós ficamos de costas para a América do
Sul e ficamos virados para a Europa e para os Estados
Unidos.
Na
medida em que as nossas exportações são grandes com a
Europa e com os Estados Unidos, quanto mais crescem as
exportações, mais vai ficando difícil exportar, ou seja,
vai diminuindo o espaço que o Brasil tem para colocar os
seus produtos no mercado estrangeiro. Então, o Brasil
precisa procurar outros mercados.
Nós
temos a América do Sul, que de todos os países, apenas
dois não fazem fronteira com o Brasil, que é o Chile e o
Equador. Se nós falamos em integração, nós temos que
perceber que nós temos que ter estradas, temos que ter
pontes, temos que ter um sistema de telecomunicações,
temos que ter energia elétrica e o Brasil, como a maior
economia da região, tem que dar um salto, tem que dar o
incentivo, tem que ter a iniciativa política para isso.
Quando nós tomamos uma decisão de financiar uma empresa
brasileira para construir uma obra lá, nós estamos
pensando no médio e no longo prazo. O que pode ganhar a
economia brasileira, o que pode ganhar a economia
brasileira, que pode ganhar a economia sul-americana com
essa decisão. É por isso que nós colocamos o BNDES e a
CAF, que é uma instituição financeira da comunidade
andina para, juntos, trabalharem dois projetos
principais que interligam dois ou mais países, para que
os produtos brasileiros, as pessoas brasileiras e também
os nossos parceiros da América do Sul possam transitar
livremente. É por isso que eu fiquei muito orgulhoso
quando fui à Bolívia inaugurar aquela ponte, que é a
primeira ligação efetiva em 500 anos de história do
nosso país. Estamos fazendo a segunda com o Peru, vamos
trabalhar com o BNDES para ver se financiamos. Nós não
estamos fazendo com o dinheiro do orçamento, nós estamos
financiando. Como nós recebemos o dinheiro do Banco
Mundial para fazermos obras no Brasil, nós emprestamos
do BNDES para obras brasileiras em alguns países. E acho
que isso é extremamente importante e saudável para o
nosso país.
E não
queremos brigar com os Estados Unidos e com a União
Européia. Seria loucura imaginar que um país vai brigar
com os seus dois maiores parceiros. O que nós queremos e
aí, sim, eu aprendi na minha vida, aprendi na
experiência sindical, é que quanto mais forças nós
tivermos, mais facilidades nós teremos de negociar.
Então, acabou aquele tempo em que os países da América
do Sul, os países da América Latina, conversavam com os
seus parceiros mais ricos como se fossem pedintes,
humilhados, de cabeça baixa, pedindo favor. Não. Nós
temos direitos. E nós queremos apenas exigir os nossos
direitos. É por isso que eu fiz essa quantidade de
viagens nesses 18 meses de governo, no Oriente Médio, na
África, na Índia, na China, em toda a América do Sul, e
alguns países da América Latina, aos Estados Unidos, à
Europa. Por quê? Porque nós queremos construir uma outra
geografia internacional. Nós queremos continuar a ter
nos Estados Unidos o nosso grande parceiro, a ter na
União Européia a nossa grande parceira, mas nós queremos
ter alternativas para colocar os produtos brasileiros.
Eu
vou dar apenas um exemplo: se você acompanhar o
crescimento das nossas exportações, em função de cada
viagem que nós fizemos para o Oriente Médio, por
exemplo, ou para a África do Sul, você vai perceber que,
só para a África do Sul, depois que nós visitamos à
África do Sul, já houve dezenas de reuniões de
empresários brasileiros e empresários da África do Sul.
Já houve dezenas de reuniões entre empresários
brasileiros e empresários do Oriente Médio e nós estamos
crescendo as exportações de forma excepcional. Eu até
disse ao ministro Furlan que quando nós batermos nos 100
milhões de exportações nós vamos abrir um champanhe
aqui, que é para comemorar, porque é um feito inédito. E
pela primeira vez, José Paulo, está acontecendo uma
coisa importante, que você acompanha. O Brasil sempre
ficou naquela loucura: ou exporta tudo e fecha o mercado
interno, ou abre o mercado interno e fecha tudo. Nós não
queremos essa gangorra. O que nós queremos é ter uma boa
política de exportação e, ao mesmo tempo, ter uma
combinação com o mercado interno. E aqui, José Paulo,
não tem ideologia, se trata do Brasil compreender o
seguinte: política internacional é uma via de duas mãos.
Eu
brinco sempre com o Furlan e com o Roberto Rodrigues,
porque são vendedores excepcionais. Então, quando nós
vamos numa reunião com outros governos, eles só falam de
vender produto brasileiro; e eu falo: oh, gente, nós
temos que comprar também. Porque nós precisamos ter
superávit comercial, mas o correto, em política de
comércio exterior, é que haja um certo equilíbrio, que a
gente venda, mas que a gente compre, para a economia
deles sobreviver, senão não sobrevive. E essa máxima que
nós determinamos, aqui, no governo, é que está
garantindo essa participação excepcional do Brasil no
mercado internacional.
Brasília
- Presidente Lula, ao lado do secretário de imprensa,
Ricardo Kotscho (E), durante entrevista coletiva
concedida a comunicadores de rádio. Ricardo stuckert/PR
Luis
Fara Monteiro:
Essa é a entrevista coletiva com o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, direto do Palácio do Planalto. O
Presidente responde, agora, à pergunta do jornalista
Heródoto Barbeiro, âncora do jornal da CBN, da Rádio CBN
de São Paulo.
Bom
dia, Heródoto.
Heródoto Barbeiro, Rádio CBN de São Paulo: Bom dia. Bom dia, presidente Lula.
Presidente:
Bom dia, Heródoto.
Heródoto Barbeiro, Rádio CBN de São Paulo: Presidente, eu gostaria que o senhor fizesse um comentário
a respeito do aumento do superávit primário que o
governo determinou, de 4,25% para 4,5%. E a respeito
desse superávit que mostra, portanto, que o governo tem
aí uma folga fiscal, que alguns comentaristas econômicos
achavam que o governo ia ter para investir. Em duas
partes a minha pergunta: a primeira é o seguinte: isto
não vai ser um freio nesse crescimento econômico que o
governo está perseguindo tão arduamente, quer dizer, no
momento que o governo tem folga, em vez de gastar, o
governo segura? Segunda parte: alguns críticos e
analistas dizem que essa folga é proveniente da alta
carga tributária que o governo do senhor proporcionou
chegando, aproximadamente, a 40% do Produto Interno
Bruto do país. Então, essas são as duas partes da mesma
pergunta.
