|
1. Quem é Eliane Potiguara?
Sempre
que alguém me pergunta quem eu sou, existe quase que uma
obrigatoriedade de você ter que responder a cerca de seus
títulos, seu estado civil, idade, o que você faz, o que fez, o
que pretende fazer, onde nasceu, quem são seus parentes? Eu hoje
tive vontade de falar de outra coisa. Eu sempre tive que
transpor obstáculos para sobreviver. Toda minha família
indígena, extremamente empobrecida, imigrou das terras
indígenas paraibanas para Pernambuco por ação na neo-colonização
do algodão por volta de 1922. Em pouco tempo, imigrou num navio
sub-humano para o Rio de Janeiro. Nasci ali, num gueto formado
por indígenas e judeus imigrantes da 2ª guerra Mundial que se
tornaram bananeiros, carvoeiros. Minha família morou
literalmente nas ruas, no Mangue na área de prostituição perto
da Central do Brasil, mas ninguém participou desse contexto. Eu
dormia num baú que um português deu a gente, por causa das
ratazanas que vinham morder meus pés. Nenhum parente meu ficou
na área indígena, por medo e vergonha! O falecido Sr. Marujo, um
índio muito velhinho e cego foi que se lembrou dessa história
quando lhe perguntei em 1979, na Paraíba. As quatro irmãs, um
irmão e mãe fugiram porque o pai delas havia desaparecido e elas
estavam sendo ameaçadas.Vovó já saiu grávida, vitimada com 12
anos!
Fiquei presa vários anos num quarto na minha infância e quando
via o sol desmaiava. O cômodo era sombrio, o banheiro
imensamente sujo, cheio de insetos e cheio de limo e fora da
casa. Todos os moradores dali utilizavam aquele fétido banheiro
público!Tudo era da pior qualidade. Eu tive anemia profunda e
tuberculose. Tive tumores no super-cílio e no mamilo, curados
com visgo de jaca, teia de aranha e minhoca amassada, mistura
essa aplicada por muitas e muitas vezes para a cura. Tenho esse
cheiro até hoje no meu olfato!
A única coisa diferente era a educação, a espiritualidade e o
amor que eu recebia de minha avó, mãe e tias indígenas. Elas me
cobriam de amor, afeto e me protegiam contra a sociedade, que as
discriminavam por serem diferentes. Por isso fiquei presa muitos
anos, naquele cômodo escuro. Aprendi a escrever ali mesmo. Foi
ali que me tornei escritora com 7 anos, escrevendo as cartas que
vovó analfabeta ditava pra mim. Eram histórias de muita dor,
saudade, abandono, discriminação racial, social, intolerâncias.
Ela me chamou de Potiguara, porque ela conhecia a cura pelas
ervas, ensinadas pelos seus pais. Hoje meu nome de escritora é
Eliane Potiguara, reforçado pelas lideranças indígenas que
participaram na luta do movimento indígena nesses últimos 30
anos.
Quando fui à escola não entendia porque riam de mim e de vovó
que todos os dias vendia bananas na porta da escola! Ali comecei
a me sentir diferente das crianças e adultos. Minha avó bebia e
eu chorava muito porque não conseguia entender nada do que a
professora ensinava e porque vovó bebia e se embalava no fumo de
rolo. Minha escola era outra!Anos mais tarde, pisei tapetes
vermelhos na Europa e pisei na lama encharcada de sangue-sugas
literalmente e na vida! Mas sou a mesma pessoa que vovó criou. A
pobreza batia à nossa porta e minha família não conseguiu ficar
comigo quando fiz 8 anos. Fui para a Funabem, foi um choque, eu
me perdi no tempo e no espaço, mas fiquei muito pouquinho tempo,
porque logo minha família banhada em lágrimas me retirou de lá,
quando me encontrou imunda, cheia de piolhos, chatos e fedendo
como carniça e em pele e osso, roupa rasgada, descalça, quase
morrendo de anemia. Eu sou Eliane Potiguara, uma mulher que
muitos pajés disseram que ando com a força da ancestralidade e
da espiritualidade à minha frente e que de minha boca, palavras
ecoam abrindo caminhos, despertando consciências. Isso me foi
dito, não são minhas palavras. Nunca havia falado isso até hoje,
pois eu achava que se falasse, parecia pretensão de minha parte.
Mas nos meus 54 anos de idade, mãe e avó, está na hora de falar.
2. Você está lançando
seu segundo livro "Metade Cara, Metade Máscara" de quais
assuntos trata nesta obra? Qual é o objetivo da obra?
