Resumo:
O
pós-modernismo ou a contemporaneidade caracteriza-se
pela utilização da força da imagem na construção de
novas identidades e no reforço do consumismo no novo
estágio do capitalismo. Neste estudo verificamos esta
presença através do estudo de dois autores,
Jean Baudrillard e Fredric Jameson.
Palavras Chaves
imagens; pós-modernidade, contemporaneidade.
1.
A
discussão da pós modernidade
"Na tela, não se coloca o problema da profundidade,
não existe o outro lado, enquanto há um além do
espelho. Isso não significa que tudo o que aparece
como arte tenha a ver com isso; felizmente existem
exceções.
" (Baudrillard,
2003:151)
Vivemos na era da predominância das imagens. Um fato
só é verdadeiro quando constituído por imagem. O real
é a imagem e suas reproduções.
O
presente estudo discute os posicionamentos de dois
autores: Jean Baudrillard e Fredric Jameson, que assim
como Lyotard e Harvey têm marcado a discussão da pós
modernidade.
O
termo pós-moderno foi usado por escritores nos anos
50/60 e muito utilizado na década de 70 com suas
inevitáveis controvérsias.
A
intenção do estudo é levantar de forma sucinta a
posição dos dois autores quanto ao tratamento que
estes dão à força da imagem na sociedade, entendendo a
sociedade atual como a sociedade do espetáculo
preconizado por Guy Debord.
2. As imagens baudrillardianas
Apesar de Baudrillard, teórico francês nascido em
Reins, 1929, realizar uma pesada crítica à sociedade
de consumo, o pensador não se identifica como niilista
ou pessimista? O pessimista Baudrillard, para seus
críticos, vê a imagem uma estratégia: "Qualquer imagem
verdadeira, qualquer fotografia verdadeira, são
válidos apenas como exceção e, sob esses prismas são
singulares." (Baudrillard: 2003. 15). O conceito de
pós-modernidade para Baudrillard não existe que não o
uso em suas análises: "A noção de pós-modernidade não
passa de uma forma irresponsável de abordagem
pseudocientífica dos fenômenos. Trata-se de um sistema
de interpretações a partir de uma palavra com crédito
ilimitado, que pode ser aplicada a qualquer coisa.
Seria piada chamá-la de conceito teórico". 3
Para Baudrillard quanto todos os indivíduos se
convertem em autores ocorre o fim da representação, o
fim do expectador: a sua morte. Esquizofrenia social.
Para Baudrillard o que predomina é a linguagem da
propaganda 4, da sedução, do poder do convencimento da
TV: o poder das imagens em movimento, a identidade se
desfaz, se desintegra com o excesso de imagens na
sociedade. "um universo que existe
cada
vez
mais informação e cada vez menos sentido". Com a
implosão dos sujeitos a sociedade chegará ao
esgotamento?
O
sistema social em que vivemos tem a capacidade de
integrar em si mesmo a sua própria negação, através
dos produtos do espetáculo. Tudo é absorvido pelo
sistema. Tudo é incorporado aos objetos industriais e
mostrado de forma fascinante pelo mundo do espetáculo.
Baudrillard lança seu pensamento, suas críticas, suas
reflexões em pequenos textos, comunicações, Frases
curtas e aforismos.
"Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de
fragmentos, não de textos unificados por uma lógica
rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais
importante que o discurso linear. Para simplificar,
examino a vida que acontece no momento, como um
fotógrafo. Aliás, sou um fotógrafo." 5
A
característica de escrever fragmentariamente o
pensador francês retoma dos clássicos autores da
teoria crítica como Walter Benjamin e Adorno. Dessa
forma, o autor pode escrever sobre diversas coisas
tais como: a sedução, o real e o virtual, o valor, o
mercado e até sobre a impossibilidade de uma palavra
final (o fim) etc.
Baudrillard acredita que a verdade foi substituída por
simulacros e que a partir daí perdemos o sentido das
coisas. Baudrillard retoma o conceito simulacro dos
filósofos gregos e leva este conceito para o de uma
imagem que inventa a realidade. O pensador francês
fala em simulacro como uma hipótese. Fala também em
universos paralelos: "Na imagem, existe um universo
paralelo, uma dimensão faltante para cuja conservação
deveriam ser envidados esforços e, portanto,
arrancá-la a todo universo do visual atual, à
enxurrada de imagem."