Presidente:
Eu vou começar pela última. Primeiro, economia, no
Brasil, está virando como se fosse futebol. Tem três
coisas no Brasil que todo mundo pensa que conhece e que
todo mundo se dá ao luxo de falar a respeito com a maior
desenvoltura. Uma delas é futebol. Todo mundo acha que
entende de futebol; todo mundo acha que marcaria o gol
que o jogador não marcou ou marcaria o pênalti que o
rapaz do Flamengo perdeu, ontem.
A
outra coisa é saúde. Todo mundo acha que entende de
saúde. Você não pode chegar numa reunião e dizer que
está com uma dor, porque aparece dez oferecendo um
remédio ou contando uma história de que alguém tinha
aquela doença e que sarou. E a outra é a economia. Todo
mundo acha que entende de economia. Você acompanhou
esses primeiros 19 meses de governo e viu quantos
palpites saíram, bons, maus, mais ou menos. O resultado
concreto é que a persistência da equipe econômica, a
persistência da posição que nós tomamos deu resultados e
deu resultados acima de todas as expectativas.
É só
pegar o que os analistas falavam no ano passado, é só
pegar o que eles falavam no começo do ano: “que o Brasil
vai quebrar, que não sei das quantas, que não dá certo”.
E não foi verdade, não só o Brasil cresceu, e cresceu
acima de todas as expectativas, como nós queremos que o
Brasil continue crescendo de forma sustentável e aí
entra a questão do gastar. Aí, eu lembro da minha
querida esposa, a Marisa. Na minha casa, eu sou casado
há 30 anos, a gente nunca comprou uma coisa a mais
porque tinha um dinheirinho a mais se a gente não
conversasse antes se era necessário comprar ou se não
seria melhor guardar aquele dinheiro.
O que
acontece? Nós tínhamos um orçamento de 406 bilhões, nós
já temos para gastar este ano 414 bilhões, portanto, 8
bilhões a mais do que nós prevíamos. Nós fizemos vários
pacotes junto com os empresários brasileiros e reduzimos
impostos em várias áreas para facilitar o crescimento da
economia no Brasil. Aí, quando se faz uma discussão da
junta orçamentária, percebe-se o seguinte: nós vamos ter
algum dinheiro de folga, ou seja, nós estamos chegando
ao final do ano e não tem nenhum grande projeto para
chegarmos em dezembro e dizer: vamos aplicar na
construção de uma grande coisa que vai dar tempo de
acabar. Não vai.
Então, ao invés de ficar “jogando dinheiro pelo ladrão”,
como habitualmente se faz atendendo emendas, fazendo
qualquer coisa, o que nós fizemos? Se nós temos essa
folga e ela vem surgindo a partir do mês de junho para
cá, ao invés de jogar dinheiro fora, vamos aumentar o
superávit que, pelo menos nós diminuímos a dívida que
nós temos. Vamos pagar alguma coisa a mais do que nós
estamos devendo.
Isso
é um superávit feito para 2004. Deus queira que todo ano
a gente tenha uma folga. Nós estamos com as obras de
infra-estrutura todas planejadas, para 2005 tem coisas
extraordinárias para acontecer neste país, então, a
decisão foi simples e foi essa. O problema é que quando
você começa a discutir determinadas coisas na via da
especulação, você causa preocupação na sociedade, você
causa preocupação na imprensa, você causa preocupação no
mercado, você passa preocupação a tudo quanto é lugar
quando, na verdade, é uma decisão simples.
Eu
arrecadei um pouco mais do que eu previa, eu estou
gastando um pouco mais do que também previa gastar mas,
ainda assim, tem uma folga. Uma parte nós liberamos em
impostos, em redução de impostos, e tem outras medidas
que nós vamos lançar logo para a microempresa
brasileira, para a pequena empresa, para a empresa
familiar, isentar praticamente de tudo e facilitar a
criação de uma empresa, o fechamento e a criação da
empresa, que hoje no Brasil é um martírio. E, mesmo
assim, sobrou um pouquinho. Vamos fazer o quê? Vamos
gastar? Vamos fazer política com esse dinheiro? Vamos
pegar esse dinheiro e vamos distribuir, como se fez a
farra do boi neste país? Não. Então, nós temos folga?
Temos. Então vamos assumir nossa responsabilidade.
Devemos. Então, vamos dizer que nós vamos pagar uma
parte do que nós devemos a mais. Foi isso, simples, sem
nenhum prejuízo. Toda programação de investimento de
infra-estrutura está completa, tudo que está pensado
para 2005, que eu espero que a gente debata aqui, no
decorrer dessas perguntas, tudo que está previsto de
investimento em infra-estrutura está dentro do nosso
organograma, está dentro do orçamento e nós vamos fazer.
Logo, nós vamos contemplar a Maria Amélia falando da
famosa 101-Sul do país, nós vamos falar da revitalização
do rio São Francisco, nós vamos falar da BR-101 do
Nordeste, o trecho entre Natal e Pernambuco já está para
começar no começo do ano que vem.
Então, tem coisas muito boas para acontecer neste país e
eu espero que, da terceira pergunta em diante, a gente
continue discutindo os assuntos interessantes ao Brasil.
Eu estou certo, Heródoto, que foi uma medida correta,
acertada e da maior responsabilidade do ministro Palocci.
Luís
Fara Monteiro:
São oito horas e vinte e três minutos. Esta é a
entrevista coletiva com o presidente Lula. Agora, o
Presidente responde à pergunta de Felipe Bueno, âncora
do Jornal Eldorado da Rádio Eldorado, de São Paulo. Bom
dia!
Felipe Bueno – Jornal Eldorado:
Bom dia, Presidente. Presidente, foi divulgada nos
jornais de hoje a informação de que o discurso que o
senhor fez no último sábado em São Paulo, na inauguração
do prolongamento da Radial Leste, foi retirado do site
oficial da Presidência da República e recolocado sem um
trecho, exatamente o trecho no qual o senhor pediu votos
para a candidata à reeleição, a prefeita Marta Suplicy.
Eu pergunto duas coisas.
Isso
foi determinado pelo senhor e se foi ou se não foi,
houve uma reavaliação de postura com relação às pressões
da última semana?
Presidente:
Primeiro, bom dia, Felipe. Eu acho que todos vocês,
aqui, já acompanharam, em algum momento, campanha
política, já acompanharam inauguração de obra.
Veja,
eu fui para São Paulo inaugurar uma obra em que a
prefeita não podia ir, porque aquela obra tinha dinheiro
do governo federal. Eu fui inaugurar aquela obra porque
entendia que aquela obra era muito importante para a
Zona Leste de São Paulo. Alguns, que estão reclamando de
eu ter falado em política, estão na televisão todos os
dias defendendo os seus candidatos e eu nunca me
incomodei. Eu gostaria que não fosse assim. Eu gostaria
que os governadores não estivessem em campanha, mas
estão. E estão fazendo publicidade como se fossem eles
os candidatos.