O
livro fala de amor, relações humanas, paz, identidade, histórias
de vida, mulher, ancestralidade e família. É uma mensagem para o
mundo, na medida em que descreve valores abafados pelo poder
dominante e, quando resgatados, submergem o self
selvagem, a força espiritual, a intuição, o grande espírito, o
ancestral, o velho, a velha, o mais profundo sentimento de
reencontro de cada um consigo mesmo, reacendendo e fortalecendo
o eu interior, contra uma auto-estima imposta pelo consumismo,
imediatismo e exclusão social e racial ao longo dos séculos.
O texto discorre sobre a luta do movimento indígena nacional/
internacional, da imigração indígena por violência à sua cultura
e conseqüências. O papel fundamental da mulher indígena no
contexto cultural e sua contribuição na sociedade brasileira é
um expoente. Poeticamente, conta as dores das mulheres e seus
desejos mais íntimos.
Links
sobre direitos indígenas como propriedade intelectual,
conhecimentos tradicionais, meio ambiente, terra e território,
biodiversidade, espiritualidade, contribuição da ética e
cosmovisão indígenas para um novo homem/mulher são destacados
neste livro em forma de histórias, cânticos, sussurros e gritos.
Essa criação vai mexer com seu imaginário e fazer você viajar
nas profundezas da mente em prol de mudanças concretas.
3. Há outra obra em
processo?
Sim, pretendo aprofundar mais o tema sobre a construção do
"pensamento indígena brasileiro", para contribuir com a
construção da auto-determinação do povo indígena nacional que há
5 séculos está entrelaçado nas amarras do paternalismo oficial,
religioso, institucional. Tudo isso pra mim é uma forma de
discriminação contra a capacidade da gestão indígena. O código
civil dizia que os indígenas eram incapazes. Isso acabou na
teoria, mas na prática é uma realidade, por isso a importância
da educação diferenciada para o crescimento dos povos indígenas
e o estabelecimento da Universidade Indígena, num futuro
breve! Continuo estudando muito para elaborar novas abordagens.
Na juventude me formei professora com os esforços das vendas de
bananas que vovó fazia. Muito importante também é me reportar ao
discurso oral de minha família analfabeta. Tudo que sou devo à
minha família indígena, mesmo fora das terras tradicionais. Por
outro lado, a inspiração, os sonhos que determinam a minha
criação literária, a minha espiritualidade e fortalecimento de
minha ancestralidade, me direcionam para uma nova obra, se
nossos guias espirituais e o Grande espírito permitirem.
4. Ser mulher, ser
índia. Qual o desafio desta dupla identidade?
Fortalecer essas identidades para mim foi muito difícil,
principalmente porque a maioria das pessoas de minha família
eram mulheres. Eu digo eram, porque minha família era muito
pequenininha, hoje só tenho uma tia, já doente.Todos faleceram,
inclusive mamãe, "a sacerdotiza das águas". Imaginem querer ser
mulher num contexto altamente discriminatório social e racial e
de gênero e etnia!!!! Mas a força das mulheres da minha família,
que também andavam com a velha guerreira à sua frente, e que
possuía o poder da palavra transformadora que motivava mentes,
tudo isso construiu para a mulher que sou. Eu tenho um texto
chamado PELE DE FOCA, inspirado na escritora Clarissa Pinkola
que é um desabafo sobre ser Mulher, na sociedade que impõe
valores adversos. O texto está no meu site pessoal
http://www.elianepotiguara.org.br
.
Ser mulher índia, para mim é um orgulho, pois devemos sempre
assumir nossa etnia e não nos envergonharmos, como queriam os
colonizadores. Nunca fomos vergonha nacional para os jesuítas e
ideologicamente nunca fomos objeto de cama e mesa para os
capitães-de-índios, apesar de muitas mulheres terem suas vidas
ceifadas por eles. A colonização é longa, mesmo nos tempos
atuais. Desde as idéias abertas, libertárias
e transformadoras do filósofo Sócrates, que viveu 399 anos
antes de Cristo até hoje, não conseguimos mudar o ranço do
poder pátreo e implantar a verdadeira democracia, a verdadeira
paz através do diálogo,compreensão e tolerâncias. Fala-se muito
na construção da ética, da paz, da igualdade social, racial e de
gênero. Mas muita coisa fica na teoria quando esbarra no poder,
no capital, isso todo mundo está cansado de saber.
Falo no meu livro "Metade Cara, Metade Máscara", da dualidade
intrínseca no ser humano que enfrenta a todo momento o predador
natural de sua psique: o "self selvagem", o lado intuitivo, o
libertador e o "ego", o ser humano egoísta, que constrói "a mais
valia", o lucro fácil, o "passar por cima do outro",
desrespeitando a verdadeira ética humana. E o papel da mulher
indígena na construção de um novo homem/nova mulher na sociedade
brasileira precisa ser uma realidade a ser reconhecido e
assimilado. As mulheres indígenas vem beijando as feridas do
mundo para essa construção.
