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Revista Partes - Ano V - dezembro de 2004 - nº52 

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 Colunistas - Adilson Luiz Gonçalves

É Meu!
Por Adilson Luiz Gonçalves

Tem gente, que tudo o que consegue na vida é porque herdou ou alguém indicou, facilitou ou pagou. Deveriam agradecer a Deus, embora, às vezes, essas facilidades os obriguem a acender velas para outras "divindades" e beijar mãos nem sempre limpas; mas, em vez disso, querem mais... mais... e mais!

"- O que é meu é meu, mas eu também quero o teu!" - Essa deve ser a mensagem subliminar que transita em seus cérebros... Mas além dessa, também existem as da neurolingüística do oportunismo e da conveniência, tais como: "Eu tenho porque mereço!"; "Eu estou onde estou porque sou competente!"; "Quem pode, pode!"; "Eu sou esperto e inteligente!"...  que nunca ocorre a principal: "- Onde eu estaria por meus próprios pés?"; ou seja, sofrem de uma carência crônica de auto-crítica e humildade

Para piorar, muitos precisam do apoio de quem tem méritos - mas não tem as mesmas facilidades - para ajudar a reforçar seus pés de barro; mas nem sempre isso implica em valorização ou reconhecimento de terceiros. Pelo contrário! Não raro, acreditam que estão prestando um favor, em vez de recebendo... Chega a ser hilário vê-los desprezar o trabalho dos outros, em nome de um único detalhe ou de uma vírgula, que conseguiram identificar por mero acaso. Não saberiam fazer nada sozinhos, mas seu "retoque" lhes garante o "sabor da superioridade triunfante"! Assim, são implacáveis para julgar, mas incondicionalmente auto-indulgentes na hora de relevarem suas deficiências. É como se o mais importante do bolo fosse a cereja... O fato é que, na hora da verdade, sua "competência" quase sempre tem que ser "avalizada" por um parente ou padrinho influente...

Ora, num jogo honesto não pode haver cartas marcadas ou na manga! Curiosamente, quem vive de "facilidades" é quem mais duvida de processos honestos, o que gera uma forma um tanto distorcida de encarar a vida. Segundo elaquando alguém consegue algo por mérito, em condições de igualdade, eles estranham, desconfiam, esperneiam e exigem igualdade, não de obrigações, mas de "direitos"! Nessa hora - e nessa hora - passam a ser defensores incontestes da igualdade entre seres humanos e paladinos da "justiça". 

"- O que você tem que eu não tenho?" - É a pergunta emblemática. que não estão dispostos a ouvir a resposta, e nem ao menos usar de suas faculdades mentais para chegar a uma conclusão sincera e racional. Preferem criar um constrangimento para o interlocutor, caso este resolva enumerar suas qualidades naturais e adquiridas: - "- Metido!"; ou confirmar sua fantasia, lhe dando uma "razão" piedosa, caso ele evite cair no ardil. No íntimo, entretanto, continuam a acreditar que uma disputa é justa quando eles vencem, não importa o recurso utilizado para tanto.

Não basta terem seus caminhos facilitados... Precisam acreditar que isto não fez a menor diferença! Que chegariam ao mesmo lugar sozinhos! Será?

Numa sociedade injusta é certo que as oportunidades são desiguais. É assim, aliás, que as classes dominantes se mantêm, qualquer que seja o regime de governo. Nela, as raríssimas oportunidades em que o mérito predomina, ocorrem por distração, desinteresse ou falta de subterfúgios.

Quem vive dos benefícios dessa "regra" está habituado a não ter escrúpulos... Pois que tenha, ao menos, um mínimo de respeito ao próximo, e aprenda a conter sua ganância!

        

SEQÜESTRO: MEDO E AGONIA
Por Adilson Luiz Gonçalves

 

Façamos uma pequena série de exercícios sobre o limiar desespero, abordando parentes próximos e amados:

Exercício 1: Doença grave.

A vida está ameaçada, mas você pode estar ao lado do ente querido, prestando seu amor e carinho. As preces podem ser conjuntas e é possível confortar com palavras e gestos. O tratamento pode ser caro e doloroso, mas você fará tudo o que for possível para curar ou, ao menos, minimizar o sofrimento. O que importa é poder estar ao lado! O desespero é o grande mal a ser combatido, mas a proximidade anima essa jornada, e a fé compartilhada é um santo remédio.