Eu
fui à Zona Leste. Primeiro, eu fiz um discurso por
escrito, que era o meu ato oficial, vocês todos conhecem
isso, descerrei a placa, fiz meu discurso. Na verdade,
eu já tinha até acabado de falar quando eu recebi um
documento da nossa ministra interina, que mostrava o
quê? Que mostrava que, em sete anos, o governo passado
investiu na capital paulista apenas 590 milhões de
reais. E que eu, em apenas 19 meses, já tinha colocado
quase 400 milhões de reais na capital de São Paulo. E
por que o grande investimento em São Paulo? Porque São
Paulo não é dos paulistas, embora seja capital de São
Paulo; São Paulo tem gaúcho, tem nordestino, tem
amazonense, tem pernambucano, senão, eu não seria
presidente da República; então, todos os estados
brasileiros estão em São Paulo. Aquilo é uma megalópole
que atende o Brasil e o mundo, você encontra qualquer
raça do mundo em São Paulo. Então, qualquer investimento
que se faça lá é bom. Eu fiz o pronunciamento.
Depois que eu fui falar de improviso, eu fui tomado de
uma emoção muito grande, como todo orador é, de falar da
campanha eleitoral, porque falei. Se eu cometi o erro,
eu, primeiro, sou o presidente da República e não
gostaria de dar o exemplo de um presidente tentando
denegrir qualquer lei. Portanto, como criaram a palavra
desculpa, eu peço desculpas se isso causou mal a alguém.
O dado concreto é que a obra está pronta.
Eu
não estava aqui, quando teve esse problema do site. Eu
disse ao Ricardo Kotscho, ontem, para colocar no site
esse negócio, porque o discurso está por escrito, eu não
tenho como dizer que eu não fiz o discurso, porque está
por escrito.
E tem
o trecho de improviso, porque eu faço as minhas coisas.
Eu até, de vez em quando, gosto do improviso como se eu
não fosse nem o presidente da República, como se eu
fosse um cidadão comum, porque eu tenho uma interação
com o povo muito forte, eu gosto dessa interação, me
sinto bem. Agora, eu te confesso, Felipe, que eu não
entendo porque que os nossos adversários, que estão na
campanha todos os dias, ficaram tão nervosos. Eles
começaram dizendo que iam fazer uma campanha
federalizada, que iam destruir o governo federal. Os
números da economia fizeram com que eles fechassem a
boca, só faltam pedir voto para mim em palanque, não
pedem porque não sou candidato. Então, eles estão sem
argumentos.
Agora, se isso foi errado, eu só tenho que pedir
desculpas. Se eu machuquei alguém, se eu feri alguém, eu
vou ser mais comedido daqui para a frente, eu vou evitar
que, durante esse processo de campanha, que eu faça meus
improvisos falando de eleição, porque pode ajudar o meu
candidato, mas não é um exemplo que pode ser bom para a
Justiça.
Luís
Fara Monteiro:
O presidente Lula responde, agora, à pergunta da
jornalista Ana Amélia Lemos, apresentadora do programa
“Gaúcha Atualidade”, da Rádio Gaúcha de Porto Alegre.
Bom dia, Ana Amélia!
Ana
Amélia – Rádio Gaúcha:
Bom dia! Obrigado Luís. Bom dia, Presidente. Bom dia,
Ricardo Kotscho.
Presidente:
Bom dia, Ana Amélia.
Ana
Amélia – Rádio Gaúcha:
Presidente, o Rio Grande e os outros estados vinculados
ao agronegócio estão na expectativa dessa questão
polêmica da medida provisória sobre a biotecnologia,
transgênicos. Eu queria saber do senhor se já está
tomada a decisão. Quando, e que abrangência terá essa
medida provisória? O governo vai manter aquela idéia
inicial de preservar, na mesma medida provisória,
biotecnologia, transgênicos e células-tronco, que são
dois temas que têm muito problema, inclusive dentro do
próprio governo?
E
como o senhor mesmo tomou a iniciativa, eu quero saber
se a 101, trecho sul, começa mesmo, agora?
Presidente:
Você vai ser convidada, eu penso que já está no processo
de licitação e eu penso que a 101, no trecho
Florianópolis até Osório, eu acho que eu vou ao Rio
Grande do Sul, no final de outubro, dar ordem de
serviço. Portanto, ela vai começar definitivamente.
Ana
Amélia – Rádio Gaúcha:
Depois da eleição?
Presidente:
Depois da eleição. Até porque eu tenho muitos amigos no
Rio Grande do Sul em todos os partidos políticos, mas
tem um processo a cumprir, ainda, até a chegada da ordem
de serviço. Porque na medida que você faz a licitação
tem um prazo de recurso, tem pessoas que não gostam do
resultado. Então, você tem que acatar esse
funcionamento.
A
questão da biossegurança. Ana Amélia, você, mais que
ninguém, sabe da boa vontade que o governo teve para
tentar ajudar resolver essa situação. No começo do ano
passado, eu mal tinha entrado na presidência da
República, fui pego num país que se dizia não plantar a
soja transgênica, fui pego com a notícia de que tinha,
no Rio Grande do Sul, 9 milhões de toneladas de soja
transgênica. Aí você sabe, não faltam aqueles que falam:
“queima”, e aqueles que falam: “vende tudo para o
exterior”. As pessoas que falam: “queima”, falam uma
coisa absurda, porque tudo que eu não quero na vida é
uma imagem de um presidente da República, num país que
tem milhões de pessoas passando necessidade, queimando
alimento.
Segundo, eu não poderia exportar para quem eu queria
porque não sou eu quem determina quem vai comprar as
coisas nossas, ou seja, eu não poderia dizer: “exporta
tudo para a China”, como se os chineses fossem comprar
tudo. Nós então, fizemos uma medida provisória,
autorizamos a venda, uma parte foi exportada, mas uma
parte foi comercializada aqui dentro. O que nós
exigíamos, apenas, é que fosse rotulado, concretamente,
que era soja transgênica.
Bem,
demos um prazo para que as coisas fossem consertadas,
não foram consertadas este ano, e eu reeditei a medida
provisória outra vez porque eu não quero causar prejuízo
nem ao grande, nem ao médio e nem ao pequeno produtor.
Pois bem, mandei, em fevereiro, o projeto para a Câmara
dos Deputados, ele foi aprovado na Câmara dos Deputados,
e está no Senado. Antes de viajar para os Estados
Unidos, conversei com o líder do governo que me disse
que talvez fosse melhor o governo retirar o projeto
aprovado na Comissão, nas várias Comissões do Senado e
transformá-lo numa medida provisória, para ele entrar em
vigor.
