Aix-en-Provence é uma cidade do Sul
da França conhecida, entre outras coisas, pelas
universidades e museus que abriga. A conheci em 1986,
por conta de um convite para proferir uma palestra no
Rotary Club local, na qualidade de bolsista da Fundação
Rotária.
Antes da apresentação, um sócio,
com um sorriso mais que cordial, fez questão de
apresentar-se: ele havia morado no Brasil, por alguns
anos, no início da década de 1970. Falou, com emoção e
saudosismo, das lembranças que guardava e do prazer do
trabalho que havia desenvolvido aqui.
Curioso, entrei em detalhes e soube
que ele havia participado da equipe de consultoria da
“Poste”, empresa estatal de correios francesa, que havia
vindo ao Brasil para auxiliar na modernização do sistema
postal brasileiro.
“La Poste”, na França, sempre foi
sinônimo de confiabilidade, segurança e rapidez,
enquanto que, no Brasil, os serviços postais estavam,
tecnicamente, bastante defasados. Somente o carteiro era
poupado de críticas, tão conhecido e aguardado como o
padeiro e o leiteiro, que ainda circulavam pelas ruas.
“Faça chuva ou faça sol...”.
As mudanças, depois da reformulação
efetuada, tornaram a EBCT um modelo de eficiência e
credibilidade. Todas as pesquisas de opinião pública,
elaboradas a partir de então, sempre apontam os serviços
da empresa entre as três instituições mais confiáveis do
país. Eu mesmo havia comprovado sua qualidade, por conta
dos preparativos para a viagem de estudos e quase um ano
de permanência na França. Os prazos eram cumpridos e
regulares, as remessas chegavam incólumes.
Cumprimentei o experiente técnico
francês com sinceridade, confirmando a excelência do
resultado de seu trabalho. Ele ficou especialmente
agradecido quando incluí a parceria “La Poste” / EBCT em
meu discurso, como exemplo de relacionamentos de sucesso
entre o Brasil e a França.
Quanto retornei ao Brasil, meus
parentes contaram, que quando o carteiro avistava minha
mãe, na janela, já acenava para avisar: - Hoje tem carta
do filho! Era a presteza do sistema aliada ao romantismo
secular do portador de notícias. A “caixinha” daquele
fim de ano foi, merecidamente, “gorda”...
Mas esta não foi a última vez que o
Correio “mostrou serviço” para mim... No final de 1989
eu o usei como um escudo contra a minha timidez quando,
com medo de ouvir um não a um convite para sair, enviei
um cartão de fim de ano, apócrifo, para a “vítima”. No
texto - manuscrito -, além de desejar-lhe boas-festas,
sugeri que gostaria de sair com ela, mas só se
descobrisse quem eu era. A fórmula era simples: se ela
ligasse para mim e dissesse uma frase indicada, e eu
respondesse com outra - ambas sem maiores conseqüências
-, isso significaria um “sim” ao convite. Caso
contrário, eu não tocaria mais no assunto.
Convite semiplatônico... Timidez
quase patológica!
Para minha surpresa, no dia 31 de
dezembro o telefone de casa tocou... Minha irmã, em tom
malicioso, avisou que era uma ligação para mim...
Cheio de expectativa e meio
desnorteado, ouvi sua voz retribuir os votos, mas sem
dizer a frase-código! Só faltou o “seu tolinho” quando
ela disse que havia reconhecido minha caligrafia,
comparando com outros textos que havia lido, no
escritório.
Saímos a primeira, a segunda, a
terceira vez... Pois é... Coloquei a timidez num SEDEX e
despachei para a Cucamonga. Já meu coração... Entregue à
ela, em mãos! Esse ano vamos completar quinze anos de
casados!
Outro dia, enquanto conversávamos
sobre lembranças e planos, num dado momento ela parou e
olhou para mim por alguns instantes, silenciosa, com um
misto de carinho e reprovação. Eu já estava ficando
preocupado - parecia que ia levar uma palmada -, quando
ela pegou minha mão e me deu um beijo, para depois
dizer:
- Ah, se o Correio falhasse...
Ainda bem que não falhou! Valeu,
Sr. Carteiro!