Em
abril e maio de 2004, a discussão sobre o salário mínimo
se transformou em uma verdadeira loteria
de
números lançados pelo Governo Federal. Inicialmente, ele
afirmava que qualquer elevação de seu valor
para além dos R$ 256,00 exigiria um gasto de adicional
para cada Real correspondente a R$ 100 milhões.
Isto é, que um salário mínimo de R$ 260,00 acarretaria
um rombo no orçamento público de R$ 400 milhões.
Naquele momento, alertava-se que o Governo Federal
escamoteava de suas contas o impacto positivo
de
novo valor do salário mínimo sobre as receitas da
Previdência Social e sobre os demais tributos e
contribuições públicas. Também, era ressaltado que os
efeitos sobre o volume de gasto com um aumento mais
expressivo do salário mínimo
era significativamente menor que aqueles provocados por
pontos decimais da taxa de juros monitorada pelo Banco
Central.
Enfim, os bilhões de Reais de gasto adicional induzido
por aumentos da taxa de juros não somente eram e
são considerados sem risco para economia e para a
sociedade, enquanto que os milhões exigidos por um
salário mínimo mais expressivo teriam um poder
semelhante à uma bomba atômica sobre as contas públicas,
mesmo que minorassem o grau de miséria da população
brasileira e ajudassem um pouco na recuperação
da
economia real do país.
Apesar dos claros sinais de catástrofe alardeados pelos
economistas ancorados no Ministério da Fazenda,
assumidos pelos demais setores do Governo Federal e
devidamente veiculados pela grande imprensa escrita e
falada do país, o ano de 2004 foi muito mais tranqüilo,
mesmo que o salário mínimo tenha provocado um gasto
adicional segundo as contas da época do Governo Federal
de R$ 400 milhões adicionais.
Aprovado o valor de R$ 260,00, o Governo não teve maior
cuidado em acompanhar seu impacto nas contas públicas. Jamais
veio a público para esclarecer as razões da ausência do
suposto rombo nas contas da Previdência Social
nos meses subseqüentes ao aumento de seu valor.
Neste final de 2004, o governo federal decidiu abrir um
pouco o saco de bondades em favor da população que
trabalha,
anunciando um salário mínimo de R$ 300,00 para 1º de
maio de 2005 e a criação de uma comissão orientada
para a elaboração de uma política específica para sua
valorização.
Uai, que baita irresponsabilidade! Afinal, levando-se em
conta o valor de R$ 283,00 encontrado no orçamento
de
2005, o rombo orçamentário para um salário mínimo de
300,00 será de R$ 1,8 bilhão, corrigido pela inflação
de
maio de 2004 a maio de 2005, aproximadamente.
Quem serão agora os irresponsáveis? Como ficam as
restrições orçamentárias a um salário mínimo maior?
Desapareceram como passe de mágica frente um crescimento
de 4,5% para este ano? Os que defendiam
um
salário mínimo maior em maio deste ano estavam com a
razão? Ou será que os irresponsáveis foram
aqueles que decidiram a ferro e fogo o valor de R$
260,00?
Infelizmente, o governo federal não está interessado em
responder a estas perguntas. O tempo político fala
mais alto e ele percebe a impossibilidade de não adotar
uma posição mais agressiva em relação ao salário
mínimo em 2005. Era sua última chance política. De nada
valeria um reajuste mais expressivo em 2006.
Era preciso capitalizar politicamente o aumento do
mínimo e retirá-lo das mãos dos críticos da política
econômica atual. Não importa a consistência política em
relação à cantilena que o governo federal em coro
reproduziu ao longo destes últimos 2 anos. Bem como não
cabem desculpas àqueles que o governo federal
chamou de irresponsáveis, por defenderem uma política de
valorização para o salário mínimo no início deste ano.
E
nem reconhecimento em relação as contribuição para a
formulação desta política, que ele galhardamente
desconsiderou ou atacou em março e abril e que se
apropria neste momento. Faz parte do baú de ossos a
esperança de alguma coerência na política atual, a qual
sem dúvida merece ser escrita com p minúsculo.
Mesmo assim, merece apoio a decisão tomada pelo Governo
Federal de elevação do salário mínimo para R$ 300,00 e a
criação de uma comissão para elaborar uma política
orientada para sua valorização. Também, cabe reconhecer
que,
mesmo sendo parte de uma jogada política, o anúncio
antecipado de seu valor para 1º de maio foi correta,
bem como a manutenção desta data. Olhemos melhor estas
questões, começando por esta última.