Eu
voltei ontem das Nações Unidas, não tive tempo ainda de
ver o projeto. Hoje, possivelmente, eu vá conversar com
o nosso líder sobre isso. Se for importante e tiver
acordo, eu posso fazer isso, assinar. Não quero entrar
em detalhes sobre o que vai ficar ou não porque eu não
conheço, e se eu falar antes de conhecer eu posso estar
dando um tiro no pé e eu, realmente, não quero ser
suicida, pelo menos do ponto de vista político, neste
momento.
Eu
vou tratar isso com um carinho excepcional porque
estamos chegando na época do plantio. Para os
brasileiros que não sabem do tamanho deste país, no Rio
Grande do Sul e na região Sul do país começa, agora no
mês de outubro, o plantio da soja. Então, quando o
cidadão enterrar a semente embaixo da terra, você não
vai saber se ela é ou não transgênica, você vai ter que
esperar quatro meses, ela vai crescer, aí você vai saber
se ela é transgênica ou não.
Se
algum gaiato jogar uma sementezinha com pesticida no
meio da soja exportada, nós vamos ter prejuízo. Então,
nós vamos tratar isso como uma coisa muito carinhosa,
porque a biossegurança é uma coisa séria para nós e nós
queremos fazer com que o projeto seja de interesse da
nação brasileira, da maioria do povo brasileiro e não do
Presidente da República. A minha parte eu já fiz, mandei
para o Congresso. Eu só esperava que eles aprovassem e
eu sancionasse. A Câmara aprovou, o Senado está
discutindo há muito tempo.
Ainda
esta semana eu conversei com o governador Rigotto e pedi
que é preciso um pouco de pressão em cima do Senado, a
boa pressão dos governadores, para que a gente aprove. E
eu se for acordado com eles que eles aceitam a medida
provisória tal como o projeto foi acordado lá, se
estiver tudo bem, eu não teria problema nenhum em
mandar. Ainda não li e não discuti o projeto.
Luís
Fara Monteiro:
Nós agradecemos a você, em todo o Brasil, que acompanha
esta entrevista coletiva com o presidente Lula, pelo
rádio e pela televisão. Vamos fazer um pequeno intervalo
de três minutos e voltamos em instantes. Até já.
São
8h36m, obrigado a você que está acompanhando essa
entrevista coletiva com o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, sendo transmitida para todas as rádios e TVs do
país.
O
presidente Lula vai responder, agora, à pergunta do
Marcus Aurélio, comunicador do programa “Quintal da
Globo”, da rádio Globo do Rio de Janeiro. Bom dia,
Marcus.
Marcus Aurélio – Rádio Globo do Rio de Janeiro: Bom dia, editor da Rede Globo de Rádio, Rádio Globo
Brasil. Presidente, ainda há pouco, em uma de suas
respostas, aliás justamente na resposta para o Heródoto
Barbeiro, o senhor deixou uma pista aí no ar que deve
ter gerado muita esperança para muita gente quando o
senhor falou que vêm aí novidades em relação à pequena
empresa no nosso país.
Nós
sabemos que hoje este é um dos grandes problemas,
principalmente nos grandes centros urbanos. Ou seja, é
muito difícil ter coragem de abrir uma pequena empresa
no Brasil, é muito grande a opção de pessoas pela
economia informal, pela camelotagem, pelo comércio
paralelo. O sujeito vê uma legislação trabalhista
absolutamente desestimuladora, dificuldades, portanto,
se o cara quer contratar, por exemplo, um funcionário
temporário, ele vai gastar uma nota só de encargos
sociais, impostos que, muitas vezes, são
proporcionalmente injustos na comparação com a grande
empresa.
O
senhor está preparando um pacote bom, um pacote de
bondade para o pequeno empresário mesmo? O que vem por
aí?
Presidente:
Eu não diria, Marcus Aurélio, um pacote de bondade. Eu
diria um pacote para se fazer justiça. Se nós quisermos
diminuir a economia informal e se nós quisermos que
muitos pequenos empresários deixem de ser clandestinos,
já está provado que não basta uma lei proibindo, é como
proibir pisar na grama, e todo mundo pisa. Nós não
queremos criar facilidades mas, ao invés de criar
dificuldade, queremos criar um processo que faça justiça
a uma pessoa que queira abrir uma pequena empresa, e que
ele possa, com maior facilidade, abrir essa empresa e,
se não der certo, com a maior facilidade, fechar essa
empresa.
O que
não pode é o cidadão levar quase um ano para abrir uma
pequena empresa e depois levar dez anos para fechar essa
pequena empresa, pagando, às vezes, impostos como se
fosse uma empresa multinacional. Muitas vezes, essa
questão da lei trabalhista é uma verdade absoluta e nós
temos interesse de começar, este ano, um grande debate
sobre a questão da mudança na legislação trabalhista. E
queremos fazer acordada com o movimento sindical.
Veja
uma coisa, nessa questão da pequena empresa, nós vamos
criar um imposto que é uma coisa quase simbólica, para
garantir o pagamento da Previdência Social. Obviamente
que você pode ter restrição aqui ou ali, o movimento
sindical pode não concordar, mas eu penso que ainda
temos que convencê-los de que é melhor a gente assumir a
responsabilidade de ter regras diferentes para
atividades de tamanhos diferentes, do que querer ser
rígido, numa única política universal, para uma empresa
multinacional de faturamento de bilhões, e uma empresa
de fundo de quintal, de faturamento de poucos reais.
Nós
queremos fazer uma política justa. Vamos fazê-la e eu
penso que vai ser uma coisa extraordinária. Nós estamos
estimando que uma política dessa pode atender, no médio
prazo, a inclusão dessas pessoas na formalidade, de
praticamente 9 milhões de microempresas que estão hoje
na ilegalidade. Ao invés de proibi-los e puni-los, nós
estamos abraçando-os e dizendo: vamos juntos sair desse
sufoco em que estamos colocados.
O
dado concreto é que se demorou para fazer as coisas.
Como nós temos o hábito de fazer as coisas discutindo
com o setor, neste caso, por exemplo, nós queremos ter
uma conversa com alguns governadores. Vai ter uma
reunião do Confaz agora, nós vamos discutir porque, meu
caro, todo mundo fala em reduzir imposto mas ninguém
quer reduzir, vela o que está acontecendo com a reforma
tributária. Nós fizemos a parte federal, tem a parte
estadual para ser feita, que daria parte do dinheiro que
os governadores reclamam. Segundo o Palocci, é bem
possível que cada estado aumente a sua arrecadação em
10%. E porque não sai a parte estadual? Porque os
governadores não se entendem. Alguns querem perpetuar a
guerra fiscal, outros não querem guerra fiscal.
