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Revista Partes - Ano V - dezembro de 2004 - nº52 

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O dever de educar segundo a lei 9.394/96
Por Vicente Martins

      tela de Julie MehretuEm se tratando do dever do Estado e da Família com educação, à luz da Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (LDB), promulgada em 1996, sob a égide de um Estado Neoliberal, há uma alteração na hierarquia desses agentes, conforme podemos deduzir do seguinte excerto:

A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (art 2º, LDB)

No artigo 205, da Constituição Federal, o primeiro agente responsável pela educação é o Estado ou o Poder. Em seguida, a família.  Na Lei 9.394/96, conforme podemos ler no excerto acima, essa posição é invertida: primeiro vem a família, depois o Estado. Quem mudou? O Estado. Em 1988, estávamos sob a égide do Estado Liberal. Em 1996, estávamos sob a égide do Estado Neoliberal.

O artigo 205 é auto-aplicável, mas seu acolhimento na legislação federal efetiva de forma bem clara a compreensão de que o Congresso fez da educação no contexto de um Estado Neoliberal: uma instância de formação escolar.

A educação, diz a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais (Caput, artigo 1º, LDB ou Lei 9.394/96).

Acrescentam-se ao Artigo 1º dois parágrafos: esta Lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente, por meio do ensino, em instituições próprias (§ 1º) e a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e a prática social (§ 2º).  

 

NOÇO PORTUGUÊZ RUIM

Por Vicente Martins

Os professores não tomam os erros ou desvios ortográficos dos seus alunos como ponto de partida para um trabalho de orientação pedagógica em direção à escrita escorreita e ideal, referenciada pelas instituições de ensino, principalmente na produção, revisão e avaliação das redações escolares. Para o trabalho com a língua escrita, a máxima latina errare humanum est deve ser princípio de ensino.

Os erros ou desvios (aos olhos dos lingüistas) podem ser, no processo de alfabetização ou de desenvolvimento de linguagem, hipóteses importantes para que as crianças ou jovens , no decorrer da formação escolar, consigam ultrapassar as barreiras da língua e possam se comunicar, principalmente por escrito, como as instituições requerem da sociedade letrada.

A escrita ortográfica depende muito da memória. Por que não explorar mais a memória de trabalho dos educandos? Em geral, as crianças demoram um pouco a estocar todo um conjunto de traços das letras do alfabeto, sobretudo quando minúsculas. Caberia um esforço dos pedagogos em propor e desenvolver uma didática que favoreça a assimilação das formas ortográficas da língua culta.

Um detalhe a considerar: o traçado das letras, a despeito do nosso automatismo, não é tão fácil. Vejamos, por exemplo, letras, quando minúsculas, como p, b, d, q, que trazem os mesmos traços (segmento da reta, semicírculo) , mas são simétricas, com alterações na rotação, direção, sentido, enfim. Olhemos para elas e chegaremos à conclusão de que são tão misteriosamente simétricas e que, por isso mesmo, induzem os alunos à escrita espelhada.

A supressão de algumas letras ou de seus traços grafêmicos, observada nos textos escolares, pode traduzir também a omissão que as crianças (e alguns de nós adultos,  e  eu diria,  muitos de nós professores) fazemos na produção da fala. Conscientes ou não. Se a supressão ocorre na fala, também devemos trabalhar a articulação dos fonemas da língua. Se a omissão das letras ocorre apenas na escrita, um caderno de caligrafia pode em muito ajudar a esse processo de automatismo (como os antigos foram e são, de forma inspirativa, sábios em se tratando de desenvolvimento da linguagem!). Aprender pela repetição, como ensinaram os antigos, ajuda muito no processo de automação das formas ortográficas.

Levamos para a escrita muitas neutralizações da fala, tipo assim: para a forma verbal "vamos", a gente normalmente diz "vamo", apagando o "s", morfema, no final da palavra. Quando a supressão é d sílaba inteira (mas observemos o ambiente fonológico da ocorrência, se no início, no meio ou no fim da palavra), nos assustamos um pouco, mas cabe à criança fazer suas próprias descobertas e, com certeza, logo mais fará a correção lingüística no ensino fundamental, em particular, a  partir da 1ª série, esta,  uma série que deve cumprir a função de alfabetização e letramento escolar.

Os docentes devem encarar a  ortografia como parte da educação lingüística que se desenvolve na escola. É compreensível, todavia,que nós, ansiosos, desejemos, tão logo, o aprendizado, por parte dos alunos, da escrita ortográfica do Português,  por vezes, eqüívocas, já  que muitas letras do alfabeto representam um só som da fala (fonema) e vice-versa. É preciso que os professores e os pais tenham paciência no desenvolvimento da língua escrita dos educandos.

 Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral.


Vicente Martins
é professor da Universidade Estadual Vale do Acara´(UVA), de Sobral, Ceará
vicente.martins@uol.com.br

 




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