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O debate em torno da
violência nos estádios brasileiros começou exatamente no
dia 23 de janeiro de 1992 durante uma disputa do mais
tradicional torneio de futebol de juniores do País: a
Copa São Paulo. As equipes do São Paulo F.C e do E.C.
Corinthians Paulista disputavam uma vaga na final da
competição.
O
acanhado estádio Nicolau Alayon, localizado na Zona
oeste da capital paulista era o palco da partida, estava
lotado, o jogo era equilibrado e muito disputado; um
autêntico clássico paulista, a partida foi para
prorrogação, o São Paulo foi mais eficiente e marca o
gol que lhe garantiria na final da competição. Alguns
minutos depois, um estrondo assusta todo o abarrotado
estádio.Um torcedor cai na arquibancada, abre-se um
espaço vazio na torcida uniformizada Gaviões da Fiel.
Era possível ver um torcedor caído, que leva as mãos ao
rosto. Depois, o País descobriria que aquele torcedor
corintiano se chamava Rodrigo de Gáspari, e havia sido
atingido no rosto por uma bomba de fabricação caseira.
Poucos dias depois, o Brasil acompanharia com enorme
tristeza a morte de Gáspari no hospital das Clínicas. O
garoto não resistiu aos ferimentos; tinha penas 13 anos
de idade.
Muito
pouca se descobriu sobre os autores do atentado.E a
escalada de violência nos estádios Brasileiros continuou
a partir da morte de Gáspari. Houve a batalha do
Pacaembu em 1995, entre torcedores são-paulinos e
palmeirenses, uma verdadeira” batalha campal”, onde
torcedores enfurecidos se agrediram com “paus e pedras”,
onde acabou com mais uma morte,o garoto Márcio Gasparim
de 16 anos, morto a pauladas e com a destruição do
interior do estádio Paulo Machado de Carvalho. Como não
se bastasse estas mortes em maio deste ano, mais uma
tragédia aconteceu, o torcedor do Corinthians Marcos
Gabriel Cardoso Soares de 16 anos foi morto em mais uma
guerra de torcidas organizadas, Marcos foi espancado por
palmeirenses, na estação Barra Funda do metrô.Marcos não
pertencia a nenhuma torcida organizada, ia para o
estádio sem a camisa de seu clube, mas estava com alguns
corinthianos, quando se deparou com milhares de
palmeirenses onde houve o confronto e foi espancado. Foi
levado para pronto socorro e liberado, no dia seguinte,
mas passou mal e foi levado ao Hospital, não resistiu e
morreu por causa de um traumatismo craniano. Até agora
ninguém foi responsabilizado pelo assassinato do garoto.
O
ministro dos esportes Agnelo Queiroz, disse em um
seminário sobre segurança pública em Brasília, que o
controle da violência nos estádios de futebol é uma
questão que deve envolver toda a sociedade.
O
estádio de futebol é um espaço democrático do esporte e
deve ser preservado e fala também sobre o estatuto do
torcedor, que fixam medidas para coibir a violência e a
punição para torcedores que participarem de atos
ilícitos.
Outra
pessoa importante ligada a coibição da violência nos
estádios de futebol, é o inglês John de Quidt, que é
secretário executivo da Football Lisensing Authryt (FLA),
órgão responsável pela reestruturação dos estádios
ingleses, considerado um dos maiores especialistas no
assunto. Quidt irá expor a autoridades brasileiras sua
experiência no combate a violência na Inglaterra que
será de suma importância esta troca de informações entre
os dois Países.
Quando
se começou a investigar sobre violência nos estádios de
futebol de São Paulo, em 1994 o promotor de Justiça
Fernando Capez se surpreendeu:15% dos integrantes de
torcidas organizadas tinham antecedentes criminais. Só a
mancha – verde, do Palmeiras, com 21 mil
associados,havia cerca de 3.150 marginais infiltrados,
disfarçados de torcedores.
Capez
é um dos sete promotores que integra o grupo designado
pela procuradoria Geral da Justiça do Estado São Paulo
para enfrentar a violência nos estádios de futebol. O
Ministério Público descobriu que muita gente ligada ao
tráfico de drogas, roubo e latrocínio eram integrantes
de torcidas organizadas.