Então, eu ainda conversei com alguns governadores estes
dias e disse para eles: Olhem, é importante juntar os
que não querem a guerra fiscal para que o Senado vote a
parte da reforma tributária que é pertinente aos
governadores. Aí sim, o processo fica pronto e tudo vai
ficar resolvido.
Mas
essa é uma medida, Marcus Aurélio, que eu acho
importante para o Brasil, e nós íamos anunciar
sexta-feira passada. Como eu não estava aqui, nós não
anunciamos, vamos anunciar na próxima sexta-feira.
Luís
Fara Monteiro:
O presidente Lula responde, agora, à pergunta de Fábio
Marçal, correspondente do Jornal da Manhã, da Rádio
Guaíba de Porto Alegre. Bom dia, Fábio.
Fábio
Marçal – Jornal da Manhã:
Correio do Povo, só para melhorar. Presidente, bom dia e
bom dia aos ouvintes da Rádio Guaíba. O senhor será
candidato à reeleição e, falando em reeleição, o senhor
é a favor? E, falando em reeleição, o senhor é a favor
da reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado
Federal?
Presidente:
Primeiro, eu não discuto candidatura 2006, nem de outros
e nem minha. Eu acho que nós temos é que governar o
país, porque fomos eleitos para isso, e vai ter o
momento em que a gente vai discutir a questão eleitoral.
Por enquanto, o nosso lema é cumprir aquilo que nos
propusemos a fazer.
Com
relação à reeleição da Câmara. Veja, nós vivemos uma
situação de uma certa heresia política: eu posso ser
presidente da Câmara de 1996 a 1998 e posso ser
presidente da Câmara de 1999 a 2001. Se terminar um
mandato e começar outro eu posso ser, como já aconteceu
várias vezes. Agora, eu não posso ser num mesmo período.
Eu acho que isso é uma coisa até um pouco esquisita para
o processo democrático.
Eu só
tenho uma preocupação com a reeleição na Câmara e no
Senado, que é se você não colocar um freio, você
perpetua um presidente da Câmara, durante 20 ou 30 anos,
ou um presidente do Senado durante 20 ou 30 anos, o que
é ruim. Mas, eu te confesso que num país que tem
reeleição para presidente da República, tem reeleição
para prefeito, tem reeleição para governador, dizer que
uma Casa legislativa não pode ter a sua própria
reeleição interna é, no mínimo, uma contradição.
De
forma que, isso é um problema deles. Eu já disse ao
presidente João Paulo, disse ao presidente Sarney, é um
problema que eles tem que coordenar lá dentro, não é um
problema do presidente da República e muito menos do
Poder Executivo. Se acontecer a reeleição, que eu não
sei se vai acontecer, eu vou ter um candidato,
obviamente, na Câmara, vou ter um candidato no Senado
mas, eu, por enquanto, espero que eles decidam o que
fazer, sem que haja ingerência do Poder Executivo.
Luís
Fara Monteiro:
Essa é uma transmissão ao vivo, direto do Palácio do
Planalto, a entrevista coletiva com o presidente Luís
Inácio Lula da Silva.
Quem
formula a pergunta agora é Eduardo Costa, apresentador
do programa “Chamada Geral”, da Rádio Itatiaia de Belo
Horizonte.
Bom
dia, Eduardo.
Eduardo Costa – Rádio Itatiaia de Belo Horizonte: Bom dia. Bom dia, Presidente!
Presidente:
Bom dia.
Eduardo Costa – Rádio Itatiaia de Belo Horizonte: Presidente, na verdade, a pergunta que trago é um apelo
dos ouvintes, o apelo mais freqüente na Redação, não só
da Itatiaia, mas das outras 53 emissoras do Estado, o
que prova que a violência, hoje, é um sufoco na zona
urbana, na zona rural, em toda parte de Minas Gerais. O
medo, Presidente, está tomando conta das pessoas: o medo
de chegar na janela, o medo da filha não voltar da
faculdade, um negócio assustador, mesmo, Presidente,
essa é a palavra. E o pior é que a nossa polícia, sempre
apontada como uma das melhores do Brasil, já não apura
mais do que a metade dos crimes contra a vida e já não é
procurada por sete entre dez vítimas de crime contra o
patrimônio, porque essas vítimas não acreditam na ação
da polícia.
Quando a gente procura os operadores do Direito, eles
dizem: olha, o Código de Processo Penal Brasileiro tem
60 anos, aproveita a força da Itatiaia, cobra do
Presidente Lula, quando puder. Essa é uma cobrança.
Outras vezes, Presidente, em que a gente procura o
prefeito, ele diz que o problema é do governo do estado.
Quando chega no governo do estado, ele diz: olha, o
governo federal não passou um centavo ainda, esse ano,
cobrem do Presidente.
Então, o senhor, com tantos assuntos macro, pode dizer
que, pelo menos um dos três prédios da Praça dos Três
Poderes prioriza a violência? O senhor pode dar uma
expectativa para as pessoas que nós vamos ter
penitenciárias, lugar para pôr presos, porque hoje não
tem? Além de todo esse trabalho que o senhor tem feito
no combate à fome e das medidas de médio e longo prazo,
o governo federal está prevendo uma ação imediata para
diminuir o sufoco, Presidente?
Presidente:
Olha, primeiro, em quase todos os espaços aqui dos Três
Poderes nós estamos pensando na paz. Nós estamos achando
que é possível criar uma política de segurança pública
neste país que possa, via inteligência, ser mais eficaz
do que a via da violência que alguns apregoam e fazem
publicidade sistematicamente.
Ora,
acabou aquele tempo em que um governador ou um prefeito
de uma cidade fazia pirotecnia com um preso, com um
bandido. De vez em quando vão 3 mil soldados para um
lugar, para pegar um cara. Possivelmente, com um pouco
mais de inteligência, você precisaria de um ou dois bons
policiais, de um bom esquema de investigação, para você
poder pegar o cara sem precisar fazer a pirotecnia, o
carnaval, que desaparece no dia seguinte àquela prisão.
Eu
quero dizer para você que você é um homem que sabe. Eu
espero que quando alguém te perguntar isso na rádio ou
na televisão, por favor, você me ajude, o problema da
Segurança Pública é um problema do governo do estado. O
governo pode e está tendo uma boa política de tentar
unificar vários procedimentos, para que sejamos mais
eficazes na prisão das pessoas que cometem crimes. Eu
vou dar alguns exemplos aqui. Primeiro, eu me orgulho
Eduardo, de ter uma das pessoas mais extraordinárias
deste país como Ministro da Justiça que é o ministro
Márcio Thomaz Bastos, acho que é inatacável, do ponto de
vista da sua competência profissional, da sua história,
da sua dedicação. E o Márcio é importante porque sempre
conta até 10. Você não vê o Márcio falar uma heresia,
você não vê o Márcio falar pelos cotovelos. O Márcio
prefere contar até 10 e falar uma coisa de bom senso do
que fazer um carnaval.