Motivada pela sabedoria de vovó, há 28 anos atrás visitei pela
primeira vez várias etnias indígenas, isso motivou a criação do
Grumin/Grupo Mulher -Educação Indígena que trabalhava para o empowerment
da mulher indígena através de projetos de capacitação e geração
de rendas. Não existiam Ongs. Isso contribuiu para a elevação da
sua auto-estima contra o sistema opressor. Hoje o Grumin é a
Rede de Comunicação Indígena.
Há muito tempo tenho dito em meus textos: "Mulheres indígenas,
construam suas organizações mesmo dentro de suas casas. O meu
trabalho até hoje nunca foi construir o materialismo e sim a
filosofia para a construção de uma qualidade de vida digna para
Povos Indígenas, por isso políticas públicas do governo são
altamente positivas para essa dignidade, além da demarcação das
terras, reconhecimento do território ancestral que define a
cosmovisão indígena.
Construir as identidades mulher e indígena é condição "se ne qua
non" para construção de outras identidades como escritora,
juíza, professora,esposa, mãe, etc... o que muitas mulheres
indígenas estão à busca hoje.
5. Em que estágio
encontra-se a luta dos povos indígenas no Brasil?
Ao meu ver, a luta dos povos indígenas brasileiros esteve muito
atrasada em relação à luta indígena dos povos Norte-Meso
Americanos. Basta ver que o Fórum Permanente para Povos
Indígenas criado na Onu, conquista nossa (ali também estive e
outros indígenas brasileiros!) não possui um representante
indígena brasileiro, ainda, enquanto todas as cadeiras estão
representadas por sua regiões e indígenas ali estão
sentados. Porquê será que o indígena do Brasil não está ali?
Tudo inicialmente começou com os jesuítas e donatários das
capitanias hereditárias, apesar da Bula papal de 1337, de Urbano
da Espanha , que já proibia a escravidão indígena desde aquela
época. Em 1566, Mem de Sá cria o cargo capitão-do-índio, em
1759. Francisco Xavier, irmão do Marquês de Pombal, cria os
diretor-do-índio, em face da " brutalidade natural e manifesta
ignorância indígena" (quanto racismo!). Em 1910, é criado o SPI
(Serviço de Proteção do Índio). Esse serviço pertenceu
inicialmente ao Ministério do Trabalho (claro, os índios eram
mão de obra escrava!), Indústria e Comércio. Em 1934 pertenceu
ao Ministério da Guerra e depois da Agricultura, nesse processo
e encima dessas ideologias, foram criados os cargos de Chefe de
Posto Indígena. O cacique foi criado nesta perspectiva
também. Em plena ditadura militar, 1965, foi criada a Funai que
esteve na maior parte do tempo nas mãos de militares. Essa
política sempre foi a mesma: a tutela, a paternalização, mesmo
no governo atual e com as atuais demarcações de terras indígenas
já vitoriosas pelo nosso Presidente Lula da Silva. Há de se
fazer essa leitura, por favor!!! Onde estavam os pajés, as
pajés, os guerreiros autênticos, as mulheres guerreiras, os
velhos, as velhas???? Abafados pelo poder!
Se o governo atual pensar nesse caminhar histórico, chegará a
conclusão que alguma coisa está errada!
Políticas públicas, cotas para povos indígenas, reconhecimento
histórico da cosmologia e territorialidade indígenas,
fortalecimento dos líderes de base, fortalecimento das
organizações indígenas, fortalecimento das candidaturas
indígenas, inserção de povos indígenas em todos os programas de
governo, fortalecimento das estratégias para a Educação, saúde e
desenvolvimento indígenas diferenciados, etc...etc...etc....
são caminhos concretos para a verdadeira construção da dignidade
dos povos indígenas e o fortalecimento da luta indígena no
Brasil. Indígenas não podem mais passar o pires, indígenas não
podem mais aceitar paternalismos, indígenas estão paulatinamente
construindo a política indígena brasileira, começou com a
vitória na Constituição de 1988. Agora o novo Estatuto do índio
precisa ser uma realidade. Tudo faz parte de processo histórico
e certamente a vitória chegará, apesar do atraso que considerei
no início do parágrafo.
Como tenho falado, indígenas precisam ser vistos como as
primeiras nações desse extenso Brasil, respeitados e nunca
vistos empunhando bordunas e fazendo Marchas para a constituição
de seus Direitos Humanos. A verdadeira imagem indígena e
intrínseca é de paz, de amor, de equilíbrio com a natureza,
patrimônios éticos relativos aos conhecimentos tradicionais
indígenas. |