Para Baudrillard a imagem tem fases sucessivas, assim
classificadas: "reflexo de uma realidade profunda;
mascara e deforma uma realidade profunda; mascara a
ausência de realidade profunda; não tem relação com
qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro
puro." (Baudrillard, 1991: 13).
Para Baudrillard tudo é simulacro: a arte simulacro da
arte, a política simulacro da política.
É o
predomínio do fingimento, do mascaramento e da
simulação. O enterro do social.
"Quanto o real já não é o que era, a nostalgia assume
todo o seu sentido." (Baudrillard, 1991: 14).
3. Jameson e pós-modernismo
"os bens de consumo são também "esteticamente"
consumidos" (Jameson, 2001:
138)
O
americano Fredric Jameson, professor de crítica
literária, entende o pós-modernismo como a terceira
fase do capitalismo, tal como apresentado pelo
economista belga Ernest MandeI (o capitalismo tardio
se expressa-se através das imagens
(fragmentárias, desconexas, simulacros) que
dominam na sociedade capitalista no estágio da
globalização.
O
indivíduo, para Jameson, perde sua identidade e
toma-se impessoal. A pós-modernidade contém
características progressistas e reacionárias. A
expressão cultural está amarrada aos aspectos mercado
lógicos: a cultura como mercadoria: "nos pensamos
enquanto mercadoria". Tudo provocado pelas mudanças
fundamentais no cenário econômico mundial após a
Segunda Guerra Mundial e seus efeitos nas relações de
trabalho e no processo de globalização. As
transformações econômicas impuseram grandes
transformações sociais.
Para Jameson a mesmice toma conta da sociedade, uma
sociedade sem antagonismos, onde reina o Um absoluto,
o reino da cultura.
Jameson estuda a arquitetura e através da crítica da
arquitetura mapeia as características estéticas da
pós-modernidade.
A
sociedade pós-moderna para Jameson é marcada pela
falta de profundidade, pelo excesso de
superficialidade, segundo o próprio autor "talvez a
mais importante característica formal de todos os
pós-modernismos" (Jameson, 1996: 35). A imagem é
esmaecida no pós modernismo, a profundidade
substituída pela superficialidade. O afeto que se
encerra...
Jameson vê a natureza como mercadoria. Uma natureza
que se transforma em produtos descartáveis. O autor
americano critica a lógica econômica e o fim da
historicidade.
Para Jameson a "dissolução da esfera autônoma da
cultura deve ser antes pensada em termos de uma
explosão: uma prodigiosa expansão da cultura por todo
o domínio do social, até o ponto em que tudo em nossa
vida social- do valor econômico e do poder do estado
às práticas e à própria estrutura da psique - pode ser
considerado como cultural, em um sentido original que
não foi, até agora, teorizado." (Jameson, 1996: 74)
"A
produção de bens de consumo é agora um fenômeno
cultural: compra-se o produto tanto por sua imagem
quanto por sua identidade imediata. Passou a existir
uma indústria voltada especificamente para criar
imagens para bens de consumo e estratégias para a sua
venda: a propaganda tomou-se uma mediadora essencial
entre a cultura e a economia, e certamente pode ser
incluída entre as inúmeras formas de produção estética
(por mais que sua existência complique nossos
conceitos de produção cultural)". (Jameson, 2001
:138).
4.
F.
Jameson e J. Baudrillard: um espelho não vê
o outro
'As imagens que se destacam de cada aspecto da vida
fundem-se num fluxo comum, no
qual
a unidade dessa vida já não pode ser
restabelecida. A realidade considerada parcialmente
apresenta-se
em
sua própria unidade geral como um pseudônimo à
parte, objeto
de
mera contemplação. A espetacularização das imagens no
mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no
qual
o
mentiroso mentiu para si mesmo." (Guy Debord in: A
sociedade do espetáculo. P.13)
Tanto para Jameson, que entende a imagem como forma
final da reificação da mercadoria, como para
Baudrillard ("a imagem que nos pensa" "onde tudo é
imagem, deixa de haver imagem") compreender a força da
imagem é fundamental para compreender a sociedade
pós-moderna (no caso, Jameson) ou contemporânea
(Baudrillard).