Veja,
nós criamos o Estatuto do Desarmamento. Você vê o
sucesso que está dando, nós já recolhemos as armas que
prevíamos recolher, já este ano, num sucesso
extraordinário.
Nós
consolidamos o Sistema Único de Segurança Pública no
Brasil. O que é? Você trabalhar com a Secretaria de
Segurança Pública Federal, tendo um controle de todo o
processo de organização da polícia civil, da polícia
militar, da polícia federal, para que cada uma não tenha
apenas o seu arquivo, para que cada uma não tenha o seu
bandido preferido, para que cada uma não tenha a sua
tática. É preciso que haja uma uniformização.
Depois, nós criamos uma força chamada “Força Nacional de
Segurança Pública”. São policiais altamente preparados
que vão fazer intervenção em momentos excepcionais que
forem pedidos, obviamente, requisitados, por
governadores. Nós não temos como ter ingerência num
estado qualquer. Por mais que tenha uma crise, nós não
temos como fazer interferência se não houver um pedido
explícito do governo. Aí, de vez em quando o governo
estadual fala: bom, não queremos porque significaria
intervenção. Mas o governo federal está preparado para
isso.
Depois, com o Gabinete de Gestão Integrada, você vai ter
uma ação em que saberá o que acontece em cada estado no
momento em que o fato acontece naquele estado. E depois,
a última coisa que eu lancei aqui, faz uns dois meses, é
o “Sistema Automatizado de Identificação e Impressões
Digitais”. Hoje, você sabe que o cidadão faz um assalto
em Pernambuco, ele vai para a Bahia tira outro documento
e faz outro assalto, vem para São Paulo, faz outro; vai
para Brasília, faz outro, ou seja, às vezes ele tem uma
identidade em cada estado.
Nós
estamos com um sistema de investigação que, quando o
cidadão for fazer a impressão digital em Roraima,
automaticamente essa impressão digital – esteja ele em
São Paulo, no Rio Grande do Sul – se um policial
rodoviário federal pegar um cidadão suspeito, vai ter
uma maquininha onde o cidadão vai colocar o dedo e, se
ele estiver na lista dos 50 mil bandidos mais procurados
do Brasil, a cara dele vai aparecer automaticamente na
telinha do computador e ele poderá ser preso.
Agora, segurança pública é como economia, se você falar,
não faz. Então faça, e nós estamos fazendo com muita
inteligência. Eu confio plenamente em cada passo que o
ministro Márcio Thomaz Bastos dá e eu acho que nós vamos
terminar o nosso mandato com a segurança pública muito,
muito mais forte. Por exemplo o trabalho que nós estamos
fazendo para combater o crime organizado, a lavagem de
dinheiro, nunca foi feito na história deste país. É um
trabalho sério que requer inteligência, que requer
preparação, porque quando você vai enfrentar o crime
organizado, acabou. Não é mais aquele ladrão de galinha
que antigamente se pegava, não. É o cidadão que tem o
seu braço na política, seu braço no judiciário, seu
braço no empresariado, seu braço internacional, ou seja,
é quase uma empresa multinacional com vários braços, com
várias filiais, e aí a questão é muito mais de
inteligência.
Por
isso, eu diria a você, Eduardo, que eu deposito muita,
mas muita confiança nas ações do nosso companheiro
Márcio Thomaz Bastos. Agora, é verdade, o prefeito culpa
o governador, o governador culpa o governo federal, e o
governo federal, como tem responsabilidade, não culpa
ninguém, faz o que pode.
Luís
Fara Monteiro:
Vamos ouvir Geraldo Freire, apresentador do programa “Supermanhã”,
Rádio Jornal do Comércio do Recife. Bom dia, Geraldo.
Geraldo Freire – Rádio Jornal do Comércio: Pernambuco, falando para o mundo.
Presidente:
...e sobretudo de Garanhuns para o mundo, de Caetés.
Geraldo Freire – Rádio Jornal do Comércio: Eu vim aqui, Presidente, na certeza de que vou levar do
senhor uma resposta definitiva sobre o Rio São
Francisco. A importância do rio, o senhor já disse que é
uma coisa que desde o Império se fala, e para saber
exatamente o que vai acontecer com o rio, porque a
confusão em Garanhuns, estamos na época de eleição, e o
Osvaldo Coelho, que é deputado do PFL, disse que é uma
insanidade do governo o que o senhor quer fazer com o
Rio São Francisco. Gonzaga Patriota, que é seu aliado,
diz que é porque Osvaldo Coelho não sabe que o senhor
quer também ligar o Tocantins ao São Francisco, e só
assim essa coisa seria resolvida. Bom Presidente, então,
eu queria que o senhor dissesse exatamente o que vai
acontecer. Nós estamos em cadeia estadual de rádio, essa
pergunta era de três ou quatro amigos do Nordeste, que
iam fazer, então, o que vai acontecer com o rio São
Francisco, exatamente?
Presidente:
Eu espero que nós tenhamos a sorte de colocar em prática
as coisas que já pensamos, que já discutimos e que
estamos discutindo, inclusive com o Comitê da Bacia do
São Francisco, porque se você ficar ideologizando essa
coisa, o rio é meu, o rio é seu, o rio ninguém toca,
você não vai resolver um problema crônico, que é o
problema da seca do semi-árido nordestino, que há 300
anos todo mundo fala que vai resolver e não resolve.
É
importante lembrar que esse projeto é de Dom Pedro. Em
1847 Dom Pedro já imaginava fazer a transposição das
águas do Rio São Francisco para levar água ao
semi-árido. Nós estamos num processo muito grande de
revitalização do rio, inclusive, antes de tirarmos a
água, nós queremos ter uma política muito forte de
saneamento básico nas cidades ribeirinhas, para que a
gente possa jogar água tratada dentro dos rios. Há um
trabalho conjunto entre todos os ministros envolvidos na
área do saneamento básico e na área do florestamento, na
área da integração regional, o meio ambiente. Nós vamos,
então, a partir de janeiro, com essa idéia, começar a
fazer as obras, Vamos começar o processo de licitação,
que não vai tirar muita água do São Francisco, vai tirar
o suficiente para que as pessoas possam beber água
decentemente.
Qual
é a novidade? A novidade é que você vai tirar – eu não
queria dizer o número e errar – 73 metros cúbicos por
segundo. É a mesma quantidade de um projeto Pirarucu que
está sendo criado no Mato Grosso, onde, para criar
peixe, o cidadão deve fazer um canal de 63 metros
cúbicos por segundo. Essa água, qual é a novidade dela?
