Tom Hanks, em Náufrago, sozinho em uma ilha deserta,
luta contra as forças da natureza e contra a sua própria
solidão. Seus sofridos dias são amenizados com a
presença de um novo amigo – Wilson – uma bola de vôlei
que se torna seu fiel escudeiro.
No mesmo filme, em uma das cenas que mais me marcaram, o
personagem vivido (ou melhor, sobrevivido) por Hanks vê
seu amigo de couro cair no mar e tem que escolher entre
segui-lo para a morte ou continuar vivo...e sozinho.
Por que a decisão para ele foi tão difícil, se para nós
pareceu tão fácil?
Porque o único mundo que ele conhecera nos últimos
quatro anos era o que ele e Wilson dividiam.
Separar-nos de algo que nos parece certo e irmos em
direção a qualquer outra situação nos é psiquicamente
bem custoso, ainda mais quando não sabemos para onde
seguir. Para Hanks, não existia um mundo sem Wilson, até
aquele momento.
Iniciei falando sobre Tom Hanks, mas esse artigo não é
sobre ele. É sobre um mundo sem Wilson.
Considere alguns dados:
A distância entre países ricos e países pobres se
transforma dia a dia na distância dos países muito ricos
e países miseráveis.
No Brasil, nos últimos 10 anos, foram vendidas quase 700
empresas lucrativas para o capital transnacional, dentre
estas, umas 40 estatais.
A educação está se reduzindo a preparar indivíduos para
o mercado de trabalho, em detrimento da produção de
conhecimento.
O FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do
Comércio e o McDonalds estão mais presentes nas nossas
vidas do que “bife com batatas fritas”.
Os quatro parágrafos acima me revelam uma só verdade: o
sistema atual, no qual a sociedade capitalista está
estruturada, fracassou.
O maior problema talvez não seja esse, e sim que a
maioria da população mundial não sabe exatamente o que
está errado. Uns dizem que é a educação, outros, a má
distribuição de renda. Ainda há os que colocam a culpa
na violência ou na propaganda.
Se existe algum culpado, é o sistema de sociedade que
criamos, endeusamos e acreditamos ser o único viável – o
neoliberalismo.
O pensamento neoliberal, que se fortalece no início da
década de 80 no mundo, e, em 89 no Brasil, é o sistema
da exclusão, da competitividade, da “taxa natural de
desemprego”. Esse é o jogo para o qual nos preparamos.
Futurólogos e gurus do mercado nos dizem o que fazer
para sermos bem-sucedidos: MBA, inglês, informática, uma
boa faculdade, experiência no exterior, etc, etc, etc.
A cada ano as exigências aumentam e as garantias
diminuem. Deve haver algo errado.
Contra fatos não há argumentos. O desemprego está
galopante, a crise cada dia se faz mais evidente e
quando a coisa fica realmente preta, o que fazemos?
Compramos livros de auto-ajuda e nos apegamos às nossas
esquecidas crenças.
Isso porque sabemos, contra crença, não há fatos.
Deve existir uma saída. Um desenvolvimento sustentável.
Eu também não a conheço direito e não sei qual o caminho
para chegarmos lá. Só conheço o mundo com Wilson. Um
mundo sem ele me parece impossível.
Para descobrirmos alternativas temos que enfrentar a dor
da separação e navegarmos para outras terras, fora das
nossas limitadas consciências, irmos um pouco além das
sombras e sairmos da caverna, que acreditamos ser a
única.
Alguns caminhos são apontados por alguns aqui e outros
acolá. Poucos e preocupados visionários vagando em uma
terra de cegos.
A responsabilidade social é um desses caminhos e o único
através do qual entrevejo um novo mundo.
Não estou falando da preocupada responsabilidade social
expressa pelo Banco Mundial em frase homérica: “As
pessoas pobres precisam ser ajudadas, senão ficarão
zangadas”.
Falo da real preocupação com vidas humanas, sem a
necessidade de premiações ou aplausos. Não falo somente
da burocrática responsabilidade social das empresas, a
“caridade ISO 21000”, mas aquela que deveria partir de
cada um de nós. A responsabilidade social com a escola
de nosso bairro, com o nosso vizinho, com um menino de
rua, com nossos próprios entes queridos.
Você pode chamar isso de “responsabilidade social
pessoal”, se assim o quiser, mas lembre-se de
Shakespeare quando imortalizou nas falas de Romeu e
Julieta a frase “Aquilo que chamamos rosa, com outro
nome seria igualmente doce”.
Dêem o nome que quiserem, criem a ISO que for, mas a
ação não necessita de burocracia ou de prêmios.
Invertendo Guimarães Rosa “O capinar é sozinho, mas a
colheita é comum” – a ação começa no indivíduo.
Precisamos realmente fazer algo pelo próximo.
Precisamos jogar fora nossos “Wilsons” e fazer uma
escolha pela vida. Talvez, só assim, consigamos
vislumbrar um novo modelo de sociedade sustentável.
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