.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - fevereiro de 2005 - nº 54 

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Argumentação e Poesia
Por Sandra Kezen



Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@fdc.

 

O que é um poeta? 

Segundo Antônio Silveira, o poeta é um construtor, fabricante artificial, um criador. Pode espelhar-se nas coisas da natureza, ou em acontecimento concreto. Quando não, criando a partir de uma idéia imaginária. Seu imaginário nasce de um ideal que todo ser humano busca. Para alguns, a POESIA é o único meio de se atingir o belo!

Otto Lara Resende, exímio conhecedor da alma humana, diz, em seu belo texto “Vista cansada”, tão simples e tão profundo como a vida, que o poeta é um certo modo de ver. Um poeta é só isso: um jeito de ver diferente. Nesse texto, ele propõe um olhar novo, de criança, curioso, que vê o não-visto, que atenta para os detalhes, que olha o mundo como se fosse a primeira vez. Uma criança consegue ver o novo, o diferente, o incomum, o que ninguém vê, porque procura, busca, investiga e aí descobre a poesia nas coisas. Como ele próprio, um grande poeta. Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo”, diz ele. É isso: o poeta vê o espetáculo da vida, que está à disposição de todos, mas que nem todos estão aptos para ver.

Já para o grande Fernando Pessoa, que escreveu muito - em prosa e em verso, em várias línguas - em português, em inglês e em francês, pois seu talento era tanto que tinha que ser expresso em mais de um idioma, o poeta é um fingidor. Vale a pena reler os versos de “Autopsicografia”:

                               
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Quem mais, se não um poeta, conseguiria escrever estes belíssimos versos? A sutileza de “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente” é tamanha que desconheço descrição mais perfeita para a sensibilidade poética.

 O que é a poesia?

A poesia é uma forma de libertação. Como disse um de nossos maiores poetas, o inesquecível Manuel Bandeira, em “Poética”, ao falar de poesia:

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare


— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

 

Não se pode dizer que seja uma expressão simples, fácil, o que a poesia procura é algo que de certa maneira ela não consegue expressar. A finalidade do poeta é escrever, mas escrever o que está além das palavras. A eterna luta do poeta é expressar o que não se pode expressar, é definir o indefinível, enfim, é viver e morrer tentando. A poesia é viver uma experiência única.

 

O poeta americano Robert Frost (1874-1963), que escreveu "The road not taken", define poesia como: "o que ficou para trás na tradução". Ou seja, quando houver dúvida sobre se um texto é ou não poesia, basta traduzir. O que passou pela tradução é prosa, o que não pôde (e não pode) ser traduzido é poesia.  Essa definição é perfeita: "Poesia é o que não pode ser traduzido". Professores, escritores, poetas, tradutores, enfim, profissionais que trabalham com diferentes idiomas, conhecem bem o significado dessa expressão.

 

Já para o poeta inglês William Wordsworth, “a poesia é o "extravasar espontâneo de poderosos sentimentos" (prefácio à segunda edição de Lyrical Ballads, 1800).

 

Faço agora uma modestíssima contribuição com o soneto “Poesia”:

 

Poesia

Poesia é uma linguagem,

jeito de se ver as coisas.

Inquieto olhar que não pousa,

voa no vento, é aragem.

 

Viaja de volta ao cais

pelo céu, vem como neve.

A poesia chega de leve

e depois não parte mais.

 

Palavra cai no papel:

traça seu próprio caminho.

Estrelas caem do céu,

 

pousam aqui na poesia,

depois, como passarinho,

levantam, pura magia.

 

 

Razões de escrever

Precisariam ser explicadas as razões do poeta? Parece que sim. Respostas são necessárias àqueles que questionam os motivos dos poetas, a razão da poesia. Cecília Meireles, em seu belíssimo poema “Motivo”, explica como nenhum outro poeta:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
- Não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Ninguém expressou com tanta leveza e com tanta profundidade a consciência da fugacidade das coisas da vida. Mas, alheia a tudo, ela canta, ou melhor, escreve, porque o instante, ou seja, a inspiração, assim exige. O poema é o resultado desse instante, e é resultado da dor. Sangra, mas fica para a eternidade. Aqui Cecília fala do valor da poesia em sua vida: a poesia está acima da alegria e da tristeza, a poesia representa a completude para ela: é tudo.

Um outro grande poeta, Paulo Leminski, fala da dimensão que a poesia tem em sua vida no poema “Razão de ser”. Vejam:

 

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Leminski, assim como Cecília, fala do lugar que a poesia ocupa em sua vida – um lugar essencial. A tonteira à qual ele se refere nada mais é que o instante de Cecília, ou seja, é o momento, a inspiração. 

Abaixo, despretensiosamente, exponho minhas razões no soneto “Mistério”, um de meus muitos sobre o tema:

  

Escrevo porque é tarde.                                        

Escrevo porque é abril.

Escrevo, que dentro arde.

Escrevo, estou febril.

 

Escrevo porque há mistério

nessa noite sem luar.

Escrevo, mas nada sério.

Escrevo ou perco o ar.

 

Escrevo porque há estrelas

brilhantes atrás do véu

da noite, mas quero vê-las

 

em meio à luz nevoada,

no azul escuro do céu.

Escrevo, e não há mais nada.

Conclusão

 

Nós, amantes da poesia, lutamos todo dia com as palavras, não contra elas. Como diz o grande Drummond em trecho de “O Lutador”

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.

 

Nossa  querida Cora Coralina, cuja poesia tem a delicadeza das flores e a força das pedras, fala sabiamente sobre o poeta e a poesia em O Poeta e a Poesia”:

 

Não é o poeta que cria a poesia.
E sim, a poesia que condiciona o poeta.
Poeta é a sensibilidade acima do vulgar.
Poeta é o operário, o artífice da palavra.
E com ela compõe a ourivesaria de um verso.
Poeta é ser ambicioso, insatisfeito,
procurando no jogo das palavras,
no imprevisto texto, atingir a perfeição
inalcançável.

Que mais posso dizer? Viva a poesia!