É que ela vai interligar muitos açudes existentes no
Nordeste. Essa interligação vai permitir que os açudes
não fiquem salinizados, vai permitir que eles estejam
sempre com água, não tem aquele negócio de estar cheio
um dia, no outro dia está vazio, estar seco. E vai
permitir a gente possa ter um mínimo de política de
irrigação para atender, sobretudo, à agricultura
familiar...
Presidente:
O Tocantins está no projeto?
Presidente:
Está, está no projeto. É que o projeto é muito grande,
exige, envolve alguns anos para construir. Os dois
trechos principais que vamos fazer é o eixo leste e o
eixo oeste, parece-me que é o estado de Pernambuco e o
estado do Ceará. É uma obra que deve custar o
equivalente a dois bilhões. Nós queremos começar,
inaugurar o primeiro trecho, mais ou menos em junho de
2006, prioritariamente para se beber água. Obviamente
que, no meio, vamos ter alguns processos de irrigação em
alguma área. Isso nós vamos fazer.
Nós
fizemos todos os debates que poderíamos fazer. Primeiro,
foi o vice-presidente José Alencar, que viajou o Brasil
inteiro discutindo o projeto; depois eu passei para a
mão do ministro Ciro Gomes, que já andou por onde
deveria andar, já fez várias reuniões com o Comitê de
Bacias, tentando aparar todas as divergências possíveis.
E nós vamos fazer porque é um bem para o Brasil.
Eu
não sei como é que pode alguém, que não passou sede, me
parece como os nossos amigos “Coelhos”, seja contra a
gente levar um caneco d’água para um nordestino que está
passando sede, que às vezes tem que andar seis léguas
com um pote na cabeça para trazer uma água barrenta,
depois da vaca beber, depois da cabra beber, depois de
defecar dentro da água. Essa pessoa leva a água para
beber em casa. Eu não sei como é que uma pessoa, como o
Coelho, pode ser contra isso. Eu te confesso que eu acho
que é até uma questão humanitária, você garantir que o
povo nordestino, que tem outros problemas, mas não de
água para beber, pelo menos.
Presidente:
(inaudível)
Presidente:
Não precisamos fazer muita coisa. Você perguntou do São
Francisco, nós vamos começar, no ano que vem, a
101-Nordeste, que vai ser transformada na rodovia do
turismo, porque acho que a partir dela muita coisa vai
acontecer no Nordeste. Você viu que eu anunciei que nós
vamos levar uma extensão da Universidade Rural de
Pernambuco para Garanhuns, porque Garanhuns representa
um pólo de 38 cidades, com mais de um milhão de
habitantes, e a Universidade Rural está todinha em
Recife. Já há concordância, o ministro Tarso Genro
deverá ir a Garanhuns por esses dias. Já há a
reivindicação de levar um braço da Federal até Caruaru,
que é uma reivindicação histórica, ou seja, é tentar
interiorizar um pouco as nossas universidades.
Então, eu acho que nós estamos fazendo aquilo que o
Nordeste precisa que seja feito. Nós estamos muito
adiantados na discussão da Trans-nordestina. Estamos
procurando ver se temos parceiros ou não na hora que for
aprovado o PPP no Senado, para ver se a gente começa a
construir também a Transnordestina. Eu estou muito
otimista sobre a infra-estrutura, sobretudo, para o
Nordeste brasileiro.
Luís
Fara Monteiro:
Você está acompanhando pelo rádio e pela TV a entrevista
coletiva com o presidente Lula, direto do Palácio do
Planalto. São 8h 57min. Pergunta do Joseval Peixoto,
comentarista do Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan de
São Paulo.
Bom
dia, Joseval.
Joseval Peixoto – Rádio Jovem Pan:
Bom dia. Bom dia, presidente Lula. Em primeiro lugar,
como jornalista, eu quero enaltecer o seu governo, o seu
setor de comunicações por essa reunião. Nós estamos na
Semana do Rádio, eu entrei no rádio com 15 anos de
idade, tenho 50 anos de rádio. Mas quando eu entrei, lá
atrás, jamais sonhei que um dia estaria nesse que, me
parece, o maior estúdio do rádio brasileiro, em razão
dos comunicadores que aqui estão. Espero que isso se
repita, Presidente. O seu governo, parece-me que vai bem
sob o seu comando. A Jovem Pan lançou uma nova seção do
jornal, chamada “Fato Positivo”, porque o senhor sabe:
jornal é só desgraça, violência, corrupção, desemprego e
está sendo fácil apresentar o Fato Positivo no seu
governo. Mas ainda há um mistério e um susto na
sociedade que eu gostaria de saber do senhor: o que é o
MST. O que é, para o senhor, o MST? O senhor tem as
informações dos confrontos? O governo brasileiro, como é
que encara esse movimento que está, me parece, à margem
da legalidade, segundo as notícias? Ainda assusta? O
senhor tem notícias dos resultados desses assentamentos?
E, enfim, o que é a sua política agrária para o nosso
país?
Presidente:
Bom dia, Joseval. Primeiro, um comentário sobre o que
você falou: outro dia, eu disse aqui o seguinte:
notícia, muitas vezes, é aquilo que a gente não gostaria
que saísse e o resto é publicidade.
Agora
eu te confesso que muitas vezes, também, há exageros no
pessimismo. Muitas vezes, você se levanta de manhã e,
quando se depara com a notícia, você pensa que acabou o
Brasil. Aí você abre a janela e vê que o Brasil está “inteiraço”,
que está acreditando em si próprio, é só pegar todos os
dados para ver a que auto-estima do povo está à flor da
pele. As pessoas estão acreditando que as coisas vão
acontecer neste país e os números estão fazendo com que
o povo acredite.
Temos
problemas. Seria inadmissível que nós não
reconhecêssemos que nós temos problemas, que são
históricos, insolúveis em curto prazo, mas que têm
solução de médio prazo.
E a
questão da reforma agrária é uma questão que nós
tratamos com um carinho muito grande. Primeiro, porque é
uma questão de justiça social. Nós não estaremos fazendo
nenhum favor, até porque se nós pegarmos um mapa
geográfico brasileiro e analisarmos quais os estados que
têm uma política mais desenvolvida na agricultura, vamos
perceber que são as partes do Brasil dominadas pela
pequena e média propriedade que têm um crescimento mais
homogêneo. Ou seja, você não tem o rico e o miserável,
você tem todos vivendo uma vida média digna. É só ir a
uma parte do Rio Grande do Sul, a uma parte de Santa
Catarina, à serra gaúcha, para ver por exemplo, como é
que vive aquele povo no estado de Santa Catarina, uma
parte de São Paulo, uma parte do Paraná. Então, nós
estamos trabalhando um novo tipo de reforma agrária.
