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O que é um
poeta?
Segundo
Antônio Silveira, o poeta é um construtor,
fabricante artificial, um criador. Pode espelhar-se nas
coisas da natureza, ou em acontecimento concreto. Quando
não, criando a partir de uma idéia imaginária. Seu
imaginário nasce de um ideal que todo ser humano busca.
Para
alguns, a POESIA é o único meio de se atingir o
belo!
Otto
Lara Resende,
exímio conhecedor da alma humana, diz, em seu belo
texto “Vista cansada”, tão simples e tão
profundo como a vida, que o poeta é um certo modo de
ver. Um poeta é só isso: um jeito de ver diferente.
Nesse texto, ele propõe um olhar novo, de criança,
curioso, que vê o não-visto, que atenta para os
detalhes, que olha o mundo como se fosse a primeira vez.
Uma criança consegue ver o novo, o diferente, o
incomum, o que ninguém vê, porque procura, busca,
investiga e aí descobre a poesia nas coisas. Como ele
próprio, um grande poeta. “Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos
e limpos para o espetáculo do mundo”, diz ele. É isso: o poeta vê o espetáculo
da vida, que está à disposição de todos, mas que nem
todos estão aptos para ver.
Já
para o grande Fernando Pessoa, que escreveu muito
- em prosa e em verso, em várias línguas - em português,
em inglês e em francês, pois seu talento era tanto que
tinha que ser expresso em mais de um idioma, o poeta é
um fingidor. Vale a pena reler os versos de “Autopsicografia”:
O
poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Quem
mais, se não um poeta, conseguiria escrever estes belíssimos
versos? A sutileza de “chega a fingir que é dor a dor
que deveras sente” é tamanha que desconheço descrição
mais perfeita para a sensibilidade poética.
O
que é a poesia?
A
poesia é uma forma de libertação. Como disse um de
nossos maiores poetas, o inesquecível Manuel Bandeira,
em “Poética”, ao falar de poesia:
Quero
antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Não
se pode dizer que seja uma expressão simples, fácil, o
que a poesia procura é algo que de certa maneira ela não
consegue expressar. A finalidade do poeta é escrever,
mas escrever o que está além das palavras. A eterna
luta do poeta é expressar o que não se pode expressar,
é definir o indefinível, enfim, é viver e morrer
tentando. A poesia é viver uma experiência única.
O
poeta americano Robert Frost (1874-1963), que
escreveu "The road not taken", define poesia
como: "o que ficou para trás na tradução".
Ou seja, quando houver dúvida sobre se um texto é ou não
poesia, basta traduzir. O que passou pela tradução é
prosa, o que não pôde (e não pode) ser traduzido é
poesia. Essa
definição é perfeita: "Poesia é o que não
pode ser traduzido". Professores, escritores,
poetas, tradutores, enfim, profissionais que trabalham
com diferentes idiomas, conhecem bem o significado dessa
expressão.
Já
para o poeta inglês William Wordsworth, “a
poesia é o "extravasar espontâneo de
poderosos sentimentos" (prefácio à segunda
edição de Lyrical Ballads, 1800).
Faço
agora uma modestíssima contribuição com o soneto “Poesia”:
Poesia
Poesia
é uma linguagem,
jeito
de se ver as coisas.
Inquieto
olhar que não pousa,
voa
no vento, é aragem.
Viaja
de volta ao cais
pelo
céu, vem como neve.
A
poesia chega de leve
e
depois não parte mais.
Palavra
cai no papel:
traça
seu próprio caminho.
Estrelas
caem do céu,
pousam
aqui na poesia,
depois,
como passarinho,
levantam,
pura magia.
Razões
de escrever
Precisariam
ser explicadas as razões do poeta? Parece que sim.
Respostas são necessárias àqueles que questionam os
motivos dos poetas, a razão da poesia. Cecília
Meireles, em seu belíssimo poema “Motivo”,
explica como nenhum outro poeta:
Eu
canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
- Não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Ninguém
expressou com tanta leveza e com tanta profundidade a
consciência da fugacidade das coisas da vida. Mas,
alheia a tudo, ela canta, ou melhor, escreve, porque o
instante, ou seja, a inspiração, assim exige. O poema
é o resultado desse instante, e é resultado da dor.
Sangra, mas fica para a eternidade. Aqui Cecília fala
do valor da poesia em sua vida: a poesia está acima da
alegria e da tristeza, a poesia representa a completude
para ela: é tudo.
Um
outro grande poeta, Paulo Leminski, fala da
dimensão que a poesia tem em sua vida no poema “Razão
de ser”. Vejam:
Escrevo.
E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Leminski,
assim como Cecília, fala do lugar que a poesia ocupa em
sua vida – um lugar essencial. A tonteira à qual ele
se refere nada mais é que o instante de Cecília, ou
seja, é o momento, a inspiração.
Abaixo,
despretensiosamente, exponho minhas razões no soneto “Mistério”,
um de meus muitos sobre o tema:
Escrevo
porque é tarde.
Escrevo
porque é abril.
Escrevo,
que dentro arde.
Escrevo,
estou febril.
Escrevo
porque há mistério
nessa
noite sem luar.
Escrevo,
mas nada sério.
Escrevo
ou perco o ar.
Escrevo
porque há estrelas
brilhantes
atrás do véu
da
noite, mas quero vê-las
em
meio à luz nevoada,
no
azul escuro do céu.
Escrevo,
e não há mais nada.
Conclusão
Nós,
amantes da poesia, lutamos todo dia com as palavras, não
contra elas. Como diz o grande Drummond em trecho de
“O Lutador”
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
Nossa
querida
Cora Coralina, cuja poesia tem a delicadeza das flores e
a força das pedras, fala sabiamente sobre o poeta e a
poesia em “O
Poeta e a Poesia”:
Não
é o poeta que cria a poesia.
E sim, a poesia que condiciona o poeta.
Poeta é a sensibilidade acima do vulgar.
Poeta é o operário, o artífice da palavra.
E com ela compõe a ourivesaria de um verso.
Poeta é ser ambicioso, insatisfeito,
procurando no jogo das palavras,
no imprevisto texto, atingir a perfeição
inalcançável.
Que
mais posso dizer? Viva a poesia!
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