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Revista Partes - Ano V - janeiro de 2005 - nº 53 

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A ONDA DO TSUNAMI NÃO AFUNDARÁ AO TURISMO MUNDIAL

Destino Brasil após tsunami
Uma semana depois do maremoto na Ásia, as agências de viagem européias voltam os olhos para a América Latina, principalmente para o Brasil e Caribe, embora muitos turistas também aceitem viajar para as nações atingidas pela tragédia, apenas evitando as áreas devastadas. “Preparamos ativamente o Brasil. Para os que não desejam ir tão longe, há as Ilhas Canárias”, disse um porta-voz da operadora finlandesa Finnmatkat. A sueca Ving oferece Egito, Tunísia ou Gâmbia, enquanto a concorrente Fritidsresor, muito afetada pela catástrofe asiática, para onde levou muitos dos turistas que estão desaparecidos, propõe as ilhas espanholas.

Para os alemães e italianos, o Caribe é a alternativa. Já para os portugueses, é o Brasil, enquanto os tchecos se interessam pelos dois destinos e os espanhóis continuam preferindo Argentina e México. A médio prazo, o Brasil e as Canárias são os destinos melhor localizados para absorver uma parte importante dos turistas europeus que desistiram de ir para a Ásia, segundo o professor sueco de geografia humana Bengt Sahlberg. Mas muitos turistas europeus continuam preferindo o sol e as paradisíacas praias asiáticas.

Várias operadoras anunciaram segunda-feira que irão manter os pacotes já comprados para aquela região, embora tenham modificado os roteiros e locais de hospedagem. “Algumas pessoas cancelaram suas reservas, mas a maioria mudou de destino, por exemplo, da costa oeste para a costa leste da Tailândia, que não foi afetada”, constatou a Jumbo, maior
operadora da Áustria. Autor: Panorama Brasil Data: 05/01/05

A ONDA DO TSUNAMI NÃO AFUNDARÁ AO TURISMO MUNDIAL 

Sete razões pelas quais o desastre de 26 de dezembro não terá mais do que um impacto reduzido sobre o turismo mundial. 

O número de vitimas causadas pelo excepcional desastre natural se qualificou como o mais elevado da história, tanto entre a população local como entre os visitantes dos lugares afetados.

 

Uma reflexão imediata leva a pensar qual é o impacto desta catástrofe no turismo mundial, fonte de atividade econômica e de enriquecimento cultural nos países afetados pelo tsunami e na maior parte dos países do mundo. A resposta a esta importante questão é que seu efeito deverá ser muito limitado referindo-se ao turismo mundial, pelas razões a seguir:

 

  1. A fatia de mercado que destinos afetados representam: os cinco destinos mais afetados Índia, Indonésia, Maldivas, Tailândia e Sri Lanka - ainda que estão mostrando um dinamismo muito importante em seu desenvolvimento turístico e estão tendo muito sucesso como destinos turísticos, registrarão em 2004 um aumento de mercado de 3% do total de chegadas no turismo mundial.

 

  1. O crescimento atual do turismo na Ásia e no Pacífico: está é a região do mundo que mais cresceu durante o ano de 2004, tanto em termos econômicos, como turísticos. O sudeste asiático registrou no ano de 2004 um crescimento superior ao do resto dos países da região. O ano de 2004 está marcado por uma vigorosa recuperação depois das duras quedas de crescimento que impôs o SARS e a instabilidade econômica do ano 2003.

 

O ano passado foi testemunha de uma grande aceleração econômica, especialmente refletida nos resultados econômicos de numerosos países asiáticos, especialmente entre os mais importantes geradores de turismo. Segundo as estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2004 o PIB da Austrália cresceu 3,6% , o do Japão 4,4%, da Índia 6,4%, da República de Coréia 8,8% e o da China 9%. Isto potencializou todo tipo de turismo, em especial o turismo inter-regional, que significa 79% do turismo total na região asiática, incentivado com o incremento de visitantes chineses a países reconhecidos como destino turístico autorizado.