Você
está lembrado que desde o começo eu disse: nós não temos
que nos preocupar com a quantidade de assentados, se são
cinco milhões, dois milhões ou três milhões. Nós temos
que nos preocupar com a qualidade das coisas que nós
vamos fazer no Brasil. Eu entendo que um assentamento
correto é aquele em que você tenha, primeiro, as pessoas
assentadas; que as pessoas tenham as casas; que tenham a
possibilidade da educação e da saúde ali no local; que
você possa levar um pouco de lazer para aquelas pessoas;
e benefícios, como a melhoria da qualidade de vida,
facilitando a vida das pessoas. Você não precisa ter uma
casa a cada dez quilômetros; você pode ter um núcleo, e
que tenha em torno desse núcleo uma escola, uma creche,
um posto médico, uma área de lazer e que as pessoas
saiam para trabalhar como saem para trabalhar em
qualquer lugar do mundo, como em algumas cidades onde as
pessoas moram na cidade e trabalham no campo.
Segunda coisa, nós precisamos levar tecnologia. Nós não
podemos ficar com os assentamentos como se fossem a
parte feia da agricultura. Se você leva tecnologia e
assistência técnica, garante o crescimento da economia.
A
terceira coisa é que nós estamos fazendo o que jamais
foi feito neste país, e eu não sei se foi culpa de
alguém. O dado concreto é que não foi feito. Primeiro,
nós temos o maior financiamento do Pronaf da história
deste país. Segundo, mais importante do que a quantidade
de dinheiro que nós disponibilizamos, de 7 bilhões de
reais, é que o ano passado cresceu o número de contratos
em 83%. Significa que você não apenas anunciou, você
anunciou e abriu a torneira, destravou, porque o pequeno
não tinha sequer acesso.
No
Nordeste brasileiro, Joseval, se você pegar, eu posso
dar para todas as rádios do Nordeste a quantidade de
estados que, historicamente, não pegavam dinheiro do
Pronaf e agora estão pegando. Por quê? Porque a
orientação é que nenhum gerente do Banco do Brasil deixe
de emprestar o dinheiro à pessoa que tem direito.
Criamos uma coisa mais nova ainda, que é estender a
possibilidade à mulher do trabalhador que tomou
financiamento, para ela fazer uma plantação para que ela
possa tomar dinheiro emprestado em nome dela, um
financiamento, ou seja, para valorizar a mulher
trabalhadora rural brasileira.
Depois, foi lançado o chamado Seguro Agrícola. Antes,
como era? O trabalhador tomava o dinheiro no banco,
fazia o seguro, e se tivesse um intempérie, um vendaval,
qualquer coisa, ele perdia tudo e recebia 70% dos
prejuízos dele. O que nós estamos fazendo agora? O
cidadão recebe 100% dos prejuízos e, mais ainda, recebe
65% daquilo que era o resultado da sua colheita para que
ele possa recomeçar a sua vida. Ao invés de ficar
chorando, nós vamos garantir que ele receba 65% daquilo
que era previsto ele ganhar, para que ele toque a vida
dele. Essa é uma novidade excepcional que dá cobertura
total ao pequeno produtor.
Nós
fizemos, também, uma coisa extraordinária no ano passado
e neste ano melhorou, que foi a compra dos produtos dos
setores da agricultura familiar, sobretudo das regiões
mais pobres do Brasil. Eu fui lançar em Buique, em
Pernambuco, no ano passado, a compra do feijão do
pequeno agricultor. E foi uma coisa interessante porque
você não precisa nem comprar tudo. Na hora que vai
colher, o mercado puxa o preço para baixo e quebra o
produtor, porque ele não teve nem como retirar o que ele
gastou. O que nós fizemos? Nós entramos com a Conab
equalizando, nós entramos pagando o preço justo,
compramos tudo. Se o mercado quiser comprar ao preço
justo, paga e aí o governo sai.
Agora, acabamos de fazer em Rondônia uma coisa
fantástica, compramos 11 mil toneladas de feijão, porque
os atravessadores queriam oferecer entre 25 e 28 reais a
saca. A Conab entrou colocando 60 reais, que era o preço
justo, o mercado subiu para 50 reais e, quando chegou a
50 reais, o governo saiu porque o governo não precisa
ficar nisso. Nós temos que equalizar, temos que ser
justos nisso. Então, nós pensamos assim a questão da
agricultura. E nisso estão enquadrados todos os
movimentos, a CONTAG, o Movimento dos Sem-Terra estão de
acordo. De vez em quando tem radicalização, mas isso é
normal no meio dos Sem-Terra, no meio dos jornalistas,
no meio de tantos lugares. Há sempre os setores e
momentos de racionalidades, de radicalismo que nós temos
que, nesse momento de radicalismo, quem tem mais
responsabilidade...
Porque, Joseval, deixa-me contar uma coisa para você:
quem tem poder tem a obrigação de ter mais tranqüilidade
do que os outros; tem a obrigação de ter mais
responsabilidade que os outros. Então, eu como sou
Presidente da República, quando eu vejo um segmento da
sociedade mais nervoso, mais irritado, eu é que tenho
que tentar fazer o papel do companheiro mais velho. Você
está com 50 anos de rádio, então quem sabe o seu papel
de acalmar, de falar: olha, não é assim, assim eu já
quebrei a cara, vamos tentar fazer de outro jeito.
Então, eu estou tranqüilo. Eu acho que o movimento dos
Sem-Terra percebe claramente que as chances que eles tem
de nós termos uma boa política de reforma agrária e uma
boa política agrícola, pacífica, sem nenhum radicalismo
é agora. E trate de nos ajudar a fazer. E eles estão
dando a sua contribuição.
Luís
Fara Monteiro:
Nós
estamos transmitindo ao vivo para todo Brasil pelo rádio
e pela televisão a entrevista coletiva com o presidente
Lula. Vamos fazer um pequeno intervalo de três minutos e
voltamos a seguir. Até já.
Quem
pergunta, agora, é o jornalista Santino Soares,
apresentador do programa “Bom Dia Cidadão”, da Rádio
Liberal de Belém. Bom dia, Santino.
Jornalista Santino Soares:
Bom dia. Bom dia, presidente Lula.
Presidente:
Bom dia, Santino.
Jornalista Santino Soares:
Em nome da Rádio Liberal, quero agradecer a oportunidade
de conversar com o senhor, juntamente com as grandes
emissoras de rádio do Brasil.
Antes
da sua eleição, o senhor fez uma viagem, que eu acho que
foi uma viagem inspirada, pelo rio Amazonas, de Manaus a
Belém, conhecendo toda a região amazônica, beira de rio,
as cidades ribeirinhas do Amazonas. E isso deu a
oportunidade de o senhor conviver diretamente com o
homem amazônida e notar as necessidades do |