O
americano Jameson e francês Baudrillard (mesmo este
com uma certa reticência bebem em Guy Debord, filósofo
francês morto em dezembro de 1994 e que influenciou o
movimento de 68 na Europa:
"Há
muito tempo Guy Debord já havia nos descrito como uma
sociedade de imagens consumidas esteticamente". (Jameson,
2001: 139). Baudrillard cita Debord em várias
passagens da sua entrevista a François L'Yvonnet.
(Baudrillard, 2003).
Tanto em Jameson, quanto em Baudrillard o social está
sendo determinado pelo cultural, mas é mais
preponderantemente em Jameson quando o americano
concorda com transformação da cultura em uma
verdadeira segunda natureza.
"O
mundo presente e ausente que o espetáculo faz ver é o
mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. E o
mundo da mercadoria é assim mostrado como ele é, pois
seu movimento é idêntico ao afastamento dos homens
entre si e em relação a tudo que produzem." (Debord,
1997: 28).
É
significativo notar que os dois autores estudados
recorrem também com freqüência ao livro Mitologias,
de Roland Barthes, assim como utilizando conceitos
do estruturalista francês.
5.O
niilista e o utópico
Percebe-se um Jean Baudrillard, crítico da
contemporaneidade, um tanto confuso,preocupado em não
assumir esta ou aquela corrente teórica, ora navegando
pelas águas do marxismo (o estrutural-marxismo), ora
negando-o e, de certa maneira um tom de ironia em suas
palavras. Parece que em certo sentido o pensador
francês ignora conceitos como estado, classe,
poder etc. Parece "não estar nem aí", pois como ele
mesmo afirma: "o mundo é que nos pensa, é o objeto que
nos pensa. '
Fredric Jameson, crítico do pós-modernismo,
apresenta-se em seu texto teoricamente mais seguro,
mais dialético, apostando numa reformulação marxista
da realidade tendo como premissa a concepção
histórica. Jameson utiliza os conceitos da psicanálise
(principalmente Lacan), do existencialismo e da
semiótica. O pensador americano, portador de uma
herança estruturalista é também um utópico, na medida
em que acredita numa luz no fim do túnel.
Bibliografia Básica
BAUDRILLARD, Jean. De um fragmento ao Outro. São
Paulo: Zouk, 2003.
.
Senhas. Rio de Janeiro: Difel, 2001
.
Simulacros e Simulação. Lisboa: ed. Relógio D"água,
1991.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.
JAMESON. Fredric. Globalização e estratégia
política.ln Contracorrente: o melhor da New Left
Review em 2000, Emir Sader (org). Rio de Janeiro:
Record, 2001.
Notas
11.
F. Lyotard com o livro A Condição Pós-Moderna e David
Harvey com o livro também intitulado A condição
pós-moderna.
2 "Nietzsche é, portanto, o autor sob cuja sombra tenho
evoluído, mas sem o ter desejado, nem mesmo
verdadeiramente o saber." Palavras de Jean Baudrillard
na entrevista dada a François L'Yvonnet. No livro De
um fragmento ao outro. Editora Zouk. 2003
3 Em
entrevista concedida à revista Época, n° 264.
4
Importante notar no recente livro Publicidade: é
possível escapar? (São Paulo: editora Paulus, 2003)
de Cláudio Novaes Pinto Coelho a seguinte passagem: "No
contexto social contemporâneo a publicidade é, cada vez
mais, um elemento que articula, que estabelece vínculos,
entre outros elementos; idéias religiosas, políticas,
científicas e mesmo as crenças populares são divulgadas
mediante a utilização da publicidade. Isto não
significa, conforme argumenta o sociólogo francês Jean
Baudrillard no livro Simulacros e Simulação, que
a publicidade transformou-se na única linguagem da
sociedade capitalista, absorvendo as outras linguagens,
mas sim, que a publicidade transformou-se no principal
elemento da visão de mundo (ideologia) da classe
dominante, a burguesia. A publicidade é um componente
essencial da hegemonia burguesa."
5 Em
entrevista concedida à revista Época, n° 264
6
Esta periodização fica evidente e assumida pelo próprio
Jameson na página 61 de A Lógica. Cultural do
Capitalismo.
7
"Pode-se admirar a linguagem de Debord, mas está sendo
transformada em objeto estético, o que não era, mesmo
assim, o caso. Palavras de Baudrillard na entrevista
citada acima (p. 30)". |