Exercício 2: Acidente.

Houve um terrível acidente! As conseqüências ainda não estão claras e a busca de sobreviventes ainda não terminou. Você fica impotente perante os fatos, surpreendido pelo imponderável. O dinheiro nada pode fazer, pois não há dinheiro que altere o destino. Mais uma vez você se apega a Deus e a todo o fio de esperança!

Exercício 3: Assassinato.

As forças se esvaem ou os instintos primários explodem. Estupefação, choque, desejo de vingança e prostração são algumas das reações previsíveis, perante um fato que não tem explicação plausível e que transtorna vidas, desequilibra famílias e nenhum dinheiro pode reverter.

Uma doença ou um acidente grave ainda guardam expectativas de reversão de quadro, mas existe uma agonia que precisa ser controlada. No caso da doença, a vida tem tempo de ser reestruturada. No caso do acidente e do assassinato é muito mais difícil. A diferença é que um acidente não envolve, em princípio, um dolo. Já o assassinato é uma das manifestações mais torpes de um ser humano! Tirar uma vida, por qualquer que seja o motivo, é um ato antinatural. Mesmo ameaçar a vida, para obter algo que não é seu - sexo, dinheiro e poder - já é um ato de selvageria inaceitável, de quem não merece viver em sociedade. A crueldade não está, apenas, no ato físico; mas no imenso dano psicológico, às vezes irrecuperável, proporcionado às vítimas.

Exercício 4: Seqüestro.

Relâmpago ou não, suas conseqüências têm as dimensões de uma imensa e prolongada tempestade. A agonia é prolongada; a crueldade é administrada em doses progressivas; o silêncio é veículo de desespero; e o medo e a incerteza matam e envelhecem a cada minuto. A separação forçada e violenta dos entes queridos já é uma primeira morte!

A negociação é de uma desumanidade terrível, pois transforma a vida em mercadoria. Pago o resgate e libertado o refém, ainda assim o efeito não termina, pois a agonia prossegue, principalmente quando a vítima não é rica nem famosa. A sociedade é capaz de esquecer os criminosos, mas não perdoa as vítimas, que terão que reconstruir suas vidas por sua própria conta, ou sucumbir perante dívidas e efeitos psicológicos decorrentes do crime.

O Caso Lindbergh (seqüestro, seguido de morte, do filho do pioneiro na travessia aérea do Oceano Atlântico), nos EUA dos anos 1930, gerou uma lei homônima que passou a punir com a morte esse tipo de crime. No extremo oposto, a "Síndrome de Estocolmo" sintetizou, na década de 1970, a seqüela da gratidão ao criminoso pela sobrevivência! De fato, o refém flerta com a insanidade a todo o instante; daí, o seqüestro também pode destruir vidas, mesmo sem eliminá-las.

Não precisamos chegar ao extremo de resgatar a Lei de Talião ("Olho por olho; dente por dente!"); mas autores desse e de outros tipos de crime - sobretudo os claramente premeditados e por motivo vil - não merecem permanecer livres, pois já demonstraram não ter respeito pela vida humana. Apesar disso, ainda encontramos mais pessoas dispostas a defender os direitos legais e humanos de criminosos, do que cuidando de suas vítimas. Absurdo dos absurdos, as vítimas, indiretamente, pagam essa conta!

Já está mais do que não hora de adotar medidas punitivas, de forte viés inibidor, para esse e outros crimes. Além disso, o Estado, responsável pela segurança civil, também deve assumir a preservação da vítima, e não apenas a detenção e reclusão do criminoso. Se as leis não são suficientes para garantir a segurança do indivíduo, também não podem ser indulgentes com quem ameaça a sociedade! E mesmo que a punição não iniba novos crimes, que ao menos o criminoso saiba que sofrerá suas conseqüências em plenitude, sem atenuantes. Afinal, quem deve viver com medo é o criminoso e não a sociedade!

O fato é que, enquanto as leis e a justiça não colocarem, definitivamente, o valor da vida acima do dinheiro, nada impedirá que criminosos e seus defensores inescrupulosos continuem a investir, valorizar e tirar proveito desse "mercado" perverso e hediondo!


 


Adilson Luiz Gonçalves

Engenheiro
, Professor Universitário e Articulista
algbr@ig.com.br 

 




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