Mesmo considerando importante a antecipação da data
anual de reajuste do salário mínimo, ela colocaria
em
risco a política de sua valorização. Anunciar seu
reajuste para 1º de janeiro 20 dias antes impede qualquer
possibilidade de definição de estratégia por parte
daqueles que são afetados pela decisão.
Analisemos um pouco melhor a questão.
Em
janeiro, as prefeituras e estados estão com seus caixas
no nível mais baixo. O IPTU, o ISSQN e o IPVA
são cobrados a partir do final de janeiro. Somente a
partir de fevereiro estes tributos começam a recompor
o
caixa público. Além disso, as diversas esferas de
governo conhecem, em janeiro, um volume elevado de
férias,
exigindo o desembolso do adicional de 1/3 do salário.
Quanto às empresas, o mês é caracterizado por
uma queda da atividade econômica, atingindo sua receita
corrente. Também, são afetadas por um volume
ponderável de férias e pelos desembolsos
correspondentes. E em relação às famílias, estas têm nos
meses de janeiro e fevereiro uma certa concentração dos
pagamentos dos tributos anuais. A antecipação
da
data poderia gerar uma reação negativa da opinião
pública.
A
definição antecipada de seu valor para 1º de maio tem a
função de informar os segmentos econômicos
e
sociais atingidos e permitir que estes se planejem em
relação aos seus impactos sobre o nível de
gastos que realizam. Neste sentido, ela é bem vinda e
deve ser adotada como um instrumento de uma
política de valorização do salário mínimo de longo
prazo.
A
formação de uma comissão é o aspecto mais importante da
iniciativa recente do governo federal.
Em
ensaio publicado no Jornal da Unicamp (n. 250, 3 a 9 de
maio de 2004), procurei mostrar que a
recuperação do salário mínimo depende de uma política
médio-longo prazo. Naquela oportunidade,
sugeri que ele tivesse garantido um aumento básico igual
ao observado para o Produto Interno Bruto e que uma
Comissão Tripartite propusesse anualmente ao governo um
aumento adicional que
considerasse as condições econômicas e políticas
prevalecentes.
Esta estratégia teria a capacidade de remover as
restrições econômicas que impedem a cada ano que se eleve
o salário mínimo adequadamente, bem como orientaria os
governos, a economia e a sociedade
sobre o comportamento futuro do salário mínimo.
O
governo federal foi adotando ao longo do ano esta
perspectiva. Em primeiro lugar, mesmo que de modo
tímido, vinculou o salário mínimo ao PIB per capita.
Agora, definiu um valor mais elevado, justificando-a nas
condições econômicas favoráveis para 2005, e sinalizou a
criação de uma comissão quadripartite.
A
decisão terá impactos imediatos e favoráveis para a
economia em 2005. O aumento poderá significar
uma injeção de recursos da ordem de R$ 80 bilhões, uma
elevação da massa de rendimentos de até 3 salários mínimos
de 36% para 37% na massa total de rendimentos do
trabalho, responder por 1 ponto porcentual
do
crescimento do PIB no próximo ano e ajudar no
deslocamento do eixo de crescimento do PIB das
exportações para o mercado interno.
Ao
contrário de 2004, marcado pela estagnação dos setores
econômicos voltados para o mercado interno,
como alimentação e vestuário, e da renda, poderá se
observar em 2005 uma elevação da renda no país,
orientada pela elevação do mínimo, com efeitos
dinamizadores no mercado interno. Este movimento
dependerá
também da recuperação dos gastos do setor público, á
sinalizados pelo governo federal, da manutenção
da
atual taxa de investimentos e da redução da taxa de
juros.
Mesmo que se considere a decisão recente sobre o salário
mínimo como imposta pelo esgotamento do
tempo político deste governo, ela sinaliza alguma
mudança de estratégia em relação ao crescimento para
2005.
Cabe esperar, portanto, que, na ausência de uma maior
democracia, o saco de bondades continue aberto para as
demais questões determinantes de um crescimento
econômico mais virtuoso a partir de 2005.
Cláudio Salvadori Dedecca é professor do Instituto de
Economia da Unicamp.