Segundo a socióloga Heloísa Helena Baldy dos Reis,
professora e pesquisadora da Universidade de Campinas
(SP) e Doutora em Direito de segurança social, na
Espanha, pesquisa sobre o assunto a dez anos, sob o
enfoque das relações entre o futebol e torcedor.
Heloísa identificou que a agressividade do torcedor
aumenta à medida que ele começa a perder identidades. ”O
jovem com problemas familiares, excluído da escola de um
sistema de atendimento público de qualidade
identifica-se com outros excluídos,que encontram nas
torcidas organizadas um interlocutor para extravasar os
seus anseios.”
Para
Heloísa Helena, a Espanha é o País que melhor implantou
o tratado contra a violência, do conselho da Europa, de
1985. Para isso, o governo Espanhol criou a coordenação
de segurança de alto escalão da Polícia Nacional.
Nesse
processo, os clubes fizeram sua parte. Por exemplo,
vendem até 95% dos ingressos antes do início dos
campeonatos, graças a um rigoroso calendário. Assim
eliminam os cambistas e guardam a identificação dos
torcedores, facilitando encontrá-los em caso de
tumultos, pois os assentos são numerados e um circuito
interno de tv controla o comportamento do público.
Na
avaliação da pesquisadora, o futebol é uma atividade de
domínio privado, mas de interesse público. Por isso, a
questão da segurança deve ser tratada com
responsabilidade do poder público.
As tragédias no mundo
causadas por assassinos e vândalos que se infiltram no
futebol:
Março de 1946:
33 mortos durante um
jogo entre Golton Wanderes e
Wolverhampton, pela
Copa da Inglaterra.
Maio de 1964:
300 mortos no jogo entre Peru e Argentina, no estádio
Nacional de Lima.
Junho de 1968:
No
clássico Boca Jrs. e River Plate, em Buenos
Aires, morreram 73 torcedores, após
sinais de incêndio numa arquibancada.
Outubro de 1962:
Morrem
60 pessoas no jogo Spartak e Haarlem em Moscou.
Abril de 1985:
Juventus e Liverpool disputam o título europeu de clubes
no estádio de Heysel, em Bruxelas. Os Hooligans
transformam a paixão em fúria:38 mortos.
Maio de 1985:
52 mortos em incêndio nas arquibancadas
de madeira do estádio de Bradford, na Inglaterra.
Junho de 1988:
O
palmeirense Cléo Sostenes é a primeira vítima da briga
de torcida no Brasil.Ele é assassinado com dois tiros.
Maio de 1989:
Em
Sheffield, na Inglaterra, morrem 95 pessoas antes do
início de Liverpool e Nottingham Forest, vítimas de
estádio super lotado.
Janeiro de 1992:
Morre o primeiro torcedor dentro de um estádio de
futebol, Rodrigo de Gáspari de 13 anos,atingido por uma
bomba de fabricação caseira,no jogo São Paulo e
Corinthians, pela taça São Paulo de Juniores.
Agosto de 1995:
Torcedores da Mancha – verde e Independente se agridem
num jogo entre Palmeiras e São Paulo. Márcio Gasparím,
morre após ser espancado a pauladas.
Maio de 2004:
Morre
torcedor corinthiano de 16 anos, Marcos Gabriel em
confronto com palmeirenses na estação Barra Funda do
metrô.
Entrevista com torcedor
ligado a torcida organizada:
Fernando Ferreira,
integrante da Gaviões da Fiel:
Eduardo:
Você já se envolveu em
brigas de torcidas?
Fernando:
Alguns tumultos sempre
acontecem, mas não procuro briga às vezes somos
obrigados a brigar para nos defender.
Eduardo:
O que você acha das
mortes que vem acontecendo ao longo dos anos?
Fernando:
Claro que não é legal,
mas quem está nesse meio está sujeito a isto mesmo.
Eduardo:
Então quem vai para um
estádio assistir um jogo de futebol está sabendo que
pode não voltar para casa?
Fernando:
é.
Eduardo:
E você acha isso normal?
Fernando:
Normal não é ,
mas..... fazer o quê?
Eduardo:
Você levaria seu filho
a um estádio de futebol?
Fernando:
Não tenho filhos.
Eduardo
: E se tivesse?
Fernando:
se não existe.
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