 

Estamos fazendo menção a uma pequena estrutura do turismo na Ásia do Sul e do Sudeste que não vai mudar apesar da magnitude do desastre que o pôs a prova.

 

  1. A caracterização das áreas danificadas: ainda que constantemente nos referimos aos países afetados, desde uma óptica estritamente turística, devemos observar que a catástrofe humanitária e as perdas materiais causadas pelo tsunami afetaram apenas a alguns destinos turísticos costeiros, e em alguns países, e em alguns casos de forma limitada. O país que mais se viu danificado pelo maremoto foi à Indonésia, a região norte de Sumatra, mas sem afetar destinos turísticos como Bali, Java ou Lombok.

 

Na Índia se registrou o maior impacto na costa leste, ainda não muito desenvolvida turisticamente enquanto se mantinha a pleno funcionamento turístico destinos como Goa. Na Tailândia é verdade que áreas turísticas como Phuket e sua área de influência próxima e algumas outras na costa leste do país sofreram a destruição das águas, ainda se pôde manter ativa uma parte notável do equipamento turístico ou já em recuperação. Destinos como Bangkok, Pataya ou Chiangmai, estão plenamente em funcionamento. Nas Ilhas Maldivas dois terços dos 85 centros turísticos estão funcionando ou estarão em curto prazo de tempo. No caso do Sri Lanka sua costa leste tem um desenvolvimento limitado da atividade turística, os centros da costa sul foram danificados, mas não o da costa oeste nem os valiosos destinos de caráter cultural operativos em áreas mais para o interior do país como Sigiriya ou Kandy.

 

Em conjunto espera-se que o volume do turismo afetado realmente nos cinco países antes mencionados seja inferior a um 1% do total mundial de chegadas. Isto abre esperança de que haja uma rápida recuperação destes destinos, sendo necessário abrir um caminho de cooperação e de contribuição do turismo diante os enormes danos que o maremoto causou à população local.

 

  1. A capacidade de recuperação de Ásia diante de catástrofes de todo tipo: a crise econômica e financeira sofrida por alguns países asiáticos, em especial a Indonésia e a Tailândia, refletiu-se negativamente em 1% em 1997 e 0,5% em 1998 em toda Ásia. Superada a crise, o turismo internacional, impulsionado pelo inter-regional, cresceu em 1999 cerca de 11% (frente aos 3,5% registrados como média mundial) e em 2000 contou com 12%. O surgimento do SARS impôs um golpe importante a muitos destinos e a região fechou o ano com 8,8% a menos de chegadas pelo turismo internacional em relação a 2002. Os dados hoje disponíveis mostram que tendo em conta os números da alta temporada, isto é até o mês de agosto 2004, a Ásia cresceu 37%, o Sudeste asiático 45% e a Ásia Meridional 23%. A média mundial encontra-se em 12% para o mesmo período.

 

  1. Os fenômenos de compensação que operam na dinâmica dos fluxos turísticos: estes fenômenos de compensação têm um duplo sentido: geográfico e temporário. Num curto prazo uma parte dos turistas que tinham decidido passar suas férias em destinos como os afetados, podem renunciar às férias planejadas até que se tenham reposto as condições do destino escolhido. Nesse caso a decisão usual não é renunciar às férias senão procurar destinos com condições similares. Os que não vão agora, regressarão algum tempo depois. Este fenômeno de compensação é o que explica que o turismo tem se mostrado tão resistente apesar das provas às que viu submetido desde 2001 (atentados de 11 de setembro). A tendência à flexibilidade e instabilidade do mercado vai amplificar este fenômeno de compensação. Essa flexibilidade do mercado se vê potencializada tanto pelo comportamento das empresas a cargo da distribuição como pelo crescente uso das novas tecnologias que geram uma grande transparência no mercado e na informação suficiente para selecionar destinos alternativos. Uma parte do fluxo turístico que agora não pode viajar ao Oceano Índico o fará ao Caribe possivelmente. Uma parte relevante do sucesso dos destinos asiáticos durante o ano passado se explica precisamente pelo número de turistas que renunciaram a seus planos de viagem durante 2003 pelas incertezas percebidas como possíveis nas viagens para alguns países asiáticos.

 

  1. O paradigma da segurança: a percepção que o turista está tendo do desastre vivido é de que se trata de um fenômeno excepcional e doloroso e ao mesmo tempo totalmente particular no Oceano Indico. Existe entre as autoridades e na indústria turística uma preocupação razoável por assegurar o restabelecimento dos destinos e estabelecimentos turísticos. Nessa tarefa as administrações públicas do turismo e iniciativa privada estão trabalhando conjuntamente, aplicando todo o conhecimento adquirido na gestão das situações de crises e dedicando os recursos disponíveis.

 

  1. A própria internacionalização do turismo: este fator que é parte da essência mesmo do turismo, neste caso está contribuindo com elementos chaves para a recuperação. Por uma parte a consciência solidária desenvolvida entre os turistas mais sensibilizados e conhecedores da qualidade dos produtos turísticos que oferecem estes países. Eles sabem que sua presença ali, dependentemente das circunstâncias requeridas, será uma maneira de expressar sua solidariedade com as populações atingidas além de uma boa opção para desfrutar de suas férias. Por outro lado, boa parte da indústria turística que opera na área mantém laços consolidados com empresas e operadores de outros países e regiões que estão contribuindo seus conhecimentos e o apoio necessário para encurtar os períodos de recuperação do produtivo mercado turístico. Eles querem operar o quanto antes no mercado para não causar o duplo dano, no que a população local poderia sofrer depois do tsunami, numa possível diminuição da presença de turistas nos destinos afetados.

 

Nessa mesma linha os governos deverão mostrar solidariedade internacional na reunião extraordinária do Conselho Executivo da OMT que se celebrará no primeiro dia de fevereiro na cidade de Phuket, na Tailândia, para avaliar as necessidades do setor turístico nos países afetados e tomar as medidas apropriadas. Na reunião serão convidadas outras organizações, doadoras e representantes da indústria turística.

 

Conclusão

 

Estamos na presença de uma catástrofe natural que causou um número de vitimas sem precedentes num longo período de tempo. Além dessa primeira dimensão humanitária, também para o turismo mundial supõe-se a maior catástrofe pelo número de turistas que perderam a vida ou sofreram as conseqüências do tão excepcional maremoto, bem como pelos danos ocorridos aos equipamentos turísticos.

 

O desastre vivido golpeou a população local e também muito forte o turismo. Não obstante, há uma grande distância também entre por um lado a percepção que se tem do fato, muito presente aos meios de comunicação, mostrando a globalização na que estamos instalados, e por outra, as conseqüências que se esperam para o desenvolvimento do turismo mundial. Ainda que agora se estejamos vivendo momentos duros pelos estragos causados em vidas e bens materiais, espera-se uma recuperação em curto prazo, que não terá uma incidência mais do que limitada durante o ano de 2005.

 

A experiência acumulada na OMT depois de ter analisado outras situações de crises, mostra que apesar das incalculáveis vidas humanas e do impacto que se pode derivar do desenvolvimento socioeconômico a este inesperado acontecimento, o turismo mundial seguirá sendo, também nos países afetados, uma força ao serviço da reconstrução das comunidades e da geração da riqueza que lhes assegure uma vida melhor. 

Madrid, 4 de janeiro de 2005. 

Tradução: www.turismologia.com.br 

Fonte original: www.world-tourism.org


  

          

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Ana Marina Godoy, é professora, editora de Turismo da Revista Partes, turismóloga e consultora em marketing turístico –anamarinagodoy@ig.com.br - 41  9156 8375



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